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dezembro 02, 2004

CUSTOU-NOS MUITO A CRIAR

Tenho pouca afinidade com o país vizinho. Ou seja, para mim nuestros hermanos não passam de parentes menos afastados do que os italianos e mais afastados do que os brasileiros, para só citar parte da família. Nada me move contra a generalidade dos espanhóis, desde que se trate de pessoas de bem. Admiro a forma como têm desenvolvido o seu país desde a adesão à União Europeia. Respeito o denodo com que defendem os seus interesses. Que vivam felizes e prósperos por muitos e bons.

Contudo, olho para o passado e vejo uma tendência inegável para a usurpação do nosso território (ainda não está formalmente resolvida a questão de Olivença e o resto foi sempre na base da força bruta). Olho para o presente e constato uma tendência visível para se apoderarem do controlo da economia portuguesa (a mudança progressiva dos grandes centros de decisão para Madrid é uma evidência. O peso crescente das empresas espanholas e respectiva pressão sobre o nosso tecido empresarial é outra). E quando olho para o futuro das relações entre os dois países vejo pelo menos um sinal inequívoco de sarilhos vindouros: os famosos transvases.

Assumo-me, pois, algo desconfiado quanto ao país dito irmão. O recente episódio do Prestige avolumou a minha precaução quanto aos interesses de Portugal que uma atitude radical por parte de Espanha poderá um dia afectar. Porque são os interesses do meu país que urge acautelar e não me fio na frágil autoridade da UE nesse domínio.
A península ibérica só existe no plano da Geografia. É actualmente ocupada por duas nações distintas na língua, nos costumes e em todas as diferenças que nem uma federação instituída em prestações suaves poderá algum dia destruir. Os laços que nos unem são imensos como o são os aspectos que nos distinguem e consolidam enquanto duas realidades que não podem nem devem misturar-se.

A soberania simbólica é uma fantasia de papel. A Grande Europa só prevalecerá enquanto não existir uma convulsão que lhe desperte os múltiplos umbigos nacionais da sua aparente hibernação. Nas lições cruéis do passado ou nos acordos hipócritas do presente não vislumbro qualquer benefício real no iberismo apregoado pelo Pata Negra no Tapornumporco.
E prefiro jogar pelo seguro quando está em causa uma identidade que custou tantos séculos (e vidas, também) a consolidar.

Publicado por sharkinho às dezembro 2, 2004 04:58 PM

Comentários

A "invasão" é para os olhos de quem quer. Sempre me entendi maravilhosamente bem com espanhóis. Ainda chego a ponderar a hipótese de ir viver para lá (vários amigos me convidaram por diversas ocasiões) como o fez o nosso querido Saramago que se deve ter fartado da nossa restrita miopia em relação ao mundo circundante (Bem, a Pilar também deve ter contribuído...).
Além disso, estudei 3 anos espanhol. Sou uma apaixonada irreversível pela cultura espanhola, por isso, não digam mal do vizinho. Os portugueses são todos diferentes e os espanhóis também.
Charquinho, não te descartaste do fantasma "Guerra das Laranjas"...

Publicado por: claudia às dezembro 2, 2004 05:33 PM

Não podia concordar mais contigo. E já agora uma curiosidade - se comprarem um mapa de Portugal daqueles que vendem nas bombas de gasolina, hão-de reparar que a fronteira com Espanha está bem definida excepto na zona de Olivença onde surge um híato no traçado. O que os olhos não vêem o coração não sente.

