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junho 30, 2005

OLHOS DE FOGO

Fire_burns.gif

Bastaria a brisa provocada pelo bater de asas de uma borboleta para arrepiar aquela pele. Assim pensou, no momento em que o corpo dela arqueou com um toque suave dos seus dedos num ponto qualquer.
Olhos fechados, dentes cerrados, cabelo espalhado no lençol feito planície rasgada pelo curso de um rio, visto do céu. E ele planava ajoelhado, sonhava acordado, gemia por dentro a antecipação do prazer que ela lhe deu.

Tremia, quando as suas mãos abertas lhe percorreram os caminhos como um mestre shaolin sobre papel de arroz. Sorria, quando os lábios pousaram no ventre que pulsava carente numa cascata de sensações. Magia, no momento em que a boca se entreabriu como um portão avermelhado e a língua cativa celebrou, por fim, a alegria da libertação.

Deslizou pelo corpo suado, peito molhado, depois da explosão que ela lhe gritou. Passeou. Sem pressa, com o olhar. Rosto crispado pela vontade de a ter. Chispas de fogo, labareda de emoção, ardiam-lhe os dedos quando de novo a tocou. E ela, em silêncio, arfava quando anuiu. Consentiu-lhe a investida com um aperto nas nádegas e um ligeiro puxão, desejo estampado na mais bela expressão que o seu rosto esculpido conseguia produzir. E ele, firme e destemido, avançou.

Tornozelos nos ombros, carícias nos lóbulos com os dedos dos pés. O amante guerreiro, conquistador, pingou-lhe nos seios a água que o corpo largava no fragor da invasão. Era sua, rendida, mas ainda lutava nas costas onde lhe sulcava frestas com as unhas da paixão. Bandeira branca desfraldada, ao lado de uma espada que os seus olhos empunhavam quando ele a possuiu. Campo de batalha sem lugar para perdedores, vitória anunciada no rufar de mil tambores. O som do armistício, cantado a dois.
Tombaram lado a lado, esgotados, quando assinaram em simultâneo o tratado de paz.

Refrescou-a com um sopro que a percorreu por todo o corpo e depois deixou-se encantar em serena contemplação. Olhos nos olhos, descobriu-lhe na íris o reflexo desnudo do desejo carnudo que não esmoreceu. O dela e o seu.
Sentiu-lhe o calor. E ateou outra vez...

Publicado por sharkinho às 12:47 PM | Comentários (29)

A POSTA NA BICHA

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Foto: sharkinho

Eu também detesto engarrafamentos...

Publicado por sharkinho às 09:44 AM | Comentários (5)

junho 29, 2005

A POSTA NA LÍNGUA

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Ele há dias em que por mais que um tipo olhe para o monitor só consegue ver uma folha branca do word a ridicularizá-lo. Parece que se ri na nossa tromba, a gaja, como se pensasse com os seus botões: “tás à rasca, ò farsola? A tua cabeça oca só te dá eco do vazio de ideias que a atormenta, não é? Querias muito esgalhar uma posta catita e afinal ficas prái a olhar para mim e népia...”.

Fico danado com a folha em branco, mais do que comigo próprio. É que uma pessoa consegue sempre encontrar um pretexto para justificar o bloqueio, recorrendo às desculpas do costume. “Com tanta merda por fazer, é normal que os nervos atrapalhem o raciocínio(?)”, “A malta só aprecia cenas que eu até nem gosto de postar” e tretas assim para descartar o sentimento de culpa por não conseguirmos corresponder às nossas expectativas relativamente à satisfação das expectativas de quem nos lê. É uma porra, um blogueiro sentir-se assim.
Mas a merda da folha em branco não tem culpa alguma. E vejo-me forçado a virar contra mim esta frustração e a desabafar convosco (que não têm nada a ver com isso e apenas vos compete aguardar um momento em condições, para justificarem o clique no linque deste blogue).

Ainda por cima, eu tinha a firme intenção de fazer incidir as postas desta semana num tema que me é grato (o sexo), em honra do Salão Erótico de Lisboa que acontece no próximo fim-de-semana. E nem o sexo me vale, o que duplica a sensação de impotência que me atrofia neste preciso instante.
Claro que podia falar-vos de coisas banais ligadas ao tema em causa, como o embaraço de ver um preservativo a enrolar-se todo sobre si próprio e saltar da pila como a rolha de uma garrafa de espumante por termos escolhido um tamanho abaixo do ideal. Ou da dor fina que nos causa uma saída inadvertida do remanso acolhedor, com o peso acrescido do entusiasmo da parceira a vergá-lo pelo meio no movimento descendente.
Coisas simples que acontecem, mas que não justificam mais do que algumas linhas a propósito.

E assim permanecemos em conflito interior. Faz-se uma posta para “cumprir calendário” ou deixa-se ficar a anterior e assume-se a preguiça que afinal não é mais do que a ausência de inspiração (mal) camuflada? Eu acabo sempre por preferir a publicação de qualquer coisa, nem que seja uma foto apelativa com uma legenda a condizer. Fica no ar um arrependimento qualquer, nestas circunstâncias. E lido mal com essa desconfortável noção.

Nestes considerandos descubro o quanto acabo por decidir tudo em função da vossa omnipresença desse lado da linha. Transformo-vos nos papões que me assombram a vontade de blogar, uma injustiça. Até porque concluo que cada vez blogo menos para (por) mim e mais pela rapaziada que se consubstancia nas caixas de comentários e no contador. Todos vós, que aqui chegam em busca de algo que nem sempre estou à altura de fornecer. Como hoje, aliás.
Surge então o pretexto para voltar ao sexo, quando questiono o prazer que isto me dá.
Do orgasmo prolongado que resulta de uma posta que vos agradou, ao coito interrompido ao fim de vinte segundos de penetração (como traduz uma posta destas) vai uma distância mínima.

A sexualidade blogueira é mais complicada de (di)gerir do que a outra, a real.
Às vezes receio que a falta de ponta na escrita, onde nem a língua (a portuguesa) me vale e até constitui o problema maior, possa reflectir-se por contágio no meu desempenho extra-blogue.
Mas isto sou eu a flipar. Afinal, a vossa (nossa) condição de voyeurs não se faz sentir na hora agá, quando o prazer que obtenho e o que dou não ficam condicionados pelo peso da multidão virtual que me avalia a função nesta “cama”.
E vendo bem as coisas, pelo tamanho deste lençol, acabo por entender que não há razão para me atormentar.
O desejo que me estimula está presente nestas linhas também. Afinal, o prazer desta nossa relação assenta no privilégio de podermos comunicar. E esse, mesmo quando de uma rapidinha se trata, está sempre garantido enquanto houver força nos dedos (que teclam) para empurrar a língua (que partilhamos).

Publicado por sharkinho às 12:37 PM | Comentários (34)

junho 28, 2005

MAIS ALÉM

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No limite. E mais além. Para lá de qualquer fronteira real ou imaginária.
É assim que gosto de enfrentar a vida, ultrapassando barreiras e convenções. Gosto de lutar pelo que de mais valioso encontro ao longo do caminho, de demolir os obstáculos, de superar o máximo que exigem de mim. E de arrastar comigo na passada quem acredita como eu na viabilidade de uma existência inteira mergulhada na intensidade da paixão. Sem medos nem vergonhas. Com fé.

