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abril 17, 2005
A POSTA FICCIONADA
Tinha cerca de vinte anos quando a conheci. Por mero acaso, na sequência de conversas cruzadas à mesa de um bar. O que dizia prendeu-me a atenção. Mais o fogo no seu olhar. Destoava em absoluto do grupo de betos que a rodeavam e isso tornou-se mais evidente à medida em que o nosso diálogo a dois evoluía. Quando ninguém reparava, sugeri-lhe que fossemos ao balcão buscar mais cervejas e ela anuiu.
Uma hora depois ainda lá estávamos, conversa puxa conversa. Falámos de política no âmbito estudantil, da Revolução e até de futebol. Acabámos a falar do amor.
O cabelo, muito comprido, parecia talhado para adornar aquele rosto (dos mais bonitos que algum dia conheci). E eu bebia-lhe as palavras, encantado, cheio de paciência pela oportunidade ideal. Um olhar de tristeza que ela lançou ao seu grupo, que se preparava para debandar, foi o sinal que o destino me deu.
- Tens horas para chegar a casa?
Disse-me que não, com uma expressão de curiosidade.
- Diz-lhes que na nossa conversa descobriste que joguei à bola com um primo teu e que me ofereci para te levar a casa, mais logo.
E ela, atordoada, assim fez.
Entrámos para o carro dez minutos depois. Revelei-lhe a minha vontade de prolongar a conversa por mais algum tempo, incapaz de a imaginar longe de mim, um clique por dentro que me anunciou o nascimento de uma paixão. E ela, receosa mas irreverente, sorriu. Quem cala consente. Liguei o motor.
Olhou-me nos olhos, perplexa, quando parei junto à fronteira com Espanha. Vamos? Tu és doido! Pois sou...
De vez em quando distraia-se da conversa, perguntava-me onde nos dirigíamos. E eu tranquilizava-a, afastava-lhe os medos com o mesmo carinho com que lhe afastava dos olhos o cabelo que os tapava. Ela acabaria por adormecer, algumas horas depois. E eu galguei quilómetros sem sono, inebriado pela visão do seu rosto que partilhava a custo com a autoestrada para Cadiz.
Acordou a bordo do ferry, a meio do Estreito, com Gibraltar pelas costas a desaparecer na bruma e o recorte das montanhas marroquinas a desenhar-se diante de nós. Ensonada, levou algum tempo a perceber e depois abriu a boca de pasmo. Mas tu és completamente maluco! Beijei-a pela primeira vez e percebi nesse instante que a história não acabava ali.
O sol brilhava em Tânger quando pisámos África pela primeira vez. Nos olhos dela, também. Deliciada com o que estava a acontecer. Sentíamo-nos tão próximos que mal conseguíamos afastar as nossas peles. Parávamos nos locais mais belos para matar as saudades dos beijos anteriores. Cada vez mais amantes, cada vez mais amor.
Quando a noite caiu convidei-a para partilhar comigo uma cama, num pequeno hotel à beira de um vale. E ela, rendida, aceitou.
Tremíamos ambos quando entrámos no quarto. De ansiedade e de emoção. E agora, perguntou. E agora fechas os olhos e embarcas para Plutão, foi o que lhe respondi, enquanto a puxava sem pressa para junto de mim.
Percorri-a enquanto ela deixou. Até não me aguentar mais por mais tempo fora de si. Descontrolada, como eu. Mais apaixonada a cada minuto que passava, comprimia-se contra mim como se quisesse entrar com a sua pele pela minha. E eu apertava-a em abraços que quase lhe tiravam a respiração, espalhava as mãos como um polvo pelo corpo magnífico daquela jovem mulher. Como se quisesse gravar-lhe em cada pedacinho uma marca da minha passagem, na vertigem de um permanente arrepio.
E ela depois, arrojada, a mimar-me. E os dois abraçados outra vez, como lapas, como um. Lacrados pela paixão que se gritou.
Tenho mais saudade ainda quando revivo cada uma das nossas carícias ou te recordo felina sobre mim. Mas é saudade feita da esperança que algures os teus olhos beijarão estas palavras. Saberás que não te esqueço desde então, todos os dias. A minha pele ainda é a tua.
Publicado por sharkinho às abril 17, 2005 03:51 AM
Comentários
Ainda bem que ligaste o motor para incendiar o lacre.
