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junho 18, 2005

MÚSICA SACRA

orgao1.JPG
Foto: sharkinho

Gosto que me dêem música. Sobretudo a de inspiração religiosa, sempre tão intensa e tão cheia de fé. Eu leio o desespero no tom, o adágio no som, a lamentação. Ouço a tristeza por detrás das ilusões mal camufladas, patéticas, por não passarem disso mesmo. (des)Ilusões alimentadas pela fé inócua numa nova oportunidade para compensar alguma que se perdeu. Mesmo não tendo sabido merecê-la, mesmo não tendo sido capaz.
A fé permite sonhar, como a fantasia. Ajuda a tocar o próprio instrumento, quando apertam a saudade e a frustração. E eu gosto de ouvir essa música que me dão, sagrada, pelo despeito em cada nota, pela confirmação inequívoca dos pressupostos invocados em cada nova audição. Pelo absurdo da crença, pelo desconforto da lembrança, pela cacofonia expressa na pauta de uma obsessão.
Não me perguntem porquê, mas alguma da música que me dão não me irrita. Soa-me absolutamente triunfal.

Publicado por sharkinho às junho 18, 2005 07:44 PM

Comentários

Esta tua foto é mesmo bela e repousante.

(Estás a falar da sagrada paixão em que todos acreditamos com fé? ;) )

Publicado por: maria arvore às junho 18, 2005 11:16 PM

Ainda bem, Maria, que repousas a vista na ilustração da posta. E melhor ainda quando a achas bela, pois eu pretendia mesmo transmitir a serenidade que a beleza me dá quando tenho a sorte de a contemplar. Mais a força para travar todos os combates que me calhem na rifa.
(Estou a falar de sexo, de amor, de ciúme, de inveja, de derrota e de vitória. E de música, também). :)

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 12:08 AM

Pela fé não sonho (eu que a tenho no sentido religioso do termo). Se apenas sonhasse, não seria fé mas seria uma crença, ou uma utopia. Pela fé, vivo aquilo em que acredito. A fé não nos eleva ao "mundo sobrenatural do divino". Ela só é efectiva quando traz o divido para este mundo tão real e tão merdoso em que vivemos... Contraditório?! Quem disse que era fácil ter fé?

Publicado por: alchemist às junho 19, 2005 01:47 AM

No entanto, Alchemist, há pessoas que justificam as suas maluqueiras com base numa fé que alegadamente move montanhas.
O sentido religioso da coisa é o menor dos problemas no caso concreto que motivou a minha posta. Foi só para facilitar a compreensão a alguns leitores e leitoras habituais.

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 06:07 PM

A fé e a esperança, ultimos conceitos onde jazemos o nosso respirar e dia-a-dia, são uma utopia. Romperemos quando com as utopias e como? Não há líderes bons e até prova em contrário andamos a anestesiar a primeira e última vida que temos. É revoltante e não há revolução. Desculpem, mas este é um pequeno estrebucho num momento em que a fé e a esperança não existem. Nunca imaginei ter de o admitir a este ponto. Mas há que o assumir num qualquer momento da nossa existência.

Quanto a vós, que vos leio há meses: Viva a amizade!

Publicado por: canguru às junho 19, 2005 06:31 PM

Shark,
foi apenas um esclarecimento PESSOAL, tem um leitor (que se tem vindo a tornar) habitual. E como os comentários servem para dizer as bacoradas que vêm à cabeça dos leitores, depois de lerem as bacoradas (palavra tua, lembras-te?) dos autores, achei por bem... foi só isso.

Quanto às maluquerias (acredito que te refiras a fundamentalismos), terei todo o gosto de te enviar umas reflexões de aulas em que isso se justifica, psicológica, histórica e/ou teologicamente.

Um abraço fundamentalista (porque é domingo e tudo...)

Publicado por: alchemist às junho 19, 2005 08:10 PM

Eu acho que há determinadas fés e fantasias que só reflectem a incapacidade de quem as tem para aplicar na prática as coisas que debita na teoria.
E nunca gostei de música sacra.

Publicado por: Mar às junho 19, 2005 09:28 PM

Lol, Mar! Amen pra ti, miúda.

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 09:40 PM

Fundamental é amar, Alchemist. Em liberdade, claro. O resto deriva daí.

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 09:45 PM

Canguru, a amizade que referes é um dos sustentáculos da esperança de uma revolução que temos que realizar, aos poucos, para inverter a situação de merda a que fazes alusão.
Será diferente, a próxima revolução. Mas é absolutamente imparável.
Um abraço bem forte do teu amigo esqualo.

Publicado por: sharkinho às junho 19, 2005 09:51 PM

Deixo-te uma pérola com quase um milénio, porque é mesmo como dizes, Shark:

"Ama e faz o que quiseres."
Sto. Agostinho

Publicado por: alchemist às junho 19, 2005 09:52 PM

Obrigada pelas palavras amigas, Shark. Há momentos em que necessitamos mesmo delas.
Um abraço para vós, cuja amizade é bonita de ver

P.S. desculpem-me a intromissão (ao alchemist também...) mas ele há momentos dos diabos. Continuarei a ler os vossos posts e a evitar comentar, porque ler-vos e acompanhar-vos apenas traz-me um sorriso único aos lábios.

Publicado por: Canguru às junho 20, 2005 12:07 AM

(errata: onde se lê "apenas traz-me", leia-se "me traz um sorriso único aos lábios")

Publicado por: Canguru às junho 20, 2005 12:08 AM

Canguru, aqui não há "intromissões" pois não se trata de um circuito fechado. É como uma sala de estar de uma casa com a porta sempre aberta, onde se reúne malta para debitar umas larachas a propósito de um tema postado. Ou não, porque as conversas são como as cerejas...

Publicado por: sharkinho às junho 20, 2005 12:48 AM

Alchemist, percebo perfeitamente porque canonizaram o Agostinho... :)

Publicado por: sharkinho às junho 20, 2005 12:50 AM

Obrigada shark

Publicado por: Canguru às junho 20, 2005 10:23 AM

Mas alguma da melhor música jamais escrita foi feita em resposta ao chamamento de um deus.

A "small talk" religiosa é fastidiosa, e até podia ser entusiasmante se os oficiantes tivessem alguma paixão.

Publicado por: Mário às junho 20, 2005 01:47 PM

Concordo contigo, Mário. Sobretudo no que respeita à parte fastidiosa da questão.

Publicado por: sharkinho às junho 20, 2005 08:43 PM