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março 16, 2005
ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS

AS VOLTAS TROCADAS
Mal nos falávamos, excepção feita aos cumprimentos da praxe, à entrada e à saída do local de trabalho comum. Cada um na sua sala, nem mesmo as nossas funções se cruzavam. Era um conhecimento “de vista” que me bastava para saber que ela era uma mulher muito bonita e pouco mais. O resto sabia-o pela boca de colegas, embora pouca credibilidade atribuísse à actividade cusca que grassava.
Diziam que era casada com um bruto que a engravidara alguns anos atrás e que “até parecia bom moço, no início”. Não era.
Um dia ela apareceu, aos vinte e poucos anos de idade, de óculos escuros em dia nublado. Todos adivinhámos o que estava em causa e ela acabaria, entre lágrimas, por exibir o estado em que o pai do seu filho lhe deixara um sobrolho. Ofereci-me, tal como outros colegas, para tomar uma atitude mas ela não aceitou qualquer tipo de ajuda. Deixei cair o assunto no ficheiro das preocupações adormecidas.
Pouco tempo depois, e pela primeira vez, o nosso ofício seria conjugado para uma missão específica com vários dias de duração. Foi num desses dias que conversámos por mais tempo pela primeira vez e ouvi da sua boca os pormenores que, na maioria, coincidiam com a versão das conversas de café pelas costas. E foi também num desses dias que ela precisou de um ombro para chorar, tristeza amplificada pelas saudades do filho, e foi no meu que verteu as lágrimas acumuladas. Depois beijámo-nos e demos início a vários dias de intimidade e de intensa paixão.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que ela se sentisse amada. Ao ponto de me apaixonar perdidamente por ela. Mas o trabalho em equipa chegaria ao fim e a questão colocou-se de imediato. Ela nem hesitou. Regressaria para os braços do seu homem, o que a traía e maltratava. E eu, estupefacto, arrisquei perguntar-lhe porquê.
Com um sorriso triste, ofereceu-me uma madeixa do seu cabelo, beijou-me os lábios pela última vez e respondeu:
“Eu amo-o muito e não consigo viver sem ele”.
Publicado por sharkinho às março 16, 2005 10:42 AM
Comentários
É a história do 'quanto mais me bates, mais gosto de ti'. Já fui confrontado com um caso assim. Era minha utente...
Publicado por: Ricardo Garcia às março 16, 2005 11:34 AM
(A imagem está muito bem escolhida).
Publicado por: Ricardo Garcia às março 16, 2005 11:36 AM
E são imensos os casos assim, ao que sei. É um fenómeno curioso, não é Ricardo? Por estas e por outras é que vale sempre a pena debater o amor. É um sem-fim de interrogações e de mistérios.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 11:53 AM
O amor não se explica e nisso não requer explicação. O problema está em que bandeja colocamos os defeitos de quem amamos, que sempre os há. Normalmente caem na bandeja do "apesar de tudo", ou senão na bandeja do "vamos tentar mais um vez". E nesta catalogação de todos os dias, por incrivel que pareça, juntam-se com a mesma importância o deixar a toalha encharcada em cima da cama e as cobardes sevícias.
Publicado por: Eufigénio às março 16, 2005 12:03 PM
O amor tem contornos muito sinuosos. Amar quem nos maltrata, não me parece uma coisa muito saudável. Chego a questionar-me se alguma vez amei.
Publicado por: Karla às março 16, 2005 12:03 PM
Quando o amor cega
e quando se assiste a esse cegar...
Dou por mim a perguntar-me se não será acomodação ou hábito ou esperança
Fico atordoada com situações dessas, e quando acontecem entre namorados?
Como diz a Karla, não é saudável
Publicado por: sofia às março 16, 2005 12:13 PM
Eu sei, Eufigénio, que tentar explicar o amor é quase como tentar explicar Deus. Mas existem factos que nos confundem à luz de qualquer lógica ou razoabilidade e, no mínimo, sinto que vale a pena debater a questão, até para podermos partilhar as nossas diferentes sensibilidades na matéria.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 12:28 PM
Quando oiço histórias destas vem-me sempre à ideia uma imagem: a vida como se fosse uma escadaria gigante. Mas nem toda a gente sobe os degraus ao mesmo tempo. Há também quem pare e não queira subir mais...
