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março 17, 2005
aDeus

Senti-me só naquela sala cheia de gente. Ouvia os sons, as vozes distantes de muita conversa fiada, diálogo de ocasião, mas não entendia o que diziam ou o que não queriam dizer.
Rostos anónimos lançavam-me olhares ocasionais, inexpressivos. Como se eu não estivesse ali. E não estava, de facto.
Vagueei pelo salão como um holograma transparente, personagem de fantasia num cenário irreal. Eu não era o protagonista. Talvez nem fosse sequer figurante daquela película muda que o destino me exibia, purgatório imerecido, assim o entendia.
Buscava respostas sem conhecer as questões. Eternamente na dúvida, sem perceber o que fazia ali e porque não estaria noutro lado qualquer. A deixar por fazer coisas diferentes, para quebrar a monotonia de uma existência absurda.
Ninguém me ouvia gritar, ninguém me acudia. A minha presença naquele lugar era menos que indesejada ou pouco mais do que indiferente. Por quanto tentasse, nunca conseguiria verdadeiramente estar ali. Num mundo que não era o meu, num tempo tão difuso que a minha parca compreensão da sua passagem não conseguia abarcar. Sentia-me só e queria saber-me quem. Mas não me sabia quando, nem porquê. Tinha cara de ponto de interrogação. E alma de caixeiro-viajante, sem nada para vender. Estava bera, o negócio de ser.
Cada vez era menos coisa alguma. Parecia afastar-me da realidade a que julgava pertencer, de forma proporcional ao meu esforço de integração. Para onde, não o sabia. Contudo, o caminho que tomara rumava para longe dali e dos outros lugares sem nome onde estivera ou não. Caminhava sempre no sentido oposto do ponto em que acreditava encontrar-me, andava perdido. E não fazia sentido andar às avessas, ou perder o norte a alguém que não existia. Seria?
Precisava pensar. Alinhar as ideias, estudar o guião. Desconhecia o papel que me cabia na encenação, como poderia representar? Se ao menos distinguisse o cariz da trama, vestiria o personagem em conformidade com a ocasião. Assim, palavras tolas, orelhas moucas, falava sem sentido, como um actor de comédia descontrolado no velório da sua pessoa mais querida. Sentia-me despropositado, também.
Recordei o sentido de uma frase de um filósofo radical alemão. Não há grandes homens, apenas bons actores a desempenharem o seu próprio personagem. Uma farsa permanente, a existência, tendia a concluir. Nas coisas sem sentido descobriam-se por vezes os nexos que faltavam. E desvendavam-se mistérios supostamente ocultos por mera distracção de quem os analisava. Pareciam simples as respostas para quem sabia o que perguntar. Mas a quem dirigir as questões?
Nunca a todas aquelas figuras de papel desenhadas numa plateia da vida específica, num dado momento, numa outra dimensão. Elas não saberiam responder, não entendiam as perguntas. Assistiam simplesmente ao desenrolar das tragédias das suas próprias vidas desperdiçadas a ignorarem o que teriam de mais importante para viver. Espectadores desatentos de muitas histórias sem final feliz. Fantasmas, no fundo.
Fez-se silêncio no salão quando as luzes se apagaram. Só o palco resplandeceu, com as cortinas de cetim a afastarem-se graciosas, a abrirem caminho para o actor principal. E esse actor era eu, tal como me conhecera.
Os aplausos soaram, como se numa fracção de segundo eu tivesse interpretado fielmente a minha passagem efémera pelo seu mundo. Choraram e riram comigo, mas partilharam coisa nenhuma.
Depois, o pano caiu. Eles permaneceram na sala, mal os ouvia à distância, na mesma cadência de discursos vazios, sempre à espera da próxima actuação.
E eu desapareci numa cortina de fumo, parti em digressão para outros instantes em busca de algo. À procura de mim.
Publicado por sharkinho às março 17, 2005 10:22 AM
Comentários
Bom dia! Este texto não é nenhum até já. :)
Deve ser lido no contexto da posta do JotaQuê de hoje, na Casa de Alterne, e é uma espécie de continuação do texto do Jota (embora tenha resultado de uma pura coincidência "telepática").
Esperamos que gostem de ambas as postas e aconselhamos que leiam primeiro a do Jota, pois é essa a sequência mais lógica para a ligação entre as duas prosas.
Tenham um dia fantástico!
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 10:42 AM
Este post, esta fabuloso.
A dualidade corpo / alma, sempre presente e pela segunda vez, desde q te leio, me veio à memória o filme Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen.
Bons dias, a todos.
Publicado por: Karla às março 17, 2005 10:59 AM
Fónix... :)
Publicado por: Ricardo Garcia às março 17, 2005 11:03 AM
É um retrato da morte sharkinho?
