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março 30, 2005
ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS

AMOR AMIGO
Havia de facto má vontade entre ambas as partes e o ambiente nunca era o ideal. Mas naquele dia as coisas até estavam a correr muito bem. Por isso foi com espanto que ouvimos a professora de Biologia expulsar da aula uma das mais pacatas das nossas colegas. Sem nada que o justificasse, excepto “o que lhe pareceu” e bem tentámos desmentir.
A nossa colega, normalmente muito calma, começou a mudar de cor e depois explodiu. Saiu aos berros, protestando contra a injustiça de que fora alvo.
Eu, quase tapado nas faltas daquela disciplina, mas muito chegado à pessoa em causa (apaixonado em silêncio ao longo de vários anos), consultei o mapa da minha disponibilidade na matéria. Ainda me restavam duas (em Março) e isso facilitou-me a decisão.
“Se ela vai sem ter feito mal nenhum, eu também vou.” Peguei nas coisas e saí, protestando também contra a situação, e fui juntar-me à colega expulsa que chorava de raiva, tentando animá-la o melhor que sabia.
Nem dois minutos depois, mais um colega saiu pela porta. Logo a seguir mais duas. E ainda mais uma dupla. Continuavam a sair, um após outro, com a sala a ficar vazia ao mesmo ritmo a que o choro de raiva da nossa colega se transformava numa gargalhada de felicidade e de orgulho pela sua turma que a abraçava. Vieram todos e o oitavo L fez história no liceu, com uma muito rara falta colectiva que mobilizaria as pressões suficientes para a inepta docente se ver transferida, ponderadas as situações de conflito que gerara em todas as turmas que lhe cabiam em sorte. O nosso exemplo daria origem a outras formas de luta e a medíocre perdeu.
Hoje fiquei feliz quando recebi uma chamada dessa colega que a arrogante professora de Biologia expulsou. Gostei de a saber bem e feliz, após um período menos bom que a vida lhe deu a provar. E acima de tudo fiquei deliciado por constatar que existem laços tão fortes que nem a passagem dos anos e a escassez de contactos conseguem quebrar, nascidos da amizade e da solidariedade incondicional que ela implica.
Por estas e por outras se justifica a minha crença de que a amizade séria é apenas uma das muitas formas que um grande amor pode assumir. Sem olhar a géneros.
Publicado por sharkinho às março 30, 2005 11:11 AM
Comentários
"A amizade séria é apenas uma das muitas formas que um grande amor pode assumir. Sem olhar a géneros"
Não poderia concordar mais
Bom dia
Publicado por: sofia às março 30, 2005 11:36 AM
Bom dia, Sofia! E quem é que pode discordar de uma verdade tão flagrante, não é?
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 12:24 PM
Grande post pá. concordo em absoluto
Publicado por: cachucho às março 30, 2005 12:24 PM
também concordo. em absoluto.
Publicado por: Mi às março 30, 2005 12:26 PM
Olhó Cachucho. Tás bom rapaz? Já há uns tempos que não deixavas rasto aqui no charco, folgo em reler-te por aqui.
Recebe um abraço e obrigado pela tua concordância. Estas coisas têm que ser ditas, senão a malta pensa que já ninguém as acredita.
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 12:28 PM
Fiseste-me lembrar o Quim.
Andava no 2º ano do ciclo preparatório e já não sei porquê, mandaram-me para a Rua... e eu fiquei num stress que só visto, confesso que não me lembro se chorei ou não. O Quim, estava sempre na Rua, era Enorme e andava sempre à batatada com tudo e todos, ganhando sempre, graças aos seus mais 15cm e 20 kilos de peso... não nos conheciamos, mas encontrámo-nos no corredor. Lembro-me de ele me dizer: "Queres bater-me? Bate-me! Se te sentires melhor bate-me!"
Não tenho mais nenhuma recordação dele. Mas, achei deliciosa a sensibilidade, daquele menino, que ludava com a violência de um modo... diferente.
Bom Dia Charquinho
Publicado por: Partilhas às março 30, 2005 12:40 PM
Obrigada Shark.
A tua última frase trouxe-me, mais uma vez, à memória o meu grande amigo... Uma amizade tão grande e incondicional que, tantas vezes, se confundia com amor.
Hoje, não consigo dizer mais nada, para além de vos desejar um resto de bom dia.
Publicado por: Karla às março 30, 2005 01:19 PM
A amizade é outra forma de amar.