Recuso-me a abdicar da loucura, da irreverência, da coragem de enfrentar os desafios olhos nos olhos. Recuso-me a negar o milagre da vida, a virar a cara para o lado oposto daquele para onde me empurra o coração. Recuso a acomodação.
Acredito na felicidade porque a conheço, porque ela entra nos meus dias, em todos os dias, com a magia de uma aparição sagrada enviada pelo destino para desfazer as dúvidas que, na verdade, nunca fizeram parte da minha equação. Variáveis que decifro na vertigem de um beijo, na voragem de um desejo, no arrepio de uma pele tocada pelos meus dedos ou de uma mente emocionada pelas palavras que lhe dou.
Não existe nas minhas contas um espaço para as interrogações.

Acredito que me compete partilhar esse dom, como um missionário escolhido ao acaso pela força transcendente que não sinto necessidade de explicar, com quem me olha com atenção e lê nos meus olhos a determinação, a verdade, o cariz inabalável das minhas convicções. Com quem me agarra pelos colarinhos e salta comigo num abraço para a locomotiva em movimento numa linha que desconhece os apeadeiros ou as estações.
Pouca terra, pouca terra. Até descobrir no horizonte o reflexo prateado do mar banhado pela luz quente do sol. E mais além. Mergulho sem hesitações.

No limite, encontro-me contigo. Olhamos as estrelas e partimos para o céu, livres de empecilhos ou de grilhões, embarcados na aventura mais fantástica, movidos pela energia poderosa que só o amor consegue produzir. Imparáveis, sem margens capazes de limitarem a maior escalada da mais forte entre as marés. Pouca terra, terra à vista. Distante de nós, incapaz de se atravessar no caminho que traçámos, tripulantes guerreiros numa viagem sem destino nem fim, exploradores de uma vida melhor, acima de tudo o que lá embaixo nos queiram desacreditar. Acenamos um adeus, formatamos a memória e combatemos pelo futuro contra quem ousar questioná-lo ou apenas sonhar com a sua limitação.

Do limite contemplamos o que deixámos para trás. E avançamos.
E agora preparamos a nova etapa, o que virá depois.
Mais além. Sempre a dois.

Publicado por sharkinho às 12:12 PM | Comentários (39)

junho 27, 2005

A POSTA NA BUSCA

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O Google é um instrumento valioso para colmatar a falta de inspiração (ou de arcaboiço intelectual) de qualquer blogueiro. Basta uma simples pesquisa com base em termos genéricos para nos depararmos com informação que nunca nos passaria pela cabeça existir ou, em alternativa, para a simples análise dos números nos permitir obter conclusões ou suscitar interrogações pertinentes.
Numa altura em que se aproxima um evento de suma importância na FIL, o primeiro salão internacional erótico de Lisboa (SIEL), achei importante centrar a minha atenção nos temas relacionados com a coisa.

E assim comecei a minha pesquisa com as duas palavras que me ocorreram no âmbito do meu objecto de estudo: pénis e vagina.
Saltou-me à vista uma realidade perturbadora: enquanto o termo pénis obtém cerca de 243 mil referências, a sua congénere feminina merece apenas umas meras 93.200 citações.
Claro que isto causou-me estranheza. Se a maioria dos frequentadores da internet são homens, como se explica este desnível em matéria de informação disponível?

Concordarão que algo de estranho estará por detrás do desequilíbrio em causa e as explicações plausíveis não sossegam ninguém.
Será que os homens andam obcecados pelo penduricalho?
Será que a malta acredita que há maior procura de índole fálica?
Será que o pipi está a perder popularidade no ciberespaço?

Estas e outras questões afloram-me a mente quando reparo nesta estatística que me surpreendeu. Até porque o termo boca devolve nada menos do que 604 mil resultados (uma popularidade que me surpreendeu e que reflecte uma determinada propensão que se confirma mais abaixo), enquanto o ânus se aproxima perigosamente (74.400) da que eu julgava ser a mais procurada das coisas num mundo virtual predominantemente masculino. E este factor acentua-se com a confrangedora realidade do termo mamas na internet em português. Uns míseros 61.800 resultados googlianos a evidenciar a falta de entusiasmo pelos atributos femininos. Preocupante, a meu ver, este estado de coisas.

Claro que nesta altura já vocês perceberam que esta posta não acrescentará algo de novo ao vosso manancial de conhecimentos. Todavia, o SIEL justificou uma abordagem inicial e genérica ao tema e confesso que não me ocorreu assim de repente uma forma de introduzir esta semana de charco dedicada ao tema erotismo e afins.
Mas se a análise apressada dos números que cito nesta posta não permitem tirar conclusões de caras e até pode perfeitamente ser interpretada como um mero encher de chouriço, é igualmente verdade que vos facultará um ponto de partida para um exercício mental acerca de um tema que fascina qualquer pessoa.

E o próprio Google prova que em matéria de sexo as prioridades até nem estão assim tão mal definidas na net. A cabeça, o órgão sexual por excelência, ocupa um lugar de destaque neste “estudo” que convosco partilho (738.000) e isso prova que não é por desconhecimento de causa que a malta prefere escrever acerca de pilas.
Afinal, a preocupação com o pénis que os números evidenciam acaba por de alguma forma se reflectir na popularidade da alternativa mais à mão quando este falha no cumprimento dos seus desígnios. A língua, apesar de a dizerem traiçoeira em português, bate o recorde de preferências. Um milhão e setenta mil.
Abstenho-me de comentar. E vocês?

Publicado por sharkinho às 03:32 PM | Comentários (18)

junho 22, 2005

A POSTA NA SUSPENSÃO

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Por motivos de ordem pessoal (leia-se profissional), suspendo neste momento toda a minha actividade blogueira.
Em princípio regressarei às lides, talvez na segunda-feira. Ou não.
Até lá, desejo-vos dias agradáveis e cheios de sol.

Publicado por sharkinho às 04:08 PM | Comentários (23)

A POSTA NA SAUDADE II

Aqui há dias referi alguns blogueiros e comentadores de que me havia recordado ao longo das minhas curtas férias em Praga e Viena.
Nesse primeiro lote não tive hipótese de incluir algumas das pessoas de quem me lembrei ao longo do caminho, apenas por manifesta falta de tempo para tratar as fotos.
Pois bem, diz-me lá Carolina se eu podia ignorar-te depois de dar de caras com o sítio abaixo retratado, ò douta amiga?

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Publicado por sharkinho às 12:49 AM | Comentários (4)

AO SABOR DA LEMBRANÇA

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Também não esqueci a Mushu, por motivos óbvios. Acima está a prova documental que recolhi.
E ainda dizes que não ligo aos amigos, ...

Publicado por sharkinho às 12:28 AM | Comentários (1)

AZUL MAIS AZUL NÃO HÁ!

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Claro que também me lembrei de ti, Zu, ao longo das férias. Bastou-me olhar para este rio, célebre inspirador de valsas eternas... (aqui entram os violinos em fundo, claro)

Publicado por sharkinho às 12:23 AM | Comentários (4)

junho 21, 2005

TODOS OS CAMINHOS

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Foto: sharkinho

Que o destino me oferecer.

