« A POSTA LEONINA | Entrada | A POSTA METEOROLÓGICA »

junho 08, 2005

PAGO A PRONTO

agrafador13.gif

Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.
Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.

Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.

Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...

Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.

Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação. Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.

Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.
Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações.

Publicado por sharkinho às junho 8, 2005 01:27 PM

Comentários

Não sei (nem pretendo saber) a extensão do acontecido que aqui reflectes. Só te posso dizer que partilho a tua maneira de pensar (o que se calhar não interessa muito ou mesmo nada, mas aqui fica na mesma).

Eu também não sei entregar-me às prestações. Só a pronto, completa e absolutamente. E é verdade que este pode ser um caminho que leva ao sofrimento. E à desconfiança e ao temor. Difícil de basear na utopia e imaginação daquilo que gostariamos que fosse... mas não é.

Mas também é um caminho que pode levar (tem de levar!) à felicidade. Aqueles que acreditam na verdade, na fidelidade, na confiança (e no amor!) têm de prevalecer. Senão, qual o sentido (desta) vida?

Mas sabes, o receio de arriscar, de apostar na lealdade de alguém, como dizes, prolifera. Nem todos - muito poucos - partilham esse outro sentimento (modo de vida) de entrega total, e se dispõe a correr o risco. E as consequências podem ser terríveis, como (infelizmente) bem sabes - a julgar pelo que escreves.

Desculpa ter alongado tanto o comentário. Permite-me que diga que me doeu um tanto, foi por isso. E que deixe ficar, para ti, um abraço.

Publicado por: Andy às junho 8, 2005 02:01 PM

Desculpar-me-ão (ou não) mas julgo que toda a gente se dá às prestações. Uns demoram é menos tempo que os outros a dar tudo sem restrições.
Porque a confiança não é um dado adquirido como nascermos com fígado ou coração. É algo que se conquista.

E eu só quero conquistar a confiança dos outros no sentido de saberem que mesmo que discordem frontalmente de mim, mesmo que tenham as opiniões contrárias, saibam que me podem dizê-lo porque o vou aceitar mesmo que me custe a entender.

Publicado por: maria árvore às junho 8, 2005 02:51 PM

Eu desculpo, pá. Até porque tens toda a razão e é natural que assim seja.
Para perceberes melhor o que está em causa no texto que postei digo-te que é inspirado no paralelo que encontrei em três situações distintas na minha vida. Todas elas resultaram no fim de relações por causa de equívocos mal explicados. Por causa das putas das mentiras piedosas, Maria.
E nesse aspecto, a frontalidade com que comentas fala por ti e acho que a posta encoraja esse caminho, fazendo-te justiça nesse plano.
Donde, desculpar-te o quê? :)

Publicado por: sharkinho às junho 8, 2005 04:59 PM

Olá Shark,
Fiquei "agarrada" a este blogue, desde um determinado post, não sei há quanto tempo, em que falavas de um Amigo teu, que tinha um filho algures... Egipto... se não me engano... que não conhecia...

Desculpa lá... mas não dizias lá o que dizes aqui...

Não tenho outro remédio se não aceitar as mentiras dos outros, desde que as mesmas, me interessem... Acho mesmo que somos todos assim.

Há determinadas verdades, que dispenso saber. Mas, afinal se não as souber, como posso dispensá-las?

A verdade tem um péssimo feitio... e nem sempre é fácil de aturar, consoante o seu conteudo...

Quanto ao final...

Já pensaste o quão dificil pode ser aceitar-te assim, todo de uma vez... sem ser às prestações? Deste modo excluirias logo á partida, os não iguais, ou de forma diferente e esse não é com toda a certeza o Shark, que se partilha por aqui... e que a pouco e pouco (às prestações) se vai revelando...

Se não nos dermos às prestações... não conseguimos, nem dar nem aceitar e digerir tudo...

Por vezes, o Amor, a verdade e a mentira, andam a par, à procura do seu próprio equilibrio... Mas na essência estou de acordo contigo; a verdade valoriza-nos, por mais violenta que seja. A mentira humilha-nos, diminui-nos.