Publicado por: PN às dezembro 2, 2004 06:08 PM

O tema é complexo. Numa coisa concordo contigo, Sharkinho: Portugal e Espanha são nações distintas do ponto de vista cultural e histórico (de identidade). Mas a própria Espanha é formada por nações distintas (ainda que na minha opinião as diferenças se tendam a esbater e a pouco e pouco se perderá património cultural - erosão que está ligada ao fenómeno da televisão, à globalização, etc.) e lembro a forte ligação que muitos galeses têm com Portugal.
A "questão de Olivença" resolvia-se (se houvesse algo a resolver) com um referendo aos oliventinos. Não acredito que quisessem ser integrados no Estado português, ainda que tenham orgulho nas suas raízes. É a minha opinião. De resto não me parece que valha a pena uma guerra para recuperarmos um território que está na posse de Espanha desde 1801. E não vejo de que outra forma o íamos recuperar - pela via diplomática não será certamente, pois a Espanha tem muito mais peso na cena internacional e andamos nisto há 200 anos - e nenhum desfecho podia ignorar o direito à autodeterminação dos oliventinos.
Quanto à invasão espanhola pela via empresarial, é um fenómeno mundial. Imagina se vivêssemos ao lado da Alemanha! O problema não é o poder económico dos nossos vizinhos ou a sua cobiça, é a nossa fraqueza, a nossa falta de visão e de planeamento. Se à beira deste mar estivesse plantada a Irlanda, certamente a "invasão" não teria o mesmo vigor. Aliás, a Espanha seria encarada como um mercado cheio de potencial.
Quando entramos no domínio da política governamental (e referes bem o exemplo paradigmático do Prestige; lembro também o das pescas) estamos a mergulhar num pântano cuja viscosidade só tem paralelo no... visco*. E aqui passo a utilizar linguagem à altura: se os governos fodem os seus próprios cidadãos com a maior das descontrações, imagina com que displicência não fodem terceiros (embora não tenham sequer tesão para foder primeiros - começo a divagar). Ou seja, uma acção miserável de um governo não vincula necessariamente todo um povo.
Tenho amigos espanhóis (até me custa dizer isto, porque são simplesmente amigos) e para eles não há nem nunca houve qualquer questão com Portugal. Nós sobrevalorizamos tudo na relação com a Espanha. Eles simplesmente não compreendem a desconfiança portuguesa.
Todos aqueles mitos com que nos alimentaram (e nós dois ainda conhecemos a escola primária anterior ao 25 de Abril) - a Fundação e os seus super-heróis, o Martim Moniz, a Padeira de Aljubarrota, o Mestre de Aviz, o Dom Sebastião - pretendem fazer esquecer os sucessivos tiros nos pés das sucessivas dinastias de filhos da puta a quem pertenceu este país. Pois, porque o país nunca pertenceu aos Portugueses. Pertenceu às tristes elites que desbarataram toda a riqueza que por cá passou, que se estiveram sempre nas tintas para as suas gentes, que as trataram como escravos e carne para canhão. Porque na verdade poucos lutaram pela soberania e muitos lutaram (ou mandaram lutar) pelos seus próprios interesses.
E assim chegamos aos nossos dias - um povo que só se preocupa com o seu quintal, o seu carro, os seus amigos - o que é seu. Porque seu não é a rua, não é o jardim, não é a biblioteca, não são as montanhas, não são as florestas, não são as praias, não são as águas, não é o ar... Isso é lá "deles", do "Estado".
E por isso não há noção de bem comum e não há uma identidade colectiva senão em forma de catarse (veja-se o caso da Expo 98 e do Europeu de Futebol). Nesses momentos sentimos que fazemos parte de algo, mas de resto é fado. É mito.
Se um dia tiver de lutar, lutarei por um ideal como a liberdade. O resto são negociatas.

*Lembrei-me agora que quando era puto andei a (tentar) apanhar pássaros com visco no Charquinho. Lembro-me vagamente de um amigo que morava no r/c daquela praça interior. E não vivia lá um gajo que tinha sido jogador do Sporting?

Publicado por: derFred às dezembro 3, 2004 12:30 AM

Sem desprimor para os restantes: Fred, faz uma posta pró Charquinho. A sério. Vale um jesuíta na Evian. E uma aguardente velha (eu faço-te companhia).

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 11:02 AM

Granda comentário derFred.

Publicado por: ave rara às dezembro 3, 2004 11:21 AM

O fred sabe ver as coisas. A distinção entre nações é evidente e desejável. Tal como há diferença entre o Minho e o Algarve e ambas são portruguesas, pode haver diferenças entre a Catalunha, a Galiza, a Andaluzia (não falemos de Espanha neste particular) e Portugal e tudo ser Ibéria. E cada uma das partes é plural e o todo ibérico será uma parte da Europa e por aí fora. O erro é, e cito Karl Popper, supor que o Estado contemporâneo emana da Nação. Que as nações existem como realidade naturais e por isso têm direito ao Estado e ao território vital para o exercício da sua função histórica. Esta burrada custou milhões de mortos. É ao contrário: é o Estado que constrói a Nação. Podemos construir a Ibéria e a Europa, tal como construímos Portugal sobre as realidades regionais e os interesses corporativos. Outro erro grave é pensar-se que a homogeneidade é uma garantia de unidade e vitalidade nacionais. Uma pátria, uma língua, uma fé, uma raça, um território, um destino. Erro grave, mtº grave. A pluralidade é que é enriquecedora. Multicultural, mestiço, poliglota, com grande mobilidade espacial, tolerante, este será o cidadão do futuro.