Publicado por: Avidez às março 16, 2005 12:28 PM
Depende da tua definição pessoal de amor, Karla. E esse é outro pomo da discórdia associado ao tema e que fizeste bem em levantar. Como sabemos se amamos de facto se não existem mais do que "sintomas" para nos fornecerem essa percepção? E mesmo esses indicadores podem induzir-nos em erro, mas só conseguimos percebê-lo à posteriori.
Claro que existem exemplos inquestionáveis de que o amor está (ou esteve) presente numa relação, mas a dúvida permanece porque o amor não se pode definir de forma universal.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 12:36 PM
Nada saudável, Sofia. Mas no caso concreto percebi que era inevitável, embora continue sem resposta às interrogações que a situação me levantou.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 12:41 PM
E será que ela(s) conseguem responder-se a elas próprias?
Publicado por: sofia às março 16, 2005 12:45 PM
Acho que o que acontece é que há pessoas que se convencem de que não têm maior merecimento do que aquele. Basta terem sido um pouco negligenciadas na infância para depois existir uma escalada, em que progressivamente vão exigindo cada vez mais de si mesmas e cada vez menos dos outros nas suas relações afectivas. E entretanto vão-se habituando a apanhar migalhas, idealizando e exacerbando o pouco de bom que existe de retorno. Ou têm a sorte de se apaixonarem por um gajo porreiro que não abusa da sua predisposição ou caem nesta situação quase inevitável. Até porque ao que parece o poder decorrente da dominação é intoxicante e a submissão tende para a anulação do ego.
Publicado por: susana às março 16, 2005 01:01 PM
Bem vinda, Avidez. Curiosa imagem, a da escadaria gigante. Até porque ajuda a explicar alguns trambolhões que damos ao longo do caminho.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 01:14 PM
Ò Sofia, acredito que nessas circunstâncias nem vale a pena perguntar...
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 01:16 PM
Puxa, parceira, o teu comentário oferece uma interpretação bastante plausível e fundamentada. Mas no caso em apreço nem a distância conseguiu anular o efeito que descreves. E conheço exemplos de pessoas que depois de meses de afastamento regressaram ao martírio. Pelo vistos, a dominação vicia para além de intoxicar.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 01:21 PM
Mais do que o espanto e a revolta de ver (outra) mulher que "come e cala", existe a incapacidade para compreender um gajo que, só dando porrada, se sente macho. Nunca percebi situações S&M. Estão completamente fora da minha capacidade para entender o amor, ou de dar e receber amor...
Publicado por: Hipatia às março 16, 2005 01:52 PM
E da minha, Hipatia, que assisti ao fenómeno bem de perto ao longo dos primeiros treze anos da minha vida.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 02:17 PM
Porque estou profundamente interessado em acompanhar esta conversa, e sem que com isso queira parecer opinativo ou tirar o martelinho ao Sharkinho, ... apenas duas coisas:
- evite-se o estereotipo do "ele bate e ela leva", até porque temos vindo a ser confrontados com estudos recentes que mostram que isso afinal não é bem assim, ou melhor (ai incredulidade) a inversa parece que também se verifica e não de forma tão insignificante. Aí caíremos quase inveitavelmente numa "guerra de sexos" e isto está muito para além disso
- é evidente que a violência física é mais chocante, mas, e as sevícias verbais, as pancadas emocionais, a dominação? essas que revelam menos sinais exteriores?
Publicado por: Eufigénio às março 16, 2005 02:48 PM
Agora o Eufigénio tocou num ponto muito importante. O segundo. Porque o primeiro, não lhe querendo diminuir importancia, lembrou-me o filme A guerra das rosas.
Publicado por: Karla às março 16, 2005 03:03 PM
Sem comentários.
Publicado por: Partilhas às março 16, 2005 03:03 PM
Ama-o???Tretas!!! E não me venham com o amor é cego. Isso é falta de amor próprio, de dignidade.
Quem raio ama um gajo que lhe bate?
Publicado por: lyra às março 16, 2005 03:10 PM
Ò Eufigénio, pá, não hesites em brincar com o meu martelinho sempre que te esqueceres do teu.
E quanto às questões que abordas, não confio muito nessas estatísticas e acho que de alguma forma branqueiam a essência do problema (ou pelo menos a sua expressão maioritária). As bestas são poucas à beira dos seus congéneres masculinos.
