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junho 17, 2005

A POSTA OLHE QUE NÃO

assim se ve.JPG

Há malta que confunde o comunismo com as pessoas que o protagonizam. Eu não sou comunista e, tal como os muitos que manifestaram o seu repúdio às homenagens de que foram alvo Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, reconheço os excessos e os equívocos na prática política destes dois Homens.
Contudo, e da mesma forma que a maiúscula na expressão acima não é casual, também identifico de imediato estas duas figuras com o restabelecimento e a evolução da Democracia neste país. Se de Vasco Gonçalves parece ter prevalecido a sua conotação com o período conturbado que o arrastou para o turbilhão da nossa história recente (e nem é figura que me inspire simpatia), no percurso de Álvaro Cunhal é impossível deixar de reconhecer o merecimento do estatuto que o país lhe confere.

Álvaro Cunhal foi um político à altura de adversários como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro ou Freitas do Amaral (para citar apenas os mais conhecidos). E acrescenta-lhe um passado de luta antifascista que justificaria por si só o respeito que soube merecer à esquerda como à direita do espectro partidário. Só os analistas anónimos e os medíocres inexpressivos fazem de conta que não percebem a dimensão de gente assim. Gente grande, que deixa uma marca sua nas páginas dos livros onde a maioria dos que os odeiam ou desdenham nunca irão constar, nem como mera nota de rodapé.

Mas para lá das grandezas e das misérias que os destacaram, estas figuras públicas viveram de forma intensa os acontecimentos do seu país. Bem ou mal, sacrificaram o remanso dos sofás pela intervenção directa no rumo da sua nação. Não se limitaram a sentar-se diante de uma folha de papel para debitar umas postas de pescada, nem a refilar em surdina nas mesas de café. Acreditaram e foram à luta, mesmo sabendo que perseguiam uma utopia comuna (como a Liberdade também era vista em Portugal na sua época) e, no caso bem conhecido de Cunhal, sofrendo no corpo a tortura e na mente os estragos que a privação daquilo que mais o movia lhe terá causado, como a qualquer pessoa, ao longo de anos de encarceramento com justificação política e, obviamente, sem qualquer fundamento ou legitimidade.

Por isso mesmo se justificam as homenagens prestadas, tal como deveriam ter em conta os figurantes menores com vontade de emporcalhar. Não é uma questão ideológica, já o deixei bem claro, mas sim a rendição à evidência. Portugal perdeu dois Homens que o defenderam contra a obscuridade medieval do regime fascista e prosseguiram o combate, com coerência, quando sentiram a ameaça do enfraquecimento dos ideais da Revolução que amaram. Melhor ou pior, foi assim que a sua existência se distinguiu das muitas que celebraram um dia a Liberdade que Abril nos devolveu. Foram protagonistas e também foram, à época, heróis do povo que gritava nas ruas. Foram a maior esperança que a classe trabalhadora conheceu, com a sua determinação férrea baseada no alegado autismo das "cassetes" que a passagem do tempo tornou roufenhas no tom. Mas cristalinas na mensagem cujos dividendos ainda hoje muitos dos seus detractores beneficiam. Como a existência de sindicatos dignos desse nome, para citar apenas o mais óbvio.

Neste contexto, não faz sentido (des)valorizar as pessoas em função dos anacronismos das suas visões de um mundo ideal, avaliadas à luz do que entretanto se progrediu. Sobretudo sem fazermos a menor ideia das conjunturas em que tomaram decisões polémicas ou defenderam posições insustentáveis aos olhos de alguns.
Aos meus olhos, e será essa a perspectiva que transmitirei aos que me sucederão, o valor das pessoas não se mede pela quantidade de erros ou de acertos que a História poderá ou não desmentir nessa qualidade, um dia. Mede-se pelo legado a que a sua passagem pela vida se associa, pelo que de concreto as notabilizou.
No caso destes Homens, é da Liberdade que se trata. E essa perspectiva basta-me para não me meter em bicos de pés e para assinalar sem problemas o meu respeito por estes dois portugueses de esquerda e a minha lamentação solidária a quem mais sentirá a sua falta.

A História séria há muito deixou de acreditar em papões.

Publicado por sharkinho às junho 17, 2005 05:20 PM

Comentários

Shark,

Este teu texto sabe a lucidez. E a uma enorme honestidade intelectual. Vamos lendo e pensando "é mesmo isto!" à medida que dissecas a História com uma objectividade e rigor a toda a prova.

