« A POSTA A TRÊS | Entrada | O PONTO DE EXCLAMAÇÃO »

fevereiro 24, 2005

A POSTA ERÓTICA

123.jpg

A Hipatia falou do assunto. A Vague falou do assunto. E a Catarina também.
Eu, que não viro as costas a um bom desafio, entendi que a coisa estava a tornar-se num feudo "delas" e que seria importante uma perspectiva masculina no contexto dos postes eróticos de que cada uma delas falou.
E então, senhoras e senhores, o melhor que consegui na minha estreia absoluta no género é o que vos dou agora a ler. Espero conseguir representar dignamente a minha classe. Mas se assim não for, digam. Eu tento outra vez...

Terá sido a luz que se reflectiu no olhar dela, terá sido o som da sua voz. Imaginei-me a tocar-lhe o rosto ao de leve, sem pedir, e a aguardar a sua reacção. Na minha imaginação ela sorriu e pediu-me em silêncio para passar de novo os dedos pela pele cujo toque me agradou.
E eu repetia a passagem, mais suave, mais lenta, com desvios de amante nos caminhos que lhe percorria, que lhe aprendia. E ela, num arrepio, fixava o olhar na minha boca e dizia-me tudo o que eu precisava de saber. O que fazer, depois. Depois de uma mão a aproximar, de a puxar, sem pressa, mais para junto de mim. Depois os meus lábios nos seus e as mãos aflitas, sem saberem para onde convergir naquela imensidão de mulher, que as mulheres tornam-se imensas quando se entregam à paixão.

Depois uma pausa, um instante de silêncio sem saber o que virá a seguir, olhos nos olhos em busca das respostas às perguntas que ninguém necessita colocar. Excepto com o olhar. E os corpos à espera, ansiosos, ofegantes, esclarecidos. Impacientes por uma nova degustação do sabor a prazer. As bocas de novo coladas e as mãos descontroladas na vertigem das sensações.
Os seios e os ombros, o pescoço e as costas, o ventre e as coxas, mais acima, e o calor de um vulcão nos dedos em fogo. E os cabelos na boca, o cheiro na alma e a vontade indómita de oferecer e de possuir.

A roupa a mais. O esforço de contenção, para amainar a emoção e deslizar com graciosidade o tecido na pele e os lábios também, aqui e além. Os primeiros gemidos a beijarem os ouvidos e a certeza absoluta de dois se transformarem num, as contas acertadas com o desejo naquele instante mágico em que o tempo cessa de existir. As bocas à procura do mais incandescente prazer, do gosto daquela pessoa que nos pede como nos dá. O mundo inteiro de uma só vez, no poder avassalador de uma carícia feita faísca que provoca uma explosão. Da cabeça aos pés.

O paraíso logo ali. E eu sobre ela, pernas entrelaçadas, beijos sem parar. E eu dentro dela e os seus dedos crispados e a mais bela melodia no som que uma mulher nos dá nesse momento tão especial. E a vontade de nunca mais parar. De sentir e de observar, de gravar na memória cada pormenor daquela pessoa tão importante, tão próxima, daquele instante precioso que apenas dois poderão relembrar. Cumplicidade bonita na intimidade infinita, para sempre o sorriso de uma estimulante e agradável recordação.
E os corpos que se moldam, ardentes, em novas e cada vez mais agradáveis posições. E as coisas que se gritam para se ouvirem no céu e as palavras que se sussurram, faladas pelo amor que se faz. E a vontade de nunca mais parar.

O abraço apertado quando ambos partimos para o espaço, ao mesmo tempo, e nos sentimos felizes pelo sucesso alcançado, pelo momento desejado de partilha da mais intensa satisfação. Olhar meigo, olhar maroto, a mão que passa pelo rosto, outra vez, e os corpos cansados mas preparados, pouco tempo depois, para reiniciar algo que afinal nunca acabou. De outra maneira, aposta certeira, as ancas dela nas minhas mãos. O amor que ficou por fazer. E eu homem que domina e ela mulher que se deixa dominar. E depois o contrário. Até embarcarmos de novo no foguetão. Ainda melhor, a viagem, ainda mais doce, a aterragem, corpos desfalecidos, molhados os dois pelas marcas deixadas pelo bem que nos aconteceu. A recompensa devida pela entrega total.

Sigo o meu caminho, desta vez. Mas adivinho no beijo de despedida, inocente, a promessa de um reencontro onde a imaginação será figurante e a paixão protagonizará.
A vontade de nunca mais parar...

Publicado por sharkinho às fevereiro 24, 2005 04:26 PM

Comentários

Sharkinho, vais já para o comPILAções :)

Está fantástico! Adorei a parte do "cheiro na alma e a vontade indómita de oferecer e de possuir".

Será sempre tão mais prazeroso quanto mais nos entranharmos nesses cheiros e nessas vontades, não é?

Publicado por: Hipatia às fevereiro 24, 2005 04:46 PM

Poizé.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 24, 2005 04:57 PM

QUE PIROSO! QUE TEXTO INSUPORTÁVEL! UM NOJO, UM INSULTO AO BOM GOSTO!
QUEM É QUE TE DISSE QUE SABIAS ESCREVER?

