« A POSTA EMAIL | Entrada | É SÓ PRA DIZER... »

maio 26, 2005

A POSTA DO ALÉM

Ao contrário do que o título faça presumir, ainda não morri. Mas estou longe da minha terra e isso causa-me sempre algum desconforto, mesmo que em causa estejam umas férias no sítio que o Leonel adivinhou.
No momento em que escrevo esta posta já não estou onde estava. Rumei para o ponto de onde me chegava o som de belas composições musicais e a imagem da mesma grandiosidade que os Habsburgo vincaram. É de Viena que vos dirijo agora as minhas palavras, sem imagens porque o tempo escasseia para as editar. Tal como Praga, a capital austríaca faz as delícias de qualquer fotógrafo amador. Em cada rua um momento de génio e de beleza (não estou a falar de cerveja), em cada espaço uma referência que me recorda os elos de ligação entre os povos da Europa dita ocidental. Quase faz sentido existir uma União Europeia com Constituição comum. Quase...

As diferenças são colossais, também. Não me revejo, português, na antipatia dos checos ou na frieza da maioria dos quase-alemães que vivem na Áustria. Também não me reconheço, português, na diferença de ritmo. Ou na disciplina interiorizada como uma obrigação natural. Eu atravesso a estrada com o sinal vermelho para os peões se não avistar um veículo a mais de trinta metros. Eles não. Aguardam com paciência a autorização luminosa para avançar, a voz de comando sem a qual são incapazes de funcionar. Atadinhos...
E no entanto, capazes de proezas tão simples como desenvolverem o seu país a uma passada que nos envergonha. Capazes de darem o seu melhor por uma realidade colectiva que os portugueses voltaram a desdenhar, trombas viradas outra vez para os seus umbigos e para a descrença na capacidade de vencer. Uma nação de coitadinhos que se julgam incapazes de darem a volta à merda de uma recessão, à vergonha da corrupção, a qualquer adversidade de treta quando comparada com as destes países que visito e que se viram arrastados pelo turbilhão de duas guerras mundiais. É vê-los agora, pujantes, orgulhosos, cheios de ambição.

Visitar outras terras obriga-nos a entrar em comparações e eu tenho feito as minhas. E não gosto das conclusões que os factos me impõem. Não gosto de ver Portugal a definhar por nossa culpa. Querem um exemplo concreto? Esta noite passei o serão na "feira popular" de Viena, um local fabuloso onde reina a diversão. Como fomos capazes de permitir, sem um protesto veemente, que nos privassem de um espaço assim na nossa capital? Porque cruzamos os braços perante a mediocridade e a estupidez como se fossem coisas inevitáveis ou mesmo naturais?
É isso que sinto quando me vejo, português, cheio de saudades da minha terra, cheio de certeza de que é o melhor país para viver e afinal tão hesitante perante algumas interrogações. Tão fácil seria seguirmos o exemplo de parceiros comunitários como a Irlanda e guindarmos o nosso país ao nível que lhe compete ambicionar...
Contudo, reflexões patrióticas à parte ou talvez não, vejo-me igualmente português quando me cruzo nas ruas com os magníficos olhos azuis das nativas e não escondo a minha certeza de que é no meu país que habitam as europeias mai lindas que já vi.
Eles que se entretenham a cumprir os critérios económicos de Bruxelas. Nós temos assuntos muito mais sérios e estimulantes para nos ocupar o tempo e a motivação.

Publicado por sharkinho às maio 26, 2005 12:02 AM

Comentários

É dessa diversidade toda que se faz a Comunidade Europeia. Daí a discução que está na ordem do dia ... sim, não, talvez?

A verdade é que, por mais bonito, limpo, organizado, rico que seja um país, e belas as suas nativas, a vontade e alegria de voltar a casa está sempre no coração lusitano. Ou não fosse a palavra saudade, única na nossa lingua.

Publicado por: Karla às maio 26, 2005 12:59 AM

Li este 'post' antes do seguinte (quer dizer... do anterior), o que facilita bastante a 'adivinhação' de onde estás agora...

