« CONTAS DE CABEÇA | Entrada | ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS »

março 15, 2005

NAS COSTAS DOS OUTROS

armored_car_md_sdw.gif

Ontem, enquanto aguardava um amigo numa esplanada do Parque das Nações, reencontrei uma pessoa conhecida que já não via há algum tempo. Uma antiga colega de escola, com quem nesse tempo havia feito todo o sentido cultivar a amizade e embarcar em episódios pontuais de intensa paixão. Bonita e inteligente, a minha amiga (tal como a lembrava) era uma pessoa de bem e tinha-a em elevada conta, mesmo já decorridos alguns anos sobre o nosso último contacto.

Confesso que fiquei feliz por reencontrá-la e admito que me agradou recordar com ela alguns momentos magníficos que vivemos a dois. Em meia hora de conversa recuperámos a proximidade perdida, pois tudo batia certo com a imagem que ambos retínhamos um do outro. Excepto algumas alterações próprias do processo de amadurecimento, sulcos que a vida escava em algumas das nossas características sem deformar a essência da personalidade de cada um.
Pelo menos, era o que as nossas palavras faziam depreender.

No entanto, eu lembrava-me bem do aspecto que mais me marcara na jovem que ela era: a sua lealdade incondicional às pessoas que considerava suas amigas. Virava-se do avesso quando alguém se metia com “os seus” e, apesar de baixinha, quando lhe saltava a tampa era mesmo a abrir. O meu respeito por ela, a primeira das razões que nos aproximaram anos atrás, desenvolvera-se a partir de uma situação na qual um conhecido seu tentava emporcalhar a imagem de uma pessoa das relações da minha amiga.
No final do diálogo a que assisti, o fulano abandonou a cadeira com o rabinho entre as pernas e com a certeza de que dali nunca mais levava coisa alguma. Chanfrado, aplaudi a garota de pé, no meio do bar, e depois apresentei as minhas desculpas por ter partilhado a conversa que decorreu em timbre elevado o bastante para se ouvir em toda a sala.
Foi assim que a conheci.

Quando o meu amigo chegou, outra surpresa. Já se conheciam. Passámos a conversar a três, acerca das voltas que a vida dá para se cruzarem os nossos caminhos e tentámos descobrir os amigos comuns que pudessem entretanto existir. E eles descobriram um, ao qual ela se referiu como uma excelente pessoa por quem nutria imenso carinho e consideração. Pela descrição pareceu-me um gajo porreiro, mas por infeliz coincidência o meu amigo detestava o rapaz e passou a destilar o seu azedume. Ridicularizou-o, até. E ela, a anos-luz da mulher que eu recordava, sorriu e em momento algum tentou acabar com aquela situação que me soava desconfortável mesmo sem conhecer o protagonista.

Inventei uma desculpa e deixei-os na mesa, após algum tempo a assistir em silêncio aos termos deselegantes que o meu amigo, certamente teria as suas razões, empregava na descrição do amigo dela. Caiu-me mal, vê-la a sorrir da maledicência dirigida a uma pessoa que afirmara prezar e o meu filme não era aquele com toda a certeza.
Por isso os deixei, sem ficar com um contacto dela para utilização futura.

Não cultivo amizade com pessoas incapazes de entenderem que a falta de lealdade é uma forma de desrespeito pelas pessoas que em nós confiam. Nem me agarro às recordações felizes para perpetuar ilusões.
A amizade séria não se compadece das grandes como das pequenas traições. Nas costas dos outros, lá está, vejo as minhas...

Publicado por sharkinho às março 15, 2005 12:39 PM

Comentários

Hmmm.... parece-me que facilmente faria amizade com este sharquinho! :)
É assim mesmo!

