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dezembro 16, 2004

SHIT HITS THE FAN (A POSTA TERRORISTA)

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Feliz Natal!

Existem as meias-verdades, as histórias mal contadas e as mentiras piedosas. Este poderoso arsenal está ao alcance de qualquer pessoa e o cidadão comum utiliza-a sem problema, como um telemóvel, como um comando de televisão. Ou como qualquer outro utensílio indispensável no quotidiano de cada um.
Contudo, o cidadão comum não está preparado para manusear os equipamentos em causa. Estoiram-lhes a vida em pedaços quando implicam um retorno, um desenlace imprevisto que lhes esmaga as pretensões.

As meias-verdades são o expediente mais banal. Conta-se a história numa versão reduzida, parcial. Conta-se o mar de rosas e o final feliz e omitem-se os detalhes melindrosos ou mais susceptíveis de se virarem contra o contador. Quem conta uma meia-verdade conserva sempre a parte mais suculenta da informação, a pedra de arremesso futura, o pormenor sórdido que em vez de descer pelo cano flutua. Vem à tona porque a metade da verdade contada não camufla as incongruências e estas, como se sabe, cheiram mal em qualquer história.

As histórias mal contadas são a versão pimba das verdades meias. Mais desajeitadas, equilibradas a custo num mísero galho de veracidade, visam apenas desviar as atenções ou inventar alibis. Não requerem um esforço intelectual intenso, divertem os interlocutores mas, em contrapartida, é frequente uma história mal contada descambar num cenário confrangedor. Um pouco como um tipo tapar a cabeça e destapar os pés.

As mentiras piedosas são a artilharia pesada do hipócrita padrão. A piedade beatifica-as. São um mal necessário, um mecanismo de protecção ‘legítimo’ contra a capacidade de reacção da pessoa que se visou. Não se conta a história e inventa-se uma outra em sua substituição, para o alegado bem de um inevitável coitadinho incapaz de encaixar uma verdade nua e crua. Faz-se de parvo o alvo desta estranha misericórdia. Porque a mentira apenas oculta por algum tempo uma verdade à solta, ansiosa por se fazer descobrir.

A verdade é como uma espécie de factor aleatório, uma mina, uma bomba-relógio oculta, discreta num canto para ninguém a descobrir. Quando dão por ela, nem os especialistas conseguem desarmar alguns detonadores.
E depois pum!

Publicado por sharkinho às dezembro 16, 2004 11:03 AM

Comentários

Quem mentira contáste desta vez? :)

Publicado por: Mushu às dezembro 16, 2004 01:18 PM

Cheira-me que isso ainda são as migalhas do teu almoço de família... Não levantaram a mesa, nem lavaram a louça suja?

Publicado por: susana às dezembro 16, 2004 01:36 PM

Espelho meu, espelho meu, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhh..........

Publicado por: ave rara às dezembro 16, 2004 01:54 PM

Pronto, não resisto: já viste um filme que se chama «Johny Guitar», do Nicholas Ray? Não te vou contar a história (é um western fabuloso sobre um cowboy sem arma, mas com uma viola), mas só dizer, a propósito, que há nele um diálogo dos mais perfeitos na história do cinema: é que esse cowboy e a dona do Saloon não se viam há muito, muito tempo e a certa altura ele diz-lhe assim:

Johnny: How many men have you forgotten?

Vienna: As many women as you've remembered.

Johnny: Don't go away.

Vienna: I haven't moved.

Johnny: Tell me something nice.

Vienna: Sure. What do you want to hear?

Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited...

Vienna: All these years I've waited.

Johnny: Tell me you'd have died if I hadn't come back.

Vienna: I would have died if you hadn't come back.

Johnny: Tell me you still love me like I love you.

Vienna: I still love you like you love me.

Johnny: Thanks. Thanks a lot.

Nota de alguma importância: a Vienna, a tal dona do Saloon, afinal, amava-o mesmo.

