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abril 05, 2005
O HOMEM QUE SÓ VI UMA VEZ

O meu avô, como tantos homens da sua geração, constituiu duas famílias. Uma legal, institucionalizada. A outra não.
Tinha mulher e um filho quando, a centenas de quilómetros, conheceu a que viria a tornar-se na minha avó. Apaixonou-se perdidamente. Muito se esforçou para lhe arrancar um beijo, mas depois de o conseguir as coisas complicaram-se e muito. O primeiro filho ilegítimo surgiria e outros dois se seguiriam.
Os anos passaram e o meu avô não reunia coragem para tomar uma decisão. Acabaria por tomá-la, optando por se pirar para África, de onde regressaria, depois de amealhar e de estoirar uma apreciável fortuna em extravagâncias, à primeira família que deixara vários anos antes. Para trás, na capital, deixou uma mulher solteira com três bastardos nos braços para criar.
Só conheci o meu avô na adolescência. Recusei-me a dirigir-lhe a palavra durante algum tempo, pelo desprezo que sempre lhe dedicara pela sua deserção. Mas acabámos por trocar algumas palavras, que ele forçou e eu percebi porquê quando o vi morrer pouco depois. Ele já sabia e por isso regressara. Para aplicar a única justiça que o destino lhe permitia no escasso tempo que lhe restava nessa altura, para dar o nome aos filhos que abandonou. E eles aceitaram, para se livrarem do estigma do filho de pai incógnito que os feria no orgulho como uma maldição. Reconciliaram-se. Faltava eu, o neto rebelde que lhe rejeitou sem apelo a oferta de mais um apelido. E ele deitou-se à tarefa, conversou comigo e ofereceu-me as explicações que exigi. Falou-me de amores que cegam, de deveres que condicionam. Assumiu perante mim o arrependimento possível mas fez o que pôde para me tornar explícitas as suas razões.
Depois afastou-se outra vez e não voltaria a vê-lo até ao seu fim, dois ou três meses depois.
O que me fez acreditar na sinceridade daquele ancião foi a chispa no olhar, sempre que falava da minha avó e do amor proibido que ambos viveram enquanto durou. Percebi nesse instante que era mesmo de amor que se tratava, uma paixão impossível de reprimir que o enlouqueceu. Jogava certo com a versão da minha avó, que nunca se mostrou arrependida de se entregar ao homem mais incrível que afirmava ter conhecido, mesmo tendo em conta aquilo porque passou. Nunca deixaram de se amar. Juntando a versão dos dois, serena e conciliatória, tudo mudou de figura.
E quando, por uma vez, o meu avô viu reunidos os filhos e os netos que deixava para o perpetuarem, vi no seu sorriso que, tal como eu e toda a família, também ele à sua maneira conseguiu encontrar uma forma de perdão para si próprio no saldo final daquela salganhada.
Continua difícil de entender o seu acto de aparente cobardia, à luz de diversas exibições de coragem que protagonizou ao longo da vida e me foram relatadas. Mas o tempo ensinou-me a entender-lhe a força das emoções que o guiaram por uma vida tão irregular. Movia-o a paixão arrebatada, a reacção impulsiva e pouco reflectida que, diz quem melhor o conheceu, herdei de entre muitos traços da personalidade mais a expressão do olhar daquele homem que vi apenas uma vez.
Publicado por sharkinho às abril 5, 2005 04:19 PM
Comentários
Flor colhida não volta ao galho.
Publicado por: bill às abril 5, 2005 04:54 PM
Com o nosso próprio amadurecimento, começamos a relativizar as coisas, a matizar as cores :)
Obrigada por este texto, sharkinho
Publicado por: jacky às abril 5, 2005 04:54 PM
E cada macaco no seu, não é Bill?
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 04:58 PM
Matizar as cores é mesmo a expressão na mouche, Jacky. Obrigado a ti, por me leres.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 04:59 PM
A chispa no olhar é, sem dúvida, a melhor garantia de sinceridade que podemos obter de alguém. :-)
Publicado por: Mar às abril 5, 2005 05:02 PM
E hortelão sem hortelã, não tem horta amanhã.
