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maio 31, 2005
A POSTA NA SENHORA SEM PUNHOS

O sexo falado é algo desconfortável para a maioria das pessoas (e o praticado também). A gente põe-se a falar do tema e cedo ou tarde espalha-se ao comprido na exposição de uma intimidade qualquer. Aquilo a que chamamos “coisas nossas”, para justificar o embaraço que o assunto provoca. A malta tem vergonha de revelar aquilo que sente como um segredo pessoal e intransmissível. Assim reprimimos o impulso natural para partilharmos informação e adquirirmos conhecimento por essa via.
Se calhar existem aspectos específicos que devem ficar confinados aos jardins secretos que nos alimentam as fantasias (e algumas ilusões também). Memórias que sentimos sagradas, ideias que tememos ousadas, sonhos que não queremos desfeitos pela análise fria que fazem os de fora acerca dos nossos anseios e convicções.
Respeito quem sente as coisas dessa forma e reservo para mim (e para quem comigo os partilha) alguns momentos e emoções especiais.
Contudo, isso não contraria a minha tendência para abordar os assuntos mais delicados. Ainda que isso implique expor-me de alguma forma para vos compensar as reacções mais espontâneas ao que me esforço por impregnar com a malícia de uma provocação. Ou com o estímulo de um desafio.
É essa a minha perspectiva das coisas e tenho a sorte de encontrar na blogosfera um núcleo diversificado de excelentes interlocutores(as), seja qual for o tema que vos proponha.
Hoje ocorreu-me falar da masturbação. É aquela cena que poucos homens admitem ter feito e de que quase nenhuma mulher ouviu falar...
Falar da masturbação tem a vantagem de ser possível fazê-lo sem sair do discurso na primeira pessoa. Eu já me masturbei em mais do que uma ocasião e só me envergonhei de o fazer enquanto as paranóias e os tabus dos meus progenitores conseguiram influenciar a minha percepção do sexo a um, essa coisa suja e pecaminosa que conduzia à tuberculose e manchava as cuecas e/ou os lençóis.
Hoje sinto-me no direito de não aceitar vergonhas na minha relação com o corpo (o meu ou o das outras pessoas). E admito até que não desdenho estimular uma parceira dessa forma, no âmbito dos preliminares de que nunca dispenso. Para criar um clima de desejo, de disponibilidade, de entrega, irreprimível e necessariamente compensador.
A masturbação é um momento de liberdade no reino das nossas fantasias. Os monarcas somos nós e os príncipes e/ou princesas que as protagonizam ao longo de uma vida passada a desejar alguém. E o desejo é fundamental, o nosso e o de quem necessitamos sentir no mesmo plano de vontade e de satisfação.
O desejo não é pecado e cada orgasmo é uma benção que Deus ou a natureza ofereceram aos nossos corpos para saborearmos com enlevo e gratidão. De resto, também nos ofereceram as dores de dentes e outras maleitas piores para sabermos dar às coisas agradáveis o seu devido valor...
Por tudo isto não me incomoda assumir a masturbação como um dos instrumentos ao dispor de cada um de nós para buscar o prazer que um corpo nos dá. Ou o prazer de o ver estampado na expressão de uma parceira (ou parceiro, consoante as preferências de cada pessoa).
Pecado é conspurcar nas ideias o que na prática nos limpa a alma das inseguranças e das frustrações.
Publicado por sharkinho às 10:57 AM | Comentários (56)
maio 30, 2005
OS FACTOS VII
Dei comigo a olhar para este encantador momento de traulitada. Que saudades tive do Monty...
E aqui termina (por agora) a sequência de lembranças blogueiras que a minha viagem produziu.
Logo que possa, publicarei mais umas quantas. Até lá, renovo os meus votos de uma excelente semana para todos vocês!
Publicado por sharkinho às 02:48 AM | Comentários (18)
OS FACTOS VI
Foi no céu que a encontrei espelhada e nem estranhei essa coincidência.
Mas em terra também não faltaram as referências...
Publicado por sharkinho às 01:45 AM | Comentários (12)
OS FACTOS V
De cada vez que mandava vir outra pensava: "é apenas mais uma". E não é que me vinha logo o Eufigénio à cabeça? Isto é um caso digno de psicanálise, já sei. Mas é bonito uma pessoa lembrar-se dos amigos assim a despropósito ou não é?
Publicado por sharkinho às 01:32 AM | Comentários (4)
OS FACTOS IV
Assim que entrei na biblioteca pensei nela. Aqui é que ela se safava, para acabar aquela tese interminável que justificou, em última análise, o cruzamento das nossas passadas virtuais.
Publicado por sharkinho às 01:18 AM | Comentários (7)
OS FACTOS III
Este então é impossível de esquecer. Onde quer que a vista pouse, lá está uma alusão ao meu amigo mais fumarento e com sentido de humor mais refinado. Um bafo na minha memória, em terras austríacas...
Publicado por sharkinho às 01:08 AM | Comentários (8)
OS FACTOS II
Agora que até lançou um livro magnífico e tudo (quem ainda não comprou?), o gajo parece ter dado uma nova c(l)ara às suas ruínas. Lembrei-me dele (de quem gosto à brava) e do seu blogue maravilha quando olhei para isto. Vá-se lá saber porquê...
Publicado por sharkinho às 12:46 AM | Comentários (10)
OS FACTOS
