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setembro 19, 2005

A POSTA IMORAL

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Foto: sharkinho

Nunca consegui assimilar na catequese aquele conceito bizarro de "dar a outra face". Era um puto, mas lembro-me de me rir à brava quando percebi o fulcro da questão. Levar uma lambada e oferecer o outro lado da cara para encaixar a segunda...
Foram estes aspectos secundários que me levaram a questionar a moral cristã. Daí à crise de fé, incendiada pela reacção hostil que as minhas interrogações suscitavam, foi um tiro. Iniciado este processo, não tardaram as repercussões.
Acabei expulso do templo, diante da multidão de crentes-vizinhos, no que constituiu o primeiro rude golpe na imagem pública do filho dos meus pais, porque perguntei em voz alta o que estava a fazer ali e porque me obrigavam. Foi o advento da ovelha ranhosa de uma família a que em tempos pertenci.

Mas regresso à cena da estalada.
Antes mesmo da entrada (fatal comó destino) para o rebanho da paróquia local, já o meu pai me ensinava os rudimentos de defesa para qualquer puto de um bairro cheio de durões. E não tardei a perceber que a melhor defesa, na maioria das circunstâncias, era o ataque surpresa. Oferecia a outra face mas era para distrair o opositor, enquanto a mão alçada ou uma valente joelhada resolviam a situação. Violência gratuita e tal. Pois é. Mas deu-me um jeitão, quando a rua me provou que o cota tinha razão. O respeito conquistava-se dessa maneira, à viril das avenidas, e não havia lugar para a misericórdia.

É que os gajos normais até caíam em si, se um tipo lhes oferecesse a outra bochecha. Mas os mesmo maus reagiam como os cães selvagens perante uma pessoa com medo. Mordiam a doer. E um tipo aprendia a lição, à custa dos católicos que se deixavam espancar em nome de um conceito de duvidosa aplicação. Na prática, enfardavam que nem coirões e não havia santinho que lhes deitasse a mão nessas difíceis provações. Um nobre sacrifício, mas em vão. Os filisteus não se convertiam e nós agnósticos também não...

Isto para explicar que mesmo nesta fase menos agitada da minha vida ainda não encaixei a coisa, embora lhe reconheça enorme potencial em determinados contextos. Até já pratiquei, só por piada, e confirmei o pressuposto mais acima: mordem que nem cães e não apreciam a beleza de uma atitude tão louvável. E depois um gajo tem que retribuir, ou nunca mais lhe largam as pernas. A ele e a quem se prestar a esses rituais de beatificação que o mundo real, que não reza por aí além, só entenderá quando o Cristo regressar para pôr ordem na barraca em que se tornou esta complicada criação do seu Pai.
Ignorar quem me ameaça ou agride, ainda vá. De vez em quando. À primeira.
Mas quando insistem em repetir a graça, molhando a sopa no aparente bonzão, a coisa muda de figura.
Não me fico.
É que o respeitinho é muito bonito...

Publicado por sharkinho às setembro 19, 2005 08:22 PM

Comentários

Nem mais Tuby.
E se os outros não sabem o que é o respeito, temos mais é que, pelo menos, os tentar por no devido lugar.
E é uma pena que ignorar às vezes não chegue. Parece que não percebem.
E essa de dar a outra face, só mesmo para receber mimos, se não, não vale a pena ;)

Publicado por: sofia às setembro 19, 2005 09:35 PM

mais uma fabulosa descrição a la Tuby Shark, diria mesmo brilhante! Não cresceste naquela zona dos Olivais "de basto"?

Publicado por: Luna às setembro 19, 2005 10:00 PM

No sábado, num casamento, depois de um bonito momento musical, com piano, trombone e soprano, o padre começou a falar. Passado um bocado, perguntou o meu filho mais novo: mãe, esta parte agora é uma parte que não interessa para nada, não é?
Só dei a outra face numa ocasião: foi mais em atitude de provocação, acompanhada pela observação de que compreendia que quem não tinha inteligência para argumentos partisse para a agressão.

Publicado por: susana às setembro 19, 2005 10:26 PM

Bem tirado, Sofia. Do princípio ao fim. :)

Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2005 10:36 PM

De todo, Luna. Sou um filho de Benfica e neto da Madragoa!

Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2005 10:37 PM

Afilhada: vejo no teu filho caçula um enorme potencial herético. :)))
E acho que a tua oferta da face ia acompanhada de uma argumentação forte, mas confesso que não te seguiria facilmente as pisadas...

Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2005 10:39 PM

Aos cães selvagens não se pode oferecer a outra face. Basicamente porque não são humanos. :)

Publicado por: maria arvore às setembro 19, 2005 10:48 PM

Olha, Maria, não tinha visto a coisa nessa perspectiva. Mas vendo bem... ;)

Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2005 10:52 PM

Nunca fui à catequesa :) Sempre tive pavio curto :) Dou-me muito mal com o masoquismo e gosto pouco de levar lambadas :)

Publicado por: Hipatia às setembro 20, 2005 12:26 AM

Só estamos em consonância na tua última frase, Hipatia... :)))

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 12:59 AM

Mas qual dar a outra face qual quê, ó sócio? O melhor princípio é, ainda a primeira não nos caiu bem em cima, já o agressor tem que estar a levar a dobrar.
A mim, dos ensinamentos católicos, apostólicos, romanos, só me ficou o do "amor com amor se paga". ;-)

Publicado por: Mar às setembro 20, 2005 10:48 AM

Gosto da tua dinâmica, companheira! Dá-lhe!
E quanto aos ensinamentos, eu só retive a parte dos romanos... :)

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 11:23 AM

Entre o teu post e o comentário da Mar (olá, miúda linda), só me rio :))

Publicado por: Mi às setembro 20, 2005 11:24 AM

Cromos, não é? (é mesmo isso, uma miúda linda)

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 11:26 AM

Cromos de luxo ;)

Já agora, as meninas que são apalpadas na rua também devem dar a outra nádega?

Publicado por: Mi às setembro 20, 2005 11:43 AM

Se forem moças crentes, devem aproveitar todas as oportunidades para exibirem a sua Fé...

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 11:46 AM

Também me parece :))

Publicado por: Mi às setembro 20, 2005 01:05 PM

Amen...

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 01:20 PM

(isso apenas supondo que o que apalpa se parece vagamente com o Clooney ou o Pitt, claro...)
(Mi)uda linda, retribuo o olá com um beijo!) ;-)

Publicado por: Mar às setembro 20, 2005 02:17 PM

Seu durão. ;)
Cá eu não me seguro. Lá está, falta-me a tal inteligência emocional...

Publicado por: Ricardo Garcia às setembro 20, 2005 02:20 PM

deve-se dar sempre a outra nalga Mi...saudades tuas, beijo grande

Publicado por: Luna às setembro 20, 2005 02:24 PM

Ò Mar, se as moças tiverem nádegas parecidas com as desses cámónes não têm razão para acreditarem num Deus que tanto as desfavoreceu... :)

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 02:33 PM

Ó Ricardo, tu és mesmo um panzer na abordagem ao conflito. Isso é bom. Mas às vezes um gajo tem que avançar primeiro com um apoio de artilharia...

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 02:35 PM

Lol, Luna!

Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2005 02:41 PM

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