A outra, que tal como a Karla é que mais destaco, tem a vantagem para os brutos de não deixar marcas visíveis nem chamar a atenção dos vizinhos. É ainda mais doentia e, por norma, impune.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 03:31 PM
Eu sei que soa bizarro, mas dá para ler nos olhos de uma pessoa quando é verdadeiro o amor que apregoa. Foi o caso, de uma forma tão inequívoca que só me restou engolir em seco e afastar-me sem ondas. É estranho, mas possível e mais frequente do que julgamos, Lyra.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 03:35 PM
Ainda há coisas que me custam a "engolir" que me custam a crer. Não passa a raiva? Um amor assim? Quando amas alguem e esse alguem te maltrata, não passa a raiva? E como fazer amor com quem te espanca? Se tu o dizes, sim acredito, mas sei lá, se calhar depende da personalidade das pessoas. Olha nem sei. Mas lá que me revolta...
Publicado por: lyra às março 16, 2005 04:14 PM
As constatações apontadas pela Susana vão directas à mouche. O facto de passados meses, as vítimas voltarem ao "martírio" acontece sobretudo porque há a promessa, o compromisso do agressor em mudar. E o amor cega de tal forma que se acredita que a mudança é possível. Nunca é.
Publicado por: Ricardo Garcia às março 16, 2005 04:42 PM
Por acaso é possível, Ricardo, a mudança. Mas nos três casos em que me envolvi directamente essa mudança só se verificou quando os brutos se viram no papel das suas vítimas, depois de esgotado o latim em vão nas suas cabeças labregas.
Mas pela via do amor, sinceramente estou contigo: não acredito na possibilidade da mudança. Só lá vai com terapia de choque...
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 04:49 PM
Sem querer entrar em pormenores, Lyra, ainda por cima a rapariga em causa é uma mulher meiga e doce, sem qualquer fetiche masoquista. Durante algum tempo custou-me a digerir a ideia de a ver nas garras do fulano, mas quem sou eu para questionar (julgar) o amor das outras pessoas?
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 04:55 PM
Sim, a mudança acontece, pelo menos durante algum tempo. Até que o agressor sinta que o chão que pisa já não é tão movediço. Mas é muito bonito ver um agressor quando a vítima lhe fugiu irremediavelmente das mãos. Ficam irreconhecíveis.
Publicado por: Ricardo Garcia às março 16, 2005 05:07 PM
Agora és tu que tocas na mouche, Ricardo.
Quanto ao amor, este não é definível; basta acreditares que amas para isso se tornar um facto. Normalmente estas relações tendem para ser um bocado exclusivas e as pessoas perdem padrões de comparação na primeira pessoa. Não acredito que ser espancada possa suscitar esse amor e sim que a falta de amor próprio (não de dignidade!), a ausência de um umbigo, podem permitir que o amor prevaleça, apesar de. Até a generosidade traduzida pelo sentimento de que não se pode abandonar o outro que claramente tem um problema grave pode estar envolvida nesse processo. Mas há um lado mais perverso: a autocomplacência; na cabeça da vítima pode haver uma correlação entre martírio e bondade, suponho que decorrente de valores culturais veiculados pela igreja durante séculos e que enraizaram.
Publicado por: susana às março 16, 2005 05:42 PM
Sabes, Ricardo, acho que ficam como aquilo que sempre foram: um zero à esquerda de onde se escapou toda a fanfarronice.
Quanto à questão destas situações se resolverem com amor, sem amor, com terapia de choque... bem, acho que se podem resolver com terapia. Ponto. Mas a questão é que só se cura quem se reconhece como doente e, nestas coisas, ainda há muitos a pensarem que não há ali qualquer indício de patologia.
Mas a terapia ainda custa muito caro, neste paiseco. E as mentalidades ainda se sujeitam a custos astronómicos para manterem um visual perfeito para a vizinhança.
Há demasiadas situações destas. Suponho que todas as denunciadas não passam da ponta do iceberg. Não me parece também que as autoridades (estava a pensar em algumas aldeias, com GNR’s à moda antiga a não sei quantos quilómetros, mas suponho que possa ser em qualquer lado) assumam o seu quinhão de responsabilidade. Ainda há aquela coisa do "entre marido e mulher, não meter a colher". Mas se algum gajo se atrevesse a levantar a mão para mim, eu acho que esperava que ele estivesse a dormir e lhe amputava qualquer coisa. Nunca mais se haveria de esquecer que me havia tentado brutalizar, cada vez que recordasse a brutalidade com que eu seria capaz de responder.