E quando escreves «comprimia-se contra mim como se quisesse entrar com a sua pele pela minha» para além da beleza da aliteração, tocas no ponto mágico que dá a intensidade das coisas na nossa memória: a sensação de fusão.
Publicado por: maria arvore às abril 17, 2005 10:53 AM
Ficcionada?
Publicado por: Hipatia às abril 17, 2005 03:36 PM
Espero que o leia...bebi uma a uma estas palavras...estas emoções, é uma pena que a própria não o faça, na certa ainda a pele dela também é tua.
Beijos Tuby e és lindo sabias?
Publicado por: Luna às abril 17, 2005 03:56 PM
Isto deixou-me sem fôlego... Meu Deus, como eu estava agarrada ao texto até chegar ao fim!
Publicado por: Mulher às abril 17, 2005 04:23 PM
Gota a gota, Maria Árvore. E sem dúvida que apanhaste bem a mais forte das sensações que tentei transmitir. A fusão é o conceito primordial.
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 04:44 PM
Olá, Hipatia! Já regressaste das férias, rapariga?
Ficcionada sim. Num ou dois detalhes...
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 04:46 PM
Mantém a esperança de que ela as lerá, Sharkinho. Uma história tão forte, tão carregada de emoções não pode ter deixado de a marcar da mesma forma que o fez contigo...
Publicado por: Mar às abril 17, 2005 04:53 PM
Bolas, arrepiei-me. Talvez por ter uma história na minha vida que me fizeste recordar. Não fomos até Tânger mas muitas vezes viajamos à lua ou até ao outro lado da terra.
E hoje, passados 15 anos, ainda digo (também) que a minha pele é a dele.
:)
Publicado por: Lisa às abril 17, 2005 05:05 PM
Ò Luna, tenho o ego transformado num balão. :)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 05:10 PM
Não imaginas, Mulher, como me agrada que ponhas as coisas dessa forma. É sempre uma gaita investir em postas do tamanho de lençóis.
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 05:12 PM
É mesmo isso Mar. E eu espero que o destino que separou os protagonistas seja capaz de os reunir outra vez, um dia. Há pessoas que se incrustam em nós como mexilhões.
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 05:17 PM
Não tenho qualquer dúvida, parceiro. E acho que o destino lá tem os seus atribulados caminhos para fazer cruzar as pessoas quando elas menos esperam. ;-)
Publicado por: Mar às abril 17, 2005 05:31 PM
O post é comprido, mas bem conseguido. Gostei.
Publicado por: Mulher às abril 17, 2005 05:52 PM
Então ele ia começar a reflectir sobre blogs, blogar e coisas assim, e depois atira-nos com uma história de amor (que de facto parece muito pouco ficcionada)? A isso se chama defraudar as legítimas expectativas dos teus leitores. looooool!
(Fico curiosa é quanto ao desenrolar da história; não viveram felizes para sempre em Marrocos, isso é certo... Sou mesmo desmancha-prazeres, não sou? ;))
Publicado por: 1poucomais às abril 17, 2005 05:53 PM
És, Zu. Sobretudo porque em Marrocos têm à brava material do melhor para contribuir para a felicidade deste tubarão. :)))
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 06:17 PM
E os cheiros, Lisa? E a voz? E a cumplicidade? Estar vivo é sentir as coisas dessa forma, não é?
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 06:20 PM
Curiosa esta forma de reflexão sobre o "blogar"...
e eu bem dizia que o teu lápis deveria ser o cor de pele :)
Publicado por: susana às abril 17, 2005 06:53 PM
Eu tenho um blogar muito abrangente, Susana, embora mais para o cutâneo. Além disso, a semana só começa amanhã...
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 07:02 PM
E posso ser cusca e perguntar quais são os detalhes ficcionados?
0:)
Publicado por: Hipatia às abril 17, 2005 07:27 PM
Claro que podes ser cusca e perguntar quais os detalhes ficcionados, Hipatia. 0:)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 07:46 PM
Então mas esta não era a posta sobre os bloggers que ficcionam a realidade de forma que até parece que é dor a dor que deveras sentem?... ;)
(e organiza-se uma excursão a Marrocos, ou não? ;)
Publicado por: maria arvore às abril 17, 2005 08:39 PM
Estar vivo é sentir que tudo ainda é possível, até o reencontro e o epílogo de conto de fadas. Embora se saiba que não é real, que será pouco provável ou impossível sempre se pode sonhar com isso. Os cheiros, as vozes, os momentos ficam e só morrem connosco.
