« UM COTA BACANO | Entrada | LÍNGUAS AFIADAS »
março 02, 2005
A CRUZ DO JOÃO
No dia em que o João descobriu, todos perceberam que aquela seria uma cruz para carregar ao longo de toda a sua vida. Anos antes tinha vivido uma tórrida aventura com uma mulher estrangeira, um engate de férias que acabou com a partida do João para o país da sua paixão assolapada daquela altura. Um dia o João, que pouco conseguia falar ou perceber da língua desse país onde agora vivia, percebeu que a família da rapariga lhe estava a marcar o casamento à revelia. Possesso e nada entusiasmado com a ideia zarparia de regresso no dia que se seguiu.
Agora, cerca de cinco anos mais tarde, uma amiga que conhecia o engate de férias do João contava-lhe que a moça dera à luz um menino, cerca de sete meses depois do regresso do rapaz. Recuando no tempo, não foi difícil ao João somar dois mais dois.
“Mas ela disse-me que estava sempre a ir ao ginecologista por causa de um tampão de que se esqueceu.” Pois, mas o João, que ia com ela para quase todo o lado, nunca assistira a qualquer das consultas. E descobriu à bruta porque lhe andavam a combinar o matrimónio.
Durante semanas, o João consumiu-se em torno do assunto. As últimas cartas que recebera da rapariga, onde lhe rogava as pragas do Egipto e o informava da fogueira que fizera com os pertences deixados para trás na fuga, não lhe deixavam dúvidas quanto à reacção que poderia esperar. Por outro lado, ela pertencia a uma família abastada e poderosa, era alguns anos mais velha do que o João e concluíra uma licenciatura no ano em que ele havia partido, estando já a ocupar um cargo importante e bem remunerado. Ele ainda nem frequentava o ensino superior quando a vida lhe revelou aquela armadilha. E mais, ela providenciara sem demora um pai para a criança, com quem casara e ainda vivia.
O João chegaria a ir ao país em causa para poder ver ao longe o filho de que as circunstâncias o haviam privado. Mas nunca tentaria aproximar-se daquela família na qual só poderia interferir de forma negativa. Engoliu em seco a partida do destino e encaixou no peito a dor que aquela revelação lhe passaria a provocar, todos os dias, anos a fio e já lá vão quase vinte.
Sempre que me confronto com o João fico com a sensação de reconhecer essa mágoa mal disfarçada no seu olhar.
Publicado por sharkinho às março 2, 2005 10:41 AM
Comentários
Aqui, vou ter de ser dura com as mulheres. Com aquelas que eu costumo dizer que, pensam com a barriga.
Já nem falando no interesse do pai... que direito tem uma mulher de ter um filho, privando-o do contacto com o seu pai? (Ainda que lhe tenha arranjado substituto).
Conheço uma história com contornos parecidos.
Publicado por: Karla às março 2, 2005 12:14 PM
Quando o espírito anda a monte, nem vês o que tens defronte.
Publicado por: bill às março 2, 2005 12:16 PM
Diz-se que 40% dos filhos não são do pai que os registou...
Infelizmente, histórias como esta repetem-se
Publicado por: sofia às março 2, 2005 12:25 PM
De facto, há algumas histórias semelhantes a essa... Mas o João, querendo, pode perfeitamente conseguir alhear-se do "filho", da paixão tórrida, do passado. Viverá a sua vida, sem problemas, encostando a cruz a uma parede. Saberá, contudo, que mais cedo ou mais tarde terá de a agarrar, quando à sua morte tiver mais um herdeiro com quem partilhar as conquistas materiais de uma vida.
Publicado por: Sottomayor às março 2, 2005 12:26 PM
Ò Karla, há mulheres (imensas) e mulherzinhas (algumas). O meu amigo João teve foi um galo do caraças, considerando a questão estatística...
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 12:30 PM
Acho que foi o caso, Bill. E não faltaram os profetas da desgraça para o porem a pau. Mas nós homens às vezes somos assim, não é? Pensamos com o...
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 12:32 PM
Infelizmente, há muitas histórias assim. As dos pais divorciados são muitas vezes parecidas - quantos nem chegam a saber que são pais, ou são privados sem qualquer razão de estar com os filhos, como armas de vingança e arremesso dos adultos, que envolvem os filhos na guerra que só pode ser entre ambos.
