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dezembro 07, 2004
A POSTA ORÇAMENTAL

Um desaguisado por email fez-me perder um rendimento fixo mensal de trezentos euros.
Uma decisão adiada vai custar-me entre 550 a 1000 euros.
Um desleixo menor acarretou-me um prejuízo directo de cerca de duzentos euros.
A minha personalidade e o meu dinheiro estão demasiado interligados. Como é prática no comércio tradicional, terei que inventariar por esta altura o espólio e fazer o balanço dos ganhos e das perdas. À primeira vista, que a crueza de um extracto de conta não dá margem para devaneios, a minha estrutura financeira foi significativamente abalada ao longo do corrente ano fiscal.
Na origem da derrapagem orçamental estão intervenções directas (ou a sua lamentável ausência) da minha personalidade na fluidez dos rendimentos e das despesas. Donde se conclui que terei que proceder a alguns cortes.
De cutelo em punho, pondero os luxos supérfluos de que abdicarei, a moderação no consumo, as decisões de compra ‘inadiáveis’ relegadas para o plano das fantasias incomportáveis. Depois equaciono a possibilidade de trabalhar mais, horas extras, um part time qualquer, um esforço suplementar que me permita o milagre da recuperação económica.
Mas a minha personalidade tudo veta. Não cortas coisa nenhuma. E que merda de ideia é essa de trabalhar mais? Achas pouco, sábados de manhã e tudo? Não senhor, tens que avançar sem medos e aguardar pacientemente a retoma. As cadelas apressadas...
A minha personalidade tomou de novo o controlo das rédeas do poder. O meu dinheiro, minoritário, não tem a força necessária para lhe fazer oposição. Sou ingovernável, do ponto de vista financeiro. E não estão reunidas as condições para um golpe de estado, para a imposição de um regime ditatorial que vergue esta personalidade indisciplinada.
Vou ficar na cauda da minha rua, com o pior nível de vida do primeiro piso do edifício onde resido. Vou ser remediado outra vez, sempre à rasca para honrar compromissos e para pagar as prestações, lixado pela conjuntura aziaga e pelo feitio estuporado cuja combinação preconiza a minha ruína.
No entanto, o pessimismo não se instala. Flexível, a minha personalidade engloba mil e uma compensações, pão e circo, para as agruras que um aperto circunstancial me possa causar. O dinheiro é de quem o gasta e não de quem o possui. Vil metal, abomino essa treta. Amanhã é outro dia e ainda por cima é feriado nacional, aleluia.
Pego no cutelo e corto umas fatias de presunto e de pão. Mais uma pinga de eleição. Família e amigos, patuscada. Um fadinho para animar.
Pontapé prá frente e fé na virgem.
Estas épocas de crise alimentam o meu nacionalismo mais bacoco e justificam as minhas mais desastradas negligências e uma perniciosa tendência para o deixa andar.
Fazem de mim um europeu cada vez mais portuga.
Publicado por sharkinho às dezembro 7, 2004 12:45 PM
Comentários
Que posta bestial! Passo a tristeza de me identificar tanto com a merda da situação. E fica um sorriso :)
(não me digas que também és frilança...)
Publicado por: Mi às dezembro 7, 2004 01:27 PM
E agora, caro Sharkinho, multiplica isso por 10 milhões ! Não dá um certo consolo? ;)
Publicado por: Eufigénio às dezembro 7, 2004 01:30 PM
Olá, Mi. Desculpa ainda não ter entrado em contacto, mas não tenho podido dispensar atenção a outra coisa que não aos baldes de água borda fora.
Quanto ao frilança, mais ou menos. Acho que posso enquadrar-me algures entre isso e o profissional liberal...
Publicado por: sharkinho às dezembro 7, 2004 02:18 PM
Dez milhões, Eufigénio? Quase, quase...
Publicado por: sharkinho às dezembro 7, 2004 02:25 PM
(homessa. está desculpado. benfica não foge.)
pois. profissional liberal. essa coisa. também eu. 100%. isto é, profissional 100% lixada se o trabalho faltar. que não há cá subsídio de desemprego liberal.
com moelas, somos livres, la la la la
Publicado por: Mi às dezembro 7, 2004 02:51 PM
melhor que ter uma vida rica é ter uma rica vida, como diz um amigo meu.
(p.s.: alguns posts abaixo ia escrever -a seguir ao comentário que se seguiu ao meu- "Who's afraid of the little bad Woolf"; mas achei melhor não. fiquei sem perceber a ideia da Ms D)
Publicado por: susana às dezembro 7, 2004 03:48 PM
Porra, lá me foste lembrar os impostos em atraso. Mais uma noite de insónia.
Publicado por: derFred às dezembro 7, 2004 05:30 PM
É apertar o cinto e afiambrar a posta. Ou isso ou pedes emprestada outra personalidade profissional. :)
Publicado por: cap às dezembro 7, 2004 07:15 PM
Bem, eu não me quero gabar, mas neste momento ando numa boa e, ainda por cima!, as coisas têm-me caído do céu, assim, sem mais nem menos. Ando com uma sorte... Ainda me disse a mim própria: é porque não és feliz no amor... Mas eu nem sequer jogo, caramba!!! No outro dia, foi a caixa automática; hoje, uma senha de duas viagens no chão (atenção! não ando nos caixotes do lixo!). Confesso que me remedeio com pouca coisa e com pouco me sinto feliz. Sei lá, já estive pior. Por cada coisa que conquisto fico feliz. Nem que seja uma senha de duas viagens.
Publicado por: Claudia às dezembro 7, 2004 07:31 PM
Charquinho, sei que isto não é comentário ao teu texto, mas olha uma do Bush:
"Eu gostaria de ter estudado latim. Assim eu poderia comunicar melhor com o povo da America Latina."
Publicado por: Claudia às dezembro 8, 2004 12:44 PM
Concordo em absoluto, Susana. Mas já agora, quem são os 3 porquinhos?
Publicado por: sharkinho às dezembro 8, 2004 07:37 PM
Impostos, Fred? Isso são peanuts. E a (Waffen) SS? Valha-me São Mateus dos Planos que eu bem preciso de uma abébiazinha...
Publicado por: sharkinho às dezembro 8, 2004 07:39 PM
Ó cap, estou farto de tentar cravar uma. Mas quem a tem em condições chama-lhe sua...
Publicado por: sharkinho às dezembro 8, 2004 07:41 PM
Cláudia: aprecio-te bem mais quando estás feliz, de bem contigo e com os outros. Fica assim, por favor.
Publicado por: sharkinho às dezembro 8, 2004 07:43 PM