Há histórias que marcam muito e as memórias vivem. Só elas, mas é melhor pouco que nada.
Re-bolas, fizeste-me ficar mesmo melancólica. E a pensar no meu 2046, que até sei onde anda, mas que nunca será meu.
Publicado por: Lisa às abril 17, 2005 08:48 PM
Lamento desiludir-te, tubarãozinho, mas a semana começa hoje. O domingo é o priemiro dia da semana, por isso é que a segunda é segunda e por aí fora.
Publicado por: curioso às abril 17, 2005 09:46 PM
Eu queria dizer semana de trabalho, pá. (tás a ver se me lixas, manganão...) ;)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 10:08 PM
Ò Lisa, tu desculpa, até porque o teu comentário está muito bonito, mas essa do teu 2046 chamou a minha atenção. 2046? :)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 10:10 PM
Eu sei que ficaria melhor no "post" sobre "O tamanho da testa", mas ia ficar muito longe e perdia-se para algumas pessoas...
Não resisto a dar-vos esta novidade: segundo a Pública (a revista do Público, que sai ao domingo), olhar durante 10 minutos para seios femininos - daqueles bons como o milho (sic) - equivale para um homem (que se interesse pelo assunto, claro) a meia hora de ginásio.
E esta, hein?
Publicado por: curioso às abril 17, 2005 10:12 PM
Não, Maria, esta era a posta do blogger que acredita em mensagens na garrafa pois, por coincidência, até pode encaminhá-las pelo oceano com a ponta do focinho. Quase como um código postal marinho...
(Excursão a Marrocos? Ia ser o bom e o bonito...)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 10:15 PM
E tu estás em boa forma, Curioso?
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 10:36 PM
Olhar, simplesmente olhar, faz o efeito de meia hora de ginásio? Desculpem a curiosidade, mas o que é que faz o mesmo efeito nas mulheres? É que, caramba, deixava de pensar em ir pró ginásio :DDDDD
Mensagem na garrafa? Quer dizer que esta posta tem destinatária que a poderá encontrar no mar blogosférico? ;)
E agora noutro tom bem diferente. Tom de pele. A minha pele não permaneceu como a de ninguém do passado. É a pele do futuro ("message in a bottle..." - quem cantava isso?)
Publicado por: 1poucomais às abril 17, 2005 10:51 PM
Sting, Zu :)))
Publicado por: Hipatia às abril 17, 2005 10:57 PM
Eu sei, Hipatia ;)
Publicado por: 1poucomais às abril 17, 2005 10:58 PM
Sempre gostei de "messages", em "bottles", que são lançadas pelo Mar dentro, desafiando as marés e o destino.
E sempre gostei do Sting. ;-)))
Publicado por: Mar às abril 17, 2005 11:04 PM
Cusca!
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 11:45 PM
Não era para ti, sócia... :)
Publicado por: sharkinho às abril 17, 2005 11:50 PM
Devia ser para mim, ehehhe! Mas ninguém me esclarece quanto àquela coisa da não-ida ao ginásio? ;)
Publicado por: 1poucomais às abril 18, 2005 12:06 AM
Eu devo ter sido das 1ªs pessoas a ler esta posta, li-a pouco depois de escrita, ainda tentei comentar mas sabes? vieram-me as lágrimas aos olhos. Sim, estava piegas e depois? :)
(Acho que a MulherSabida q escreveu lá em cima ainda me vai dizer algo...:P)
Publicado por: vague às abril 18, 2005 07:48 AM
2046: o último filme de Wong Kar-Wai, que realizou também 'Disponível para Amar'. Aquele é uma quase sequela deste (quase porque se podem ver em separado, eu vi o 2046 primeiro). 2046 é o nº de um quarto de hotel onde duas das personagens do 'Disponível para Amar' se encontravam, duas pessoas que se amavam mas não puderam tornar o seu amor uma realidade. É um tempo e um lugar, porque o amor não é só encontrar a pessoa certa, é encontrá-la no tempo e local em que se pode amar. Em 2046 há um homem que procura aquele quarto como quem procura a pessoa que entretanto se foi, como quem busca esse tempo e o lugar. Dois filmes fascinantes e que me fizeram pensar se já estive em 2046 sem dar por isso (como eles), se estou em 2047 ou 2045. Bom, só vendo os filmes.