Publicado por sharkinho às 12:33 PM | Comentários (18)

junho 19, 2005

A POSTA REFRIGERANTE

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Foto: sharkinho


No tienes cerveza, señor?

Publicado por sharkinho às 07:33 PM | Comentários (55)

A POSTA LIBERTADORA

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Vivemos encarcerados pelas nossas hesitações na masmorra da especulação.

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Uma vida enfrentada a medo, na insegurança, confere-nos uma liberdade precária e condicional. Mesmo empoleirados no sonho, apenas conseguimos espreitar a verdadeira natureza das emoções.
E só a coragem garante a absolvição.
Por isso admiro as pessoas livres, as que agarram a vida pelas ancas e a possuem (ou por ela se fazem possuir) até os seus corações pararem de bater.


Fotos: Sharkinho

Publicado por sharkinho às 02:54 AM | Comentários (15)

junho 18, 2005

MÚSICA SACRA

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Foto: sharkinho

Gosto que me dêem música. Sobretudo a de inspiração religiosa, sempre tão intensa e tão cheia de fé. Eu leio o desespero no tom, o adágio no som, a lamentação. Ouço a tristeza por detrás das ilusões mal camufladas, patéticas, por não passarem disso mesmo. (des)Ilusões alimentadas pela fé inócua numa nova oportunidade para compensar alguma que se perdeu. Mesmo não tendo sabido merecê-la, mesmo não tendo sido capaz.
A fé permite sonhar, como a fantasia. Ajuda a tocar o próprio instrumento, quando apertam a saudade e a frustração. E eu gosto de ouvir essa música que me dão, sagrada, pelo despeito em cada nota, pela confirmação inequívoca dos pressupostos invocados em cada nova audição. Pelo absurdo da crença, pelo desconforto da lembrança, pela cacofonia expressa na pauta de uma obsessão.
Não me perguntem porquê, mas alguma da música que me dão não me irrita. Soa-me absolutamente triunfal.

Publicado por sharkinho às 07:44 PM | Comentários (18)

junho 17, 2005

A POSTA OLHE QUE NÃO

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Há malta que confunde o comunismo com as pessoas que o protagonizam. Eu não sou comunista e, tal como os muitos que manifestaram o seu repúdio às homenagens de que foram alvo Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, reconheço os excessos e os equívocos na prática política destes dois Homens.
Contudo, e da mesma forma que a maiúscula na expressão acima não é casual, também identifico de imediato estas duas figuras com o restabelecimento e a evolução da Democracia neste país. Se de Vasco Gonçalves parece ter prevalecido a sua conotação com o período conturbado que o arrastou para o turbilhão da nossa história recente (e nem é figura que me inspire simpatia), no percurso de Álvaro Cunhal é impossível deixar de reconhecer o merecimento do estatuto que o país lhe confere.

Álvaro Cunhal foi um político à altura de adversários como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro ou Freitas do Amaral (para citar apenas os mais conhecidos). E acrescenta-lhe um passado de luta antifascista que justificaria por si só o respeito que soube merecer à esquerda como à direita do espectro partidário. Só os analistas anónimos e os medíocres inexpressivos fazem de conta que não percebem a dimensão de gente assim. Gente grande, que deixa uma marca sua nas páginas dos livros onde a maioria dos que os odeiam ou desdenham nunca irão constar, nem como mera nota de rodapé.

Mas para lá das grandezas e das misérias que os destacaram, estas figuras públicas viveram de forma intensa os acontecimentos do seu país. Bem ou mal, sacrificaram o remanso dos sofás pela intervenção directa no rumo da sua nação. Não se limitaram a sentar-se diante de uma folha de papel para debitar umas postas de pescada, nem a refilar em surdina nas mesas de café. Acreditaram e foram à luta, mesmo sabendo que perseguiam uma utopia comuna (como a Liberdade também era vista em Portugal na sua época) e, no caso bem conhecido de Cunhal, sofrendo no corpo a tortura e na mente os estragos que a privação daquilo que mais o movia lhe terá causado, como a qualquer pessoa, ao longo de anos de encarceramento com justificação política e, obviamente, sem qualquer fundamento ou legitimidade.

Por isso mesmo se justificam as homenagens prestadas, tal como deveriam ter em conta os figurantes menores com vontade de emporcalhar. Não é uma questão ideológica, já o deixei bem claro, mas sim a rendição à evidência. Portugal perdeu dois Homens que o defenderam contra a obscuridade medieval do regime fascista e prosseguiram o combate, com coerência, quando sentiram a ameaça do enfraquecimento dos ideais da Revolução que amaram. Melhor ou pior, foi assim que a sua existência se distinguiu das muitas que celebraram um dia a Liberdade que Abril nos devolveu. Foram protagonistas e também foram, à época, heróis do povo que gritava nas ruas. Foram a maior esperança que a classe trabalhadora conheceu, com a sua determinação férrea baseada no alegado autismo das "cassetes" que a passagem do tempo tornou roufenhas no tom. Mas cristalinas na mensagem cujos dividendos ainda hoje muitos dos seus detractores beneficiam. Como a existência de sindicatos dignos desse nome, para citar apenas o mais óbvio.

Neste contexto, não faz sentido (des)valorizar as pessoas em função dos anacronismos das suas visões de um mundo ideal, avaliadas à luz do que entretanto se progrediu. Sobretudo sem fazermos a menor ideia das conjunturas em que tomaram decisões polémicas ou defenderam posições insustentáveis aos olhos de alguns.
Aos meus olhos, e será essa a perspectiva que transmitirei aos que me sucederão, o valor das pessoas não se mede pela quantidade de erros ou de acertos que a História poderá ou não desmentir nessa qualidade, um dia. Mede-se pelo legado a que a sua passagem pela vida se associa, pelo que de concreto as notabilizou.
No caso destes Homens, é da Liberdade que se trata. E essa perspectiva basta-me para não me meter em bicos de pés e para assinalar sem problemas o meu respeito por estes dois portugueses de esquerda e a minha lamentação solidária a quem mais sentirá a sua falta.

A História séria há muito deixou de acreditar em papões.

Publicado por sharkinho às 05:20 PM | Comentários (12)

junho 16, 2005

JANELA NO CÉU

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Foto: sharkinho

Espreitadela de luz.

Publicado por sharkinho às 12:05 AM | Comentários (19)

junho 15, 2005

NEGÓCIO DA CHINA

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Sem proferir palavra, o detective privado pousou na secretária o resultado sórdido da sua investigação. Quedou-se por instantes, aguardando o melhor momento para apresentar a conta dos seus serviços que a própria ética do ofício condenava. O momento não chegaria, percebeu-o pela expressão angustiada do cliente que contemplava os envelopes castanhos sem coragem para os abrir. Decidiu então borrifar-se para o mal alheio e retirou do bolso interior do casaco um outro envelope, mais pequeno, no qual se encontrava apenas um pedaço de papel dobrado em dois.