Ao contrário dos pequeninos e mesquinhos que a tentam branqeuar, ou se esforçam por fazer observações displicentes sobre Pessoas que os metem num chinelo. Que não conhecem ponta de corno daquilo que tentam enxovalhar e nem se apercebem do quão ridículos ficam na fotografia.

Não há volta a dar. É como dizes, a medida do valor de uma pessoa é o seu legado, com erros e acertos, como seres humanos que são.
Quando dizes "(...)sem fazermos a menor ideia das conjunturas em que tomaram decisões polémicas ou defenderam posições insustentáveis aos olhos de alguns", acertas no ponto fulcral, da avaliação que se deve fazer hoje, quando se comenta estas coisas a 30 anos de distância.
Coisa que os "figurantes menores", desonestos e com uma capacidade de visão muito limitada, nunca saberão abarcar.
Parabéns por um texto excepcional.

Publicado por: Mar às junho 17, 2005 07:49 PM

Parece que já tudo foi dito nestes dias, mas há sempre qualquer coisa a acrescentar.

Publicado por: Karla às junho 17, 2005 08:00 PM

Shark,
saibamos nós aproveitar a luta e o sofrimento e os percursos deles durante tantos anos. Mas não me parece que seja por estes tempos...

Publicado por: alchemist às junho 17, 2005 09:29 PM

Ò Alchemist, a conquista principal (a Liberdade) exercemo-la aqui, quando blogamos. É nossa.
O resto virá a seu tempo, tem esperança. E não serão precisos 48 anos...

Publicado por: sharkinho às junho 18, 2005 09:52 PM

Claro que sim, Karla. Sobretudo para não deixar que pintem a História com as cores que os Homens em causa tentaram erradicar da paleta.

Publicado por: sharkinho às junho 18, 2005 09:56 PM

Tens razão, Mar. O problema reside precisamente na arrogância e na ingratidão dos pequenos míopes que destilam atoardas pitosgas.
A Liberdade, a de expressão, abre-lhes as portas ao despeito mesquinho que tudo tenta sujar. E a nós compete usá-la na reposição dos factos e na defesa das poucas memórias que vale a pena fazer perdurar.

Publicado por: sharkinho às junho 18, 2005 10:08 PM

Quando perdemos as referências da nossa memória, perdemos parte de nós.
E pareceu-me de toda a justiça homenagear aqueles que trocaram «o remanso do sofá» como tu bem dizes para fazer qualquer coisa concreta.

Publicado por: maria arvore às junho 18, 2005 11:11 PM

Podes crer, Maria Árvore. Ao menos por isso, que lhes seja concedido o respeito que souberam merecer.

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 12:10 AM

Shark,
vejo a minha geração desaproveitar tantas oportunidades, esbanjando, ridicularizando ou menosprezando a liberdade que estes Homens nos conseguiram, que fico com medo. De mim mesmo, tantas vezes... Mesmo na blogosfera, esta oportunidade oferecida, é usada libertinamente, tantas vezes... (espero que seja mesmo só impressão minha e que isto seja um pesadelo que apenas eu vejo, a sério que espero...)

Publicado por: alchemist às junho 19, 2005 01:43 AM

Ò Alchemist, eu entendo a tua preocupação e concordo com os indicadores que referes. Contudo, creio que a infelicidade que se generaliza por via desta "balda" acabará por forçar uma atitude diferente para melhor.

Publicado por: sharkinho às junho 20, 2005 06:11 PM

Oremos, Shark!

Publicado por: alchemist às junho 21, 2005 12:58 AM

Só hoje andei por aqui passeando, não por falta do que fazer ou por desinteresse anterior, mas porque gosto de deixar passar tempo antes de ver o que pessoas que conheço pensam, falam e escrevem. Desta forma, gostei do que li, da forma como está escrito mas fundamentalmente gostei do que é possível ler nas entrelinhas.

Para alguém cuja voz se embargou de lágrimas, não por pieguice mas como demonstração de respeito, mas que viu num funeral uma manifestação de garantia de que "vale sempre a pena" e de que os valores pelos quais tantos morreram permaneçem vivos e fortes... Até sempre, lá no campo das ideias e da luta...

Su (ainda estou à espera do orçamento para os estores)!

Publicado por: Su às junho 21, 2005 04:01 PM