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janeiro 14, 2005
JOGOS SEM FRONTEIRAS

A maioria das pessoas que conheço não tem pachorra para jogar xadrez. Bocejam por reflexo, mal se sugere uma partidinha. Nã, isso é muito lento, leva horas. Pois é. Reconheço no xadrez ao mais alto nível (que não é o meu) a sonolência de quem tenha coragem para assistir ao efeito estátua que deriva do excesso de concentração. Porém, a minha paixão por esse jogo é imensa e passa pela sua analogia intemporal com a realidade, o que tentarei resumir para leigos e entendedores.
Destaco, no entanto, a principal característica deste jogo de estratégia que prendeu a minha atenção desde os oito anos: no xadrez a batota é impossível. E em nada depende dos caprichos da sorte ou do azar.
Quando dois opositores se sentam diante de um tabuleiro aos quadradinhos, ou são adeptos do Boavista prontos para assistirem a mais um jogo pela televisão (em vez de peças, o tabuleiro pode ter umas cervejolas fresquinhas), ou trata-se de um par de praticantes dessa modalidade onde se começa em perfeita igualdade de condições (o Valentim Loureiro não aprecia, felizmente, os desportos de mesa).
Começo por chamar a vossa atenção para o facto de o objectivo do jogo ser encurralar o Rei. Não exactamente comê-lo, mas apenas confinar as suas madurezas a um regime de prisão domiciliária que lhe esvazia as tentações do poder.
De facto, começa aqui uma das contradições deliciosas deste jogo. Sua Majestade, o alvo da cobiça das peças contrárias, não passa de um cepo inútil cuja escassa mobilidade (de apenas um quadrado em todas as direcções) obriga o jogador a zelar a todo o instante pela segurança do monarca. No Reino Unido, à preocupação com a segurança (rodoviária também, no caso concreto) acresce a fiscalização antecipada dos trajes escolhidos pelos delfins para curtirem nas suas festarolas imbecis.
As Torres, uma a cada ponta na fila mais recuada, só se movimentam em linha recta e são fundamentais para a protecção da realeza. Quando a coisa dá pró torto, a família real pira-se para o interior das muralhas e ordena ao arauto a marcação de uma conferência de imprensa, onde se destacam as obras mais meritórias do reino e se desviam as atenções da retirada.
Os Bispos, um de cada lado do poder, só se movem na diagonal. O segredo da sua força está na visão periférica: o adversário julga-os concentrados nos que se passa à sua frente e eles a mirarem, por cima dos seus ombros, olhar de camaleão, a casa à direita ou à esquerda que ocuparão de acordo com as diferentes conjunturas que o jogo proporcionar.
Os Cavalos, também aos pares (lembram-se do fabuloso Citroen 2 CV?), possuem a vantagem de serem os únicos capazes de fazerem uma curva a meio da corrida. Movem-se em éle. Literalmente. Discretos, podem fazer toda a diferença nas mais inesperadas circunstâncias. Mas tal como acontece com as restantes peças do tabuleiro, também se abatem e não existe União Zoófila que os proteja.
Falta a arraia miúda, a carne para canhão, o zé povinho do tabuleiro que faz sempre de mexilhão nos jogos a sério. Para o Peão (são oito de cada lado, antes de iniciada a carnificina) em frente é que é o caminho. Só se movem na diagonal (como os bispos) quando é para comerem outra peça. Avançam um quadrado de cada vez, excepto na sua primeira jogada na qual lhes é permitido avançarem o dobro do caminho (depois amocham, são metidos no seu devido lugar).
São-lhes permitidas duas fantasias, mas raramente as concretizam: atingirem a última fila do lado oposto do tabuleiro e assim obterem o reconhecimento que se dá aos heróis, uma imediata promoção na hierarquia, ou comerem a Rainha (o que confere alguma notoriedade entre os paparazzi, mas por regra muito efémera). Excepção feita, por exemplo, ao Reino Unido que acima citei e no qual a probabilidade de comer a Rainha é ainda mais remota e assume, para a maioria dos Peões, o contorno de um martírio. Nem pela Pátria lá iriam...