Esta é de caras, não? Mais explícito era impossível e eu tinha mesmo que me lembrar dela perante esta sentida e vibrante homenagem dos checos a uma blogueira amiga.
Publicado por sharkinho às 12:31 AM | Comentários (4)
A POSTA NA SAUDADE
Lá porque fui de férias, isso não implica que a blogosfera não estivesse presente nos momentos mais inesperados. Por exemplo, quem diria que na República Checa eu iria dar com lembretes da malta que bloga?
Parece mentira, exagero?
Segue-se uma sequência de evidências que atestam esta premissa.
Publicado por sharkinho às 12:20 AM
maio 29, 2005
A POSTA SONDAGEM
Vocês que me acompanham de há uns meses a esta parte sabem que gosto de abordar alguns temas em especial. Sobretudo os que dizem respeito à interacção entre pessoas, por gostar muito destas últimas. E da interacção também.
Contudo, nestas férias tentei abstrair-me dessas coisas. A ideia era enriquecer o meu depauperado património cultural com mais uns pós disto ou daquilo, assim uma espécie de curso intensivo acerca de música e da história da Europa na qual, por vezes, me custa identificar a tal identidade comum que nos une no melting pot que Bruxelas sustenta.
Porém, numa famosa cervejaria de Praga, dei de caras com a ilustração acima. E pecador me confesso, não me ocorreu uma explicação alternativa para o que vi e que convosco partilho. Alternativa a quê? Não vos digo, precisamente para não influenciar a vossa opinião que gostaria de recolher.
Digam lá com toda a frontalidade: o que vos ocorre à ideia quando contemplam esta gravura medieval?
Não vale fazer batota...
Publicado por sharkinho às 06:52 PM | Comentários (24)
É SÓ PRA DIZER...
...Que estou preocupado com o clima algo tristonho que parece ter-se instalado num sector da blogosfera ao qual me sinto particularmente ligado.
Um gajo vira costas e aumentam-lhe o IVA, o tabaco, a gasolina e mais o que houvesse para aumentar. E ainda por cima dá de trombas com uma carrada de malta fixe toda faralhada nos humores?
Há que combater sem demora esta neura blogueira. Como venho fresquinho, começo por vos desejar uma semana em cheio e enviar um abraço bem apertado a todas e a todos que não têm andado como gosto de os ver.
A vida é bela e cada instante é precioso, porra!
Publicado por sharkinho às 11:57 AM | Comentários (26)
maio 26, 2005
A POSTA DO ALÉM
Ao contrário do que o título faça presumir, ainda não morri. Mas estou longe da minha terra e isso causa-me sempre algum desconforto, mesmo que em causa estejam umas férias no sítio que o Leonel adivinhou.
No momento em que escrevo esta posta já não estou onde estava. Rumei para o ponto de onde me chegava o som de belas composições musicais e a imagem da mesma grandiosidade que os Habsburgo vincaram. É de Viena que vos dirijo agora as minhas palavras, sem imagens porque o tempo escasseia para as editar. Tal como Praga, a capital austríaca faz as delícias de qualquer fotógrafo amador. Em cada rua um momento de génio e de beleza (não estou a falar de cerveja), em cada espaço uma referência que me recorda os elos de ligação entre os povos da Europa dita ocidental. Quase faz sentido existir uma União Europeia com Constituição comum. Quase...
As diferenças são colossais, também. Não me revejo, português, na antipatia dos checos ou na frieza da maioria dos quase-alemães que vivem na Áustria. Também não me reconheço, português, na diferença de ritmo. Ou na disciplina interiorizada como uma obrigação natural. Eu atravesso a estrada com o sinal vermelho para os peões se não avistar um veículo a mais de trinta metros. Eles não. Aguardam com paciência a autorização luminosa para avançar, a voz de comando sem a qual são incapazes de funcionar. Atadinhos...
E no entanto, capazes de proezas tão simples como desenvolverem o seu país a uma passada que nos envergonha. Capazes de darem o seu melhor por uma realidade colectiva que os portugueses voltaram a desdenhar, trombas viradas outra vez para os seus umbigos e para a descrença na capacidade de vencer. Uma nação de coitadinhos que se julgam incapazes de darem a volta à merda de uma recessão, à vergonha da corrupção, a qualquer adversidade de treta quando comparada com as destes países que visito e que se viram arrastados pelo turbilhão de duas guerras mundiais. É vê-los agora, pujantes, orgulhosos, cheios de ambição.
Visitar outras terras obriga-nos a entrar em comparações e eu tenho feito as minhas. E não gosto das conclusões que os factos me impõem. Não gosto de ver Portugal a definhar por nossa culpa. Querem um exemplo concreto? Esta noite passei o serão na "feira popular" de Viena, um local fabuloso onde reina a diversão. Como fomos capazes de permitir, sem um protesto veemente, que nos privassem de um espaço assim na nossa capital? Porque cruzamos os braços perante a mediocridade e a estupidez como se fossem coisas inevitáveis ou mesmo naturais?
É isso que sinto quando me vejo, português, cheio de saudades da minha terra, cheio de certeza de que é o melhor país para viver e afinal tão hesitante perante algumas interrogações. Tão fácil seria seguirmos o exemplo de parceiros comunitários como a Irlanda e guindarmos o nosso país ao nível que lhe compete ambicionar...