Publicado por: bill às abril 5, 2005 05:02 PM
A paixões impossivel...arrebatada e impulsiva...tenho que deixar de aqui vir...texto magnifico! Obrigada
Publicado por: Luna às abril 5, 2005 05:05 PM
Os olhos são mesmo como o algodão, não é, meu elemento natural?
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 05:20 PM
Atão, Luna, que raio de conversa é essa? Tens que deixar de aqui vir? E depois dizes que o texto é magnífico? Diabos me carreguem se eu te entendo, rapariga!
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 05:23 PM
Olhos que vêem, coração que deseja.
Publicado por: bill às abril 5, 2005 05:23 PM
Semear para colher, Bill, nem que sejam ventos.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 05:23 PM
Vento que venta cá, venta lá.
Publicado por: bill às abril 5, 2005 05:28 PM
Até manda ventarola!
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 05:33 PM
Eu ia falar de olhos e olhares... mas isto já vai no vento!
O texto está fantástico - a forma como falas das tuas coisas...
Fico assim! (deve ser da ventarola)
Publicado por: sofia às abril 5, 2005 05:39 PM
Tenho uma tia no Canadá e tive um avô que nunca deu qualquer explicação. Não sei se alguma vez seria capaz de lhe perdoar as tantas de lágrimas que vi a minha avó chorar...
Publicado por: Hipatia às abril 5, 2005 06:34 PM
A vida ensina-nos a não julgar sem conhecer bem os motivos que levaram a determinada conduta. Ainda bem que no final houve reconciliação e não ódio.
Publicado por: 1poucomais às abril 5, 2005 07:57 PM
Segura o chapéu, Sofia. (e obrigado, mais uma vez)
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 08:05 PM
Coincidência, Hipatia. O meu meio-tio também se radicou por essas paragens.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 08:06 PM
Nem mais, Zu. Levou tempo até conseguir fechar de vez esse ciclo absurdo, mas felizmente cheguei lá.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 08:07 PM
Shark,
estou sem palavras... acho que as gastei todas na posta anterior, tão diferente desta...
Publicado por: Jorge Morais às abril 5, 2005 08:32 PM
É fácil ficar sem palavras quando leio os teus textos... Sabes mexer com as emoções de cada um de nós, que estamos do outro lado...
Parece que todos temos histórias de familiares ausentes. O meu avô paterno partiu para o Brasil deixando para trás a minha tia e a minha avó grávida do meu pai. Suspeito, sinceramente, que devo ter espalhado por aí alguns tios, dado o galã que era o meu avô... O meu pai só o conheceu uma hora antes de falecer... Nunca lhe perdoou!!! Ainda hoje é tabu falar dele! Algo que ficou para sempre por resolver. Nem todas as histórias são verdadeiras histórias de amor.
Publicado por: CotaMarada às abril 5, 2005 08:39 PM
Tuby é como diz o Jorge....voltei para ler mais uma vez. Não é fácil vir a esta casa e parecer olhar para um espelho de sentires...paixão arrebatável...reacção impulsiva e puco reflectida...não me corre nas veias o seu sangue nem terei o seu olhar mas...como o entendo!
Publicado por: Luna às abril 5, 2005 09:33 PM
Tão diferente mas tão igual, parceiro. São tudo pedaços de tubarão mais qualquer coisinha...
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 09:35 PM
Huummmmm... em toda a minha vida só chorei em dois filmes: "Reds" e "Closer". Pelo que Sharkinho, se um dia passares da escrita à realização, avisa-me previamente para levar um balde para o cinema.
Publicado por: análise maria às abril 5, 2005 09:38 PM
É curioso, Cota, mas não vos vejo do outro lado quando escrevo as minhas postas. Do outro lado de uma mesa, talvez, mas do meu lado da vida tal como a experimento aqui. É um pouco confuso, bem sei, mas explica a minha forma de abordagem aos assuntos. A mesma que daria se os tivesse à minha frente, não faço grande diferença.
E não concordo contigo num aspecto: todas as histórias de amor são verdadeiras. Mas nem todas têm um final feliz.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 09:41 PM
Eu hoje também consigo entendê-lo, excepto no capítulo da fuga para África (onde nem imagino os estragos que terá feito). Mas até há pouco tempo atrás não conseguia perdoar.
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 09:44 PM
Tás a falar a sério, ò maria dos baldes?