Pigarreou, tentando chamar a atenção do fulano antes que um desmaio, um ataque de fúria ou um voo planado pela janela o impedissem de cobrar o total da soma que efectuara no papel. Já vira acontecer de tudo, no momento das penosas constatações que oferecia sob o pretexto de iminente divórcio a tipos como aquele. Provas, diziam, para minimizarem as perdas financeiras com o descrédito judicial das respectivas adúlteras. Seria verdade, para alguns. Não o era para a maioria, na qual se encaixava o homem que se escaqueirava por dentro diante de si. O pretexto que usavam apenas justificava uma acção cujo mote saltava à vista como a tinta fluorescente que destacava no relatório os aspectos que julgava essenciais. Para o tal divórcio, claro está...

O amante ensimesmado e arrogante que o contratara jazia agora na lembrança, tamanha a distorção que os nervos crispados lhe provocavam no rosto lívido de desgosto e de profunda desilusão. O detective manteve o silêncio enquanto o olhar alucinado do outro fingia percorrer as parcelas da soma que lhe competia pagar. Já não estava ali, a criatura que em piloto automático contou as notas até perfazer a quantia. O troco, como de costume, fazia de gorjeta. Um bónus, como alguns preferiam chamar aquele montante acrescido de recompensa, pela qualidade do serviço sujo que lhes prestava. Mais valia pagarem-lhe para os chicotear, tamanha a tristeza que invadia o semblante da clientela no acto de entrega da mercadoria solicitada. Encomendavam sarilhos e ele fornecia, sempre com a máxima discrição, a mais invocada das exigências numa actividade clandestina. Chamavam-lhe o elemento surpresa, como se a estupefacção da surpreendida trouxesse ao cornudo alguma vantagem ou simples consolo no meio de um cenário assim.

Muitas vezes adivinhava nos gestos, nas palavras e nas expressões dos seus clientes a sequência lógica
da sua revelação. Uns optavam de caras pela violência, pancada até desfalecer no corpo infiel da traidora. Outros, nem sempre melhores de assoar do que os brutos primários, maquinavam na hora os esquemas mais tortuosos de utilização do produto final. Desgraçavam a vida às respectivas sem lhes tocarem num cabelo, esgrimindo gravações, fotografias e outros elementos de prova em muitos pontos estratégicos para além do inevitável tribunal. E depois havia-os assim, calados, em choque e sem capacidade de reacção.
Esses eram mais difíceis de prever nas reacções que se seguiam. O desse dia definhava sem um pio, olhos postos nos factos da sua constatação. No caso concreto, era a amante que o traía com um amigo especial e não a mulher que dormia sozinha numa cama para dois onde ele pouco se estendia. Era um pedaço de mulher, a rapariga, hábitos de pessoa culta e bem formada, um corpo escultural. Bastariam dois meses para obter o material necessário, ela pouco escondia e na verdade nada teria a esconder. Excepto dele, o macho possuidor de uma relíquia que nunca admitiria partilhar com outro da espécie, vergonha, apesar de a sua própria condição o inibir de tais veleidades ou intromissões. Mas o homem, abastado cinquentão, julgava-a sua e investiu naquilo que considerava legítima defesa patrimonial. Não havia outra forma de entender o problema, houvesse uma alma com a paciência necessária para o explicar ao palerma que sofria por causa da sua lamentável estupidez.

Quando fechou a porta do gabinete e se despediu da recepcionista que consigo colaborara em alguns aspectos da investigação, embrenhou-se num raciocínio que o divertiu pela conclusão. A alma do negócio não era o segredo, que no caso sempre existia, mas sim o ciúme que corroía a perspectiva aos mais fracos de entre os fuinhas capazes de pagarem por um serviço assim. Flagelavam-se com imagem inventadas enquanto aguardavam confirmação da suspeita e quando assistiam em privado às desonras, como as sentiam, não conseguiam lidar com a pressão. Ensandeciam.
Não estranhou por isso o aglomerado de gente chocada diante da porta principal, a agitação provocada pela explosão em pedacinhos de um corpo estatelado no pavimento, vindo do piso mais alto do edifício de escritórios onde obtivera maior número de recomendações.

Mirou de soslaio o que restava do infeliz enquanto anotava na agenda uma eliminação de ficheiro a efectuar e o quilo de cebolas que a mulher lhe pedira para comprar no caminho de regresso. Confirmou que ainda lhe sobrava rolo na máquina fotográfica para uns flagrantes de outras vidas em tormento. Depois, sacudiu a gabardina e infiltrou-se na multidão.

Publicado por sharkinho às 11:13 AM | Comentários (7)

A POSTA NA MOLDURA

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Foto: sharkinho

Sentinelas da casa assombrada.

Publicado por sharkinho às 12:06 AM | Comentários (5)

junho 14, 2005

A POSTA NO CULTO DO PRAZER

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Nos assuntos da cama não existem almas gémeas. Precisamente porque não há duas pessoas iguais e porque ainda que o fossem seriam sempre de alguma forma condicionadas pelas influências que recolhessem ao longo das suas vidas.
Torna-se por isso natural que tenhamos que nos adaptar uns aos outros em matéria de sensibilidade, de ritmo, de sentido de oportunidade e de mais uma série de coisas susceptíveis de fazerem toda a diferença no momento das concretizações. É o mínimo que se pode exigir a quem se predispõe a partilhar um acto tão sublime com qualquer outra pessoa.

Por outro lado, e sobretudo quando mantemos relações amorosas sem termo certo, é fundamental que nunca releguemos para segundo plano o investimento pessoal nos aspectos que podem minar o futuro que perspectivamos.
Na cama, essa é para mim a regra fundamental. E porquê? Porque é inevitável o espectro da monotonia numa relação isenta de culto. O culto do prazer, para definir melhor os contornos do meu raciocínio.
Claro que outros componentes são vitais para que tudo corra pelo melhor, dentro da cama ou fora dela, mas hoje decidi concentrar-me na questão do sexo. Para variar.

Para nos sentirmos especiais para quem nos usufrui, esse alguém deve estar atento(a) aos pormenores. Um exemplo concreto: se um homem não tem a atenção necessária para identificar de imediato uma novidade no arsenal de lingerie da sua parceira, então, desculpem lá, mas não merece a sorte que a vida lhe ofereceu. Porque ignora ou subestima o esforço que ela faz para se tornar atraente e apelativa aos seus olhos. E assim vulgariza a pessoa e a relação, estraga o clima e é bem capaz de ficar a ver navios nessa noite onde tudo se conjugava para mais um excelente momento a dois. É assim e não há hipótese de ser visto de outra maneira.
E mais: perante tais gestos de exibição de interesse na nossa pessoa não podemos limitar-nos a apreciar ou mesmo a louvar a intenção. Devemos sentir-nos obrigados a corresponder na mesma moeda, dentro dos meios ao nosso dispor. O culto também se manifesta dessa forma.

O fantasma da monotonia, e ninguém me venha dizer que está isento(a) de medos (e de certezas...) nesse domínio, existe e deve ser combatido com firmeza e convicção. Se gostamos da coisa (e da pessoa) compete-nos levar a sério todas as ameaças à felicidade que devemos perseguir com obstinação.
A fantasia, algo que soa ridículo a quem não percebe nada destas coisas, é um instrumento valioso para contornar esse perigo do adormecimento de uma relação à sombra da bananeira.
E isto não é discurso de tótó, como saberá quem vive o assunto à luz de uma perspectiva similar à minha, até porque a fantasia (como a palheta) só serve de alguma coisa se lhe associarmos a vontade e a tesão necessárias (perdoem-me a franqueza).
De resto, incluo o papel da fantasia numa relação no mesmo plano da minha tola em que assumo que estou pronto para abraçar o Viagra no dia em que essa necessidade se manifestar.
Vale tudo para mantermos a nossa vida sexual numa boa onda.