Publicado por: 1poucomais às março 30, 2005 02:32 PM
:) ainda hoje me encontro com um amigo em que essa mistura se mantêm...beijos Tuby
Publicado por: Luna às março 30, 2005 02:33 PM
Shark,
Em primeiro lugar, constato que também contavas as faltas. Também estavas atento à caixa de correio, quando ia a comunicação para casa do excesso de faltas? ;-)
Quanto à amizade, constato que, infelizmente, muitos dos ideais de lealdade perante uma injustiça vão desaparecendo com a idade. Muitos vêem a injustiça, indignam-se, mas não são capazes de dar a cara, umas vezes porque têm uma família para sustentar, outras por pura cobardia.
Infelizmente, durante o tempo que fiz parte da direcção de um sindicato, verifiquei que, apesar de dar a cara por muitos colegas, o que colocava em causa o meu emprego (bastante precário), estes não eram capazes de fazer o mínimo para auxiliar (mesmo sem terem de se expor).
Percebi também que se mobilizavam mais para as questões que tinham a ver com aumentos salariais do que problemas de despedimento em massa. E hoje penso: "Queimei eu 2 anos do meu doutoramento para isso?"
P.S. Shark, mandei-te um e-mail pessoal urgente. Se não recebeste, diz-me para onde to posso reenviar...
Publicado por: Jorge Morais às março 30, 2005 02:54 PM
a revolta contra a injustiça é um direito muitas vezes difícil de exercer. mas a fraternidade que daí pode nascer vale muitas penas.
Publicado por: Mi às março 30, 2005 03:22 PM
Vale sim, Mi. Acredito que sim.
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 03:47 PM
Já li Jorge, mas ainda não posso responder-te. No entanto, ainda hoje me debruçarei sobre o assunto e dir-te-ei qualquer coisa.
Mas estou a apreciar o gesto, pá!
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 03:49 PM
Quanto à primeira parte do teu comentário, foi graças a isso que nunca mais precisei de dar nada a assinar ao meu pai... ;)))
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 03:50 PM
O "aluno-modelo" revela o que é mais importante: a lealdade, solidariedade e outras coisas terminadas em "ade" que não são, definitivamente, notas ou aulas.
Publicado por: Mar(gem) esquerda às março 30, 2005 04:06 PM
Ooops...esqueci-me de mudar de identidade, ali desde o comment no post debaixo...;-)))
(ps. Jorge, ai tb tens uma costela de activista? actividade sindical é uma nobre causa a que nem todos se conseguem dedicar...;-)
Publicado por: Mar às março 30, 2005 04:09 PM
Não há nada a acrescentar, está tudo dito. Só se for para dizer que tenho muitas saudades dessas amizades incondicionais feitas nos bancos de escola, quando ainda não tinhamos peias em reagir perante uma injustiça com toda a força e verdade, sem olhar a consequências. Antes de sermos tão sérios e comprometidos, ou atados pelas coisinhas da vida...
Publicado por: Lisa às março 30, 2005 05:21 PM
Cuidado com as misturas, Luna. Batem comó... :))
Publicado por: cocktail marado às março 30, 2005 05:33 PM
Nem mais. Puro e simples. Depois admiram-se de conseguirem acabar teses...
(beijinho azul pra ti, gaija vencedora!)
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 05:35 PM
Espero que já estejas mais em paz com esse assunto, Karla. Não tens mesmo nada o que me agradecer. Recebe um beijo deste amigo desnaturado.
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 05:43 PM
A amizade - e falo por experiência própria - vale mais do que o amor falacioso. O amor engana, é traiçoeiro. A amizade, a verdadeira, é sólida e é ajuda preciosa nos momentos mais difíceis. Não há seduções. Não há mentiras, engodos, para os outros e para nós próprios.
Sofri ontem uma desilusão de amor. A primeira tampa da minha vida. Sempre fui eu a dar com os pés. Ontem foi a mim de ver, sentir, sofrer, o que é levar um fora bem dado. Não há-de ser nada. Com o tempo, tudo passa.
A amizade é atenta, ouve e aconselha.
Queria acrescentar que, devido às circunstâncias, tive de obtar entre a amizade de uma rapariga e o suposto falacioso amor de um rapaz. Obtei por este último tentando salvar a relação de amizade com a rapariga. Mas tudo mudou. E não só perdi a amizade dela, ela, que eu considerava como uma irmã, como também perdi o resto.