Publicado por: ave rara às dezembro 16, 2004 02:06 PM

Lembrei-me entretanto de um filme que vi há anos, de produção inglesa, um daqueles filmes low budget, que era genial. Chama-se Secrets and Lies e conta a história de uma família embrulhada numa teia de mentiras cujo fio solto é puxado por alguém que vem de fora. Todos vivem uma experiência muito dolorosa, mas repostas as muitas verdades que se tinham perdido com os anos, ficam todos muito mais felizes. Recomendo (mesmo porque é um bom filme, muito divertido e pouco conhecido)

Publicado por: susana às dezembro 16, 2004 02:23 PM

Tens umas razões de queixa, Mushu...
Nunca te escondi nada, pá! ;)

Publicado por: sharkinho às dezembro 16, 2004 02:36 PM

Ave rara, o diálogo é magnífico. Obrigado pela trabalheira que tiveste a reproduzi-lo na íntegra.
Quanto ao espelho, sobretudo nesta fase em que ando 'em reparações', não uso...

Publicado por: sharkinho às dezembro 16, 2004 02:46 PM

Susana, és uma pessoa muito atenta. E estás parcialmente certa na questão das migalhas (as postas explosivas implicam estilhaços de projecção alargada).
E o filme de que falas, está disponível no circuito comercial (video, por ex.)? Para mim, seria muito educativo...

Publicado por: sharkinho às dezembro 16, 2004 03:02 PM

O filme de que a susana fala é do Mike Leigh (que tem também o «Naked») e é fabuloso - existe de certeza em vídeo, embora agora isso seja mais difícil de encontrar, mas é um filme fácil de encontrar de certeza.

Publicado por: ave rara às dezembro 16, 2004 04:16 PM

O filme é, se não me engano, do Mike Leigh e há em video, porque eu já o aluguei para ver segunda vez.

Publicado por: susana às dezembro 16, 2004 04:22 PM

demorei a conseguir enviar o comentário ("inactivity timeout" por 3 vezes) e entretanto parece que o filme é mesmo do Mike Leigh... obrigada pela confirmação, ave rara!

Publicado por: susana às dezembro 16, 2004 04:26 PM

demorei a conseguir enviar o comentário ("inactivity timeout" por 3 vezes) e entretanto parece que o filme é mesmo do Mike Leigh... obrigada pela confirmação, ave rara!
...(falhou novamente: inactivity time out outra vez?! isto hoje está difícil)

Publicado por: susana às dezembro 16, 2004 04:27 PM

Obrigado a ambas pelo esclarecimento.
Susana, inactivity timeout? Queres ver que contagiei o blogue com a minha preguiça? Ou estará o Charquinho a ser alvo dos piratas como aconteceu ao Afixe? Vou investigar.

Publicado por: sharkinho às dezembro 16, 2004 05:16 PM

Como podes constatar pelo intervalo entre este e o anterior, a coisa funcionou na boa. Será que o problema está em ti, Susana? Não me escondas nada...

Publicado por: sharkinho às dezembro 16, 2004 05:17 PM

SECRETS & LIES é, de facto, de Mike Leigh e aviso desde já que este é, sem dúvida, o filme da puta da minha vida merdosa (LOL). Ganhou o Festival de Cannes em 96 (salvo erro) e fui vê-lo 12 vezes (juro) ao cinema. Obra-prima absoluta, como, de resto, uma boa parte da filmografia desse génio (Susanamana: já visto o magnífico NAKED? Se quiseres manda-me um e-mail que terei todo o gosto em fornecer-te uma cópia).

Publicado por: João Pedro da Costa às dezembro 16, 2004 07:31 PM

Sharkinho, tu és uma espécie de Mike Leigh da blogosfera. Vê filmes dele, que vais perceber. Outro inglês que eu gosto muito é o Ken Loach.
Como é que isto se tornou num post cinéfilo?
Se soubessem como eu hoje estou a gostar de vocês...

Publicado por: derFred às dezembro 17, 2004 01:38 AM

É de facto possível que o problema esteja não em mim, própriamente dita, mas do meu lado, dado que temos tido problemas no centro de informática aqui da instituição e a minha ponta da rede, ainda por cima, está um pouco "longe" do centro, não recebendo grande atenção pelas entidades responsáveis pela manutenção desta merda.

Publicado por: susana às dezembro 17, 2004 10:17 AM

Ó meninos, eu sinto-me que nem uma ignorante chapada. Nunca vi o raio do filme :) Puxa. Não posso comentar a sério. Colem-me a boca com fita cola, sff :) É que de boca de ignorante só pode sair merda :)
Beijinhos para o pessoal.

Publicado por: Claudia às dezembro 18, 2004 03:19 PM

Publicado por: Jeremy às janeiro 14, 2005 06:27 PM