A fantasia é o reino da liberdade colocado ao alcance das nossas cabeças. É um mundo perfeito, ideal, que podemos recriar com todo o empenho e carinho para servir o mais simples dos propósitos: receber e proporcionar prazer nos actos em que nos envolvemos.
E por fantasia não entendo (nem deixo de entender) o recurso a fetiches ou outro tipo de extravagâncias. Por vezes basta a conjugação de um cenário bonito com um discurso agradável para se criar o melhor clima para nos embrulharmos numa cama (ou noutro sítio qualquer). Mas tudo é possível e não existem (não devem existir) restrições nessa importante e delicada matéria. O limite é o da intimidade criada e o da vontade de fazer mais e melhor para fomentar o desejo noutra pessoa. E é sempre compensador o resultado obtido com base nesta motivação tão simples quanto eficaz e encantadora (para quem entenda a dedicação implícita nesse esforço de sublimação da partilha): o retorno faz-se sentir na própria ocasião que visamos estimular...

Os dois princípios fundamentais para mim (a Liberdade e o Amor) estão presentes nas minhas decisões e no meu comportamento no que respeita às relações amorosas. Em ambos os casos, consolidam e justificam qualquer aposta que entenda fazer em prol de uma relação saudável e feliz.
É uma receita ganhadora e não estou a armar-me aos cucos com tiques de Júlio Machado Vaz. O que digo, afirmo-o com base nos meus pressupostos subjectivos e absolutamente questionáveis por terceiros. É a minha opinião, resultante da minha combinação de factores e pode nem resultar com outros tipos de pessoa.
Mas lá que vale a pena ter estas coisas em conta e nunca as descartar de forma leviana, isso posso eu garantir-vos com base na minha própria experiência.
É um dos segredos da minha maneira de viver feliz.
Depois digam que nunca vos dei nada...

Publicado por sharkinho às 06:19 PM | Comentários (8)

junho 11, 2005

A POSTA QUE ME APETECE

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Entrar em ti até perder o caminho de volta.

Publicado por sharkinho às 07:21 PM | Comentários (26)

junho 09, 2005

A POSTA METEOROLÓGICA

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Foto: Sharkinho

Hoje, o meu dia está assim.

Publicado por sharkinho às 02:49 PM | Comentários (35)

junho 08, 2005

PAGO A PRONTO

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Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.
Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.

Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.

Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...

Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.

Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação. Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.

Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.
Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações.

Publicado por sharkinho às 01:27 PM | Comentários (31)

junho 07, 2005

A POSTA LEONINA

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Ontem publiquei a foto de um bicho que me repugna. Hoje entendi publicar um contraponto, com um bicho que me fascina.
Não sendo adepto do Sporting, é suspeita a minha afeição a esta criatura. Mas não, benfiquista e campeão, posso explicar tudo certinho.
A leoa inspira-me um curioso paralelo com a minha espécie preferida. Vários, aliás.
E vão perceber porquê.

A força lê-se no olhar e no porte de uma leoa. A força com que cuida das crias e de um paspalhão qualquer, todo altivo, que nem se preocupa em garantir o sustento da família. Só come, dorme e embrulha-se em zaragatas com outros galos que lhe disputem o poleiro. E ela, determinada, zela por todo o clã (mas ele é que fica com a fama...). A leoa é competente e empenhada em tudo o que faz.

A sua inteligência revela-se a cada momento em que necessita de tomar decisões. A inteligência, a criatividade e a persistência, que aplica combinadas para superar em astúcia a velocidade superior das suas presas e inimigos naturais. Consegue camuflar-se na perfeição, mistura-se com a terra, o vento e o sol, despercebida, até ao momento ideal para atacar. E só ataca para, de alguma forma, se defender.

Ninguém é mais forte do que uma leoa quando esta se sente ameaçada ou pressente algum perigo para as coisas a que atribui maior importância. O amor é uma das suas principais energias, amor instintivo, poderoso, que se revela na ternura que deixa escapar no pouco tempo que lhe resta em cada dia.

A leoa é uma companheira leal e fiel ao macho da espécie com quem acasala. Aguenta com paciência as suas manias de pavão, as suas arrelias de machão e a falta de contrapartidas que, regra geral, são a marca dos seus dias a dois.
No entanto sabe dispensar o convívio de um leão, sempre que se impõe uma atitude mais feroz. Nessa altura evidencia as garras, as das patas e a outra. A garra que a leoa demonstra quando a ocasião exige ou simplesmente proporciona. Indomável, a bem dizer.

Por tudo isto admiro, respeito e sinto-me irremediavelmente atraído por bichos assim. Por tudo isto é da leoa a imagem mais bonita que a savana me ofereceu. A que partilho convosco acima.
Até parece que a ouço rugir...

Publicado por sharkinho às 02:56 PM | Comentários (15)

junho 05, 2005

ANALISA-MOS TODOS

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(Perdão, analisamos todos)
Isto dos blogues ainda tem muito por descobrir. Existem fenómenos inexplicáveis que as pessoas fazem acontecer ao ritmo alucinante que isto nos impõe. Muitos fenómenos sem explicação aparente e que podem suscitar alguma curiosidade por parte de quem os observa, fazendo ou não parte desta comunidade que, no fundo, deixa transparecer muito (tudo?) da merda de mundo que estamos a construir lá fora.
Isto porque tendemos a tornar-nos pessoas muito pequeninas, mesquinhas, pobres de espírito. E isso nem a blogosfera consegue filtrar. Os estúpidos podem ter um sucesso do caraças enquanto malta cheia de talentos permanece discreta no meio da floresta de umb(i)logs, sem a projecção(?) que meia dúzia de parvalhões armados ao pingarelho obtêm nos contadores desta merda ou daquela. E às vezes perdemos a noção do ridículo e começamos a tentar perceber o porquê destas coisas acontecerem.

Já passei por uma fase assim, na minha adolescência blogueira. Perdia o sono, incapaz de compreender porque uma posta que eu, o juiz em causa própria, achava tão boa e ninguém lhe ligava pevas. E depois saía-me uma caca, julgava eu, e toda a gente visitava e comentava e dava mostras de gostar. Fazia-me confusão, mas depois concluia: "quem sou eu para determinar o certo e o errado nas opiniões das outras pessoas, no cariz da sua intervenção?". E foi assim que deixei de me preocupar em demasia com as verdades(?) expressas neste ou naquele instrumento de medição e, acima de tudo, com as que dizem respeito aos blogues dos outros.

Mas nem todos pensamos assim nesta comunidade virtual. Existem os xicos-espertos que insistem em escalpelizar esta merda ao pintelho para se arvorarem de entendidos na coisa. Verdadeiros cientistas amadores. Opinam com a certeza no cagar de quem nos lê e nos interpreta como se de cobaias se tratem. Percebem tudo, teorizam e experimentam, extraem conclusões à brava a partir dos seus testes tão rigorosos como a prova de sabor planta. Deviam entreter-se a provar o sabor do Xau Silvestre, para saberem o que é bom e não esbanjarem o seu tempo de antena na blogosfera armados em doutores.
É que não existem dados adquiridos, nem estudos conclusivos, que permitam a qualquer papagaio palrar acerca de algo de que sabe tanto como eu sei de lagares de azeite. Sabemos o mesmo, népia, e temos que reduzir-nos à insignificância que a nossa "quota de mercado" nos contadores traduz (se nos faltarem outras referências). Palpites todos dão e são livres de os dar. Certezas e conclusões? Não me flixem...