Devo dizer que sou uma acérrima defensora dos direitos paternos. Uma criança precisa, e tem direito, a uma mãe e a um pai. Basta quando a morte (ou a vida) os separa contra vontade.
Publicado por: 1poucomais às março 2, 2005 12:36 PM
Essa questão também é importante e hei-de trazê-la ao nosso convívio. Mas no caso concreto, acho que não é por aí que passa a tristeza do João.
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 12:52 PM
O comentário acima destina-se à Sofia. Bom dia!
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 12:53 PM
Na Grã-Bretanha há um movimento de pais que lutam pelos seus direitos denominado Fathers 4 Justice. Vestem-se de super-heróis e levam a cabo acções espectaculares: escalaram a fachada do Palácio de Buckingham e do edifício do ministério dos Negócios Estrangeiros.
Publicado por: derFred às março 2, 2005 01:09 PM
Bem vindo, Sottomayor, pois julgo ser a tua primeira intervenção no charco. Conhecendo como conheço o João (que naturalmente não se chama João), não é homem para pousar a cruz. Mas também tenho a certeza que a questão das heranças nem se colocará...
Obrigado pelo teu comentário.
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 01:58 PM
Podes crer, Zu. Até porque parece óbvio que defender os interesses paternos coincide muitas vezes com a defesa dos interesses das crianças (que nunca, mas mesmo nunca, deveriam sair prejudicadas). Embora no meu entender, por princípio os filhos devem ficar entregues à custódia das mães em caso de separação. Contra mim falo, mas é assim que vejo as coisas. Um dia tentarei perceber porquê e partilharei convosco o meu sentir numa posta.
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 02:01 PM
Uma coisa, Tuby, é as crianças ficarem à custódia das mães. Outra é os pais perderem o direito ao exercício do poder paternal, que acho de uma suma injustiça quando não há nenhuma razão de peso para isso, ou não poderem ver os filhos senão com hora marcada, etc, etc. Fora o que se faz à revelia dos acordos de divórcio, em que a mãe tenta tantas vezes afastar o mais possível o pai do seu filho. Basta o divórcio, caramba!
(Posso falar à vontade: nunca me passou pela cabeça proceder assim com o meu ex-marido, que pode ver a filha e estar com ela quando quiser, e partilha comigo o poder sobre a criança).
Freddy, esse tipo de acção espectacular não sei se na prática conduz a algum benefício. Mas pela minha filha, se fosse preciso, eu também trepava aos telhados de Buckingham e armava um estrilho impossível de não ouvir!
Publicado por: 1poucomais às março 2, 2005 02:15 PM
A estória é interessante.
Como é que eu descalçava uma bota daquelas...não faço a mínima ideia.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado às março 2, 2005 02:16 PM
Eu acho piada a esses cromos, derFred. Até porque pela via mais discreta é óbvio que nunca se chega a lado algum e porque valorizo as pessoas capazes de irem onde for preciso para defenderem as suas causas.
Batman forever! (embora eu goste mais do Homem-Aranha)
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 02:28 PM
Espectáculo, Zu. Estamos outra vez em perfeita concordância. Fizeram-me bem, os tabefes. ;)
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 02:31 PM
Azul, com estas acções eles alertaram o público em geral para um problema para o qual o poder político e o poder jurídico não demonstraram sensibilidade. É mais fácil para os juízes entregarem por regra a custódia às mães, ignorando não raras vezes as circunstâncias dos casos particulares.
Publicado por: derFred às março 2, 2005 03:15 PM
Por isso, Fred, é que apesar de eu preferir em geral formas de luta mais discretas, eu faria qualquer coisa pela minha filha. E há casos em que as crianças, sem a menor dúvida, estariam melhor com os pais. Aliás, a melhor coisa é que os pais e mães deixem de ser parvos e pensem, em primeiro lugar, nos filhos (os advogados e juízes deviam às vezes ter o direito de dar um par de estalos em certos ex-casais, a ver se eles se "tocavam" para o mal que estão a fazer a quem não tem a menor culpa).
Publicado por: 1poucomais às março 2, 2005 03:39 PM
A tristeza do João passa pelo facto de o terem privado de saber, por o terem apenas tentado empurrar para um casamento "porque-assim-é-que-deve-de-ser-que-filha-minha-não-engravida-solteira" em vez de terem sido verdadeiros e honestos com ele... não lhe permitiram ser pai
Teve foi muita má sorte
Publicado por: sofia às março 2, 2005 04:16 PM
Ò Zecatelhado, nem eu...