Publicado por: Hipatia às março 16, 2005 05:44 PM
Isso é o velho amor à portuguesa.
Houve uma peça de teatro há uns anos que se chamava " O meu amor é traiçoeiro" e era assim . O gajo metia-se nos copos, arreava na mulhar e ela não deixava o "seu homem" nem por nada.
Publicado por: ajcm às março 16, 2005 05:49 PM
Susana: às vezes sinto que precisava de uma posta para retorquir aos teus comentários. Concordo em absoluto com tudo o que afirmaste, mas sabe-me a pouco oferecer apenas umas palavrinhas a propósito.
A igreja ainda não tinha sido para aqui chamada, mas tem culpas no cartório nesta matéria. Que também passam por "empurrarem" as pessoas para os braços dos seus agressores a bem dos sagrados laços. Ainda assim, são apenas mais um (passe a publicidade) dos múltiplos óbices à erradicação deste fenómeno.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 06:08 PM
A Hipatia toca num ponto importante: mesmo que o agressor reconheça que tem um problema, é completamente impossível tratar estes casos no âmbito da saúde pública. Aqui, só entram casos extremos (delírios psicóticos, manifestações de esquizofrenia, etc) e quando as pessoas dão sinais de poderem ser minimamente funcionais, têm alta. Estes casos menos evidentes têm que recorrer à medicina privada e esta é extremamente dispendiosa, ainda mais atendendo a que um acompanhamento destes é demorado e exige consultas muito frequentes.
Publicado por: susana às março 16, 2005 06:14 PM
Ò Hipatia: a tua terapia de choque é bem mais... digamos... chocante do que a minha, pá.
Mas eu tenho reservas acerca do enquadramento da maioria destas pessoas violentas nalguma espécie de quadro clínico. A má índole está por detrás de todos os casos com que me vi confrontado e essa não se altera por milagre da psiquiatria.
Uma pessoa de bem nunca cede à tentação da violência cobarde. E isso aplica-se a todos, sem distinção de género ou qualquer outra.
Referiste a GNR, mas posso garantir-te que o filme não é muito diferente numa esquadra da PSP em qualquer ponto do país. Nunca levam a sério as queixosas (tá bem, Eufigénio, e ainda menos os queixosos...).
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 06:18 PM
Acho que a Susana pôs o dedo na ferida. A falta de auto-estima é um rastilho para situações dessas. A pessoa até pode achar que não merece mais, que o agressor tinha razão quando agrediu - vendo tudo por um prisma doentio.
Quanto à violência psicológica, às agressões que não ficam marcadas na carne mas na alma, ainda mais insidiosas são, sobretudo existindo essa falta de auto-estima.
Publicado por: 1poucomais às março 16, 2005 06:26 PM
Até custa, ajcm, ler a coisa dita dessa forma (o velho amor à portuguesa). Mas tens toda a razão. E diálogos como os que aqui travamos, ao alcance de todo o tipo de vistas, gosto de acreditar que são mais um passo minúsculo para aplicar o golpe de misericórdia a essa estranha visão do amor. Pelo menos, olhando para o conjunto do que aqui já foi dito, o espaço de manobra está cada vez mais apertado para a desculpabilização dos energúmenos. E é bom que as vítimas desta manifestação do mal possam encontrar cada vez mais sinais da condenação pública deste tipo de cenário.
Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 06:31 PM
Infelizmente, as mentalidades demoram bem mais de uma geração a mudar. E nem todos os jovens parecem ter grande apetência pela mudança; pelo contrário, conheço bastantes ainda mais tradicionalistas que do que a geração de trinta.
Publicado por: cap às março 16, 2005 06:39 PM
Fez-me lembrar «amores que matam».
O que me faz provoca compaixão e alguma apreensão é, nesta história, ainda assim, ela constrói mais razões para «aceitar» que ele lhe bata - e talvez venha a pensar que ele tem razão em lhe bater, porque ela procura consolo fora de casa.
É estranha a ideia de ser castigado porque se merece, vindo da mão de quem se ama...