Publicado por: Ricardo Garcia às março 17, 2005 11:04 AM
"vestir o personagem em conformidade com a ocasião"
Ou a pior das formas de se levar a vida
Ao se embarcar numa de representar personagens é demasiado fácil uma pessoa perder-se de si própria - por desvinculação com a essencia de cada um. Os outros deixam de os conhecer, pois conhecem apenas uma imagem que colaram, e que de tanto variar conforme se alteram os cenários, vai consequentemente perdendo interesse.
Não vejo neste texto um retrato de morte, mas sim o de uma não vida
Publicado por: sofia às março 17, 2005 11:34 AM
Não serão todas as vidas não-vidas, se não existir um esforço nítido para as transformar no contrário da morte?
Publicado por: Sérgio às março 17, 2005 11:57 AM
Obrigado, Karla! O Woody, que assistiu a vários dos meus seminários acerca do assunto, disse-me logo que havia de fazer um filme a propósito. :))
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 12:51 PM
É aquilo que a tua interpretação ditar, Ricardo. E uma das interpretações possíveis é essa, por contraponto à interpretação da vida que o Jota Quê hoje publicou no blogue irmão.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 12:53 PM
Ia perguntar se seriam carencias ou frustrações?mas achei que não tenho nada a ver com isso e o texto para além de ser seca e cheio de redundancias tem algo de"déja vu" digno de um david linch em parceria com tó zé martinho.desculpa lá "pequeno charco" mas tenho a certeza que te vais defender ao teu nível e ficar acima do que acabas de ler.
Publicado por: eduardo relvado lebre às março 17, 2005 01:34 PM
"Estava bera, o negócio de ser."
E está mesmo.
Publicado por: Mushu às março 17, 2005 01:51 PM
Ó Sérgio, a minha forma de estar aproxima-se dessa perspectiva. Mas não falta quem a considere algo radical, pelas implicações que esse tipo de teoria acarreta nas nossas decisões e compromissos do dia-a-dia.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 02:28 PM
Bom dia, Sofia! É fascinante a forma como este tipo de texto suscita tão variadas reacções e como cada pessoa faz incidir a sua atenção neste ou naquele aspecto. A tua conclusão é lógica e razoável.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 03:14 PM
Razoável?...
Publicado por: sofia às março 17, 2005 03:16 PM
Tiveste piada com essa do Tó Zé Martinho, ò Eduardo. E quanto à seca que levaste, pá, às vezes um gajo compra um bilhete para o cinema e leva uma banhada. Acontece e ainda temos que levar com uma data de malta que viu o mesmo filme e gostou à brava.
Fica-te o consolo de aqui a entrada ser gratuita...
Fica bem e não deixes de me dar nas orelhas sempre que entenderes que não estou ao nível que esperas de mim. Aprecio leitores com o teu sentido crítico e elevado grau de exigência.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 03:21 PM
Razoável. Porque nada no texto desmente a tua conclusão e porque o tema presta-se a diversos tipos de raciocínio, consoante as crenças de cada pessoa. Se dissesses que o texto fala de automóveis, isso sim não me soaria razoável... ;)
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 03:42 PM
não é com massagens no ego que se avalia a consistencia da escrita criativa (o que é fácil,cómodo e não fabricamos inimigos) a "grosseria" do meu comentário anterior,tinha esse objectivo:provocar,com a certeza de que (se o gajo for de facto BOM)sairá por cima.eu por mim estou rendido,no entanto,uma maior capacidade de síntese,seria mais compatível com o ZEITGEIST.um abraço.e.r.l.
Publicado por: eduardo relvado lebre às março 17, 2005 04:20 PM
Eduardo: sem intenção de promover algum tipo de pingue-pongue, digo-te que se te puseres no meu lugar verás que só me restam duas alternativas perante "grosserias" como tu lhes chamas: ou armo-me em virgem ofendida e posso desperdiçar críticas que me ajudem a fazer melhor (e eu esforço-me, garanto-te), ou tento ultrapassar a reacção instintiva e dou-me às boas (recorrendo à ironia ou coisa do género) no sentido de não hostilizar gratuitamente quem desperdiçou o seu tempo com algo que escrevi.
E eu não sou de facto bom, mas dou o melhor de mim e espero que isso te justifique um tom de crítica que me deixe margem de manobra para umas massagens (de que todos, afinal, precisamos).
Enquanto não me desrespeitares, podes contar com a minha inteira disponibilidade e atenção a tudo quanto te sintas motivado para dizer. Obrigado pela tua franqueza (e isto não é manha de massagista).