Somos livres de publicar o que nos der na bolha. E isso também se aplica aos iluminados que nos dissecam. Mas somos igualmente livres de os mandar à merda ou, em alternativa e para manter o ambiente cordial, dizer-lhes que não concordamos com a sua douta perspectiva acerca da maioria das coisas. E deixarmos de lhes dar conversa depois, para não insistirem em levar-se demasiado a sério nestas andanças. E nas outras, já agora.

Publicado por sharkinho às 02:50 PM | Comentários (40)

junho 04, 2005

A POSTA NA FOTOGRAFIA III

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Ao fundo está o momento que procuro. No fim da estrada. No início de um caminho que ainda não cessei de percorrer.
Ao fundo está um começo.
E eu anseio cada dia que me oferece a respectiva continuação.

Publicado por sharkinho às 11:41 PM | Comentários (16)

A POSTA NOS OLHOS

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Como identificarei a relíquia sagrada caso se cruze comigo ao longo da jornada? - perguntou o cavaleiro da távola.
O rei, que lançava os homens ao encontro do seu destino (como um deus), olhou para o céu em busca de inspiração.
De quantos se gabavam de olharem a peça nem um a conseguia descrever. Olhavam sem ver. E a relíquia desaparecia outra vez, esquecida. Perdida pelos homens sem alma nem fé.
O rei cogitou. E pensou como seria diferente o céu para aqueles que apenas lhe observassem uma ínfima porção. Insignificante e pequeno pontinho de luz. Nunca o reconheceriam, visto de uma forma redutora. Para os menos empenhados, o céu não existiria afinal. Como a relíquia sagrada que o cavaleiro se propunha descobrir.
Sempre que te cruzares com algo de diferente, ainda que não o pareça à primeira vista, concentra a tua atenção nas questões de pormenor. Aprende a ler os sinais que a relíquia nos dá, identifica-os. Só então entenderás.E se ainda assim te restarem dúvidas, observa-te também. No reflexo de ti que a relíquia produzir encontras a resposta a todas as perguntas que algum dia quiseste fazer. A relíquia tem origem divina, foi moldada no céu.
Mas isso não me ajuda grande coisa, senhor. - titubeou o cavaleiro. E prosseguiu. - Eu nunca vi coisa parecida sequer...
Lembra-te onde foi moldada. - insistiu o rei. - Olha-a com atenção e com empenho, com paixão e com fé.
Saberás que a encontraste pela cor com que te devolver esse olhar
.

Publicado por sharkinho às 06:37 PM | Comentários (9)

É FAZER A CONTA

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Aqui há dias escrevi uma posta chamada A Posta Quantas Dei (tá mais abaixo um nadinha). Esse texto visava transmitir ao mundo a minha incapacidade para entender o raciocínio matemático dos que sabem sempre quantas deram ou são capazes de dar. A sério ou só na paródia, pois muitos homens passam a vida a sonhar e depois brincam com estas coisas.
Mas estas coisas são sérias e um gajo tem que procurar instrução para colmatar as suas lacunas. Gritei ao mundo a minha ignorância: não sei quantas dou, dei ou darei seguidas. Sou um asno nas estatísticas sexuais, virei-me mais para a cartografia.

Vai daí, que tenho um blogue, dei o dito berro e toda a gente leu e algures alguém prestou atenção. Foi como mandar uma mensagem na garrafa e ela chegar ao destinatário certo em menos de 24 horas, morando ele quase em pleno Círculo Polar Ártico (como a maioria já sabe, o gajo é tripeiro).
Mas certo porquê, considerando o calibre do que a caixa de comentários registou nesse dia? Porque a posta pedia resposta e foi ele quem melhor a deu, do ponto de vista mais lógico e pragmático da questão. Como se pode constatar pelo comentário/resposta que reproduzo a seguir.

E qual era a pergunta?
Como sabemos quantas demos seguidas (sem tirar)?

A seguir, a intervenção do ilustre Professor Doutor Von Ruinash, que seria pecado confinar a uma caixa de comentários.
Porque o mundo precisa de saber estas coisas...

Aí vai:
Em primeiro lugar é preciso contabilizar o coeficiente activo (CA) e o coeficiente passivo (CP):
CA = PVA + PAA + SOA
CP = PVP + PAP + SOP
Em que:
PVA - Penetrações Vaginais Activas
PAA - Penetrações Anais Activas
SOA - Sexo Oral Activas
PVP - Penetrações Vaginais Passivas
PAP - Penetrações Anais Passivas
SOP - Sexo Oral Passivas
E que nos permitirá calcular o Quociente Sexual:
QS (Homens) = CA / CP
QS (Mulheres) = CP /CA
Depois há que ter em conta a constante da orientação sexual.
COS (Hetero) = 0,5
COS (Homo) = 1
COS (Bi) = 1000
Finalmente, podemos calcular o coeficiente orgiático:
CO = (COS * QS * NP) / D
Em que NP corresponde ao número de participantes na orgia e D as dimensões do local em que a mesma se efectua (em metros cúbicos).
É uma fórmula muito simples, eficaz e que dá sempre muito jeito. Para quem não quiser calcular o CO por etapas deixo a fórmula inteira que permite o cálculo directo:
CO(Homens)=(COS*((PVA+PAA+SOA)/(PVP+PAP+SOP))* NP)/D
CO(Mulheres)=(COS*((PVP+PAP+SOP)/(PVA+PAA+SOA))* NP)/D

Publicado por sharkinho às 03:38 PM | Comentários (7)

junho 03, 2005

A POSTA SEM TEMPO

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Hoje, a Casa de Alterne conheceu o seu fim.


O tempo tem sido o melhor dos meus conselheiros. Não porque as pessoas que estimo, respeito e admiro e trato como amigas não me mereçam a devida atenção quando me aconselham. Mas porque existem muitas questões que só a passagem do tempo nos permite enquadrar na perspectiva mais correcta. E é essa que deve, por princípio, nortear cada uma das nossas decisões.
O tempo carrega em si uma forma de sabedoria que apenas ele tem o dom de nos conceder. E apenas se estamos atentos, se sabemos identificar com clareza os sinais que o tempo nos expõe.

Eu acredito no tempo como um mestre que deixa rasto da sua passagem. Ensina quem se predispõe a aprender. Ignora os casmurros na mesma moeda. O tempo é assim, indiferente as todas as pequenas coisas que o medem. Como nós, atrevidos, convencidos de que o tempo é mensurável e por isso susceptível de controlar. Mas não. Ele passa pelas pequenas coisas que o medem, as pessoas, e nem vacila no seu caminho para um infinito que não sabemos compreender.

