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agosto 02, 2005
TATUADO NO MEU RANCOR

É uma mulher bonita e dá largas, sempre que pode, à sua alegria reprimida. Quando ele não está por perto, consegue até sorrir.
Mas o seu olhar denunciava uma tristeza que me perturbou, logo na primeira vez que a vi. Incapaz de ficar indiferente, passei a observá-la com mais atenção, de forma discreta. E a ele também.
No olhos do cabrão li apenas o vazio, a expressão habitual no olhar dos cabrões. Não gostei. E logo adivinhei o cenário por detrás daquelas aparências insuspeitas aos olhos de quem não lhes prestava atenção.
Semanas mais tarde deparei-me com o rosto dela deformado, inchado pelo falso abcesso que as camadas de creme sobre o sangue pisado não conseguiam pintar.
Estava mais triste nesse dia, obrigada a trabalhar na ressaca de um terror, maquilhada à bruta para esconder na cara o que a alma não conseguia disfarçar. Pelos olhos, expressivos, transbordavam o medo, a amargura e a resignação muda de quem nada pode (consegue) contra a violência de um brutamontes possante e isento de emoções. O canalha ideal, perfeito para simbolizar o nojo que lhes dedico, aos canalhas capazes do pior. Da cobardia. Da infâmia.
Nada podia fazer, sabendo-os casados e não tendo hipótese de denunciar algo que não vi e ninguém até hoje me testemunhou. Não podia agir com base em especulações.
Engoli a revolta e passei a dar menos atenção à mulher bonita que eu pressentia estar a sofrer. Até um dia, pouco tempo atrás.
De manga curta e braços cruzados, distraída, saltou-me à vista o que me pareceu uma tatuagem, um pouco acima da dobra do cotovelo, na face lateral de um dos braços dela.
E era, de facto, disso que se tratava.
Um clássico. Um coração apaixonado, atravessado pela seta de cupido. E dentro do coração um nome de homem.
Essa era a tatuagem original, como a reconstruí mentalmente ao longo dos segundos de que dispus para a observar.
Agora, uma horrível cicatriz substituía a seta, de alto a baixo, cruzada na zona do nome que se pretendeu apagar. Mas sobraram a primeira e a última letra do nome próprio desse amor eterno que algures acabou. Não é o nome do vilão.
Desconheço, por ora, a verdade por detrás destes preocupantes indicadores. Mas só me consigo imaginar olhá-lo com desdém, ao desafio, sempre que o destino o atravessar no meu caminho.
Tenho fé que algum dia ele irá perguntar-me porquê.
Publicado por sharkinho às agosto 2, 2005 12:42 PM
Comentários
Infelizmente já estive como tu a observar ao longe porque nem vale a pena tentar alguma coisa. É um ciclo vicioso. Fica-se apenas à mão para o caso de se poder recolar os bocadinhos que restam. às vezes, nem isso...
Publicado por: jacky às agosto 2, 2005 01:17 PM
Nem encontro palavras para definir o quão desprezíveis são esses seres, que abusam de alguém mais fraco.
Pode ser que ela se tenha libertado, Shark, no momento em que removeu o nome do canalha.
Publicado por: Mar às agosto 2, 2005 01:23 PM
A vida já me deu oportunidades para intervir directamente neste tipo de situações, Jacky. E seja qual for o meu papel (e normalmente toca-me sempre o mesmo), nunca desdenharei alguma que possa surgir.
Já basta de filmes assim.
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 01:24 PM
O nome que ela(?) removeu, Mar, não é o do canalha...
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 01:25 PM
Li agora com mais atenção, shark. A repulsa ditou-me as palavras iniciais e agora, percebendo o alcance ainda mais vasto daquela cicatriz, a repulsa silencia-me.
Publicado por: Mar às agosto 2, 2005 01:38 PM
Não tenhas muitas esperanças que te pergunte, Saharky. São, sempre, demasiado cobardes. É a cobardia que os move. A violência contra os mais fracos, o terror que impõem, o "olhar de cabrão" são, apenas, alguns dos sintomas vísiveis.
Publicado por: isabel às agosto 2, 2005 01:49 PM
Fazer do amor cicatriz é às vezes a única revolta possível.
Publicado por: maria árvore às agosto 2, 2005 01:50 PM
é sempre dificil pensar o que fazer nestes casos. Embora os consideremos como situações repulsivas, pouco ou nada podemos fazer até ordem em contrário por parte da vitima, ou até que à nossa vista o abuso se transforme num telefonema para a policia.
Ouvi dizer que há pessoas que são masoquistas e que gostam de ser dominadas à força. Outras há que são reais vitimas. Em todo o caso, perturba sempre para quem se apercebe.
Publicado por: canguru às agosto 2, 2005 02:07 PM
Tens razão, Isabel. Mas cometem erros. E neste caso, basta um encontrão inadvertido, um comentário desagradável ou qualquer outro pretexto para me predispor a ensinar o medo a quem, ao que tudo indica, gosta de o aplicar noutras pessoas (mais fracas, claro).
Mas eu, felizmente, disponho de cabedal em conformidade com o mau feitio que estes sabujos me instigam.