Contudo, reflexões patrióticas à parte ou talvez não, vejo-me igualmente português quando me cruzo nas ruas com os magníficos olhos azuis das nativas e não escondo a minha certeza de que é no meu país que habitam as europeias mai lindas que já vi.
Eles que se entretenham a cumprir os critérios económicos de Bruxelas. Nós temos assuntos muito mais sérios e estimulantes para nos ocupar o tempo e a motivação.
Publicado por sharkinho às 12:02 AM | Comentários (15)
maio 24, 2005
A POSTA EMAIL
Estou a escrever esta posta numa terra onde a internet ainda gatinha. Pensava poder manter o contacto convosco a partir do portatil, mas isso nao eh possivel. Remedeio-me, pois, para matar saudades e mitigar o vicio de blogar, com uns minutos de ligacao que me concederam num hotel. Sem acentos nem nada, mesmo so para vos referir que estou a gozar uma semana de ferias que terminam no Domingo e que regressarei ao activo nessa altura (caso nao consiga net em condicoes ate la).
Nestes termos, esta posta eh mais um email que dirijo ah malta que frequenta o charco. Para saberem que estou ausente mas vivinho da silva e atento ao que se vai passando nesta comunidade que nos uniu.
Para quem me trata e me sente como um amigo envio as calorosas e efusivas manifestacoes de apreco (apresso) que sabem ser meu apanagio.
Para quem me vai enviando recados subliminares nos seus blogues, confirmo a recepcao (eu nunca me esqueco de voces nos meus periplos blogueiros) e agradeco a gentileza (que nao ficara sem a resposta que as boas maneiras e o meu modo de estar exigem).
Para quem apenas passa aqui de visita, envio um pedido de desculpas por esta fase meio apatica do charco. Sera temporaria e nao tarda a acabar.
Na pior das hipoteses, segunda-feira regresso as lides blogueiras em pleno. E isto se ate la nao arranjar um acesso ah net em condicoes nesta zona da Europa.
Nao posso esgalhar jah uma especie cronica de viagem (ate porque esse eh mais o pelouro do Bin...), mas adianto que estou numa terra que eh um viveiro de monumentos muito bonitos. E de loiras, imensas e bem frescas, dado tratar-se de um pais com forte tradicao cervejeira...
Mas no fundo eu tenho eh saudades vossas, pah!
Publicado por sharkinho às 04:32 PM | Comentários (29)
maio 21, 2005
O MEU ELEMENTO NATURAL
Há mais do que um Alentejo no meu quadro de referências acerca da região do país que sempre me fascinou mais. De forma simplista posso reduzir a duas imagens, esse meu fascínio alentejano. A terra e o mar. Há muitos anos que me encanto com as planícies alentejanas e com as suas gentes. Há ainda mais anos que a costa alentejana faz parte do meu Verão.
Mas é inegável a minha adoração reforçada por aquela terra e a explicação para o amor à terra, curiosamente, encontra-se no mar. Não num mar qualquer, mas numa mulher. Especial aos meus olhos. Alentejana. Por quem me apaixonei há poucos meses atrás, como o destino traçou quando finalmente cruzou o caminho do tubarão com o do seu elemento natural.
Claro que amo o Alentejo mais do que nunca. Claro que mais do que nunca me preocupam as suas inúmeras aflições. A seca, que ainda não acabou. E o desemprego, escandaloso. Mais as outras mazelas que resultam da falta de atenção que o resto do país lhe dá, pior quanto mais distante do litoral.
E por isso tinha preparado uma posta que publiquei mas acabei por retirar a seguir. Soube-me a pouco e pouco é algo que não entra no meu vocabulário de alentejano "arraçado" mas cada vez com mais sotaque...
Pouco é algo que não está à altura do muito de bom o Alentejo me dá. E não há nada melhor do que o amor.
Partilho convosco esta realidade porque ela faz parte do homem que hoje sou. E o que sou é aquilo que tento partilhar. Sem merdas, como gosto de referir. Para saberem a todo o instante com quem podem contar deste lado da coisa, tal como o blogue da Mar me permitiu descobrir nela a amiga e depois um amor.
Sou mesmo assim, tal e qual, como confirmaram ao vivo os amigos que a blogosfera já me apresentou. Sou o protagonista do meu próprio papel perante vós. E na minha natureza escreve-se o argumento do filme que as minhas postas tentam reproduzir. O meu, onde o Alentejo decidiu entrar em força. Como a força e a solidez das minhas convicções acerca desta relação que estamos aos poucos a construir. Um romance que não se quer esconder onde mais exposto estaria à sua vulgarização por terceiros: no falatório à toa e na inevitável especulação. E porque há quem ainda não tenha percebido bem os contornos da situação em causa. no compromisso, na entrega e nas perspectivas.
As cartas na mesa, como ela referiu. E não se admite batota.
É assim que estão as coisas, sérias quanto o podem ser nesta altura, impermeáveis a más influências do exterior, robustas como a fortaleza que se ergue em torno de qualquer ligação empenhada e vibrante, apaixonada, assumida por duas pessoas de bem.
Soube-me a pouco a posta que retirei por não fazer justiça ao Alentejo na principal razão que a justificava, a mulher que a inspirou.
Acho que assim ficamos conversados, não é?
Publicado por sharkinho às 02:48 AM | Comentários (18)
maio 20, 2005
A POSTA CONSTRUTIVA