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 04:26 PM
Quando li, não li como real esta história, mas a avaliar pelos comentários... é mesmo!
Pois eu não entendo. Não entendo mesmo nada, que um pai, não se faça presente ao seu filho. Que não se dê, não se ofereça, não se imponha, não suma o Diabo, para se partilhar com ele. Mas, existem, muitas outras coisas que não entendo...
Se não o fazem, terão os seus motivos. Motivos esses, que não são escritos, nem identificados, facilmente. Muitas vezes, quando se definem, pode ser tarde, podem até já não fazer sentido.
Acredito que a ausência é mantida, porque se acredita, ser o melhor... A bem dizer, quantas vezes a presença se assume muito mais negativa, que o seu contrário?
A dúvida é o que subsiste na vida no João, mas a escolha foi dele. E essa é apenas a sua consequência... Qual será a do seu filho? Será que algum dia lhe foi dado a escolher?
Publicado por: Partilhas às março 2, 2005 05:04 PM
Foi o que eu lhe disse, Sofia: puta de sorte a tua...
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 05:09 PM
Olá Partilhas. Julgo que nos cruzámos algures (no Ruínas, talvez). E agora peço-te que na minha resposta tenhas em consideração o facto de se tratar de um grande amigo meu (apesar de não me ter passado procuração para o defender) e de eu ter vivido a situação de perto e lhe conhecer os contornos melhor do que tu. Ou seja, não me tomes por agressivo ou hostil.
O João não teve escolha nenhuma, tal como o filho. Ele tinha acabado de fazer 18 anos e era aluno do 12º, sem emprego e com uma família sem posses por aí além. Ela era uma mulher com perto de 25, licenciada e neta de um milionário libanês. E a situação só é revelada cinco ou seis anos depois de acontecer. Eu acompanhei alguns dos passos que o João deu, nomeadamente ao advogado, e a situação, do ponto de vista jurídico, era muito complicada e dispendiosa. Por outro lado, qualquer intervenção do meu amigo junto do filho iria certamente provocar mais desgosto e ansiedade do que a ignorância que a mãe tudo fez para impôr (mudou de casa mais do que uma vez para evitar que a encontrassem).
Nessa óptica, eu concordei com a atitude passiva do João. E sei o preço que ela lhe custou.
Há decisões que são impossíveis de tomar, acho eu.
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 05:26 PM
Eu não conheço a história senão pelo que o Tuby está a contar, obviamente. Mas ponho-me a pensar o que seria para um garoto de 5 ou 6 anos saber, de repente, que não era filho daquele que sempre tratou por pai, que um estrangeiro de quem ninguém na família gostava era verdadeiramente o pai dele. Foi há uns 20 anos, pelos vistos. Na época havia já testes de ADN? Como aparecer um estrangeiro a provar a paternidade de uma criança que tem no seu registo, como pai, o marido da mãe?
Não é situação fácil de resolver. Provavelmente, para a criança o melhor era manter-se na ignorância, pelo menos enquanto fosse pequeno, em lugar de andar implicado em complicadas questões jurídicas. Agora, no entanto, ele já não é uma criança. E se o João gostava, como se depreende da história, de poder dar-se a conhecer ao filho, talvez o conseguisse. Como? Não sei, mas uma lenta aproximação sem nada dizer a princípio seria talvez o mais indicado - como fazê-lo com o filho a viver noutro país, não faço a menor ideia.
Isto lembra-me outra situação que conheço. No caso, trata-se de uma mulher vinda de um país oriental que casa com um português. É tudo amor e planos para o futuro até terem um filho. Ela já tinha conseguido a dupla nacionalidade, com o filho e um emprego estável (arranjado pelo marido) tem a certeza de poder ficar em Portugal. Já não precisa dele para nada, desaparece de casa com tudo atrás, impede o pai de ver a filha. Após meses de lutas judiciais, o pai consegue voltar a ver a menina, mas esta nem o reconhece, e chora nos braços de um estranho, obviamente. A mãe (que vai trazendo toda a família para Portugal) faz tudo para que o pai esteja pouco com a garota, e para que esse pouco seja de má qualidade. A certa altura, para manter a sanidade mental e deixar de ter um tormento constante no "vejo a minha filha? não vejo?", desiste. Resolve esperar até que a filha seja mais crescida. Creio que ele, um pai absolutamente dedicado à menina, não a vê há mais de 2 anos. Outro caso de manifesta injustiça, em que toda a legalidade esbarra contra a má fé de quem arma uma cilada destas a um homem que queria, apenas, ser feliz com a sua família.
