« A POSTA RECADO | Entrada | ABERTURA FÁCIL »

abril 30, 2005

SALVAR UMA LÍNGUA

empata.jpg

Percebi, no dia em que pendurei pela primeira vez a toalha de banho no suporte que tinha mais à mão, o quanto nós homens temos de palermas. Fiquei todo orgulhoso, confesso, da proeza infantil que o espelho reflectia. Ganda pinta, pá, uma toalha tão grande e pesada e eu...? Espectáculo.
Quando era mais puto, estas glórias partilhavam-se. “Eu até sou capaz de aguentar mais de dez minutos com a toalha pendurada no coiso”. Extraordinário. Os outros riam-se mas por dentro ficavam em pulgas para experimentarem a ver se também eram capazes. E o mesmo raciocínio aplicava-se a qualquer proeza, real ou fictícia, que nos enfatizasse a virilidade aos olhos dos outros.

Andamos em permanente competição. Seja pela disputa da atenção de gajas (há tipos que são capazes das figurinhas mais patéticas no calor da refrega, mesmo assumindo o papel de empatas), seja pela simples necessidade de afirmação pessoal. Isso não morre na adolescência. Mais forte, mais poderoso, mais viril, mais sedutor, mais viril outra vez. E mais inteligente ou espertalhão, se nada do resto provocar o efeito pretendido ou o visado perceber que não tem hipóteses nesse domínio. A virilidade passa para a língua.

O problema da língua (e eu salvarei Uma pelo Monty) é que não dá para pendurar toalhas, ainda que bem ginasticada. Trinta e um de boca, qualquer lingrinhas sem cabide para uma peça de lingerie feminina que seja é capaz. Mas acaba por surgir o momento da verdade (ou não) e a língua por si só não o sustenta. Pensar com a pila e nomear a língua porta-voz não resolve o problema. É preciso algo mais e isso não deriva da simples confrontação das ideias ou da firmeza nas abordagens teóricas. Qualquer gajo sabe que é assim. Porém, a sede de conquista cega o guerreiro à sua debilidade e ele parte eufórico para o campo de batalha. Derrotado à partida.

Somos ainda mais palermas quando não entendemos que está na hora de desistir. Tornamo-nos maçadores, inconvenientes até. Mesmo depois de constatarmos que a língua mal pode com uma toalhinha de bidé não queremos dar parte de fracos. Acreditamos até ao fim e o fim pode espelhar-se num gigantesco trambolhão, na tangibilidade que os factos possuem quando nos esfregam nos olhos a evidência da figurinha de parvos que fazemos quando avançamos destemidos para o vazio.

Faz parte da nossa natureza machona, mas é algo que nos conduz muitas vezes para becos sem saída, para desgostos, embaraços e até para conflitos sem justificação. Dizem que é um problema hormonal e eu acredito, porque não?
Até porque preciso de uma explicação cabal para o facto de ainda hoje não resistir (só de vez em quando) ao teste da toalha para confirmar que ainda não está na hora de forrar a parede de toalheiros nem de confiar em exclusivo ao precioso músculo bocal a exibição dos meus atributos, o pilar onde assenta a minha estratégia.
Tê-los no sítio, lamentavelmente, é um mérito que nem a língua mais desembaraçada consegue substituir. E por muito que a pila se esforce, não há teoria que nos valha quando ao entusiasmo verbal temos que associar os actos que o substanciam.

Publicado por sharkinho às abril 30, 2005 11:54 AM

Comentários

Comentarei mais tarde, pq acabei de sair do banho e inexplicávelmente o toalhão saiu a correr ... vou ter de ir atrás dele.
Volto mais logo e mais composta.
Um beijo de bons dias, Shark.

Publicado por: Karla às abril 30, 2005 12:22 PM

Bom dia, Karla, e um beijo também. Tranquiliza o toalhão, o povo é sereno...

Publicado por: sharkinho às abril 30, 2005 12:54 PM

as vozes e as nozes!

Publicado por: jorge às abril 30, 2005 03:45 PM

Caracoles!

(só não percebi o que é que a língua do Monty aparece a fazer ali no meio :))))

Publicado por: Hipatia às abril 30, 2005 04:47 PM

A primeira coisa que me ocorreu quando acabei de ler foi um rodapé que passa na Funda São ( e que não reproduzo aqui pelo sentido das conveniências).

Mas esta competitividade machona fará sentido perante o facto de a primeira escolha feminina não se basear -objectivamente - na virilidade?...

Ou será a auto-estima masculina que precisa de conferir o funcionamento do brinquedo como a auto-estima feminina precisa de avaliar a firmeza das nádegas?...

Publicado por: maria arvore às abril 30, 2005 05:45 PM

Exacto!!!!!!!!!!Bom fim de semana!!!!!!!!!!!!!!

Publicado por: explosive4 às abril 30, 2005 06:13 PM

Shark,
desculpa lá, mas se perdes tempo a tentar segurar uma toalha com a língua, podes perder grandes oportunidades na vida. ;-)

Publicado por: Jorge Morais às maio 1, 2005 05:10 PM

Sharkinho!