O homem sonha... o publicitário concretiza.
Publicado por sharkinho às 06:57 PM | Comentários (15)
A POSTA MARIA
O meu fado é tocar em palavras os sinos dos outros.
Quem escreveu isto foi a Maria Árvore, na caixa de comentários do seu Chez Maria. Um simples comentário, em resposta a outro.
Dava uma posta do caraças.
Como se vê...
Publicado por sharkinho às 12:16 AM | Comentários (19)
maio 19, 2005
A POSTA SEM NADA

Isto de o blog dum gajo fazer dois anos, pá, é obra.
Poizé... Mas tou capaz de aguentar mais dois, tazaber?
Publicado por sharkinho às 04:41 PM | Comentários (14)
maio 18, 2005
INTIMIDADES III

Um momento de introspecção.
Publicado por sharkinho às 10:04 AM | Comentários (39)
INTIMIDADES II

Pormenor da caixa de comentários.
Publicado por sharkinho às 09:57 AM | Comentários (15)
INTIMIDADES

O charco, visto de fora.
Publicado por sharkinho às 09:53 AM | Comentários (13)
A POSTA IMPERFEITA
Às vezes sinto-me encurralado pela minha estupidez. E sinto-me ainda mais estúpido assim, consciente das limitações que me aprisionam mas incapaz de as combater. Tenho dias, como qualquer pessoa. E nem sempre são dias bons.
A minha estupidez faz o que quer de mim, controla a minha vida. É feita de uma data de merdas que só servem para me rasteirar, mesmo nas melhores intenções. É como um campo de minas à minha frente, todas assinaladas. E eu insisto em pousar o pé nos sinais. Porque os ignoro e depois pum! Os estilhaços podem atingir quem estiver à minha beira.
Às vezes a minha estupidez destrói-me os sonhos, num instante imbecil em que opto pelas piores palavras, pelas mais absurdas posições. Depois dou comigo a tentar explicar-me e aos outros porquê. Ninguém percebe pevas e eu percebo porquê. Porque às vezes sou estúpido e decido mal. E penso pior. Pode acontecer a qualquer um, mas eu convivo mal com essa imperfeição. Porque me causa prejuízos e já deu mostras de afectar outras pessoas. Esse é um risco que odeio correr.
É que a minha estupidez chega ao ponto de me exibir perante vós com um ar de coitadinho de mim, quando parte dessa estupidez até se manifesta em picos de arrogância que deitam tudo a perder. Colocam-me em causa, o senhor perfeição, corroem a imagem do gajo porreiro que ambiciono ser. Mas não sou, pois deixo-me dominar pela minha estupidez e faço merda e isso não fica bem a um homem em condições.
Tento expiar nesta posta as diversas manifestações de estupidez com que às vezes confronto as pessoas, com a humildade de quem reconhece estar ainda longe, demasiado longe, do seu ideal de perfeição. É estúpido buscar a perfeição, eu sei.
Mas é ainda mais estúpido insultá-la.
Publicado por sharkinho às 01:04 AM | Comentários (24)
maio 17, 2005
SAUDADES DE FALAR DAQUILO