E a propósito da Rainha, não será inocente o facto de ela a peça (realmente) mais importante de qualquer tabuleiro de xadrez. Move-se em qualquer sentido ou direcção, sem limite para a distância a percorrer. O marido (el-Cepo), não passa de um papagaio a quem se atribui demasiada importância e é ela quem faz tudo acontecer à sua volta. Ataca, defende, trabalha, faz as compras, cuida dos Infantes e ainda tem de sobrar tempo para dar um jeitinho ao palácio e gerir as contas da casa...
Publicado por sharkinho às janeiro 14, 2005 03:14 PM
Comentários
Comentário 4000: foi um tal «xaupenhauer».
Sabes o mais estranho? É eu já não ficar surpreendido...
Publicado por: João Pedro da Costa às janeiro 14, 2005 04:12 PM
Irra, ca ganda posta!
Bem, lá terei de ir ler...;)
Publicado por: catarina às janeiro 14, 2005 04:14 PM
Vamos ter de nos sentar frente a frente um dia destes. :)
(mas eu fico com as brancas e tu com as pretas, que é para termos a perfeita igualdade de condições)
Publicado por: xeque-cap às janeiro 14, 2005 04:38 PM
Nunca me tinham explicado o xadrez assim, mas continuo com uma dúvida...
Como se orienta o tabuleiro?
E para melhor escolher, deverei optar pela rainha loira ou a morena?
Publicado por: sofia às janeiro 14, 2005 04:48 PM
Fala com o nosso frogas, limpa-te em 10 m :) O homem é o nosso kasparov !:)
Publicado por: cachucho às janeiro 14, 2005 04:52 PM
Every move you make, every step you take, I'll be watching you...
Publicado por: xaupenhauer às janeiro 14, 2005 04:58 PM
Desculpa lá, Catarina...
Fiz cheque-mate à paciência dos leitores.
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 05:00 PM
Cap: se estás a falar de cerveja acertaste em cheio nas minhas preferências. ;)
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 05:06 PM
Sofia: existem três métodos para saberes sempre qual a orientação adequada para o tabuleiro:
1 - A fila mais próxima de ti (a que tem o clero e a aristocracia) deve ter como último quadrado à direita um quadrado branco.
2 - Ao contrário do pateta do Rei, a Rainha conhece os cantos à casa e por isso fica sempre num quadrado da sua cor (Dama branca em casa branca e a rival, do lado oposto na mesma coluna, a fazer-lhe caretas)
3 - De patas para o ar - esta é a melhor orientação a dar ao tabuleiro quando se está a levar uma valente coça de génios como o Cap ou o Frogas... ;)
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 05:18 PM
Fiz mal a alguém, tovarich Cachucho?
Ele que se entretenha a enxovalhar computadores...
Publicado por: karpov às janeiro 14, 2005 05:22 PM
De patas para o ar? Coça?...
Hum... sugestivo ;)
Publicado por: sofia às janeiro 14, 2005 05:23 PM
Sofia, desculpa pá. Esqueci-me de responder à tua questão sobre a escolha da rainha loira ou morena.
Bom, se em termos estratégicos pode constituir uma vantagem escolher a loira (as brancas jogam sempre em primeiro lugar), eu prefiro morenas e tenho-as por capazes de darem a volta sem problemas às maiores desvantagens apriorísticas...
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 05:28 PM
Cervejinha? Também! ;)
Agora se queres coça, de barbatanas para o ar, isso já não é comigo. Fala lá com o Frogas. :))
Publicado por: cap às janeiro 14, 2005 05:38 PM
Tá mau, tá mau, porque eu já não sei se loura ou morena. Vai para aqui uma confusão dos diabos!
Publicado por: Monica Lewinski ou Claudia às janeiro 14, 2005 06:05 PM
Mónica, se eu percebi bem... As loiras vão à frente mas as morenas sabem dar a volta....