Publicado por: mariam às fevereiro 24, 2005 06:50 PM

Gostei muito :) valeu a pena responder ao desafio!

Publicado por: jacky às fevereiro 24, 2005 06:51 PM

Esta é a prova que os homens não fantasiam apenas com cenas escaldantes a dois, ou a três...
A sensualidade e o erotismo, também fazem parte do imaginário sexual masculino ... pelo menos de alguns.

Publicado por: Karla às fevereiro 24, 2005 06:58 PM

Foi alguém que obviamente não possui o teu gosto requintado, Mariam. Requintado e muito sincero...

Publicado por: sharkinho às fevereiro 24, 2005 07:04 PM

Ainda bem, Jacky. Nesta fase imberbe da minha aprendizagem da escrita, é sempre com agrado que me vejo agradar alguém. Bem vinda a esta casa que agora também é tua.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 24, 2005 07:09 PM

... falar "aos gritos" está tão de acordo com o erotismo...

ai ai

Publicado por: Hipatia às fevereiro 24, 2005 07:29 PM

Ora muito bem, um texto bonito e bem erótico. Pelos vistos, a dois pode ser delicioso, sr. tubarão fantasioso ;)

Publicado por: 1poucomais às fevereiro 24, 2005 07:50 PM

"Cumplicidade bonita na intimidade infinita (...) E as coisas que se gritam para se ouvirem no céu e as palavras que se sussurram, faladas pelo amor que se faz"

Gostei...

Publicado por: sofia às fevereiro 24, 2005 09:45 PM

O amor não se faz. Sente-se (os que ainda conseguem sentir... amor ou as outras coisas que existem... pelo menos penso que existem...) ;-)

Publicado por: Caliope às fevereiro 25, 2005 03:15 AM

Obrigada Sharkinho, hei-de bater cá à tua porta e entrarei sempre que quiseres :)

Publicado por: jacky às fevereiro 25, 2005 09:19 AM

Bom dia! Karla, há espaço para tudo num imaginário sem restrições.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 09:22 AM

Tens razão, Hipatia. Não tinha visto a coisa sob esse ângulo e assim torna-se bem mais simpática a situação!

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 09:23 AM

Desculpem-me estas intervenções em catadupa, mas eu fico muito tempo sem acesso ao blogue e não gosto de me alhear dos vossos comentários na minha ausência.
Zu: eu sempre acreditei que dois podem ser um mundo inteiro. E os momentos mais bonitos e empolgantes que já vivi foram a dois e não em grupo...
Como referi, há lugar para tudo também numa vida sexual com escassas restrições.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 09:26 AM

Olá, Sofia! Eu também gostei dos trechos que destacas. É fantástico como as palavras nos permitem traduzir as coisas que sentimos e em que acreditamos. É por isso que eu amo as palavras.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 09:33 AM

Caliope, claro que existem! E têm que existir até ao fim dos tempos ou não haverá futuro para o mundo, pelo menos para o mundo tal como o percebemos. Bem vinda também tu ao charco. Espero que gostes sempre de cá vir.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 09:36 AM

Gostei e confesso-te que cada vez mais me surpreendes com as magnificas descrições que não se ficam só por isso...trasbordam de senti!
"E as coisas que se gritam para se ouvirem no céu e as palavras que se sussurram, faladas pelo amor que se faz. E a vontade de nunca mais parar."
Sem duvida que este sentir, esta entrega só é possivel em grande cumplicidade e paixão. Gostei mesmo!

Publicado por: Luna às fevereiro 25, 2005 10:51 AM

Quem anda aos porcos, tudo lhe ronca.

Publicado por: bill às fevereiro 25, 2005 11:03 AM

Bom dia a todos,
é engraçado como esta posta veio trazer de novo a harmonia aos comentadores. Texto e comentários, transbordam de erotismo, vontade, desejo.

Publicado por: Karla às fevereiro 25, 2005 11:17 AM

Antecipei-me ... aqui o Bill, é a excepção à regra. A menos que se consiga dar algum erotismo aos roncos.

Publicado por: Karla às fevereiro 25, 2005 11:18 AM

Obrigado pela visita e respectivo elogio :) É um texto que está a décadas-luz daquele que tu aqui nos propões... Aquele abraço.

Publicado por: Ricardo Garcia às fevereiro 25, 2005 11:26 AM

Quanta gentileza, Luna. Obrigado pela forma bonita como puseste as coisas.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 12:03 PM

Bom dia, Karla. Realmente, o Bill às vezes escavaca tudo com as suas intervenções. E obriga-nos a descobrir onde quer chegar com as mesmas. Mas é por isso que o Bill é único no género, não se encontra nada igual na blogosfera, e eu tenho vaidade em justificar-lhe umas palavritas no charco.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 12:13 PM

Ricardo: não vejo as coisas dessa forma, até porque um texto como o teu requer mais coragem para publicar (por se prestar a interpretações dúbias acerca da tua intenção). E a coragem no que se escreve tem uma beleza que não se presta a comparações. Mas ainda bem que gostaste desta minha estreia. Qualquer dia arrisco outra incursão neste género tão... estimulante.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 12:17 PM

«A roupa a mais. (...) Os primeiros gemidos a beijarem os ouvidos e a certeza absoluta de dois se transformarem num(...)».