Publicado por: Partilhas às junho 8, 2005 05:01 PM

Faltou-me dizer, que na minha opinião, somos muito mais contraditórios, que mentirosos... falo por mim... não deveria generalizar!
Posso realmente, pensar ou querer "coisas" diferentes de um tempo, para o outro, ou ao mesmo tempo... E os outros entenderem como mentira, o que é ou foi verdade...

Publicado por: Partilhas às junho 8, 2005 05:13 PM

Andy, esta posta enquadra-se numa linha deste blogue que às vezes se esbate no ritmo da coisa. Ou seja, as minhas nostalgias e introspecções. No meu passado existem demasiadas histórias mal contadas e algumas delas resultaram em perdas sem justificação. Daí o meu compromisso com a verdade e a minha exigência de que ela se sobreponha aos mecanismos de defesa naturais, pois às claras tudo funciona melhor e com maior solidez.
Na amizade que vale a pena ou no amor a sério, acho eu. Até porque estou a dar-me bem com essa política.
Um abraço para ti, Andy. E obrigado pela atenção que deste ao que tinhas para ler.

Publicado por: sharkinho às junho 8, 2005 05:14 PM

Fiquei confuso, Shark! Este post é sobre casas de penhores ou canibalismo? Estás a ficar muito hermético, pá! ;)

Publicado por: cap às junho 8, 2005 06:08 PM

Apanhaste bem a incongruência, Partilhas, e agradeço-te a tenção que me dás. Mas bolas, mulher, foste buscar um exemplo do caraças...
O caso do meu amigo João, que ao que sei não conheceu evolução recente, tem a ver com algo de muito mais complicado do que os meandros da mais intrincada das relações. Quero eu dizer que aí entram uma série de factores a jogo que desequilibram qualquer lógica que eu ou tu possamos descontruir.
As situações que me motivaram a posta foram coisas que afectavam apenas duas pessoas numa relação de amizade e/ou de amor que bastaria terem sido ditas para evitarem confusão. Omissões, que se transformaram em desconfiança e, no final, quase em rancor.
Não fecho a porta às contradições. Nem que sejam as que a passagem do tempo nos acarreta.

Publicado por: sharkinho às junho 8, 2005 06:16 PM

É verdade, Cap. Só consigo abrir-me quando falo de sexo e de outras coisas boas e simples da vida.
Quando me dá pró reviralho interior só saem monólogos acerca de cozinha antropófaga ou de rentabilização desesperada do meu património...
Tens aí um abre-latas que me emprestes?
Ou uma gazua, talvez... :)

Publicado por: sharkinho às junho 8, 2005 06:20 PM

Mas era exactamente isso que eu queria dizer, Shark. Muito provavelmente, essas omissões que se transformaram em desconfiança, foram muito menos graves, que a omissão de uma paternidade...

Ou seja, aquilo que tu vês como justificável. Eu jamais veria. E tu provavelmente vês como injustificável a mentira piedosa, que se transforma em bola de neve, mas que não teve qualquer má intensão...

Na minha verdade, a intensão, desde que não falsa, cinica ou ardilosa... pode justificar mentiras piedosas...

Mas existem verdades, que não têm desculpa, para não serem conhecidas... na minha opinião.

E aqui estão duas pessoas, que vejo como verdadeiras, a verem a verdade de lados diferentes... con justificações diferentes...

Publicado por: Partilhas às junho 8, 2005 06:25 PM

Defendes bem os teus pontos de vista, Partilhas. E compreendo a lógica do teu raciocínio, pelo que só nos distingue a percepção do que está em causa na tal omissão da paternidade. Quem omitiu nesse caso foi a mãe do puto. Ao João não restaram alternativas, não havia outra escolha que defendesse melhor os interesses das pessoas envolvidas. Mas isso, como diz o Cap, são outros quinhentos... :)

Publicado por: sharkinho às junho 8, 2005 06:33 PM

Omissão rima com intenção. Mas podem existir uma sem a outra.
Concordo com a Partilhas, se existe omissão sem intenção, apenas porque, como alguém também disse não é possível saber-se tudo, TUDO, de repente, sobre outras pessoas, não me parece bom e acho que é, sobretudo, muito injusto, que se catalogue à partida todas as omissões como igualmente graves, "repugnante" até, para utilizar um termo teu, sócio...nunca é bom meter tudo no mesmo saco sem antes avaliar as particularidades de cada caso.
Bela posta :-)

Publicado por: Mar às junho 8, 2005 09:44 PM

Sabes o que te digo, Shark: ainda bem, pá, ainda bem (com ou sem gruências ou omissões...)