Boa continuação de férias! Um abraço.

Publicado por: Leonel Vicente às maio 26, 2005 01:08 AM

Sharquinho,
estava quase a dar o meu tempo por perdido (a alegria de saber que estavas bem já se tinha esmorecido) até ler o último parágrafo. estavas a demorar. Um abraço e aproveita...

Publicado por: alchemist às maio 26, 2005 01:25 AM

Ò Alkemist, gosto de ti e tal mas esse kapa que fanaste ao meu nick, pá, tens mesmo que o devolver ao dono...
Recebe um abraço do esqualo e não te preocupes com estes desabafos de "emigrante" temporário, pá. Lá por um gajo deixar que a saudade o arraste prá melancolia isso não implica que a minha conversa esteja menos contusa, perdão, concisa no que respeita às matérias verdadeiramente importantes da vida. :)

Publicado por: sharkinho às maio 26, 2005 01:54 AM

É só violinos por todo o lado, Leonel. Até domingo é música até partir...

Publicado por: sharkinho às maio 26, 2005 01:59 AM

Podes crer, Karla. E essa palavra tem estado na ordem do dia, nestas terras sem um litoral.

Publicado por: sharkinho às maio 26, 2005 02:03 AM

O elemento fundamental, esse. Litoral, não é Shark? O mesmo que mira do lado de cá a insularidade de um quase paraíso na terra. O que é banhado pelas águas mais límpidas e quentes desta Europa em que ambos estamos.
Mas este é um litoral cujo azul não é alcançado por nenhum outro. :-)

Publicado por: Mar às maio 26, 2005 12:26 PM

Ah pois, Mar, o Vasco da Gama já era, o Cristóvão Colombo também e eu, nesta altura, ando muito arredado da minha vocação marítima... :)

Publicado por: sharkinho às maio 26, 2005 06:11 PM

Ao ler o teu post lembrei-me que se calhar essa atitude de parar enquanto o sinal está vermelho passa também a rigor na gestão da coisa pública.
Se calhar o nosso desenrascanço doce e tolerante deixa passar os espertos que se aproveitam daquilo que é de todos.

Mas goza é cada dia dessas férias que quando voltares a este canteiro à beira mar plantado tens o tabaquito e a gasolina mais cara para te chatear a moleirinha.

Publicado por: maria arvore às maio 26, 2005 08:46 PM

Sharkinho,
ok, o seu a seu dono.
E eh pá, era ao penúltimo que me referia... Isso sim, é importante. Os pactos, os loiros que tratem deles, que nós temos coisas mais interessantes para fazer por cá... (digo eu...).

Publicado por: alchemist às maio 26, 2005 10:20 PM

o problema são os atadinhos Sharkinho:)

Publicado por: bin da fauna às maio 27, 2005 12:30 PM

Não me via, de facto, a viver em nenhum desses países. Gosto demasiado de mar e de sol. E de gente efusiva e nada atadinha no que toca a quebrar regras.
Mas não me importaria nada de viver com o grau de conforto e desenvolvimento que eles alcançaram. E que nós, intrépidos marinheiros de outrora, vemos cada vez mais...por um canudo.

Publicado por: Mar às maio 27, 2005 03:28 PM

Só tu, para Postar de férias... como leitora assidua, te agradeço! Porque sim, porque me faz bem ler-te.
Estou de acordo contigo.
A culpa é nossa... Que na pratica, nem reclamar sabemos... Somos os melhores treinadores de bancada do mundo...

Publicado por: Partilhas às maio 27, 2005 03:36 PM

Shark Falco,
Vienna Calling!!!
Volta filho, estás perdoado...

Publicado por: Jorge Morais às maio 27, 2005 07:46 PM

Gosto da frieza dos nórdicos e da sua respeitabilidade para com os sinais de trânsito.

Publicado por: Rata Zinger às maio 27, 2005 08:14 PM