Hoje vamos todos para Timbuktu!

Anda connosco escreves lá o post!

Publicado por: bin.tex às maio 1, 2005 07:19 PM

Viva, Jorge. O que vale é que às vezes as nozes são para quem dentes...

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 07:29 PM

Para quem tem dentes, queria eu dizer... :)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 07:30 PM

Olá Hipatia. A língua do Monty é só para disfarçar. ;)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 07:32 PM

Não te sei responder quanto à questão das nádegas, Maria, mas na minha opinião a competititvidade machona não passa, na maioria das vezes, de um dispêndio escusado de energia.

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 07:34 PM

Concordo Sharkinho. Mais vale ser apenas quem se é.
É como nas nádegas, recordar-me de um amigo meu que confessa ter tido sempre mulheres que não faziam parar o trânsito mas cujo cheiro o atraía.

Publicado por: maria arvore às maio 1, 2005 08:18 PM

Bom fim de semana para ti também, Explosive!

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 08:38 PM

A competitividade machona (e feminina), é uma reminescência ainda da maluqueira que deu um dia ao Darwin, quando se lembrou de provar que os mais fortes sobrevivem e os mais fracos perecem. Coisa de antropólogos...tal como o estudo das línguas em vias de extinção (Shark, não tinhas um expedição marcada para um ponto algures no globo???) ;-)

Publicado por: Mar às maio 1, 2005 08:39 PM

Acho que não apanhaste a ideia da posta, parceiro Jorge. Mas posso adiantar-te que só desperdiço as oportunidades que a vida me impede, por algum motivo, de agarrar. Luto sempre pelo que me interessa e nunca me distraio a rincar. E dou à língua um uso bem mais pragmático do que possas ter inferido das minhas palavras, pá... ;)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 08:42 PM

"Rincar" pode ser um misto do brincar que eu queria escrever e do trincar as oportunidades de que falamos, o que me impede de perder mais tempo com as toalhinhas do que o estritamente necessário...

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 08:44 PM

Timbuktu, Bin? Não me tentes...

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 08:45 PM

Sharkinho,
pragmático no sentido das regras de etiqueta para bem comer azeitonas?... ;)

(ok... eu já vou a caminho de Timbuktu :)

Publicado por: maria arvore às maio 1, 2005 09:04 PM

Ou uvas, ou ginjas, ou qualquer outra fruta vocacionada para o fitness linguístico, Maria. :)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 09:07 PM

É verdade, ò meu elemento natural. Mas andei entretido a ver a bola e a brincar com toalhinhas de bidé... ;)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 09:09 PM

Por acaso também passei pela experiência extraordinária de ver a Catedral a rebentar pelas costuras e gritar Gooooooolo!!!

Quem sabe ainda nos cruzámos por lá? ;-)

Publicado por: Mar às maio 1, 2005 09:45 PM

À entrada não foi, pois cheguei mais de meia hora atrasado ao jogo do Glorioso.
Mas foi de facto uma emoção gritar aquele penaltie do Simãozinho. (Embora o meu atraso na chegada à Catedral se tenha devido a outras emoções, mais fortes, que por acaso também gritei).
Futebol total, sócia, futebol total... :)

Publicado por: sharkinho às maio 1, 2005 09:57 PM

Quero crer que sim, com essas emoções prévias todas...;-)

Comigo foi à saída...mais de três quartos de hora para conseguir atravessar o mar de gente até às escadas...O que vale é que ia bem amparada. E que o jantar que se seguiu compensou todos os atrasos ;-)

Publicado por: Mar às maio 1, 2005 10:09 PM

Prezadíssimos bons chefes de família (Mar e Sharkinho, e mais os tais 6.000.000 de tugas:)
não acham que ganhar assim (com penalties à FCP:) não tem graça nenhuma?
e sócio, a pila parece-me que não é bem uma coisa para olhar... mais para utilizar, digo eu :))

Publicado por: JQ às maio 1, 2005 11:31 PM

Porra, Jota! Não basta pores em causa a honra do Glorioso, ainda questionas a utilidade que o teu sócio dá ao respectivo?
Atiço-te lá no tasco e depois levo o troco...
Abração para ti, sócio!

Publicado por: sharkinho às maio 2, 2005 12:26 AM

:D)))

Publicado por: JQ às maio 2, 2005 09:22 AM

Vou ser sincera: não consigo ler post tão grande. Devo andar com síndrome da preguiça...

Publicado por: Rata Zinger às maio 2, 2005 08:11 PM

Ó meu querido sócio, atão mas continuas táyo, ou não (como é que se escreve aqui em itálico??)?? Ou a arara tem-te dado más noites a gritar, chin-chin??? :-))

Publicado por: Mar às maio 3, 2005 09:19 AM

Continuo táyo, mas a arara não me dá descanso. Esta noite foi até às quatro... :)

Publicado por: sharkinho às maio 3, 2005 09:35 AM