Saudações

Publicado por: Carriço às março 15, 2005 01:02 PM

Eu também tenho essa nítida sensação, Carriço. Mais dia, menos dia, vais ver que a coisa se proporciona. Aquele abraço.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 01:05 PM

Touché, Sahrk. A lealdade prezo-a tanto nos amigos como nos outros. Acho q é defeito de fabrico.
beijo (não te importas q seja rosa, pois não?)
:P

Publicado por: vague às março 15, 2005 02:29 PM

Já pensaste que a tua amiga poderá não ter defendido a tal pessoa para não te deixar mal a ti, frente ao teu amigo e à lealdade que tens por ele? Se ela o mandasse bugiar pela maledicência e se a coisa desse para o torto (que até poderia dar, se dizes que ela era uma pessoa leal com convicção e alto e bom som), não ficarias depois tu mal, a assistir ao um 'ataque' ao teu amigo? Não pensaste que, por se calar, a tua amiga estava a ser-te leal A TI?

Eu acho que é muito bonito e fica sempre bem a toda a gente dizer que é leal aos amigos e tal, mas há situações complicadas, quando as pessoas se encontram divididas entre lealdades. Talvez a tua amiga se tenha remetido ao silêncio para evitar dissabores. A situação que descreves é tudo menos para ser interpretada a preto e branco.

Publicado por: catarina às março 15, 2005 02:37 PM

(um paretenses divertido: Sharkinho, o teu blog é o sítio melhor para uma pessoa conseguir ser do contra, abrir uma discussão e andar com ela para a frente na boa...se calhar foi o que tentei fazer ali no meu comentário acima: apresentar outros cenários possíveis. Não costumo explicar as minhas opiniões, mas serve para os/as leitoras de opiniões mais ferrenhas não me cairem já em cima...:DDD)

Publicado por: catarina às março 15, 2005 02:39 PM

Se me importo que seja cor de rosa? Ò Vague, vai mandando beijos de todas as cores, pelo menos até aparecer um arco-íris nesta caixa de comentários. :))

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 02:47 PM

Mas a questão é pertinente e foi bem colocada, pois se eu tivesse descartado essa hipótese estaria a cometer uma flagrante injustiça. Mas não, a amiga que eu conheci era mesmo desbocada por natureza e nunca deixava algo por dizer. E esta nova versão, em um ou dois apontamentos que até me engasgaram, mostrou que mantém o mesmo "estar-se a cagar prás consequências".
Só não o exibiu, e percebe-se melhor tendo assistindo à coisa, para não contrariar o meu parceiro de mesa. Foi uma questão diplomática, ao que entendi, mas não me envolvia de todo (até pela natureza da relação que mantivémos, que não se prestava a cuidados desse tipo).
Tu és uma leitora atenta, pá...

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 02:58 PM

"Tendo assistindo" é conversa de tubarão engripado. Una errata influenza.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 03:00 PM

Bom, então não estava mesmo para se dar ao trabalho, talvez. Pode ter pensado, este tipo é um palerma, mas eu não estou para me pegar com ele (o que considero uma atitude de criatura inteligente). :)

O cómico no meio disto tudo é tu teres deixado os dois na mesa! O que será que conversaram depois? Não podes telefonar e depois contar-nos o resto da história? Essa parte estou curiosíssima!

Eu só parece que estou distraída, pá.

Publicado por: catarina às março 15, 2005 03:14 PM

Engraçado que ainda hoje comentei lá no meu blog: nos meus amigos, na família, no meu amor e no meu país, só Eu posso achar defeitos..e não os revelo..rsrsr . Bj

Publicado por: agatha às março 15, 2005 03:24 PM

Bom, imagino que depois de eu sair à papo-seco e de se esgotarem os argumentos quanto ao outro desgraçado deve ter-me tocado alguma chibatada pela inconveniência.
Ou então entenderam-se às mil maravilhas e acabaram a noite beijando-se ternamente à beira do Tejo, silhuetas recortadas contra o luar.
Ou então...

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 03:24 PM

A postura de cada um muda muitas vezes com o tempo
E se ela era desbocada pode ter deixado de o ser, aprendido a conter-se, como quem chega à conclusão de que há discussões que não valem a pena
Por mim, sei o que eu faria numa situção dessas
Certamente que com um sorriso diria que cada um é livre de pensar o que quisesse à cerca dos outros, mas que eu agradecia que não ofendece quem não estava por perto para se defender
(Aplaudo a tua saida - gande Tubarão)

Publicado por: sofia às março 15, 2005 03:38 PM

Colocaste a hipótese de ela ter dito meia dúzia de tretas inócuas e agradáveis sobre o tal outro por uma simples questão de diplomacia e aquela cortesia que os anos nos ensinam que é melhor usar?