O melhor mesmo é ir variando ;)
Publicado por: sofia às janeiro 14, 2005 06:23 PM
Nada disso. Eu sou muito variável. Para a próxima, vou pintá-lo preto, preto como um melro! A minha prima passou do vermelho vivo, encarnadíssimo, ao preto carvão. E fica-lhe, raio de rapariga.
Publicado por: Monica Lewinski ou Claudia às janeiro 14, 2005 06:25 PM
Nada disso. Eu sou muito variável. Para a próxima, vou pintá-lo preto, preto como um melro! A minha prima passou do vermelho vivo, encarnadíssimo, ao preto carvão. E fica-lhe bem, raio de rapariga.
Publicado por: Monica Lewinski ou Claudia às janeiro 14, 2005 06:25 PM
Ó Mónica, tu és uma tola...
Publicado por: Claudia às janeiro 14, 2005 06:30 PM
Pois é, Cláudia. Mas eu divirto-me e tu não...
Publicado por: Monica Lewinski às janeiro 14, 2005 06:31 PM
Como vocês perceberam ando numa de doença mental. Foi por ter passado pelo blog do Monty.
Publicado por: Monica Lewinski ou Claudia às janeiro 14, 2005 06:42 PM
Tuby, que belo post. Ainda por cima, deste-me vontade de te citar. E não no blog...
(Eu pertenço ao número dos que não tem pachorra nem tempo para jogar xadrez; aliás, desconfio que não haja mãe com filhos pequenos com tempo para isso!)
Publicado por: 1poucomais às janeiro 14, 2005 07:09 PM
Claudia: não nego que o teu nick alternativo provoca uma estimulante associação de ideias. Porém, penso que não te beneficia e pode suscitar faltas de respeito à tua pessoa.
Pode soar a récita de mestre-escola, mas ambos sabemos que a Cláudia pode divertir-se tanto como a Mónica sem dar tanto nas vistas... ;)
Entrega a gestão das tuas relações à Cláudia, vai por mim. E sejas loira ou morena, tanto faz, desde que sejas tu própria e gostes de ti.
O Monty, como o ruinoso, é um amigo especial. Donde...
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 07:32 PM
Obrigado, Zulinha! E dei-te vontade de citar onde, então?
E podes sempre ensinar xadrez à Miosótis para poderes desenferrujar o tabuleiro de quando em vez...
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 07:37 PM
Ai, há mais quem ensine; eu não tenho paciência. O resto... conto-te ao ouvido ;)
Publicado por: 1poucomais às janeiro 14, 2005 08:04 PM
Ao ouvido? Olha que tenho muitas cócegas... :)
Entendido.
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2005 08:06 PM
(estava a brincar lá em cima, sharkinho, como percebeste, mas nunca é demais esclarecer...:))
Pelas minhas contas - porque me lembro do onde e assim deduzo o quando - aprendi a jogar xadrez com 5 anos. Nunca tinha visto o meu avô materno até essa altura. Sou a mais velha, a primogénita, como me chamava. Não sei se por isso, se por ter achado que estava na altura, ensinou-me a jogar xadrez. Sempre achei o jogo fascinante (agora já não jogo há anos): o Jogos dos Reis, o rei dos jogos.
Há uns anos, poucos, dois ou três, fartei-me de escrever sobre o assunto num forum: ia haver uma partida de xadrez real entre dois forenses que jogavam ali (no fim de cada post colocavam a jogada) e eu era a 'madrinha' de um deles. Cilindrou o outro, em partidas de 3 e 5 minutos. Nunca vi ninguém arrasar com o jogo de outra pessoa tão depressa. Ao mesmo tempo arrasou também com a pessoa que era o oponente, lá foi o forum também, uma festa! :DDD
Um dos livros mais giros que li (romance) baseado num gigantesco jogo de xadrez, sobre as peças de um jogo de xadrez: The eight, Katherine Neville.
Queres mais ou posso ir jantar agora? :)
Publicado por: catarina às janeiro 14, 2005 08:28 PM
Foi a explicação mas gira do xadrez que já li.