Tanto quanto acreditar vezes a fio na redenção.
Há perversidade neste género de relações, que os regressos e abandonos, curtocircuitos e violência, alimentam e mantêem... E nenhuma delas será linear, naturalmente.
Ah, e as mentalidades? hão-de ir mudando, devagar... que ainda por cima há tendência a imitar, involuntariamente, o que se viu e viveu.
Publicado por: LN às março 16, 2005 07:19 PM
Concordo com a fulcro já levantado: a falta de auto-estima permite a manutenção destas situações.
Concordo que a violência psicológica piora ainda mais a situação porque a falta de marcas visíveis torna-se complicada em caso de queixa e a legislação existente não ajuda nada.
Depois, as mentalidades mudam sempre devagar e não chegam as poucas campanhas que já foram feitas contra a violência doméstica. Era mais eficaz se houvesse um processo mediático do tipo da Casa Pia.
Publicado por: maria arvore às março 16, 2005 08:09 PM
Sim, esta imagem acompanha-me há alguns anos. Às vezes encontramos pessoas no mesmo patamar em que nos encontramos. Outras vezes queremos continuar a subir e as pessoas ficam por lá a ver a vista, não estando ainda preparadas para continuar a caminhada e nos acompanharem. Também pode acontecer o contrário. Depende. Mas o que mais me tem acontecido é demorar a perceber que as diferenças são inconciliáveis. Uma pessoa tenta e tenta e tenta...e às tantas dá por si cansada, sem saber porque o faz. Já estou a divagar...:)
Publicado por: Avidez às março 16, 2005 08:52 PM
Este tipo de violência é cíclica. O agressor arrepende-se depois de bater. E tudo corre às mil maravilhas durante uns tempos até acontecer novamente a agressão. E a vítima desculpa-o, por falta de auto-estima, por falta de ajuda, ou até porque acredita que ele não fez por mal...
No entanto, um amor deste tipo não vale a pena, é doentio e auto-destrutivo.
Publicado por: Jorge Morais às março 16, 2005 10:47 PM
Por vezes voltam só por causa dos filhos... Que são o melhor do mundo.
Publicado por: Mushu às março 16, 2005 10:51 PM
Não li todos os comentários e talvez o devesse ter feito. Não li porque passadas mais de duas décadas o tema ainda me revolta as entranhas. Há sempre uma boa razão por detrás do regresso de uma mulher ao jugo. Pode até nem ter filhos, pode não estar dependente dele económicamente, pode não ter baixa auto-estima, pode não não ter tido uma educação "clássica" do género quanto mais me bates mais gosto de ti, pode não ser masoquista, pode não estar cega e loucamente apaixonada. Por vezes sucede que ele até gosta mesmo dela, e ela sabe-o, mas ele é doente (sim, sobre isso não tenho dúvidas)e ela convence-se (com a santa ingenuidade a que os verdes anos não escapam)que vai "curá-lo", que por amor dela, ele vai "emendar-se". E essa convicção transforma-se numa missão e ela, às promessas dele de "nunca mais", perdoa uma e outra vez e uma e outra vez, regressa. Até um dia......em que o descontrolo dele foi maior ou ela cresce e percebe que nenhuma mulher muda homem algum (e vice-versa).
Publicado por: Teresa às março 16, 2005 11:31 PM
Não li os comentários todos...não sei por isso se alguém viu as coisas desta maneira...
Amor é uma definição muito vasta que inclui paixão, cumplicidade, carinho, lençois encharcados em cima da cama, filhos, construção de...ou seja...ao fim de uns anos a paixaão que como se lapida em amor e tudo está em jogo...o bater não é por isso uma desculpa....mas o amar mesmo assim, talvez se justifique!
Publicado por: Luna às março 16, 2005 11:36 PM
Este tipo de post é sempre muito interessante e desplota uma imensidão de comentários que, apesar de nos perdermos por completo na sua leitura dão-nos uma visão muito mais rica do tema.
Susana
Subscrevo todas as letrinhas, pontuações e suspiros dos teus comentários. Soubeste realmente meter o dedo na ferida...
Só queria acrescentar também que cortar com o agressor implica cortar com todo um estilo de vida, cortar com o grupo de amigos, recomeçar de novo, muitas vezes sem nada. Porque as marcas no rosto são só a ponta do iceberg.