Publicado por: Hipatia às março 15, 2005 05:59 PM

Coloquei, Hipatia, mas pude constatar por dois episódios em que ela manifestou o seu mau feitio costumeiro que nada mudou nessa vertente. E em ambos os casos, no meu entender, a reacção dela podia ter causado muito mais estragos (no sentido literal) do que se tivesse simplesmente manifestado o seu interesse em acabar com aquele tipo de conversa. Nem precisava de defender o amigo ausente, bastava pedir para o assunto ficar por ali. E não o fez.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 06:53 PM

Precisamente, Sofia. Teria bastado pôr as coisas nesses termos. Mas nem tentou, apenas sorria e fazia que sim com a cabeça. E como não é burra, fê-lo porque entendeu ser a atitude correcta a tomar. Nesse caso, deixou de corresponder à imagem da pessoa que estimei e passamos bem um sem ou outro por mais uns anos...

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 06:59 PM

Eu concordo contigo, Agatha. Ou melhor, não vejo nada de mal nessa posição.
Mas o que entendo por amigo não desperdiça o meu tempo a cortar impunemente na casaca de outra pessoa. Nem baixa os braços perante alguém que se comporta dessa maneira.
Por isso, a situação deu-me carta branca para escrever esta posta. Até porque só eles e eu podemos identificar os protagonistas...

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 07:06 PM

Com o crescimento uma pessoa pode tornar-se menos desbocada (aconteceu-me...) e, sobretudo, perceber que há sempre vários lados para cada questão. Isto implica perceber que sobre uma mesma pessoa podem existir diferentes leituras, porque não há qualidades e defeitos, o que há é características que têm, simultaneamente, expressões positivas e negativas. Podia ser um caso de tolerância. Em situações semelhantes já tenho dito "não avances por aí que ele é muito meu amigo", mas também já me aconteceu ficar a ouvir, na curiosidade de saber como é possível uma leitura tão díspare. E se calhar ficaste sem saber se ela o deixou enterrar-se até ao fim para depois o desancar deitando abaixo os argumentos dele, como eu já vi um amigo meu fazer: ficou a ouvir tudo com um sorriso expectante e divertido (uma armadilha) e no fim desancou o tipo que dizia mal do seu amigo sem sequer o conhecer bem.

Publicado por: susana às março 15, 2005 07:42 PM

Oh Sharkinho, tenho pena que tenhas deixado de ser amigo dela, uma vez que «o que entendo por amigo não desperdiça o meu tempo a cortar impunemente na casaca de outra pessoa.»

Também comentas que «Teria bastado pôr as coisas nesses termos. Mas nem tentou, apenas sorria e fazia que sim com a cabeça. E como não é burra, fê-lo porque entendeu ser a atitude correcta a tomar.» Posso perguntar-te, muito descaradamente, se quando alguém teu amigo não tem a atitude que tu esperas dele, deixa de ser teu amigo? Ou um teu amigo tem de comungar totalmente das tuas ideias? Ou quem não está contigo, está automaticamente contra ti?

Eu só te digo isto porque aceito que os meus amigos tenham ideias, atitudes e comportamentos diferentes dos meus. Somos amigos pela comunhão de momentos, por nos apoiarmos, por nos ouvirmos, por partilharmos coisas que não faríamos com outros. A bem dizer, ninguém é de ninguém.

Publicado por: maria arvore às março 15, 2005 08:12 PM

E já agora uma pergunta: e entre o sorriso fácil/silêncio q sugere concordância tácita e o repúdio q manda bugiar não há meio termo tendo em atenção todos as simpatias e antipatias existentes?


