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setembro 11, 2005
ALMOÇO EM FAMÍLIA
Olha, o Sharquinho ou Charkinho ou lá o que é já estendeu mais um lençol...
Tenho vindo a ensaiar uma atitude menos emotiva perante quem se esforça por me encolerizar. Não é fácil, acreditem, passar do oitenta ao oito de um dia para o outro. Explode-nos o peito com a pressão. Engolimos em seco, pigarreamos, disfarçamos a ira imediata com uma simples passagem da mão pelos cabelos mais uma contagem mental até dez.
É um exercício excelente na óptica do autoflagelo, ensina-nos a sermos pessoas melhores através da técnica da chaleira entupida. A gente ferve mas o apito não soa, ecoa dentro de nós como uma locomotiva a vapor. É um processo que quase nos leva à loucura, mas só na altura, ficamos felizes à brava depois da coisa passar. Ou esforçamo-nos por acreditar...
...Que vale a pena o sacrifício de não responder em consonância com a estupidez que nos atordoa quando nos inibimos de reagir. É que a cena funciona e evita muitos males maiores, os que nos afloram a mente a um ritmo constante quando nas trombas recebemos uma dose de hipocrisia, uma pessoa com a mania, um discurso infeliz por parte de um parvo qualquer. Às vezes sou eu que visto a pele deste último e safo-me apenas pela paciência de quem me atura, a estoicidade da amizade ou do amor. Tenho mesmo que retorquir na mesma moeda, aprender como se faz, e treino com batráquios que engulo. Sem os mastigar.
Os resultados são do melhor. Não fazemos má figura e enquanto nos mentalizamos para não disparar um "vai à merda" (ou pior) já nem escutamos o que nos tentam dizer. E não nos fixamos no lado mais negro da coisa, transportamos para Marte o que conseguimos salvar da nossa consciência amolgada e de repente já nem estamos ali. Diante do agressor. Retirada estratégica para evitar o pior, um impulso daqueles que nos fazem perder num berro a razão que nos assistiria noutro tom. É disso que tento escapar, das consequências da minha natureza de refilão. Até um certo ponto, onde corto o mal pela raiz, deixo crescer a erva daninha até me roçar com a mostarda no nariz. Aí sou eu outra vez, um exaltado tubarão, e disparo um "bolinha baixa que o guarda-redes é anão" (ou uma mais curta).
O caldo entornado sem necessidade nenhuma.
E na maioria das vezes nem vale a pena, não se justifica uma reacção ao que nos agride ou perturba. Basta o desprezo para ilustrar o que a alma reprimiu. A chaleira sem assobio e um gajo com a tola na morte da bezerra, longe do episódio, concentrado num ponto de luz imaginário ao fundo do túnel em que enfiamos a nossa fúria para que se distraia. E balbuciamos uma trivialidade qualquer, "pois é, o Benfica jogou mesmo mal". Perdeu com o rival e estragou ainda mais a disposição de qualquer verdadeiro lampião, mudar de assunto depressa. Entretanto o pomo da discórdia arrefeceu e na marinha que seguiu embarcou a nossa vontade de partir a loiça. Uma vitória do bom senso e da ponderação. Um orgulho...
Nem sei por quanto tempo aguentarei. E já releio o Dalai Lama.
Para que sempre que faço a minha cama consiga pensar, pelo menos duas vezes, antes de estupidamente nela me deitar.
Publicado por sharkinho às setembro 11, 2005 10:45 PM
Comentários
Sharkinho, também já ando há algum tempo a ler o "Dalai Lama" que um amigo meu me mandou num e-mail! E tem servido para colmatar a falta de garra da nossa Águia. Mas avancemos...
Publicado por: soslayo às setembro 11, 2005 11:47 PM
Claro, com a paciência de um monge shaolin...
Publicado por: sharkinho às setembro 12, 2005 12:23 AM
Chama-se Inteligência Emocional. Não é do Dalai Lama (pelo menos, não vi nenhuma referência no "Ética Para O Novo Milénio"), mas sim do Daniel Goleman. Mas não precisas de o ler, dominas a técnica com brilhantismo.
Publicado por: Ricardo Garcia às setembro 12, 2005 11:08 AM
Todos ao blog porcalhoto do costume mostrar as habilidades em cinema de animação... porcalhoto
Publicado por: São Rosas às setembro 12, 2005 11:14 AM
Obrigado, Ricardo! E olha que por acaso é mesmo o livro que citaste que ando a reler (o do tibetano, não o do Daniel). :)
Publicado por: sharkinho às setembro 12, 2005 12:13 PM
Eu conheci uma porcalhota, há uns anos. Mas agora envelheceu e passou a ser uma Amadora, São. E é uma cidade muito animada...
Publicado por: sharkinho às setembro 12, 2005 12:15 PM
esta foto é Quinta da Luz, não?
Publicado por: Rita às setembro 12, 2005 02:55 PM
Nem mais, Rita. Grande golpe de vista!
Publicado por: sharkinho às setembro 12, 2005 04:51 PM
Não sei se essa do apito da chaleira, é bem a imagem que procurar... É que quando a chaleira apita, faz cá um barulho do caraças!!!! Parece-me que o melhor será deixar ir saindo o vapor devagarinho, devagarinho. O pior é que no final a água evapora-se toda e já não há nada para ferver.