Publicado por: Perder a amizade e o resto às março 30, 2005 06:17 PM
O assunto não requer paz, Shark, antes pelo contrário. É para ser recordado a cada dia que passa, todos os dias.
Publicado por: Karla às março 30, 2005 06:59 PM
Mar,
o activismo sindical exige muita dedicação e capacidade de enfrentar desilusões... especialmente as provocadas pelos colegas...
Publicado por: Jorge Morais às março 30, 2005 07:34 PM
Desculpa não concordar contigo, amiga anónima, mas no meu caso pessoal aconteceu mais vezes precisamente o contrário: foi a amizade que vi traída ou vulgarizada o bastante para deixar de o ser.
Não vejo o que há de errado em coisas como a sedução e também não associo a mentira ao amor.
Correu mal desta vez, é assim que entendo as tuas palavras, porque se calhar havia factores que escapavam ao teu controlo. E desses não podes assumir culpas. Por outro lado, no amor (como na amizade) um dos riscos que se corre é apostar no cavalo errado e às vezes o cavalo errado até somos nós. Nada mais do que isso.
Vais ver que verás e sentirás as coisas de forma diferente quando o tempo suficiente passar.
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 09:07 PM
Então espero que o recordes todos os dias de uma forma que não te entristeça, Karla.
Publicado por: sharkinho às março 30, 2005 09:09 PM
Oh Sharkinho, coloca-se-me uma pergunta : é possível amor sem amizade?...
De qualquer forma, as amizades forjadas na adolescência ou em situações de empenho numa causa comum costumam resistir mais ao tempo. As situações-limite não unem as pessoas?
Publicado por: maria arvore às março 30, 2005 09:52 PM
Tubarão solidário, que não serves de exemplo à tua espécie porque sabes partir os corações do povo como ninguém, desta vez partiste-me a memória. Isto não vem adiantar nada mas, como a tua forma de escrever estimula bastante a partilha de experiências semelhantes, lá saiu mais um comentário demasiado lençol sem LOL.
Há décadas, tive um profe de Introdução aos Estudos Linguísticos que costumava chumbar todos os anos nem mais nem menos do que 95% dos alunos da cadeira (e foi o único fdp que me chumbou, esquecendo a catequese no tempo em que tal ainda acontecia).
Por fim, foi organizada uma greve que conseguiu correr com o tipo durante uns pares de anos. Na última aula, ao despedir-se diante dum anfiteatro em silêncio que pesava toneladas, o homenzinho justificou-se com o facto de ter sido orfão, ter subido a pulso na carreira, sempre com 19s e 20s e daí ser para ele natural exigir o máximo do seus alunos.
Juro que, por um momento, me esqueci da estranha coincidência de todos os anos passarem apenas 5% dos alunos, e cheguei a desejar que os colegas profes fizessem uma greve de solidariedade com o infeliz fdp. Tal não aconteceu, claro.
Os momentos de solidariedade e outros sentires colectivos são mesmo raros. Talvez por isso, quando acontecem, dão uma felicidade do caraças
Publicado por: JQ às março 30, 2005 09:56 PM
"A Amizade é o Amor sem as complicações do Sexo" ---não sei quem disse isto, mas acho piada à frase.
Publicado por: Avidez às março 30, 2005 10:40 PM
Também pode haver sexo entre amigos, Avidez. Não tem é as complicações do amor ;-)
Publicado por: Hipatia às março 30, 2005 11:50 PM
Matematicamente:
Teorema da Avidez:
Amizade = Amor - ComplicaçõesDoSexo
Teorema da Hipatia:
Sexo + Amizade = - ComplicaçõesDeAmor
E a demonstração?
Shark, desculpa a tendência matemática dos últimos dias... ;-)
Publicado por: Jorge Morais às março 31, 2005 12:23 AM
Não creio, Maria Árvore. Nem a amizade sem algum amor. E sim, concordo que as situações limite tendem a unir as pessoas. Recebe uma bejoca do tubarão.
Publicado por: sharkinho às março 31, 2005 10:33 AM
Concordo contigo, Lisa. Muitas vezes me sinto atado por essas coisinhas da vida. E não gosto da sensação.
Publicado por: sharkinho às março 31, 2005 10:37 AM
Amor (Eros) e Amizade (Philia) são apenas palavras - sínteses imperfeitas para juntar nuances de afectos numa espécie de saco.