Claro que me apetece falar de sexo. Aliás, desde que tomei contacto com o conceito fiquei um incondicional da coisa. Embora não me reconheça tão destravado como algumas das minhas atoardas possam fazer-vos, por vezes, presumir.
Até porque li umas merdas, vi uns filmes e pratico há mais de duas décadas essa sublime arte indissociável do amor quando falamos da sua máxima expressão. Além de ser um tema que gosto de abordar com outras pessoas. Aprende-se muito dessa forma também.
Mas não me interpretem mal, quando afirmo que o (melhor) sexo pratica-se por e com amor. Pode existir uma relação de amor onde o sexo não vale grande coisa como pode existir um acto sexual gratificante e bem vivido, inesquecível até, sem que o amor esteja presente na equação. Pelo menos com a intensidade a que me reporto quando o incluo nas contas de pensar.
Porém, conheço os dois lados da questão e falo por mim apenas. Quando se conjugam um amor intenso e apaixonado com um desejo irreprimível, sem merdas de medos ou vergonhas, sem constrangimentos artificiais, aí temos reunidas as condições para atingirmos o nirvana. Não é fácil de explicar, mas quem experimentou as duas variantes sabe muito bem a que me refiro.
A minha concepção do sexo exige a entrega total. Os limites são os traçados pelo que conhecemos do(a) nosso(a) parceiro(a) – uma vantagem competitiva em matéria de intimidade relativamente às relações de ocasião – e os que se definem na altura, numa boa, muitas vezes sem palavras. A entrega total implica a inexistência de reservas em relação às outras pessoas. E falo de reservas morais, psicológicas, físicas ou quaisquer outras. Falo de proximidade e de confiança, difíceis de obter em meia dúzia de horas de contacto, ainda que aberto e sem tretas.
A confiança é vital para uma relação bem sucedida, no sexo como no amor.
Por outro lado, existe a complicada questão do depois. Instala-se sempre uma sensação de vazio quando enfrentamos a impossibilidade de prolongar a relação com alguém, depois de partilharmos o maior grau de intimidade física que nos é dado conhecer. Só a paixão pode garantir-nos uma sequência ao passo que nos uniu de forma tão intensa.
Isto parece uma inflexão no meu discurso habitual, um tudo nada mais romântica ou conservadora. Mas não é. Adoro o sexo como nunca e ninguém poderá um dia apontar-me como puritano ou moralista nessa matéria. Apenas o vivo à medida do meu corpo e da minha cabeça e dos corpos e das cabeças das pessoas com quem me disponho e se dispõem comigo a amar. Sexo é amor e o amor intensifica-o onde ele mais acontece, nas nossas mentes mais ou menos depravadas, mais ou menos fantasiosas, mais ou menos românticas. Tudo multiplicado, inclusive as sensações. Falo por mim e o meu falo também.
Em nada me perturba a forma como cada pessoa vive a sua experiência nesse domínio, excepção feitas às aberrações de nojo universal e não preciso de citá-las. E nestas, fique bem claro, não incluo contactos mutuamente consentidos entre qualquer raça, género ou tipo de pessoas. O importante é o prazer e a realização pessoal que daí deriva, a felicidade que o sexo nos dá. E são muito mais agradáveis as pessoas realizadas nesse plano das suas existências, muito mais seguras de si.
Claro que me apetece falar de sexo. Quase tanto como me apetece fazê-lo. E por isso retomo a linha habitual deste blogue, (re)começando pelas questões genéricas para depois entrarmos nos detalhes.
Até porque a pressão dos motores de busca (a expressão “blog de sexo” assume cada vez maior preponderância) obriga-me (entre aspas) a corresponder ao apelo da sociedade civil que bloga.
Mas também me apetece falar do amor.
Publicado por sharkinho às 03:51 PM | Comentários (44)
maio 16, 2005
A POSTA NÃO RECICLADA

Uma das coisas que me irrita encontrar na caixa do correio são os recados em forma de anúncio. Dos hipermercados, das lavandarias, das seitas inexpressivas, das serralharias de alumínio e, acima de tudo, dos imensos “professores não sei quantos” que resolvem tudo e ainda prevêem o futuro em prestações suaves.
Hoje tocou-me outro bruxo miraculoso, daqueles que só não adivinham o número da sorte grande que lhes permitiria abandonarem essa carreira de autênticos pregadores da mezinha da cobra.
Assume-se como o “Professor Gassama”. Grande vidente, curandeiro, especialista em problemas de amor. Na sua bola de cristal em pay per view assiste recostado aos futuros dos seus fregueses presentes enquanto estes se desenrolam aos seus olhos como notas de uma música agora tocada pelo Banco Central Europeu.
Mas afirma, em contrapartida, que se ele(a) quiser ou já lhe deixou venha ter com o Professor, não se arrependerá, ele(a) voltará na mesma semana. À medida dos desesperados que uivam a sós a oportunidade perdida ou as esposas atormentadas pelo novo perfume feminino impregnado nos colarinhos do seu eleito. Não lhe faltará clientela para maleitas assim, sobretudo com garantia de rapidez. Numa semana, o objecto em causa, uma pessoa, será seu. Ou sua, consoante o género do sonhador.
Versátil, o prof Gassama também refere os problemas de saúde, trabalho, inveja (muito em voga), negócio, alcoolismo e emagrecimento (que se acautele o dr. Tallon). São os domínios de sucesso do fulano.
Porém, o mais surpreendente dos seus atributos pode sintetizar-se numa só frase: Se está a sofrer sem saber, então não sofre mais.
Este é um conceito revolucionário, mesmo para uma indústria que movimenta tantos intrujas. Se nem sabe que sofre, vá ao Gassama e não sofre mais pois continuará sem saber. E a ignorância não dói. Apenas o cotovelo de alguns e isso é problema para a medicina tradicional, menos equipada para lidar com o sofrimento dos que não sabem e mais empenhada nos casos em que afinal é mesmo a doer. Mesmo no domínio da psiquiatria.
Este artista de variedades que me fez chegar ao conhecimento a dimensão do seu poder com um simples pedaço de papel, actua na zona da Grande Lisboa (como a maioria) e aceita facilidade de pagamento e depois do resultado. Seja ele qual for...
Fica junto ao Metro dos Anjos, de segunda a sábado, das 9 às 20, por marcação ou por carta (email, comentário ou posta ainda não aceitam. Nem cartão visa, aliás).
Não sei se vai ao domicílio, mas perante uma aflição gritante ou uma quantia avultada as distâncias encurtam nas rotas de qualquer ilustre profeta tocado por Deus e desperto pela Revelação.
Esqueci-me de tomar nota do contacto antes de enviar o recado para o ecoponto. Agora menti, pois não reciclei coisa nenhuma. Mas sei que qualquer vidente que se preze descobrirá sem problemas o verdadeiro destino que dei à sua mensagem.
Fica só entre nós...
Publicado por sharkinho às 05:04 PM | Comentários (21)
A POSTA NA FOTOGRAFIA II