Publicado por: 1poucomais às março 2, 2005 07:52 PM
Olá Sharkinho,
Peço desculpa, devê-lo-ia ter feito, no comentário acima... quiz resumir...
Eu não pretendo acusar ninguém. Acho, que não foi isso, que fiz...
"Se não o fazem, terão os seus motivos. Motivos esses, que não são escritos, nem identificados, facilmente. Muitas vezes, quando se definem, pode ser tarde, podem até já não fazer sentido."
E claro, que como a "Muito" Mais diz, muitas vezes, a ausência é melhor que a presença.
"...quantas vezes a presença se assume muito mais negativa, que o seu contrário?..."
Não me interpretes mal, por favor.
A escolha do João é diária. Pode não ter tido opção há 20 anos, mas enquanto for vivo... escolhe diáriamente. E é ele, que suporta o peso das suas escolhas. Que nem sempre são as que gostariamos de seguir.
Eu;no meu papel, não entendo. Mas, no dos outros cada um sabe de si, escolhe e recolhe os frutos dolorosos, ou não, das suas escolhas.
Foi isto que quiz dizer.
Publicado por: Partilhas às março 2, 2005 08:08 PM
Ò Partilhas, tu não disseste nada de mal. Eu enchi a minha rsposta de paninhos quentes apenas para evitar precisamente o oposto: que tu pensasses que eu vinha armado em cruzado na defesa de um amigo. Nada disso. Até porque o que eu gostava era de encontrar a melhor solução para a oferecer ao rapaz de bandeja. E qualquer um de vós pode fornecer uma resposta, mesmo que nem coincida com a posição dele ou com a minha, sabe-se lá...
Publicado por: sharkinho às março 2, 2005 08:26 PM
O que eu não entendo:
- A necessidade dela de esconder a gravidez, ainda que a revelação da mesma originasse uma fuga (porque há mesmo muitos tipos que fogem), porque um pai que fugisse ai, sim, não tinha direito a ser pai;
- A necessidade dele de fuga, por outros andarem a preparar-lhe um casamento pelas costas, sem sequer falar com ela e, ai sim, decidir se queria fugir ou não.
O que não acho perdoável:
- Ter-se arrastado de tal forma esta história que, passados tantos anos, seja quase impossível fazer uma inversão de marcha.
E mais não sei comentar neste teu post, Sharkinho. Vou-me cheia de dúvidas e algum nojo das histórias manhosas que a vida às vezes reserva.
Publicado por: Hipatia às março 3, 2005 12:10 AM
Hipatia, tou 100% de acordo.
Ninguém procedeu bem na história, nem o João nem a rapariga e a sua família. E sobretudo não percebo porque o João não fez, nem faz, nada.
Bolas, o destino somos nós que o fazemos, e estamos sempre a tempo de tentar (ao menos tentar) corrigir os erros.
Publicado por: M. às março 3, 2005 10:33 AM
Também não entendo, Hipatia, a ocultação da gravidez. Mas entendo a necessidade de fuga dele, que nem foi uma fuga mas mais uma reacção de revolta por o tratarem como um zero à esquerda no assunto.
O ter-se arrastado, julgo que deriva do facto de o João ter sido apanhado de surpresa pelo filme e de ter dado demasiados ouvidos às influências das pessoas mais próximas (nas quais eu me incluo). Mas acredito que no lugar dele teria feito a mesma coisa.
Publicado por: sharkinho às março 3, 2005 11:39 AM
Admiro a firmeza das tuas convicções e a forma como a transmites quando opinas, parceira (a)fixe. Mas não posso concordar contigo no que diz respeito ao procedimento do João. Ò rapariga, o tipo não tinha dinheiro nem de perto para sustentar um processo judicial daquela natureza e essa seria a única forma de obter algum direito. E esse direito, de acordo com o advogado que ele consultou na altura, era o de ir ao país onde o filho mora para passar alguns períodos de tempo com ele. São condições insustentáveis, sobretudo quando associadas ao risco de estragar a felicidade do puto com o terramoto que uma intervenção sua provocaria...