Publicado por: alchemist às junho 9, 2005 12:19 AM

Life is like photoshop, it's full of layers, and some are hidden :)

Publicado por: Mário às junho 9, 2005 09:49 AM

Tens razão, Mário. E que curioso album de fotos a minha vida daria...

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 09:53 AM

Não sei o que queres dizer, Alchemist, mas acho que tens razão.

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 09:54 AM

Também tu tens razão, sócia. Não se pode meter tudo no mesmo saco, até porque diferem as motivações e os pretextos. E não, não se pode saber tudo acerca de uma pessoa por muito que se tente. Por isso se justificam todos os receios e todas as interrogações quando arriscamos a entrega. E isso também implica sabermos lidar com as respostas que nos dão, o que invalida a omissão como uma alternativa em determinadas circunstâncias.

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 10:02 AM

não estou em condições para te comentar...deixo para logo. beijo Tuby e sabes porquê que tanto gosto de ti? quiçá pela frontalidade com que encaras a "coisa" ou vida!

Publicado por: Luna às junho 9, 2005 10:07 AM

Nesse aspecto concordo, sócio. Perante uma solicitação concreta, a omissão não pode existir. Nesse caso transformar-se-ia, aí sim, em mentira.

Publicado por: Mar às junho 9, 2005 10:18 AM

Nas relações (de amor e de amizade) a impulsividade pode dar maus resultados, mas a passividade também.

Publicado por: Mário às junho 9, 2005 11:09 AM

Inspirado por esta entrada fiz esta no meu blog:

http://www.retorta.net/blog/archives/2005/06/a_imagem_que_sa.php

Publicado por: Mário às junho 9, 2005 11:15 AM

Já lá fui, Mário. De facto, o breu pode esconder a verdadeira dimensão da realidade de cada pessoa.
E quanto ao binómio impulsividade/passividade, a minha escolha é clara...

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 02:00 PM

E já partilhei contigo, Mar, alguns exemplos concretos de como isso tem correspondido à realidade da minha vida.

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 02:02 PM

Ainda bem que aprecias essas minhas características, Luna. Mas olha que tem prós e contras, para mim e para as outras pessoas.

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 02:03 PM

Eu não sou muito impulsivo (as vezes que fui deu buraco!), mas tenho um intervalo de tolerância razoávelmente curto, uma vez ultrapassado o corte é final e sem apelo.

Publicado por: Mário às junho 9, 2005 02:05 PM

Parabéns pela clareza, pelos princípios subjacentes à edição.
Um abraço.

Publicado por: LE. às junho 9, 2005 03:35 PM

"Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações."
Coleguinha...há tanto tempo que não te comentava...e logo havias de aqui postar as palavras que eu hoje queria tanto não dizer...e que há meia dúzia de dias não me canso de me repetir.
Um beijo.

Publicado por: isabel às junho 9, 2005 05:18 PM

Qualquer dia nem justifico esse estatuto, Isabel, tal a minha falta de produtividade no espaço que partilhamos (salvo seja, que temos rendas separadas :) ).
Também pagas a pronto, é?

Publicado por: sharkinho às junho 9, 2005 06:07 PM

Também pago, filho, e bem me f...!!!!

Também é verdade, essa da falta de produtividade no nosso espaço comum...mas a gente perdoa-te. Há coisas bem mais importantes a viver do que um blog...se me ouvisses agora irias ficar ligeiramente espantado com o som de clarinete com que disse isto...

Publicado por: isabel às junho 9, 2005 06:41 PM

Era exatamente o que eu precisava ler, hoje, já que meio ao turbilhão, não conseguiria escrever.
Um abraço daqui, do outro lado do mar.

Publicado por: Márcia às junho 9, 2005 08:11 PM

Ainda bem, Márcia. É isso que faz valer a pena oferecermos as nossas palavras a quem as puder e quiser aproveitar.
Um abraço transatlântico para ti também.

Publicado por: sharkinho às junho 11, 2005 08:18 PM