Preciso de uma semana a abrir, mas serena.
É bom morar perto de uma zona onde isso se encontra ao virar de cada esquina. É bom saber que o Tejo é meu vizinho, no local onde desagua e absorve num flanco o reforço do Trancão para abraçar o oceano, logo a seguir.
É bom encontrar a força onde a calma se espelha, num instantâneo de luz. Sem incertezas ou hesitações. Com garra. E vontade de vergar as barreiras até me fazerem uma vénia. Tapete vermelho estendido até ao objectivo que se cumpriu.
Venha outro, logo a seguir também.
Preciso de uma semana assim reflectida.
Mais próxima de mim.
Publicado por sharkinho às 09:49 AM | Comentários (36)
maio 14, 2005
O VARAPAU DE CORRIDA
Estou prestes a abandonar mais uma etapa da minha existência, a de trintão. Foi giro, confesso, e termina em apoteose (por causa daquilo que não digo para não vos maçar). Mas estou muito optimista com a entrada nos entas por um motivo que já aqui abordei: ando num pico de forma, bem melhor do que aos vinte, surpreendido com uma postura competitiva com a qual não contava nesta altura.
Por isso me despeço dos trintas sem qualquer espécie de saudade ou de nostalgia. Vou entrar no novo ciclo com boas razões para me sentir optimista e é bom um gajo sentir-se assim, pronto para enfrentar qualquer desafio. Mesmo os desafios mais exigentes, pois a passagem dos anos confere-nos talentos que nem suspeitávamos existirem quando o entusiasmo se fazia apenas de vontade de fazer. Agora faz-se da vontade de fazer bem. Cada vez melhor.
E o corpo reage sem hesitações a esse apelo, o que para mim é uma maravilha. Para qualquer pessoa, aliás. E a cabeça também. Tudo num ritmo que indicia, caso não surja nenhum imprevisto, mais uma década em cheio. Cheio de motivos para eu gostar de ter nascido, mais as pessoas que me fazem feliz.
Ando cheio de speed. Venham os quarenta que eu faço-lhes a folha...
Publicado por sharkinho às 11:58 PM | Comentários (70)
A POSTA NO GLORIOSO
Tenho evitado falar de bola no charco. Mas hoje não posso calar a minha quota-parte na festa da grande nação benfiquista. Desculpem-me esta manifestação de regozijo, caso colida com a vossa tristeza. (Aguentem-se à bronca. E aproveitem a nossa ausência na prova europeia para ver se ganham qualquer coisinha).
SLB, SLB, GLORIOSO SLB! SLB, SLB, GLORIOSO SLB!!!
Publicado por sharkinho às 10:30 PM | Comentários (18)
maio 13, 2005
OS DIAS ESPECIAIS...
...Também se fazem das efemérides importantes.
Hoje, ELA faz anos. E por isso eu sinto-me feliz.
Publicado por sharkinho às 12:00 AM | Comentários (28)
maio 12, 2005
A POSTA NO BEM

Uma pessoa amiga (colega de trabalho) alertou-me para o facto de a felicidade de cada um de nós ser susceptível de atrair as más ondas dos outros. Algo que leu nem sei onde, mas que associou de imediato às minhas circunstâncias actuais. Isto a propósito da divulgação pública das nossas emoções. E eu agradeço a preocupação dessa pessoa. Mas não a subscrevo. E explico-vos porquê.
As pragas valem o que valem, como quaisquer bruxarias ou outras exibições de força do mal como este se manifesta nas pessoas pequenas. São crendices ao dispor de qualquer charlatão ou outro tipo de ser mesquinho.
Mas mesmo admitindo, para apimentar esta posta, que existem cromos capazes de transformarem uma galinha preta noutra coisa que não uma canja em condições, qualquer mal só penetra onde o bem se distraiu. Maniqueísta, bem sei.
As más ondas, como a inveja, o despeito ou o ciúme doentio, podem alimentar nas pessoas ofendidas ou rejeitadas (ou ofendidas pela rejeição) um enorme rancor. E esse diz-se alimentar a parafernália ao alcance da bruxa ou do bruxo comum e facilitar a propagação dos malefícios até à(s) pessoa(s) a atingir. Um bocado como a ADSL dos harry potters de trazer por casa.
Contudo, diz-se também que o mal não consegue vergar as forças do bem e isso deriva do poder da fé. Por exemplo, em Deus. Eu chamo-lhe Amor e não apenas por ser romântico ou agnóstico, mas porque aprendi ao longo da vida que essa é a maior de todas as forças e não oferece contestação. Alimenta até o ódio que algumas pessoas conseguem sentir, se defraudadas de alguma forma nas suas expectativas em relação a algo ou alguém.
Neste pressuposto, qualquer pessoa ou relação munidas de fé em Deus (ou no Amor) são imunes mesmo às mais complexas artimanhas do voodoo (e a outras). E o mesmo acontece no que toca aos cépticos perante esses alegados poderes malévolos e poderosos ao alcance do cidadão comum ou de um Mestre ou Professor qualquer coisa com anúncio no Correio da Manhã. Lérias, tão válidas como as profecias dos visionários religiosos, o pessimismo dos velhos do restelo ou as pragas da vizinha de cima.
A pessoa amiga e bem intencionada que me alertou, e não sou pobre e mal agradecido, merece a minha gratidão pelo facto de se preocupar com um assunto que nem lhe diz respeito de forma alguma. Aprecio pessoas assim, embora lhes reconheça alguma propensão para a paranóia. Coisas que se desculpam na boa a quem nos quer bem.
Até por isso, doravante darei mais atenção ao que essa pessoa tem para dizer.
Porque não acredito em bruxas nem em varinhas de condão. Porém, eu que gosto de partilhar a minha felicidade com as outras pessoas, também gosto de me sentir preparado para o que der e vier. Mesmo que venha, sabe-se lá, uma figurita a correr sem rumo certo, julgando que voa, patética, montada afinal numa simples e vulgar vassoura.
Publicado por sharkinho às 01:18 PM | Comentários (28)
maio 11, 2005
A POSTA COBARDE

