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dezembro 03, 2004

COITUS ININTERRUPTUS

festas campo maior 163.jpg


Jogar às escondidas é uma actividade a que sempre dediquei alguma atenção e entusiasmo. No meu Bairro do Charquinho chegava a envolver cerca de cinquenta putos como eu, ao serão, numa algazarra infernal.
Levávamos aquilo a sério, pois envolvia garotas e todas as ocasiões para exibirmos os nossos talentos naturais eram esmifradas até ao sabugo.
Regra geral, o último a chegar ficava no coito. O coito era o local onde o que procurava fechava os olhos para contar até cem para dar tempo aos que se pretendiam esconder.
Mas o coito, sempre tão apreciado, era também uma espécie de fortaleza que o procurador tinha que proteger contando apenas com a sua atenção. A ideia era gritar o nome do(a) avistado(a) antes que este(a) atingisse o coito e dissesse um, dois, três. Se nos distraíamos à procura dos outros, seguindo pistas falsas ou ilusões ópticas, era um fartar vilanagem na retaguarda.

Os primeiros a serem descobertos eram os preguiçosos e os chicos-espertos. Escondiam-se o mais próximo possível do coito. Uns porque lhes faltava a pachorra para buscarem um esconderijo melhor mas mais distante. Outros porque tinham a mania que imitavam na perfeição um candeeiro de rua. Gente doida, claro está.
Os últimos a aparecerem, os que nunca praticavam o coito, eram os mais espertos e os que melhor dominavam a arte de se camuflarem. Julgavam-se vencedores, por serem sempre os mais astutos, mas davam secas de horas ao resto do pessoal e perdiam sempre o melhor da animação.

E depois havia os mais burrinhos, os atrevidos arrogantes e os cobardes, que quando tinham a desdita de vestirem a pele do que procura ficavam a dois metros do coito para terem a certeza de que não se deixavam enganar. Não procuravam ninguém, apenas aguardavam algum distraído que se deixasse apanhar. Ficavam histéricos com a emoção, sempre que isso acontecia. Acreditavam-se no centro das atenções.
Não raras vezes, já todos os outros dormiam a sono solto nas suas casas ainda o panhonha do coito andava a falar sozinho pelas ruas, gritando os nomes dos ausentes, procurando fantasmas, assombrado pela paciência que os outros jogadores exibiam, supostamente escondidos nas trevas até às tantas da matina.
Traídos pelo incumprimento das regras do jogo (que ninguém precisava de escrever, pois todos as conheciam), pela sua forma batoteira de jogar, pagavam o preço em notas de ridículo e alguns trocos da mais profunda desilusão. Quando se percebiam nessa triste figura, sozinhos no coito e cheios de vontade de brincar, coravam de vergonha e tinham vontade de desaparecer.
Mas no serão seguinte estavam lá outra vez e a estratégia era a mesma...

Publicado por sharkinho às dezembro 3, 2004 08:21 PM

Comentários

É o que eu digo. Poeta do quotidiano.

Publicado por: derFred às dezembro 3, 2004 08:50 PM

Só me gozas...
E já sei, não confirmas nem desmentes.

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 08:58 PM

Não, às escondidas nunca lá brinquei. Só na minha rua. Mas andei lá aos pássaros com visco. Já nem me lembro com quem. Foda-se, foi quase há 30 anos.

Publicado por: derFred às dezembro 3, 2004 09:08 PM

O melhor sítio para praticar essa actividade abjecta era nas traseiras do meu prédio e do prédio ao lado do meu. Onde havia as oliveiras que abrigavam os pobres piu-pius das intempéries e dos seus peganhentos predadores naturais.

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 09:13 PM

Ó meu, diz lá como é que é off, que não encontro o teu e-mail. Podes mandar uma mensagem para o meu.

Publicado por: derFred às dezembro 3, 2004 09:20 PM

Boas recordações. Ai que saudades, ai! ai!

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: zecatelhado às dezembro 3, 2004 11:05 PM

LOL. Com parabólicas com esta, quem é que precisa da Netcabo? ;)

Publicado por: João Pedro da Costa às dezembro 4, 2004 03:12 AM

Zeca, espero que estejas em grande forma depois do período aziago que atravessaste.
E dizes bem, são excelentes memórias. Estaremos a ficar velhotes? Ouvi dizer que a nostalgia ainda dá mais nas vistas do que as rugas...

Publicado por: sharkinho às dezembro 4, 2004 10:18 AM

E tu, ò trintão? Sempre com a televisão ligada, hã?

Publicado por: sharkinho às dezembro 4, 2004 10:19 AM

Eu também jogava a esse jogo, mas já nem me lembrava que jogava. Obrigado por me avivares a memória.

Publicado por: Avioneta Malabarista às dezembro 6, 2004 01:59 AM

Estamos cá para isso mesmo (também), não?

Publicado por: sharkinho às dezembro 6, 2004 10:29 AM

esse era um dos meus jogos preferidos, dentro e fora de portas. era sempre uma oportunidade para um monte de coisas, como ir para cima do telhado, "entrar" por um denso cipreste e ficar toda arranhada, estar muito apertadinha num qualquer esconderijo partilhado com o rapaz preferido - e tudo sem ninguém ver.

Publicado por: susana às dezembro 7, 2004 03:35 PM

E a adrenalina, Susana, a pica que aquilo dava...

Publicado por: sharkinho às dezembro 8, 2004 07:29 PM