Acho que depois de ler a tua posta até dá vontade de experimentar o jogo. Tu fazes ver o tabuleiro com outros olhos.
Eu sempre gostei de xadrez, quanto mais não fosse pela importância dada à Rainha. Mas ajudou muito ter sido anos a fio a cobaia de treinos do meu irmão (mais velho, claro!).
E depois lembro-me sempre de uma tira da Mafalda do Quino em que a Rainha é acusada de sexy por se mover em todas as direcções ;).
Publicado por: maria_arvore às janeiro 14, 2005 08:53 PM
Sharky nunca te imaginei a fazer publicidade à Tampax. Tu és mesmo imparável, pá! ;)
Vê lá isto:
Publicado por: cap às janeiro 15, 2005 01:32 AM
Maria Árvore, és a protagonista-rainha das minhas mais arrojadas fantasias virtuais.
Publicado por: sharkinho às janeiro 15, 2005 01:01 PM
Catarina: na tua presença sinto-me Rei (um cepo inútil). :)
Publicado por: sharkinho às janeiro 15, 2005 01:04 PM
Cap: nas mão dos publicitários sou como um Peão. Um pau pra toda a obra...
Publicado por: sharkinho às janeiro 15, 2005 01:06 PM
Cap: não concluas pelo meu comentário acima que todos os publicitários são manetas.
Só consegui filar dois ou três...
Publicado por: sharkinho às janeiro 15, 2005 01:08 PM
Bigada Sharkinho pelo papel de Lara Croft do tabuleiro. :*
Eu sempre sonhei ser uma peça voadora.
Publicado por: maria_arvore às janeiro 15, 2005 01:27 PM
Quando aterrares certifica-te que não há nenhum Xau Silvestre na pista, não vá o diabo tecê-las...
Publicado por: sharkinho às janeiro 15, 2005 01:40 PM
Vou tirar umas férias. Ciao, pessoal.
Publicado por: Claudia às janeiro 15, 2005 02:18 PM
Obrigada pelo aviso. Se escorrego ainda me besunto toda que é uma limpeza.
Publicado por: maria_arvore às janeiro 15, 2005 02:21 PM
E olha ao que ficas a cheirar, Maria ;)
Publicado por: 1poucomais às janeiro 15, 2005 03:45 PM
Bem, não sei se conta mas eu tive um citroen 2 cavalos, vermelhinho de capota preta.
Além disso o xadrez é um jogo inteligente porque sabe reconhecer o papael da gaja no meio da tropa toda. Essa é que é essa! ;-)
Publicado por: Mar às janeiro 15, 2005 10:55 PM
Eu não sei jogar xadrez, infelizmente...
Publicado por: Avioneta Malabarista às janeiro 16, 2005 10:00 PM
"analogia intemporal com a realidade" - gostei da perspectiva. Hum, quase que dá vontade de aprender ou tentar o que não é bem a mesma coisa :)
Na verdade, fascina-me mais a imobilidade e concentração dos jogadores que o jogo em si.
Depois continuo a ler, isto tem de ser devagarinho, quero ler o que me interessa mas depois não tenho tempo. Neste momeno só quero arranjar tempo para férias, férias, férias.
ai ai
Publicado por: vague às janeiro 17, 2005 07:10 AM
As morenas é que sabem, essa é que é essa :)
Maria Árvore, essa tirada do Quino de acusar a rainha de sexy por se mover em todas as direcções...está fantástico ;)
Quanto ao 2 CV, Mar, ou eu sou distraída ou tu és um enigma o que é sempre estimulante para qualquer rei ou peão :)Qual Lewinsky, qual quê? é muito óbvia :)
Publicado por: vague às janeiro 17, 2005 07:23 AM
vague, não ligues muito, maluquice de quem quer escrever qualquer coiusa mas não lhe apetece fazer muito esforço mental para isso. Algures no texto, o Sharkinho diz
"Os Cavalos, também aos pares (lembram-se do fabuloso Citroen 2 CV?)"
e eu, pimba. ;-))))
Publicado por: Mar às janeiro 17, 2005 09:42 AM