Às vezes as pessoas surpreendem-me. Às vezes não. Existem formas de identificar nos outros as hesitações que contrariam a sua vontade expressa, aquilo em que apenas anseiam acreditar.
Mas não acreditam de facto, pois não arriscam. Os riscos que corremos são uma bitola para avaliar a força das nossas convicções. E das nossas paixões. Se não arriscamos, é porque não acreditamos nas hipóteses de sucesso da nossa empreitada ou não confiamos nas certezas apregoadas na primeira pessoa.
Eu admiro as pessoas corajosas, as que são capazes de assumirem o que dizem, de fazerem aquilo a que se propõem. Sem medo nem meias tintas ou mensagens subliminares, arriscando de facto. Admiro-as e também gostava de me ver assim. Como gostava de o ver noutras pessoas. Não é bem assim e isso acaba por se amplificar nos meandros da blogosfera, onde podemos dizer tudo mas recuamos perante o papão da opinião de terceiros, condicionamos a nossa liberdade de expressão. E podemos induzir em erro as outras pessoas.
Não sou melhor do que os outros nesse aspecto. E também tenho momentos de hesitação. Mas quando me decido, avanço e fico a aguardar as repercussões. Nem sempre são agradáveis, as repercussões. Podem até implicar sérios riscos de perda, a níveis bem reais, exteriores a este mundo à parte que construímos a cada instante.
Contudo, os riscos existem para aprendermos a enfrentá-los. Precisamente na medida dos valores em causa, da nossa coragem ou da nossa determinação. E essas não se avaliam pelas nossas palavras mas pelas nossas acções (as palavras também podem agir).
A blogosfera empurra-nos para as entrelinhas, para as mensagens cifradas que dizem tudo sem nada esclarecer. Quem quiser que adivinhe.
Às vezes não pode ser assim.
Para não dar margem a equívocos, falsas esperanças e futuras desilusões. Para afirmar o que somos, aquilo em que acreditamos. Para definir perante os outros as regras do jogo que entendemos aplicar, num dado momento e em circunstâncias especiais. Se são mesmo essas as que queremos jogar e não alimentamos fantasias ou ilusões nos bastidores da nossa intenção.
Gostava de seguir por esse caminho, mas tenho que alinhar pela bitola mais comum. Não por medo do risco, mas pelo sentido das proporções, do equilíbrio que deve existir entre as apostas de cada um. Nem todos sabem merecer essa frontalidade que afinal mesmo a blogosfera desmascara como mera utopia. Salvo raras excepções. E nem todos a sabem enfrentar.
Por isso esta posta não é corajosa, embora diga o que me vai na alma e pretenda deixar tão clara quanto possível a ideia que tenho tentado transmitir por outras vias. Quem viu já sabe. Quem não viu já tem forma de o saber.
Acho que assim fica tudo dito na mesma.
Publicado por sharkinho às 10:25 AM | Comentários (85)
E AGORA MUDANDO DE ASSUNTO
Os olhares felinos encantam-me.
Publicado por sharkinho às 12:38 AM | Comentários (13)
maio 10, 2005
A POSTA ILEGAL

Publicado por sharkinho às 12:04 PM | Comentários (54)
maio 09, 2005
RESERVA DE PROPRIEDADE

Travaram os dois a fundo, evitando à justa a colisão. Saíram dos veículos, possessos, convencidos das suas razões. Haviam descoberto em simultâneo aquele precioso lugar vago no parqueamento, ambos ligaram o pisca e iniciaram a aproximação. Exactamente ao mesmo tempo, triste coincidência, e nenhum abdicaria do seu inegável direito. Envolveram-se em acesa discussão, berraram.
Os dois jovens, classe média abastada e formação superior, não chegaram a um consenso e desataram ao murro. Andaram naquilo um bocado, ninguém se metia que o problema não era seu. Até que um perdeu a luta. E não gostou.
Correu para o porta-bagagens. Quando o outro lá chegou deu-lhe com a chave de rodas numa têmpora e ele tombou. Deitou as mãos à cabeça, o adversário morreu.
Enquanto a polícia o prendia, ensanguentado e em choque, outro cidadão estacionou a sua viatura, satisfeito, naquele oportuno lugar vazio.
Publicado por sharkinho às 10:21 AM | Comentários (52)
maio 06, 2005
A POSTA NAS DUAS MARGENS

Não faço...