Estes bocados são tão bonitos. Adorei a imagem do som do gemido ser um beijo.

E depois, quando escreves :
«Depois os meus lábios nos seus e as mãos aflitas, sem saberem para onde convergir naquela imensidão de mulher, que as mulheres tornam-se imensas quando se entregam à paixão.»
é de facto um homem a escrever.

Mas porque é que os homens se afligem tanto? Será por temerem comparações? Porque não mergulham apenas?...

E parabéns Sharkinho. Nunca duvidei das tuas qualidades para postas eróticas... porque tudo o que escreves é amplamente erótico. Tens uma escrita de sensualidade à flor da pele.

Publicado por: maria árvore às fevereiro 25, 2005 12:24 PM

Imaginação, autenticidade, devaneio, seja o que for que nos faz viver com intensidade um belo momento a dois é qualquer coisa que nos faz acreditar que a vida vale a pena, apesar de tudo.
Belo texto, caro amigo.

Publicado por: pedra às fevereiro 25, 2005 12:36 PM

Eu gosto de dar o meu pp comentário, qdo tenho algo a dizer, mas neste caso nada tenho q acrescentar ao q a Maria Árvore disse. Ela roubou a minha opinião antes de eu e emitir.
:)

Ah e isto dava tema para outro post: o sexo não é só na cama, espaço físico cama ou qq outro espaço. O sexo é difuso, transversal e pode ser omnipresente
(desconfio q ando muito pouco católica)

E calo-me ou o Sharkinho fica mto vaidoso e eu não o quero assim :P (além do mais anda chateads comigo tem mail a responder ; quem se devia chatear era eu )
Pronto.

Publicado por: vague às fevereiro 25, 2005 12:38 PM

Um elogio desses, da Arborizada Doutora do Erotismo, é um certificado de "conformidade" ao teu texto Shark. Eu emoldurava-o :)

Publicado por: Eufigénio às fevereiro 25, 2005 12:55 PM

Está bem... pronto... O amor é a mais forte das paixões, porque ataca ao mesmo tempo a cabeça, o coração e o corpo.

Publicado por: bill às fevereiro 25, 2005 02:01 PM

Realmente, Maria Árvore, é como diz o Eufigénio: tenho que emoldurar o teu comentário, dada a tua inegável autoridade na matéria.
Essa ideia do temer comparações já foi mencionada algures neste blogue e é interessante de esmiuçar. Se calhar é mesmo isso que está em causa. Mas tenho que pensar melhor no assunto, para não mergulhar para o lado errado da questão...

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 02:07 PM

"Ah e isto dava tema para outro post: o sexo não é só na cama, espaço físico cama ou qq outro espaço. O sexo é difuso, transversal e pode ser omnipresente
(desconfio q ando muito pouco católica)"

Vai ser este o teu post, Vague?

:))))

Sharkinho eu queria ainda dizer aqui que gostei muito da imagem que escolheste: das pétalas vermelhas de paixão, com pequenas lágrimas de um orvalho que pode ser o que a nossa imaginação quiser e aquelas pernas que se entrançam até ao infinito... E ainda há aquelas cores lá por trás, como quando, de tão bom que é, nos permitimos ver as estrelas :)

Publicado por: Hipatia às fevereiro 25, 2005 02:07 PM

Obrigado, Pedra. E assino de cruz a totalidade da tua afirmação.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 02:24 PM

Ena, Vague! Só me preocupas imenso com esse tal mail que não respondi. Isso não faz o meu estilo e respondo a dezenas de mails por semana! Não encontrei ainda aquele a que te possas referir. Vá lá, pazinha, relembra-me lá o que ficou por responder. Tu sabes que isso não corresponde à minha intenção. Vá lá, maila-me lá a resposta directa a esta pergunta: o que é que não te respondi?

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 02:29 PM

Hipatia, já tinha constatado no teu blogue que reparaste na gravura. Realmente, também achei que caía que nem ginjas nesta posta...

Publicado por: sharkinho às fevereiro 25, 2005 02:50 PM

E como explicas as tuas mandibulazinhas vermelhas gotejando? :)

Publicado por: o anjo caído às fevereiro 26, 2005 05:22 PM

Olá sharkinho,
Confesso que neste desafio proposto pelas nossas amigas blogueiras os posts que mais me deixam curiosa são os masculinos, talvez porque a tendência é para ficarmos surpreendidas pela positiva.
Gostei muito! Deixou-me uma sensação docemente atrevida. Gostei muito da ideia de continuidade que transmitiste: o amor é algo que acontece em continuum...fazer é amor é apenas agi-lo, pelo que nada se interrompe...tudo se continua, "A vontade de nunca mais parar". Gostei!
Beijinho

Publicado por: mood às março 22, 2005 08:04 PM