Uma pessoa pode estar dividida entre lealdades a pessoas diferentes mas então q manifeste isso de uma forma que não susceptibilize ninguém. Eu ficaria desapontada e magoada se em relação a mim, os meus amigos e aqueles a quem concedi confiança jogassem com um pau de dois bicos e não me defendessem, não me dessem o benefício da dúvida.

Eu nestas coisas das lealdades, tenho mesmo opiniões muito ferrenhas, desculpem-me lá.

Publicado por: vague às março 15, 2005 08:35 PM

Claro que corri esse risco, Susana. Mas existiram detalhes a que vos poupei na posta que não me deixaram margem de manobra para acreditar na hipótese que levantas. Coisas que a gente conhece nas pessoas e que nos permitem interpretar as suas intenções. E ao longo do tempo em que estive a sós com ela percebi que nada mudou na sua forma de (re)agir. Continua a explodir na hora e nunca adia as suas bujardas. E claro que não consigo resumir numa posta todos os indicadores que me levaram à conclusão que referi.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 08:40 PM

As coisas não são assim lineares, Maria. Há algum tempo que eu não sabia nada da rapariga, pelo que a nossa relação já nem existia de facto senão na memória. E pelo conjunto do que vi e ouvi (recordo que não podia incluir tudo na posta) não encontrei o elo de ligação entre o que sou hoje e o que ela me transmitiu de si.
Não espero nada dos meus amigos senão o respeito por algumas merdas que acredito essenciais para a coisa funcionar, entre as quais a lealdade (por ser das características que mais valorizo nas pessoas que me são próximas) e a frontalidade (como a tua, por exemplo).
No resto, a diversidade de opiniões não me incomoda nem atormenta.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 08:55 PM

É nessa tecla que eu venho insistindo, Vague. Bastava que ela, fiel aos princípios que lhe conheci, interviesse na boa só para mudar de assunto (pois aquele deveria desagradar-lhe) e eu pouparia uma grande seca e esta posta teria outras cores na sua concepção.

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 09:00 PM

Suponho que o post seja para alimentar alguma polémica (perdão.. leiam-se troca de ideias)... Também pode ser um desabafo de quem já não acredita em princípios de ética humana...
Hummm...
Da minha experiência enquanto ser humano, reconheço a tolerância para com os outros como uma grande sabedoria ;-)

Publicado por: Caliope às março 15, 2005 09:24 PM

Sabes, Sharkinho... acho que preferia a conversa dos beijos ali de baixo. É que eu não gosto nada de deslealdades mas tenho tanta dificuldade com os pretos e brancos...

Publicado por: Hipatia às março 15, 2005 09:54 PM

Ok. Amanhã vou falar de amor. E talvez de sexo, um bocadinho. E só para não deixar que se extremem as conclusões, posso garantir que quando e se reencontrar a minha amiga (o que é algo previsível por via dos sítios onde paramos) vou colocar-lhe a questão abertamente e sem reservas e às tantas ainda a convido para vir blogar um destes dias e assim a gente faz as pazes e metemos tudo em pratos limpos. A Caliope é sábia. E eu, Hipatia, tenho dias. Mas por norma, fico mais no cinza...

Publicado por: sharkinho às março 15, 2005 10:11 PM

Lindo sharkinho ;)

Publicado por: maria arvore às março 15, 2005 11:00 PM

E um enorme beijão!

Publicado por: maria arvore às março 15, 2005 11:43 PM

Com "amigos" tolerantes como o Sharkinho, quem precisa de inimigos? Que historinha tão reveladora (as usual).

Publicado por: joão às março 16, 2005 03:53 AM

Ao menos sabes com o que podes contar, "João". E com tantas revelações, a que tu não faltas, não tarda muito escreves uma tese sobre o assunto, não?
Estou cá só para te desvendar todos os meus mistérios...

Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 09:30 AM

Podes crer que não falto, compadre Sharkinho. Nunca ouviste falar da "atracção pelo horrível"? Olha, é a minha cruz.

Publicado por: João às março 16, 2005 12:48 PM

Cada um tem a que merece...

Publicado por: sharkinho às março 16, 2005 03:47 PM