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fevereiro 17, 2005

VENTO DE AMIZADE

Muitas vezes a vi chorar pelo seu menino, sobretudo quando a doença mais temida por qualquer mãe o amarrou a uma cama do IPO.
Chorava pelo seu menino nos minutos antes da visita, pois diante dele apenas revelava a alegria e a boa disposição que sempre caracterizavam a sua forma de estar na vida.
Filho único, ele constituía a principal luz do olhar daquela mãe e ela rezava nos bastidores e secava as lágrimas e compunha todos os dias o melhor sorriso que tinha para lhe oferecer. Ele só via a mensagem de esperança e era essa a que interessava transmitir. E resultou, como um milagre.

Acabaria ela, anos mais tarde, por se ver a braços com uma versão diferente do mesmo terror, como se o destino aceitasse a troca impossível que qualquer mãe propõe nos momentos de desespero e de aflição.
E ontem vi, pela primeira vez, o menino a chorar pela sua mãe, enquanto os funcionários da câmara a enfiavam pelo chão.

O menino é hoje um homem e foi o melhor amigo que a vida me concedeu. Há anos que lhe desconhecia o paradeiro. Não foram as circunstâncias ideais para o reencontro e para o abraço que tanto ambicionei dar-lhe, mas pude fazê-lo e pude chorar com ele uma senhora da qual só guardo excelentes recordações. Pude fazê-lo porque houve alguém que não se esqueceu de mim na hora de comunicar a triste perda.

De todo o meu coração e de lágrimas nos olhos por uma dívida de gratidão que dificilmente poderei saldar um dia: muito, muito obrigado, minha querida Mushu.

Publicado por sharkinho às fevereiro 17, 2005 07:01 PM

Comentários

Teste de sabor Weblog.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 18, 2005 09:21 AM

Que agradável. É bom saber que uma pessoa fica afastada durante uns tempos mas esta merda funciona exactamente como dantes: ora sim, ora sopas. Sempre um prazer renovado...

Publicado por: sharkinho às fevereiro 18, 2005 09:22 AM

Um beijinho para ti. Mereces ;-)

Publicado por: Robina às fevereiro 18, 2005 09:48 AM

Nunca perdi o paradeiro do meu melhor amigo. Foram 23 anos de uma amizade intensa, feita de cumplicidades e projectos, sempre presentes na vida um do outro. Muitos desses projectos concretizamos, outros não passaram da ideia. Nunca nos zangamos, embora por vezes ralhássemos um com outro. Riamos muito das coisas boas da vida e muitas, foram partilhadas. Aprendi com ele tantas e tantas coisas, desde guiar um automóvel a gerir uma empresa. Não gastávamos palavras, bastava meia frase, para o outro entender a ideia.
Perdi hoje este amigo, mas não lhe perdi o paradeiro.

Publicado por: Karla às fevereiro 18, 2005 09:58 AM

Vim aqui através da Mushu, de quem gosto muito. E emocionei-me com o que li. Há destes acasos que marcam a vida, meu caro sharkinho. Talvez seja por eles que a vida vale a pena ser vivida
Deixo-te um grande abraço

Publicado por: yardbird às fevereiro 18, 2005 10:07 AM

um abraço

Publicado por: Mi às fevereiro 18, 2005 10:10 AM

Acho que já me acostumei a vir aqui para levar o diário murro no estômago. Faz-me acordar!
E depois, nunca sei o que dizer nestas situações. A não ser que só morre quem nós apagamos do disco duro.

Publicado por: maria árvore às fevereiro 18, 2005 10:28 AM

Meu querido
Eu é que tenho que te agradecer. Aquele abraço que vi fez-me aliviar a dor e sentir-me feliz por ter juntado de novo uma amizade tão grande como a vossa.
Foste a luz do meu dia.
Muito Obrigada mesmo!
E ela, onde quer que esteja, ficou contente porque o seu menino tem amigos de verdade

Publicado por: Mushu às fevereiro 18, 2005 10:53 AM

(um silêncio feito de abraço)
E espero que já estejas curado da gripe, Tubarão de coração grande
Beijinho

Publicado por: sofia às fevereiro 18, 2005 11:02 AM

Ainda bem que estás melhor!:)
A amizade é um Bem muito Precioso!
Um grande beijo para ti e para o restante pessoal deste charco!

Publicado por: Carolina às fevereiro 18, 2005 12:00 PM

Li este post ainda ontem à noite. Deixei-me ficar caladinha, como em geral fico calada em circunstâncias dolorosas. Calada, mas presente. No final de contas, esta história teve o final feliz de dois velhos amigos se poderem reencontrar.

Publicado por: 1poucomais às fevereiro 18, 2005 12:26 PM

Sharkinho,
Sempre me irritou essa coisa de andarem a pôr links para os blogues nos comentários mas, neste caso, por falta de outras palavras, aqui incorro eu no abuso e na presunção: os meus mortos

Publicado por: Eufigénio às fevereiro 18, 2005 02:03 PM

Publicado por: Eufigénio às fevereiro 18, 2005 02:03 PM

e Mushu, a ti o estendo particularmente

Publicado por: Eufigénio às fevereiro 18, 2005 02:05 PM

E eu, Mushu, que não sou desbocado como o Eufigénio, não to estendo particularmente mas envio uma sonora bejoca!

Publicado por: sharkinho às fevereiro 18, 2005 03:13 PM

:)*

Publicado por: Mushu às fevereiro 18, 2005 03:22 PM

Eufigénio, fui ler, e é mesmo isso. Abraço.

Publicado por: Mushu às fevereiro 18, 2005 03:27 PM

A troca da vida por vida fez-se, ironicamente (?). Qualquer mãe mãe proporia a troca, é inevitável o instinto de protecção numa mãe, q tem o único amor absoluto q existe.
Conheço o IPO de lá ter ido inúmeras vezes com a minha avó, com um tumor na mama, ao qual escapou. Mas o cancro da mama continua a matar.
A amizade reforça-se tb em lugares e momentos que preferíamos não viver. Um beijinho para ti e outro para a Mushu, cujo blog só conheci hoje*

Publicado por: vague às fevereiro 18, 2005 05:05 PM

Maria Árvore, esta frase ficou cá dentro desde que a li, lê...

'Só morrem, desaparecem de vez, as pessoas que nunca foram amadas'
Zélia Gattai

Publicado por: vague às fevereiro 18, 2005 05:09 PM

Entre tanta bodega que anda por aí, são textos com este que nos fazem reconciliar com a blogosfera.

Publicado por: ajcm às fevereiro 18, 2005 05:25 PM