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 02:31 PM
Lapidar, Maria Árvore.
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 02:33 PM
É isso que está em causa, Canguru. A impotência.
Mais a vontade irreprimível (pouco recomendável, admito) de fazer justiça com as próprias mãos.
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 02:35 PM
E quantas vezes a vontade é mesmo essa.
É o poder pelo medo... E quantas vezes esse não é imposto de outras formas menos visiveis, mas nem por isso menos maquiavélicas?...
Sentimo-nos sempre impotentes
Publicado por: sofia às agosto 2, 2005 03:40 PM
Já uma vez, escreveste um texto, sobre o assunto. Em comentário, eu partilhei no meu canto, o meu contacto, com a violência fisica...
Mas... pior do que a violência fisica... fica a psicológica... muito mais dificil de identificar, porque não tão evidente aos olhos... que nunca vêm o essencial... muito mais dolorosa... muito mais dificil de se partilhar... de muitas vezes a própria vitima... ser incapaz de a reconhecer...
Socialmente é a fisica, que é mais intolerada e também, talvez, a menos praticada...
Antes de sermos vitimas dos outros, somos muitas vezes, vitimas de nós próprios e não o formos de nós... não sei se temos capacidade, de o ser dos outros...
Um dia... outro dia... escrevo... sobre o que penso ter aprendido de violência pscicológica... sofrida... ou aplicada...
Mias jocas x2!
Publicado por: Partilhas às agosto 2, 2005 04:11 PM
Pois escrevi, Partilhas. O tema é recorrente por ser uma das minhas obsessões. Vivi o filme na primeira pessoa e mexe demasiado comigo, ao ponto de me aproximar perigosamente do índice de brutalidade desses canastrões.
Mas violência é violência, seja do tipo que for.
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 05:01 PM
Por isso, Sofia, é que nunca consegui evitar a minha reacção imediata de ódio perante estes cobardolas e, a avaliar pelos casos pontuais em que pude intervir de forma (muito) directa, cheguei à conclusão de que a força é uma alternativa pragmática e eficaz para corrigir a maioria destes desvios comportamentais.
O medo funciona bem para os dois lados da questão.
(E desculpem-me a agressividade latente neste comentário.)
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 05:07 PM
E tens razão Partilhas. Essa então, a violência psicologica, é mais dificil de diagnosticar. é complicada, por vezes surge e incrusta-se e propaga-se de formas muitos subtis, capazes de conduzirem a outra pessoa a um esgotamento cerebral.
Publicado por: canguru às agosto 2, 2005 05:12 PM
Ou nervoso. Ou simplesmente emocional, Canguru...
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 05:56 PM
O que eu quero dizer, sobre a guerra psicológica é que de algum modo, tanto me sinto vitima, como agressora...
E o facto de me reconhecer culpada, quase não me permite sentir-me vitima... e é este o processo da violência fisica... a vitima sente-se, culpada... e só depois de o sentir, é que passa a ser vitima...
Por vezes, sinto, que inconscientemente... consigo ser violenta e que essa violência volta para mim... ou não volta, porque não chegou a sair... e como tu dizes Canguru... conduzo-me a mim mesma a um (quase) esgotamento cerebral... cujo agressor e vitima... se confundem... entre mim e o outro, mas que passa sempre pelo modo como me vejo... ou sinto ser!
Publicado por: Partilhas às agosto 2, 2005 05:58 PM
Um bocado aquilo que se passa comigo, Partilhas, certamente por "portas e travessas" diferentes das tuas. Rejeito a violência no meu dia-a-dia, mas é a ela que recorro por instinto quando me confronto com a vitimização de alguém por parte de um agressor.
A violência, qualquer violência, deixa sempre marcas indeléveis no corpo e na cabeça também.
(Felizmente nunca me confrontei com uma agressora e nem sei como posso reagir, já que nunca levantei a mão a uma mulher - jurei a mim próprio em adolescente que nunca na vida o faria).
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 06:07 PM
Shark.... Sharkinho, Charquinho... ou Zé...
A violência de que falo é psicológica... e não fisica...
Ainda que de vez em quando, tenha vontade de dar uns bons açoites a algumas pessoas, que...
A violência de que falo é a Psicológica... e cá estou eu a achá-la, menos condenável, que a fisica... quando no fundo não é... talvez seja mais sofisticada, mais falsa, mais cinica... ainda assim, mais aceitável... tipo politicos...
Publicado por: Partilhas às agosto 2, 2005 06:13 PM
Tipo políticos? Entendi-te. Insidiosa, ardilosa, maquiavélica, desnecessária, ambígua, contraproducente e, claro, maquilhadora da incapacidade de cumprir as mais simples promessas e de honrar as obrigações mais óbvias, não é?
Não sei se deixei alguma coisa de fora...
Publicado por: sharkinho às agosto 2, 2005 06:39 PM
Aiiiiiiiiii...
Também nem tanto...
Bom Dia Sharky!
Jocas x2!
Publicado por: Partilhas às agosto 3, 2005 08:39 AM
Bom dia, Partilhas!
Jocas x1
Publicado por: sharkinho às agosto 3, 2005 09:54 AM