Publicado por: L.G. às setembro 12, 2005 08:54 PM
Infelizmente ainda não tenho o teu treino, ainda bem a chaleira não ferve, já o apito saltou...impulsividade dizem uns, estúpida digo eu depois de ter deitado todo o ar fora por quem só merecia que lhe respondesse, pois o tempo hoje tá bonito!
Mas eu hei-de lá chegar quando for grande
Publicado por: Luna às setembro 12, 2005 09:50 PM
E tens-te safado, Shark? É que a vida é como um sofá. A ideia é encontrarmos uma posição em que nos sintamos confortáveis... Agora vê lá se ficas tanto tempo na mesma posição que arranjas um torcicole do caraças, quando te quiseres levantar...
Publicado por: alchemist às setembro 13, 2005 11:13 AM
Não é golpe de vista, são muitos anos de "Gel". :)
Publicado por: Rita às setembro 13, 2005 11:17 AM
Como a minha mãe costuma dizer: "Quem bem fizer a cama, bem se deitará nela". Eu acabo por dormir menos bem porque a minha chaleira apita muitas vezes. Pena é que nem sempre na hora e momento certos...
Publicado por: Lurdes às setembro 13, 2005 12:07 PM
LG, e é isso mesmo que quero evitar: esvaziar a chaleira no meio da barulheira. (passe a rima) :)
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:01 PM
Tens que ver que pões a chaleira em lume brando, Luna. Ou trocares por uma panela de pressão...
Beijoca, gaja destravada!
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:02 PM
"se" pões, queria eu dizer...
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:02 PM
Gira, essa do sofá. Eu busco sem cessar o conforto nas posições, Alchemist. O conforto ou a maior eficácia da posição em causa. E nessa busca incessante acabo por nunca me manter quieto tempo bastante para emperrar as articulações...
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:07 PM
Rita, a foto foi tirada de um apartamento com vista para as traseiras da rua Maria Brown (vista essa que inclui a catedral do "Glorioso").
Zona fixe, excepto em dias de bola...
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:09 PM
Tal & Qual, Lurdes. O mau timing do apito também nos dá cabo da vidinha.
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 01:11 PM
Tenho que ver se consigo usar esse método: comigo ou apita logo (cada vez mais raro) ou, como na imagem da L.G., acaba por ferver a água toda sem ter dado sinal, o que é, se calhar, ainda pior. Oito ou oitenta.
Publicado por: susana às setembro 13, 2005 01:16 PM
dos correios????
Publicado por: Rita às setembro 13, 2005 03:39 PM
Fiquei tão deliciada com a imagem da quinta da luz que me esqueci de dizer que adorei a posta!
Publicado por: rita às setembro 13, 2005 03:41 PM
Obrigado, Rita.
Não foi dos correios. Tás a ver qual é a Maria Brown, a primeira à direita (de quem vem, por ex., da Pontinha) ou a última entrada para quem vem da Estrada da Luz sentido Carnide?
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 05:41 PM
Sim, claro. O sítio de onde capturaste a foto não é importante. Está muito bem apanhado o traço da quinta da luz. obrigada. Obrigada também muito uma posta que me faz, não só pensar, mas também agir.
Publicado por: Rita às setembro 13, 2005 05:50 PM
És uma afilhada de extremos, Susana... :)
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 06:56 PM
Espero que ajas em consonância com os interesses que queres defender, Rita, e ficarei feliz se tiver sido útil de alguma forma com a posta que fiz.
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 07:00 PM
Estar em Marte, quando alguém diante de nós nos tenta afrontar parece-me, definitivamente, a melhor baldada de água fria (ou então, a ferver) que essa pessoa pode levar.
Boa técnica, Shark, convence-te que vale mais, em termos de efeito que produz nos outros, do que não sei quantas explosões.
Publicado por: Mar às setembro 13, 2005 07:30 PM
Percebo onde queres chegar, ò meu elemento natural. Mas requer um estômago de betão e eu sou muito dado a úlceras...
Publicado por: sharkinho às setembro 13, 2005 08:34 PM
O sofá, foi o que saiu na altura. Um dia será verso de um best-seller qualquer... Mas ficar quieto, mesmo se confortável, não dá muito jeito. As pele4s duras fazem doer o rabo, pá!
Publicado por: alchemist às setembro 14, 2005 02:09 PM
Desculpa a indiscrição, Alchemist, mas como é que tu sabes que as peles duras fazem doer o rabo? :))))
Publicado por: sharkinho às setembro 14, 2005 03:19 PM
Sem qualquer insdiscrição, já te disse que prefiro um bom tecido a uma boa (se dura) pele? Taras por sofás, é o que é... Respodi?
Publicado por: alchemist às setembro 15, 2005 02:21 PM
Loud and clear. :)
Publicado por: sharkinho às setembro 15, 2005 05:10 PM
Publicado por: debt consolidation às maio 1, 2006 02:36 PM
Publicado por: debt consolidation às maio 1, 2006 04:41 PM
Publicado por: mortgage às maio 2, 2006 10:36 AM