Infinitas são as lições que o tempo nos ensinou, transmitidas de geração em geração. O fogo que nos queima quando o tocamos. A água que nos afoga quando mergulhamos por tempo demais. Demasiado tempo sem respirar. O amor que o tempo se esforça por explicar, fundamental. E a maioria de nós não estuda a matéria, reprova no exame e a raposa tem pele de animal infeliz. É assim que nos desperdiçamos em detalhes que nada servem o objectivo a atingir e que o tempo, que cultivamos nas memórias do que já não pertence à nossa dimensão, insiste em nos provar a toda a hora. No azar dos outros, oportunidades por concretizar, e na miserável constatação de que esbanjamos o tempo mais a preciosidade das suas lições.

Eu acredito no tempo como um viveiro de termos de comparação. Bastam-me alguns minutos num cemitério para me ocorrer a mais fácil das conclusões. Um dia o tempo acaba, nesta realidade que me é dada a conhecer. O meu tempo e o das pessoas que o destino colocou em rota de intersecção com a minha. Todas as pessoas. As que amo acima de qualquer multidão que me distraia. Falta-me tempo para as negligenciar, pois é certo e sabido que um dia deixará de sobrar e não será possível deixar algo para amanhã ou depois. É assim e ainda bem. Devia bastar para nos deixarmos de merdas e mergulharmos na vida com a pressa de quem não sabe de quanto tempo feliz pode dispor.
É isso que o tempo ensina, experiência de vida, mas ninguém parece atribuir importância a essa lição. Até ao dia.

O tempo diz-me que devo ser grato pelo tempo que o acaso me concedeu. E a minha gratidão só é demonstrada quando a felicidade é a suprema prioridade e motivação, a cada instante.
Agradeço ao tempo as bofetadas que me dá, para me acordar no meio dos arrependimentos desnecessários e dos desperdícios sem justificação possível.
Agradeço ao tempo o facto de ter tempo para aprender. E de o poder gastar a ser feliz e a contribuir para a felicidade dos que me rodeiam.
Parece muito simples visto desta forma. E é. Estupidamente simples.

Nem mesmo a esperança pode arvorar-se de intemporal.

Publicado por sharkinho às 03:00 PM | Comentários (24)

A POSTA QUANTAS DEI

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Eu dava cinco sem tirar. Nem pôr. Agora empederniu-se-me a língua...

Já falei com diversas pessoas acerca do assunto e não consegui encontrar uma posição consensual. Mas hoje não vou falar de posições, por muito que reconheça ser um tema inevitável para uma próxima posta. Hoje vou ver se aprendo como se fazem as contas na importante questão do "quantas dei seguidas" e da não menos importante matéria do "quantas ainda consigo dar, mesmo intercaladas".
Todos conhecemos as lendas urbanas dos campeões que exibem nas ruas, sem humildade nem pudor, a ladainha do "dava-te três seguidas". Ou mais, consoante os cálculos de cada atleta...
As tabuadas variam, ao que entendi. E para verem que a questão não é assim tão simples coloco-vos perante exemplos práticos. Vejamos: o que se conta como uma bem dada? Será uma em que ele atingiu o objectivo que perseguia ou uma em que ela exibiu com fulgor a evidência da sua satisfação?
Nesta fase a coisa é fácil: uma bem dada é quando ambos cortam a meta, sendo desportivamente muito bonito quando os atletas a cortam em simultâneo. Do tipo ganhámos os dois.

O problema, raro, coloca-se quando passamos à contagem de duas. Dei duas seguidas significa o quê?
Para alguns quer dizer apenas "vim-me duas vezes". Para outros, de uma escola diferente, quer dizer "veio-se duas vezes". E ainda existem os que só contam duas quando são bem dadas (ver exemplo acima), repartindo-se os louros e as medalhas de forma equalitária. Não interessa quem ganha, o que conta é participar.
Nestas três versões existem outras tantas interpretações possíveis. A primeira enquadra-se na escola clássica do neo-fanfarronismo. O macho típico desta corrente de pensamento assume, invariavelmente, um estatuto de semi-deus aos seus próprios olhos. Mas existe um outro par de olhos no lado oposto da barricada. E nem sempre confirmam a contagem...
Já a segunda, embora altruísta, também pode incorrer num certo exagero. Sobretudo porque podem ter sido duas em trinta e cinco segundos e assim é batota, pois não demonstra a virilidade do gajo que afirma bisar.
A terceira opção, politicamente mais correcta, parece ser a mais consentânea com o rigor que procuro. Mas se as coisas nunca acontecerem em simultâneo temos duas vezes cada, o que pode ser confundido com quatro. Mas não são, julgo eu.

Isto dos números é muito confuso para mim. E não só. Não faltam também as descrições romanescas de noites inteiras "naquilo", jovens casais que se enfiam durante 72 horas seguidas num quarto de hotel. É muito tempo, dá para uma data delas seguidas. Porém, o instinto diz-me que serão alternadas pois mesmo o membro mais erecto não tem revestimento em titânio e a fricção pode implicar a irritação cutânea (uma gaita para a malta da alta competição). Donde se conclui que seguidas, seguidas, talvez não sejam tantas à luz dos mais elementares critérios contabilísticos. E que não existe um padrão universal para as contar, pelo que qualquer afirmação desse teor pode ser considerada pura propaganda.

Sinto-me menos homem por não poder competir em igualdade de circunstâncias com os melhores faladores, munidos de autênticas calculadoras de bolso embutidas na língua. Não faço ideia se já dei três, quatro ou mesmo mais, seguidas. Não posso entrar em comparações. Perco-me sempre nas contas. E depois há a tal disparidade nos critérios de medição que me baralha. Não me safo na análise quantitativa.
Vou pedir transferência para o controlo de qualidade. E aí, já posso fazer uma posta à medida da minha verdadeira vocação. A metro já vi que não resulta.

E vocês, sabem fazer as contas? Ou isto não passa tudo de uma mera estimativa?

Publicado por sharkinho às 01:15 AM | Comentários (32)

junho 02, 2005

BLOGS DE MENINAS QUE DÃO A VOLTA POR CIMA DEPOIS DE UMA DESILUSÃO

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E eis-nos chegados à nossa habitual rubrica no programa “Como Vindes Cá Parar”. Não sei se já vos referi, mas gosto muito de rubricas habituais. É uma forma muito arrumadinha de vendermos o nosso peixe. Damos um nome à coisa e vamos botando umas larachas a (des)propósito seja do que for.
O problema é que eu não sou um gajo arrumadinho. Antes pelo contrário. Funciono bem numa desorganização desde que seja desorganizada por mim. E sei sempre que papéis constam das duas pilhas com cerca de trinta centímetros de altura que ornamentam o tampo da minha secretária como dois enormes arranjos de flores murchas.

E a despropósito de coisas murchas, regresso ao tema (à rubrica) principal desta posta que é, como já terão percebido, a análise das curiosas expressões que atraem freguesia ao charco via motores de busca.
A que mais me intrigou do mês passado, “a antiga adolescência”, fez-me pensar no conflito de gerações, um fenómeno sempre controverso e actual. E intrigou-me por ser uma expressão que joga certo com a minha forma de estar na vida. Sou um digno representante da antiga adolescência que, por se manter presente na minha atitude, se transfigura numa moderna adolescência pela sua permanente actualização.
A antiga adolescência era um nadinha desvairada. Pelo menos a minha. E recomenda-se.