Ou o balde é prás pipocas? ;)
(Ah, e se TU passares da escrita à realização avisa-me também, please!) :)))
Publicado por: sharkinho às abril 5, 2005 09:47 PM
Conversas à mesa... Gostei da ideia... Eu levo o tiramisu (especialidade minha ;) )... Quem leva as bebidas???
Não sei se a história dos meus avós foi uma história de amor...
Publicado por: CotaMarada às abril 5, 2005 10:41 PM
Às vezes, também falo (do verbo falar) a sério. Ou seja, eu costumo estar nua debaixo de um "negligé" que aqui tirei.
(posso avisar-te logo que comece a fazer o "casting" ;)
Publicado por: maria dos baldes às abril 5, 2005 10:46 PM
É, os olhos não são capazes de enganar.
E eu "vejo-te" desse lado (mais uns poucos que têm esse previlégio), exactamente da mesma forma como estás aqui, no éter.
E é essa verdade em ti, que faz com que os teus posts se tornem tão autênticos, para todas as pessoas que aqui te lêem, sem nunca te terem visto.
Publicado por: Mar às abril 5, 2005 11:00 PM
Mar Maria, começo a ficar preocupada com os efeitos que as tuas palavras ultimamente andam a ter em mim :)))
Publicado por: Hipatia às abril 5, 2005 11:24 PM
E que efeitos são esses, Hipatia? 0:)
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 10:16 AM
Eu também te "vejo" desse lado, meu elemento natural. Aliás, por inerência da minha condição piscícola, vejo-te em toda a parte e a toda a hora... :)
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 10:20 AM
Eu vou, desde que impeçam seja quem for de gritar "corta!". É a minha fobia cinéfila...
Publicado por: Directed By às abril 6, 2005 10:24 AM
Todos a postos. Vamos repetir a cena pela 10ª vez.
Publicado por: Maria Bertolluci às abril 6, 2005 10:31 AM
Somos o que vivemos e o que herdamos ...
Também herdei do meu pai, uma forma apaixonada de viver por trás de uma fleuma aparente , que só nós entendemos .
Bom dia Sharkinho
Publicado por: Karla às abril 6, 2005 10:35 AM
All over, não é tubarão?
Atão "perquê" Hipatiazinha? ;-P
Publicado por: Mar às abril 6, 2005 10:52 AM
Pela 10a vez? Glup... (a pensar no cachet dos stunt men)
Publicado por: Produced By às abril 6, 2005 11:00 AM
Uma herança à maneira, Karla, não é? Conhecendo-te como conheço, até posso somar uma data de razões para louvar os méritos da tua progenitura. ;)
Um beijo para ti, amiga.
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 11:07 AM
Apesar de toda a legitimidade... nunca me lembro de ouvir falar de paixões... correspondidas.
Só e apenas de sofrimentos cumpridos e compridos. Sem brilhos, nem faíscas, que não fossem resinsas... e exigentes... obrigatórios, porque obrigados... ainda ssim evitando a(s) dos outros. Criticando e carimbando, as emoções sentidas, vivênciadas. E eu sentia-me zangada.
Trazia as faíscas todas, do outro lado, o brilho do AMor sentido do outro lado... e Zangava-me... Revoltava-me... Insurgia-me... Provocava...
Um Dia -tinha 20 anos -ela morreu... E eu não me demovi da minha zanga... jamais Amaria alguém porque Morreu. Contaram-me então a sua história. Por outra boca, que não a dela, sem os olhos dela, sem ela... E eu já não fui a tempo... de a Amar...
Nunca cheguei a Amá-la. Devo dizer, que me ofusca o brilho.
Publicado por: Partilhas às abril 6, 2005 12:15 PM
É, vais escrevendo a tua biografia - não? Uma curiosidade: avô materno ou paterno?
Publicado por: susana às abril 6, 2005 12:51 PM
Olha que pergunta curiosa, Susana. Mas, se não te importas, respondo-te off the record.
E sim, acho que tens razão nessa perspectiva da biografia. Embora não tenha sido (nem seja) essa a minha ideia quando me meti na blogaria, realmente uma boa parte das minhas postas resume a minha história. Narciso, o esqualo...