...a coisa...

...por menos.
Publicado por sharkinho às 11:49 AM | Comentários (19)
maio 04, 2005
A POSTA NA BOA ONDA

Há espaços que se agarram a nós como sanguessugas. São parasitas das emoções que nos invadem quando os lembramos, colam-se às memórias como adereços, como cenários do palco onde a nossa vida acontece e os aplausos que ecoam são os sons dos momentos especiais que associamos a cada lugar e às pessoas que a eles nos ligaram pela sua presença num lapso de tempo que recordamos feliz.
São coisas de pedra, sem vida própria, a que nem atribuímos qualquer importância quando as olhamos sem paixão. Nem sabemos que existem até ao dia em que servem de referência para o que de importante ali nos aconteceu. E sabemos que deixarão de existir um dia, convertidos em ruínas, entulho e pó, como nós e as recordações que acarinhamos. Marcos da nossa pequena história pessoal, insignificantes aos olhos de quem não a partilhou. Meras fachadas.
E no entanto, tão intensas as alegrias e as dores, as tristezas e os amores, as esperanças e as desilusões. Tanto de nosso e de quem nos partilhou em dado instante, amigo ou amante, embutido nas paredes onde se acotovelam as imagens sobrepostas das experiências de quem por lá passou antes de nós. Ou depois.
Tanto de tudo. Tanto de bom.
Inexpressivos, os espaços, numa fotografia apreciada por quem nunca os conheceu. Como a que acima vos exibo, branco e amarelo, mais o azul acima, cores que o sol pinta com reflexos de luz. Instantâneo de uma realidade da qual apenas uns quantos (re)conhecem o tom. Mensagem indecifrável, segredo. Que vos conto sem fornecer pormenores, apenas com a garantia de que o espaço retratado faz parte de mim e de que assim vos ofereço outro retalho do homem que sou. Numa ilustração de uma fachada que afinal pode nem vos dizer nada, se nada vos liga aos contornos que mal esbocei.
Mas que diz tudo a quem justificou, afinal, a minha vontade de estar ali, todos os dias, na lembrança do que passou e na esperança do que ainda está por vir.
São coisas de pedra que construímos na cabeça para nos abrigar o coração.
Publicado por sharkinho às 05:19 PM | Comentários (146)
maio 03, 2005
ABERTURA FÁCIL

A porta do armário não abriu. Nem a murro. Decidiu então sair sem se barbear. Num Domingo, acabaria por ser questão de pouca monta. Mas acabou por lhe estragar o bom humor com que acordara.
Quase correu para o carro quando se apercebeu da bizarra criatura que se aproximava. Premiu ansiosamente o comando do fecho centralizado, mas nada aconteceu. A pilha acabara ali os seus dias. Teve de aturar a habitual ladainha acerca de factos sobrenaturais e charlatanices diversas que o vizinho de cima, o "bruxo", despejava sobre quem se atravessava no seu caminho. Nessa manhã, o tema incidia sobre sinais premonitórios.
Nervoso, ia tentando abrir a porta da viatura com a chave, enquanto balbuciava desculpas de ocasião e "urgentíssimos afazeres". Só queria livrar-se do maluco. Acabou por partir a chave. O carro ficaria fechado, nessa linda manhã de Primavera.
Meteu-se ao caminho, cuspindo impropérios. Seria um esticão, feito a pé, mas nada o faria perder a sessão semanal do seu desporto favorito. Quando virou, na outra ponta da rua, ouvia ainda o profeta do apocalipse, castigando sem piedade o paciente contabilista do sétimo esquerdo.
A caminhada acalmou-o. Respirou fundo e apreciou a paz que envolvia o bairro. Aqui e além, crianças brincavam felizes. Reparou num menino que tentava sem sucesso despir o blusão. Abordou-o, confiante, para a boa acção do dia. Bem se esforçou, mas o fecho polilon, encravado, não abriu. Ficou, figura de parvo, com a patilha partida entre os dedos. No resto do caminho, o choro convulsivo do petiz martelou-lhe a consciência.
O calor apertava. Decidiu matar a sede na máquina da esquina, com uma lata de sumo fresquinho. Partiu uma unha, somou mais uma patilha perdida entre mãos. E projectou contra a vedação de arame uma lata por abrir.
Rosnou cumprimentos quando entrou no vestiário. Bufava, possesso. Sedento, nem assim se atreveu a tentar abrir a torneira, certo de mais um fiasco nesse dia de cão. Pegou no equipamento e seguiu o instrutor, sem proferir um som. A cada passo, foi concluindo que azar tem limites e auto-injectou-se de precioso optimismo.
O sorriso deliciado pelo vento frio no rosto morreu-lhe nos lábios. Porque diabo se havia de lembrar do "bruxo" num momento daqueles, interrogou-se, enquanto enfiava o indicador na anilha de abertura do pára-quedas...
Publicado por sharkinho às 11:14 AM | Comentários (62)