Publicado por: Pata Negra às dezembro 3, 2004 11:34 AM

Para quem não conheça, o Pata Negra é um dos irrequietos blogueiros do Tapornumporco. Como é apanágio dos machos da espécie, começámos à biqueirada verbal e acabámos no abraço virtual. Mas continuamos a discordar numa data de merdas.
Homogeneidade, nunca! Pelos menos no sentido rácico da coisa. Mas pluralidade é um conceito escorregadio quando quem prevalece são as potência$... Aculturação não é um fenómeno raro, ò Pata Negra.

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 11:54 AM

Acrescento que o meu único afilhado é espanhol. Gosto da cultura espanhola e latino-americana. E que nos invadam! Viva a Espanha!

Publicado por: claudia às dezembro 3, 2004 12:34 PM

Miscigenação também creio que é uma possível solução para muitos dos problemas que assolam o nosso tempo; quanto mais abrangente melhor: rácica, cultural, até religiosa (famílias em que os elementos possam cohabitar mesmo que idolatrem entidades diferentes). Creio que a mais forte identidade de uma nação é o seu próprio sentimento de pertença a algo que não é mais do que um conceito e a língua (aqui podemos considerar que há variantes no português que se fala em vários países: pela articulação sequencial das palavras, pelos neologismos usados e pelo jargão, vemos fácilmente se é português de portugal, do brasil ou de áfrica). o resto são pretextos. lembro-me de há muitos anos ler um livro intitulado "os factores geográficos para a formação de portugal", cujo autor não recordo. era interessante e de algum modo fazia sentido, até porque é evidente, por exemplo, a diferença de escala no espaço abarcado pelo olhar quando passamos de portugal para espanha. mas no fundo acabava por ser uma justificação um pouco forçada para a formação de um país, sobretudo se considerarmos a situação de países como a inglaterra, tão diversa e tão patriótica.
(esta caixa de comentários mais parece a garoupa inteira)

Publicado por: susana às dezembro 3, 2004 12:49 PM

Onde escrevi "galeses" queria dizer "galegos", obviamente. A coisa saiu-me em catadupa.
Os outros comentários também estão de acordo com o espírito deste blogue: o importante é procurarmos formas de aproximar os povos - ou melhor, as pessoas - de contrariar a tendência que os chefes nacionais, em representação de interesses económicos, têm de os separar. Foi necessário duas guerras sem paralelo na história da humanidade para que nascesse a actual União Europeia. E a sua principal virtude é garantir a paz na Europa.
Sharky, e então não me ofereces um jesuíta na Evian mesmo sem eu fazer uma posta?

Publicado por: derFred às dezembro 3, 2004 02:37 PM

Quero manifestar-vos o meu agrado pelo bom tom desta caixa de comentários. Bom em mais do que um aspecto. Estou grato por isso. Mas não te estiques, Fred, toca a trabalhar seu móinas que os jesuítas estão caros e eu tenho um blogue para sustentar com guloseimas.

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 03:34 PM

É, o blog tá bom, os comentários tb. A malta sabe argumentar, é pena é ter poucas caralhadas. É que eu sei muitas. Qualquer dia faço-te um link lá no Tapornumporco.

Publicado por: Pata Negra às dezembro 3, 2004 04:43 PM

Não perdes pela demora...

Publicado por: sharkinho às dezembro 3, 2004 08:34 PM

Eu ia para dizer que não tinha concordado com esta posta, mas o derFred e o Pata Negra já disseram tudo. Aproveito então para sublinhar uma coisa que o derFred disse: "O problema não é o poder económico dos nossos vizinhos ou a sua cobiça, é a nossa fraqueza, a nossa falta de visão e de planeamento."

Publicado por: Avioneta Malabarista às dezembro 6, 2004 02:23 AM

Ó Malabarista (custa-me chamar-te Avioneta...), acima de tudo obrigado por manifestares a tua opinião. Ser contrária à que exprimi na posta é irrelevante, até porque a minha certeza não equivale a razão alguma. É apenas a minha, à luz daquilo que acredito.
Por isso é que eu gosto de debater este tipo de questão. Com os comentários antagónicos dos outros e respectiva argumentação tenho aprendido mais do que contava...

Publicado por: sharkinho às dezembro 6, 2004 10:21 AM