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 02:10 PM
Partilhas, o teu comentário não me deixa margem de manobra para uma resposta à altura da intensidade com que o escreveste.
Fico-me pelo desejo de que consigas recuperar, com o tempo, o brilho que sentes ofuscado. E que a tua perspectiva de paixão seja alterada, pois não vislumbro esperança alguma nas tuas palavras, pá. Isso entristece-me, pá.
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 02:22 PM
Sharkinho,
Enganei-te... foi sem querer.
Fico triste de não ter sabido por ela, a história da sua paixão unilateral, que tão infeliz a fez... Que tanto a amargou...
E por ter sido infeliz, criticava tudo e todos os que se apaixonavam... e fez-me a vida num inferno... com medo, que também a mim, me acontecesse o mesmo que a ela. E davamos-nos, mal. Muito mal.
Do outro lado, o pessoal, é mesmo é dado ao Amor e ao brilho.
O único brilho, que me ofusca, é nunca ter conseguido Amar, aquela Avó. É no fundo do meu coração, os carimbos, a que ela me votou, por brilhar demais... me terem doido tanto. E de ainda hoje... apesar de entender e perdoar... Não conseguir sentir algum tipo de Amor, por ela. E acredita, que eu Amo e como, pessoas que nunca vi!
Espero ter sido explicita, agora.
Publicado por: Partilhas às abril 6, 2005 02:41 PM
Foste explícita, agora. Perdoa-me a má interpretação. Um beijo.
Publicado por: sharkinho às abril 6, 2005 03:27 PM
Não tá aqui o João Pedro para realçar o detalhe mas tenho que admitir que tu a escolheres fotos para ilustrar os posts és um criativo do caraças. Aquele tubarão dissilulado pelas águas turvas, a fazer-se discretamente à vidinha, está demais.
Publicado por: Mar às abril 6, 2005 04:33 PM
E os teus olhos são lindos Shark ;)
Publicado por: Mushu às abril 6, 2005 08:25 PM
Tuby se precisarem de produção....
Publicado por: Luna às abril 6, 2005 09:05 PM
O João Pedro está aqui, sim senhor. Mas desta vez, nem a foto que se destaca: é o texto.
(O meu pai era igualzinho ao teu avô, Tuby.)
Publicado por: João Pedro da Costa às abril 7, 2005 01:16 AM
Mar: obrigado por reparares no pormenor. És uma leitora muito atenta e generosa nos comentários, sócia. Obrigado e um beijo marinho!
Publicado por: sharkinho às abril 7, 2005 09:42 AM
(cof cof) Mushu, pá, com essa é que tu me encavacaste todo... :)
Publicado por: sharkinho às abril 7, 2005 09:43 AM
Isso é que ia ser uma equipa de filmagens e pêras, ò Luna! ;)
Publicado por: sharkinho às abril 7, 2005 09:45 AM
De nada sócio. Sou apologista de elogiar quem merece ser elogiado e criticar na mesma medida. Mas tento sempre praticar mais a primeira opção. :-)
Publicado por: Mar às abril 7, 2005 09:50 AM
Pois, João Pedro, tal como eu refiro no texto houve uns anitos em que ninguém soube nada do meu avô...
Vem a meus braços, meu primo adorado!
Publicado por: sharkinho às abril 7, 2005 09:50 AM
Ó Jota, era só para ver se aparecias....resultou. ;-)
Publicado por: Mar às abril 7, 2005 09:50 AM
"Jota" de João.
(às vezes é preciso explicar tudo)
Publicado por: Mar às abril 7, 2005 09:51 AM
Obrigada pela partilha...
A vida, o tempo acabam por nos dar todas as respostas...
Um beijo
Publicado por: Maria Branco às abril 7, 2005 10:45 AM
Mushu não é o dragão da Mulan? Um dragão e um tubarão... ganda filme!
Publicado por: Especialista em filmes infantis às abril 7, 2005 03:41 PM
Filmes é com a Maria Árvore (mais a Luna na Produção e eu no papel de John Holmes anão). :)))
E fui eu, assumo, que lhe rasguei as calças (à dragona). Mas levei logo com uma baforada que até me esturricou a pontinha da barbatana...
Publicado por: Vasco Granja às abril 7, 2005 04:28 PM