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 04:59 PM
(pois é. o senhor aqui na converseta, mas quanto a mandar mails, nada)
Publicado por: Mi às março 17, 2005 05:53 PM
Eu cá acho piada a quem perde tempo a dizer que não gosta e depois volta um montão de vezes...há gente para tudo, enfim.
Publicado por: Mar às março 17, 2005 06:17 PM
Desculpa lá Sharkinho, mas eu só queria mesmo saber se no local da fotografia se dorme e come bem. Estou a precisar dumas (não Dumas) férias.
Publicado por: Jorge Morais às março 17, 2005 06:31 PM
(já de seguida, Mi)
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 07:12 PM
Ò Jorge, já conheci melhor...
E ainda por cima fica um bocadito fora de mão, perto de Porto de Galinhas.
Eu também estou a precisar dumas e não vou adiar muito mais.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 07:19 PM
Mushu e Mar: Atão, raparigas?
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 07:21 PM
A vida não é um palco. Mesmo que ás vezes coloquemos e tiremos máscaras. Mesmo que às vezes pareça que estamos a ver um filme onde apenas somos figurantes. Porque os cambiantes das emoções da nossa existência nunca são na totalidade passíveis de ser transpostos por um actor/actriz.
O bom da vida é podermos descobrir coisas novas em nós próprio com o correr dos dias.
Publicado por: maria arvore às março 17, 2005 07:53 PM
yo Shark, parafraseando o teu texto e o destaque da Mushu «está bera, o negócio de ser» (seremos góticos sem o saber?)
pelo contrário, o teu negócio de escrever desde o teu recente Tea-Jay... mas que fome bárbara, pá. não há sítio por onde passe que não encontre rasto da tua passagem. vê lá se deixas umas espinhas para os outros
Publicado por: JQuinbejozo às março 17, 2005 08:33 PM
Já agora, os manos linkaram-se telepaticamente? :)
Publicado por: maria arvore às março 17, 2005 09:00 PM
Atão o quê, sócio? Não se pode ter mau feitio também?? ;-))) Eu cá não gosto destes gajos e pronto, tenho que gostar? (já sei, já sei que o blog é teu e tu és um conciliador mas eu não sou de panos quentes, prontes!)
Publicado por: Mar às março 17, 2005 09:12 PM
Maria, não sei exactamente como. decerto que não resultou de combinação prévia. não fazia sentido andarmos aqui a escrever à desgarrada. o link entre os 2 posts foi criado após a aparição(assombração) de ambos os textos.
Estou mais tentado a crer que, morando ambos na mesma região(o meu partenaire extraordinaire só reparou nisso há um par de dias), fomos atingidos em pleno frontespício por um sombrio raio cósmico proveniente sabe-se lá donde.
acredita se quiseres: nesta mesma noite consta que, por estas bandas, vários cemitérios foram vandalizados. e quem diz cemitérios, diz hipermercados, lojas dos 300, corporações dermoestéticas e o diabo a sete
Publicado por: JQ às março 17, 2005 10:21 PM
Já percebi tudo! Alugaram nuvens vizinhas lá no sítio paraíso :))))
Publicado por: Hipatia às março 17, 2005 10:32 PM
Li-te ontem. Voltei hoje.
Tens essa capacidade de pelo menos a mim, me virares para dentro... e de vez em quando não dá lá muito jeito...
Ando, nessa luta, há algum tempo, de ser sem representar... pedidndo que os outros façam o mesmo, mas distinguir entre aquilo que os olhos vêm e não vêm... é lixado para todos... nós e os outros.
Joca!
Publicado por: Partilhas às março 18, 2005 12:14 PM
Porto de Galinhas serve. Desde que caiba lá eu e as minhas mulheres, tudo bem...
P.S. Antes que comecem a pensar outras coisas, uma delas tem 4 anos ;-)
P.P.S. Antes que continuem a pensar outras coisas, é minha filha :)
Publicado por: Jorge Morais às março 18, 2005 01:12 PM
Sócio?? Uh, uh?? Eu a pensar que tinhas aqui uma postazita sobre...you now what...E nem sequer apareceste hoje??
Publicado por: Mar às março 18, 2005 02:09 PM
Sócia: já lá pus a posta, mas agora vai ser uma gaita para esclareceres o you know what que referes... :))))
Publicado por: sharkinho às março 18, 2005 02:51 PM
Sócio...glup...ganda maluco, o you know what era o diabo do encontro das mantas!!! (grita ela, púdica, receosa de que a sua reputação imaculada saia manchada pela imaginação galopante de centenas de bloggers àvidos de movimento...)
;-)))
Publicado por: Mar às março 18, 2005 02:54 PM