Se Eros e Philia não tivessem tanta coisa em comum, seria mais fácil fazer teoremas - juntar sexo à equação faz-me lembrar a música da Rita Lee «Amor e Sexo». :) (já agora, discordo do refrão de «amor sem sexo é amizade»...).
Tenho para mim que ser amigo é uma forma de amor.
Que tem outras formas - e a adopção de causas pode ser por amor a uma ideia, a um projecto.
Há coisas que só se fazem por amor - mas enchemos tanto o amor da relação erótica, que depois temos pruridos em chamar amor a outras formas de relação...
Finalmente, a ver se não me estendo como lençol, incluiste a sedução, Sharkinho... o que foi uma coincidência engraçada porque estou a «resgatar» algumas ideias no meu canto - e a primeira foi a sedução.
Publicado por: Viajante às março 31, 2005 02:01 PM
as misturas desde q batam tá-se bem...hoje bateu-me uma muito agradável e quero repetir
Publicado por: Luna às março 31, 2005 04:43 PM
Ora assim é que é, Luna. As boas experiências têm essa vantagem de poder-se sempre repeti-las, livres das interrogações naturais que uma primeira vez sempre acarreta.
Publicado por: sharkinho às março 31, 2005 05:17 PM
Já fui falar contigo ao teu espaço, Viajante. Aproveito, porém, para te deixar à vontade com a questão dos lençóis. Num T8 os lençois são sempre bem vindos. :)
Publicado por: sharkinho às março 31, 2005 07:18 PM
Beijoca Sharkinho.
E para além dos lençóis, podemos trazer para cá almofadas? ;)
Publicado por: maria arvore às março 31, 2005 08:46 PM
lençois...almofadas...não a este seja o que for não falto!
Publicado por: Luna às março 31, 2005 09:56 PM
É com alguma frequência que venho por aqui ao teu canto "ler-te", não costumo comentar. Um jeito meu de animal de sombras. Não porque não goste, se retorno é porque gosto das letras que imprimes em carreirinha, mas sim...porque é assim. Hoje ao vir aqui dei com uma história de mim mesma. Anos atrás, numa turma de 9º ano , com um professor de larga sapiência e pouca sabedoria, foi expulso o marginal da sala, péssimo aluno, perito em extravagâncias e brincadeiras "explosivas" ( o fabrico de um pequeno engenho no laboratório de quimica que pos as escadarias em pantanas disso deu provas), mas...daquela vez apenas por fama adquirida. Silenciosamente uma turma inteira saiu um a um da sala, sem medo das consequências e em nome da justiça. Perante o Concelho Directivo, eu...a menina sossegadinha que pagava para não ser notada, adquiri, ad eternum, o rótulo de advogada rebelde de causas perdidas. Também dessa vez o professor em causa foi transferido. Contudo, ficou-me para sempre a ideia de que os profissionais que lidam com humanos em crescimento deveriam ser submetidos a um exame qualquer de humanismo. Também ficou para sempre o laço que se criou num bando de míudos...e que nunca terá preço. São certamente estas as pegadas mais importantes que deixamos. Obrigada pela tua partilha.
Publicado por: M às abril 1, 2005 09:50 AM
Comovente, Sharkinho. Que lugar doce para se estar.
Publicado por: vague às abril 1, 2005 07:06 PM
Vague, os teus comentários são uma guloseima.
Publicado por: sharkinho às abril 2, 2005 12:18 PM
M, obrigado eu por comentares como o fizeste.
A partilha é um elemento que associo sem reservas aos meus dois valores fundamentais (a Liberdade e o Amor). E concordo em absoluto com a tua valorização das pegadas certas.
Publicado por: sharkinho às abril 2, 2005 12:22 PM
Luna e Maria Árvore: não querendo abusar da vossa boa vontade, estou com algumas faltas em matéria de camas nos quartos de hóspedes... :)
Publicado por: Loja Moviflor às abril 2, 2005 12:24 PM
E ao meu estimado sócio, que já teria pensado que o ignorei, digo apenas: se chumbaste a uma disciplina tão fundamental como a Introdução aos Estudos Linguísticos (não quiseste praticar, ou quê?), fico preocupado com a tua falta de motivação para o linguajar. :))))
Publicado por: sharkinho às abril 2, 2005 12:29 PM
epa axo que este assunto n interessa nem ao papa portanto kero k voces se fodam todos e vao comer um granda cagalhao obrigado
Publicado por: queima às abril 26, 2005 09:33 AM