Publicado por: sharkinho às março 3, 2005 11:45 AM
No meio desta história toda, o que me aflige é a criança... :-) No profundo egoísmo dos adultos, nas suas atitudes irreflectidas, toldadas por paixões, rancores e irresponsabilidades, é (quase)sempre o ser humano mais frágil que não direito de escolha
Publicado por: Caliope às março 3, 2005 01:44 PM
É mesmo isso, Caliope. Sem tirar nem pôr.
Publicado por: sharkinho às março 3, 2005 02:00 PM
Eu creio que quem sofreu menos nesta história foi a criança, que nunca soube de nada. O João deve ter sido a principal vítima, enganado; e se não terá agido da melhor maneira quando se pôs a andar sem dizer nada, a verdade é que tinha tido o direito de saber da gravidez e de lhe tentarem impor um casamento. O que fazer agora? Como acima disse, é complicado. Mas o filho é um homem neste momento, deve ser mais fácil do que com uma criança. Ninguém terá o direito de impedir o filho de contactar com o verdadeiro pai, se este achar por bem dar-se a conhecer. Será isso o melhor, pergunto eu?
Publicado por: 1poucomais às março 3, 2005 02:09 PM
Boa pergunta.
Publicado por: sharkinho às março 3, 2005 02:24 PM
Boa tarde a todos,
Cheguei agora, alguém me faz o resumo?
Publicado por: Karla às março 3, 2005 02:37 PM
Olá novamente,
Ora então, ainda bem, que o que nós queremos é não ferir ninguém.
Se eu fosse o João, aqui sentada e tal e tal, dar-me-ia a conhecer ao meu filho... o pior que pode acontecer? Ele regeitar-me, o que não muda em nada a minha vida, a não ser pelo menos, vê-lo, mesmo que zangado...
Ele chorar a bem chorar e perceber, porque é que não sai ao pai... e justificar os traumas todos, pela falta do verdadeiro pai... encontra assim um "culpado" para a sua infelicidade. E se for feliz... não acredito que se torne infeliz por causa disso...
A mãe? Pois não fica em bons lençois.
O outro? O filho do João avaliará o seu comportamento...
A mentira... não gosto dela!
Publicado por: Partilhas às março 3, 2005 02:38 PM
Eu não gosto da mentira, mas não sei se dizer a verdade não seria um terramoto muito maior. Estou a tentar imaginar que um total desconhecido, ainda por cima vindo de um outro país, se calhar sem falar bem a minha língua, surge na minha frente e diz ser meu pai. Que eu, mulher adulta que sempre vivi na convicção de ser filha de uma determinada mãe e de um determinado pai, afinal não era. Que o meu verdadeiro pai tinha fugido de um compromisso que se achava demasiado novo para aceitar, sem saber da minha existência. Que a minha mãe lhe tinha feito segredo da gravidez, em lugar de partilhar antes de mais com ele, co-autor da minha vida, essa notícia. Que a minha mãe tinha casado com outro homem depois da fuga do meu pai e que esse homem me amara sempre como pai (partamos desse princípio) e considerara como filho, e que era efectivamente pai, porque não é apenas o pai biológico aquele que é pai. Que iria eu sentir?
Primeiro, que o homem era doido varrido. Depois, se me convencesse que era verdade, sentiria raiva e que toda a minha vida tinha sido baseada numa mentira. Odiaria a minha mãe pela mentira, e o ódio a uma mãe deve ser uma coisa terrível... Se calhar, amaria ainda mais aquele que tinha sido meu pai toda a vida. E não sei bem o que sentiria pelo desconhecido que agora surgia. Se calhar, de início, uma raiva ainda maior: porque ele tinha partido sem dar explicações, porque só agora aparecia, porque simplesmente existia e punha a minha vida toda em causa. E depois... talvez uma grande curiosidade em conhecê-lo melhor. Não sei se alguma vez amor, dependeria muito do que tivesse sido até então o meu relacionamento com o pai "oficial"; se me tivesse sentido inexplicavelmente diferente dos outros ou não. Enfim, há tantas variáveis que não consigo imaginar sequer... Imagino quantas mais não terão, ao longo dos anos, cruzado a mente do João e impedido de agir. A melhor prova de amor pelo filho que não conhece não poderá ser, se calhar, o segui-lo apenas à distância, sem se dar a revelar?
(Desculpem o testamento, mas a história tocou-me mesmo)
Publicado por: 1poucomais às março 3, 2005 06:59 PM
Curto, claro e conciso: eu deixava tudo como está!
Publicado por: curioso às março 3, 2005 09:46 PM