Sharkinho
Também imagino como terá sido difícil para ti aceitar e compreender (se é que compreendeste mesmo)a opção dela.
Publicado por: CotaMarada às março 17, 2005 07:13 AM
Li o teu texto de enfiada e comecei a ler os comentários até que parei um, um dos teus q diz isto 'tentar explicar o amor é quase como tentar explicar Deus'.
Qto ao resto volto mais tarde.
Publicado por: vague às março 17, 2005 08:38 AM
Isto de não ter internet em casa é uma gaita. Perdi uma belissima discussão.
Publicado por: Ricardo Garcia às março 17, 2005 10:55 AM
Ricardo: Nem imaginas como te entendo, pá...
CotaMarada (ganda nick!): Não compreendi mas aceitei e para ela era isso que mais interessava.
Vague: Ainda estou à espera... :)
Luna: Representas a facção minoritária neste "barómetro". Mas quem pode afirmar que estás errada em face deste tipo de exemplo?
Teresa: Só não concordo quando dizes que não conseguimos "mudar" alguém. À pancada, talvez não. Mas numa relação em condições, não é caso raro.
Mushu: Bem visto. Os filhos são um argumento decisivo. E num país onde se contam pelos dedos as casas de acolhimento...
Jorge, nóvel aphixador: Qualquer dia nomeio-te meu porta-voz, pá. Não consigo discordar de nada do que dizes.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 04:01 PM
Partilhas: Lá por o teu comentário ser sucinto não deixas de merecer um olá e uma bejoca!
Cap: Também já dei por isso. E não gosto.
LN: Gosto tanto dos teus comentários como das tuas postas.
Maria: Bem vista, essa do processo mediático. Mas é preciso ainda mais.
Avidez: Falamos no teu espaço.
Publicado por: sharkinho às março 17, 2005 04:04 PM
O meu não comentário... foi transformado, lá no meu cantinho... Tens lá o meu comentário.
Beijoquinha, também para ti.
Publicado por: Partilhas às março 17, 2005 04:53 PM
Be my guest:)
Publicado por: Avidez às março 17, 2005 06:39 PM
Não é fácil...Jinho e bom fds
BShell
Publicado por: blueshell às março 18, 2005 04:43 PM
Complicado, muito complicado.
Talvez não fosse amor, pelo menos tal e qual nós o entendemos, talvez fosse dependência, talvez fosse teimosia, talvez fosse esperança, talvez fosse ilusão.
A verdade é que nestas coisas do amor e sentimentos, a razão nem sempre fala mais alto, e mesmo não se concordando racionalmente com o que fazemos, acabamos por o fazer...
Estranho! O amor tem tanto de especial e mágico, como de estranho e de irracional!
Publicado por: jotakapa às março 18, 2005 11:27 PM
jotakapa e blueshell: obrigado pela vossa visita comentada. Esta é uma casa à vossa disposição.
Publicado por: sharkinho às março 21, 2005 10:57 AM
entrevistei mais de cem mulheres vitimas de violencia domestica.
lamento mas para mim há poucos factores a considerar e nunca o Amor.
1º - O medo.
2º - a dependencia financeira.
3º - a chantagem sobre a vida dos filhos.
4º - a vergonha.
o continuar com estes items ultrapassados, pressupõe um desequilibrio da parte da vitima.
O vitimizador, se levar com uma panela ou o que estiver mais à mão, pelos cornos abaixo, log na segunda agressão (porque a primeira normalmente é inesperada)palavra de honra, que na próxima pensa melhor porque a sua cena foi "desmontada".
maria de são pedro
Publicado por: maria às março 26, 2005 09:14 AM
No caso concreto não pude identificar nenhum desses factores, embora aceite que pudessem não me ter sido revelados.
Concordo com a panela. Mas ainda concordo mais se for utilizada por um irmão, um pai ou um amigo da agredida.
Publicado por: sharkinho às março 26, 2005 10:54 AM
pois é mas essas "cenas" não se geram à frente de ninguém que lhes possa acudir e quando vier a intervenção do pai, irmão ou parente, o estafermo ainda se vai queixar e arranjar um 31 ao defensor da vítima.
Porque eles são uns cobardolas, como tão bem sabes.
Como eu tão bem sei.
Publicado por: maria às março 26, 2005 01:58 PM