"Generosidade", outra expressão importante nos critérios de busca, é o que não falta nesta casa. O charco é generoso em tudo, mesmo nas suas fraquezas. Um mãos largas...
Mas também é generosa a expressão que dá o título a esta posta. Exemplos a seguir, sem dúvida. Tristezas não pagam dívidas, isso qualquer menina desiludida sabe, e há que dar a volta seja por cima, por baixo ou pelos lados.

Comentários sobre medicina alternativa” têm muita procura no charco. E com alguma legitimidade, pois o espírito do Charquinho não é alheio ao de qualquer boa ervanária. Aliás, sempre fiz a apologia das melhores ervas e da respectiva liberalização nos consumos portugas. (Legalize it!)
Terapia de grupo também acho piada. Mesmo em grupos de dois. Mas isso já a medicina tradicional descobriu também...

Se há uma expressão que faz todo o sentido encaminhar pessoas para o charco é esta: “a química que existe no beijo”. Tá tudo aqui, o que há a saber sobre a química e sobre o beijo (com exemplos práticos). A química que existe no beijo, só para resumir e vos poupar às respectivas fórmulas, é basicamente idêntica à da nitroglicerina. Pelo menos no efeito, quando a coisa se agita.

E termino a rubrica com um mistério: “lista de schindler – quem era a menina de vermelho”. Eu, que assisti à estreia do filme em solo germânico e chorei que nem uma madalena no fim por causa da reacção dos krauts, preocupou-me mais na altura perceber o porquê de o Spielberg fazer tanto barulho em torno de um playboy alemão porreiraço e deixar à margem um discreto portuga que morreu na miséria depois de salvar mais de 30 mil judeus. Aristides de Sousa Mendes, um dos meus heróis.
Se calhar era por o nome ser mais comprido e difícil de pronunciar...

Ah, a menina de vermelho era a mesma que protagonizou mais tarde o célebre “The Woman in Red”. Como ela cresceu...
Fez-se uma mulherzinha.

Publicado por sharkinho às 04:21 PM | Comentários (37)

junho 01, 2005

TEMPO DEMAIS

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Ajeitou o colarinho do casaco, tentando vedar todas as passagens para o seu pescoço que o vento frio conseguia encontrar. Depois esfregou as mãos, uma na outra, em vão, para obter com a fricção o calor que o rigor daquele inverno lhe negava. Olhou em volta pela milésima vez e encontrou apenas os rostos anónimos de quem passava, por coincidência, naquele lugar soprado com gelo granizado, naquele momento de espera por alguém que teimava em não aparecer.
Tanta gente desnecessária, os outros, diferentes na sua própria ideia, absolutamente idênticos aos olhos de quem não os queria e não os conhecia e apenas os focava na ânsia de distinguir enfim uma cara familiar. De uma promessa se tratava e ela que a cumpria desanimava e gelava como a esperança de que o que havia não terminaria ali. No frio, na espera e na impossibilidade real de se repetir a oportunidade que concedera por piedade no leito de morte da relação que tentava salvar.
O relógio de pulso não mentia, quartzo fiel e ponteiros implacáveis a avançar para o ponto final, do fim da paciência para esperar sem sucesso alguém que se calhar nem a merecia. Mulher bonita e zangada, frustrada por aturar os piropos idiotas e ordinários da maioria dos imbecis que a apanhavam pelo canto do olho e não conseguiam reprimir o entusiasmo juvenil. Gaiatos crescidos, vulgares. Todos nojentos e absurdos na semelhança que cultivavam entre si, machões.

Verificou no painel publicitário os números que o orientavam no padrão escolhido para medir, entre outras coisas, o tamanho do atraso que as fêmeas da espécie defendiam como uma espécie de tradição. Parvas, a maioria, faziam-se caras na demora para entregarem de borla o coração descontrolado que as traía no momento fatal, um pouco depois.
Ele imaginava-se ampulheta, sangue a escorrer num fio, da cabeça para os pés, tempo escoado de um espaço passado para o outro, vazio, que representava o futuro por preencher. Enfiou de novo a cara por detrás do jornal desportivo que o protegia das rajadas danadas, tremia, mal preparado para a mudança do clima e para a revolução que antevia quando, inevitável seria, lhe faltassem os pretextos para continuar à espera de alguém.
As outras pessoas passavam, alheias ao fulano incógnito que as espreitava às vezes por cima do jornal que não conseguia ler. O desconhecido, excepto para si mesmo e para alguém que lhe prometera um encontro, quebrar o gelo e recomeçar. Como se um barco naufragado pudesse por magia elevar-se do fundo do mar e navegar outra vez...
Ilusões que não alimentava fazia tempo, muito mais do que se dispunha a esperar, ao frio, por alguém tão importante afinal como as outras, jeitosas, que passavam perto o bastante para as cobiçar e lhes afirmar sem reservas uma inesgotável fonte de potência sexual. A mesma que lhe falhava, tantas vezes, na hora da verdade em que estava na hora de provar o desejo e o amor por alguém que já não tinha vontade de esperar.

Agachou-se para apanhar um dos muitos ganchos que enfiara pelo cabelo, insistência, para ficar ainda mais bela aos olhos de alguém que a magoara, por mais do que uma vez, um canalha, sem palavra, traidor. Tombou-lhe junto aos dedos uma lágrima, de raiva como ela queria acreditar, de desilusão e tristeza pela espera fracassada, pelo amor que antes sonhava na armadura reluzente de um príncipe encantado, corroída pela ferrugem que a invadiu quando a inércia dominou o seu tempo por tempo demais.

Dobrou o jornal e enfiou-o debaixo do braço, despeitado, no preciso instante em que um vulto de mulher se agachava no lado oposto da estrada, junto a uma antiga camisaria. Não lhe distinguiu as formas, tudo bem, nem se ralava, fartura de caça na sua coutada privada, pólvora seca que cegava algumas e as trazia do céu para onde julgavam voar e de onde afinal apenas caíam. Trofeus na parede, exibidas em conversas gritadas diante de uma plateia tão íntima como as pessoas que passavam e ignoravam a razão de tanto rancor espelhado nos olhos do homem que fingia sorrir, careta forçada, enquanto se esforçava para dobrar um simples jornal.

Nenhum se ralou com o ângulo de onde o vento bufava. A um empurrava, pelas costas, o mais depressa que podia, para longe daquela azeda e enregelada recordação. Ao outro oferecia resistência, contrariava a passada, simulava um obstáculo natural, alguma razão para adiar o momento da partida para uma terra chamada nunca mais. Ambos vergados pela força do sopro glaciar que os tolhia de medo. Medo da saudade que poderia mais tarde vencer o orgulho ferido, feroz, mais o desdém encenado para consumo de terceiros interessados apenas nas inconfidências que a vingança fazia cuspir. Medo da vergonha colada na testa dos mais derrotados, os menos habilitados para contornarem o fantasma da rejeição.

No meio da estrada vazia, um gancho de cabelo recebeu a carícia das folhas dispersas de um jornal que o vento, na voragem da sua teimosia, arrastou para assistir por instantes à recriação por analogia de um final feliz que um simples desencontro de olhares impediria de acontecer

Publicado por sharkinho às 10:45 AM | Comentários (32)