Não queria ser hermética, escapou-me :)
Publicado por: Lisa às abril 18, 2005 10:42 AM
Lisa: Disponível para Amar é certamente dos meus filmes preferidos. E a banda sonora então...
Vague: Sim, gostei muito do que ele escreveu. No meu caso particular, fez-me lembrar o meu primeiro namorado. Não se pensa no dia de amanhã. As coisas acontecem. E entre realidade e ficção, não vemos muita a diferença.
Publicado por: Mulher às abril 18, 2005 10:50 AM
Lisa: Disponível para Amar é certamente dos meus filmes preferidos. E a banda sonora então...
Vague: Sim, gostei muito do que ele escreveu. No meu caso particular, fez-me lembrar o meu primeiro namorado. Não se pensa no dia de amanhã. As coisas acontecem. E entre realidade e ficção, não vemos muito a diferença.
Publicado por: Mulher às abril 18, 2005 10:51 AM
E eu que moro tão longe do mar!...
Bom dia
Publicado por: sofia às abril 18, 2005 10:56 AM
Mulher: sem dúvida um grande filme. O 2046 não lhe fica atrás... E tem graça, esta posta tb me fez lembrar o meu primeiro amor.
Publicado por: Lisa às abril 18, 2005 12:52 PM
Fónix :)
Publicado por: Ricardo Garcia às abril 18, 2005 04:55 PM
o post é muito bonito. é por estas e por outras que não podes parar de escrever.
parabens
Publicado por: transpose às abril 18, 2005 06:31 PM
Parar de escrever? Nem pensar! É até que o teclado me doa... (obrigado, Transpose)
Publicado por: sharkinho às abril 18, 2005 07:02 PM
Às vezes dá-nos ganas, não é, Ricardo?
Publicado por: sharkinho às abril 18, 2005 07:03 PM
Também eu, Sofia...
Sobretudo do Índico, que é o meu mar de eleição.
Publicado por: sharkinho às abril 18, 2005 07:05 PM
A rapariga da posta não se importou nada de se ficar pelo Mediterrâneo...;-)
Publicado por: Mar às abril 19, 2005 12:31 AM
Mas olha que o rapaz, bem conversadinho, só parava em Mombaça... :)
Publicado por: sharkinho às abril 19, 2005 03:09 AM
E o Curioso, que deixou a Zu ali pendurada à espera da resposta? Eu se pudesse ajudava-a, mas não me ocorre assim nada à primeira vista...
(tá na hora de assobiar para o tecto, como quem não quer a coisa)
Publicado por: sharkinho às abril 19, 2005 03:12 AM
Eu para ajudar a esclarecer a Zu, só me ocorre dizer que, mesmo que seja verdade, eu acho que há outras opções muito mais interessantes do que apenas "olhar"...(mas isto sou eu também só a fingir que tou a assobiar...);-)))
Publicado por: Mar às abril 19, 2005 12:00 PM
Que dupla de passarinhos... :)))
Publicado por: sharkinho às abril 19, 2005 12:28 PM
Pois, eu também fiquei com dúvidas sobre o simples "olhar". Que olhar para seios femininos não faz qualquer efeito em mim que me leve a não precisar de ginásios já sei (tomo banhinho todos os dias, nuinha, né?). Olhar para certa partes do corpo masculino - só olhar também nunca equivaleu a musculação - no máximo, dará para me esquecer que é hora de almoçar e jantar, e por isso emagrecer um 'cadito. Mas só com olhar não me parece que se vá mais longe do que isso (irão os homens? sortudos...)
(Mais uma assobiando para o ar - o céu está cinzento hoje, não está?)
Publicado por: 1poucomais às abril 20, 2005 02:26 PM
Ena pá, o que para aqui vai, parce o clube do Bolinha mas ao contrário. ;) Menino não entra?
Publicado por: Monty às abril 22, 2005 12:48 PM
Não desfazendo nos restantes, pois não há "hierarquias" de qualquer espécie no charco, este último comentário (apesar de provocador, claro) sabe-me mesmo bem. É que, por motivos que me escapam, gosto mesmo deste gajo.
A maioria dos meninos têm a mania de que o amor e o romance não são temas que os devam (pre)ocupar. Nem comentam...
Publicado por: sharkinho às abril 22, 2005 03:25 PM