« agosto 2005 | Entrada | outubro 2005 »
setembro 30, 2005
AVE MIGRATÓRIA
Foto: sharkinho
A distância eliminada na corrida pela estrada que a vida me construiu é tempo conquistado ao destino adiado que um dia nos uniu.
Publicado por sharkinho às 01:50 AM | Comentários (15)
setembro 29, 2005
A POSTA MENSTRUAL
Foto: sharkinho
A conversa estava animada. Eramos quatro homens a falar acerca de gajas (tinham-se esgotado entretanto os assuntos futebol e automóveis) e nesse tema tão importante todos (julgamos que) temos algo de significativo para dizer.
Claro que cada um contou as suas histórias, verdadeiros épicos da sexologia, até ao momento em que um de nós decidiu assumir um "flop" (coisa rara). Os restantes, eu incluído, silenciaram em absoluto para ouvir o desabafo sincero de um macho que se preparava para explicar um fracasso na cama.
Ainda por cima estava em causa uma daquelas mulheres que fomentavam o consenso: boa comó milho, linda e com uma postura irrepreensível que lhe garantia o respeito de cada um nós. Uma mulher invulgar. E o nosso amigo Carlos M. tivera a sua oportunidade de ouro, nascida do convívio fortuito num curso de computadores. Encostámo-nos às cadeiras para nos concentrarmos nos detalhes de tamanha tragédia.
O Carlos lá deu início à parte da história que rapidamente se transformou numa seca. Debitou ao longo de alguns vinte intermináveis minutos o seu irrepreensível trabalho de sedução. Conquistador, um verdadeiro Pizarro do engate (considerando o que adiante resumirei). A música tocou até à parte em que entraram no quarto os dois. Aí, a agulha deslizou sobre o vinil como o giz arranha o quadro da escola. Um arrepio.
Tudo feito e afinal nada aconteceu. Boquiabertos e de sobrolho franzido, solidariedade de classe hipócrita, inclinámo-nos os três sobre a mesa da cervejaria para o ouvir melhor.
- Eu entro com a gaja, - afirmou o Carlos, todo gingão - conversamos um bocado e não tardou nada estava a tirar-lhe o soutien.
Um bruá interior no trio de espectadores. E o tipo prosseguiu.
- Começo no remelganço, mexe aqui beija ali e às tantas começamos a despir-nos, eu todo maluco e tal, a gaja tira as cuecas e eu topo lá um penso higiénico. - uma pausa estratégica para morder as nossas expressões - A gaja, pá, tava com o período e não me disse nada!
Ainda bem que estava sentado ou cairia de costas com toda a certeza. O meu amigo Carlos, garanhão, conforme adicionaria à sua explicação, rejeitou uma rapariga sensacional como se ela tivesse revelado uma doença sexualmente transmissível. Por estar com o período. E não ter avisado o rapazola dessas terríveis circunstâncias...
Os outros concordaram com ele, não sei se por simpatia. Eu não. Deitei as mãos à cabeça e pensei nas nozes em bocas desdentadas. E estraguei o ambiente da mesa com a espontaneidade da minha reacção. Quase nos envolvemos à porrada, o Carlos e eu, pelo rumo que a conversa tomou. Nunca mais voltámos a ter uma relação em condições.
Foi num livro do Henry Miller que encontrei pela primeira vez uma referência ao sexo que envolvia uma amante "periódica". No meio da deliciosa e detalhada descrição que o tipo fornecia acerca de qualquer mulher, o facto de a cena envolver o fluxo menstrual da amante em questão em nada diminuía a intensidade do que se passava entre os dois. Nem podia, concluí na altura. E confirmaria quando me confrontei pela primeira vez com a situação.
Implicava um simples problema de logística e nada mais. Uma toalha de rosto para evitar as manchas nos lençóis, uns lenços de papel e um duche abundante no fim. E pronto.
Faz-me confusão este nojo bizarro que se agarra à mona das pessoas. Um contrasenso sem explicação. E sei que se trata de um assunto desconfortável para a maioria das pessoas (de ambos os sexos), mas isso só poderá algum dia ser ultrapassado se alguém se pronunciar a propósito. Para podermos falar e pensar estas coisas que interferem directamente nas vidas que levamos.
A forma como me têm colocado a questão do período nas mulheres como óbice a um acto sexual é equivalente, no tom, à que me transmitem quando se fala nas mulheres que praticam sexo oral mas recusam que um homem se venha nas suas bocas.
É essa sensação de nojo uns dos outros que me perturba.
Por isso reagi, sem pensar, na minha primeira intervenção perante o discurso do Carlos M. e azedei a conversa: "Tu estás é a dar em paneleiro...".
No fundo, acabei por fazer tábua rasa da sensibilidade de outra pessoa. Fi-lo sentir-se mal com a sua reacção, condicionada pela educação que lhe foi incutida e por imensos factores que me transcendem. Armei-me ao pingarelho, apenas por ter uma opinião diferente da sua. E não é isso o que pretendo fazer aqui.
Quero apenas levantar a questão, sem me abster de vos transmitir a posição que assumo.
É que no teor da mesma está embutida a minha escala de valores nestas coisas e nenhum desses valores me compatibiliza com o outro lado do problema.
Nunca entenderei o embaraço de muitos homens perante aquilo que me faz ocorrer à ideia apenas a beleza do que num corpo de mulher a conota com a possibilidade teórica (ou prática) de ser mãe.
E ainda menos compreendo a desorientação (que testemunhei anos atrás) de uma mulher adulta pelo simples facto de me deixar à vista o tampão que utilizou.
São coisas que me impressionam e que ilustram algo de errado na forma como lidamos com um facto tão natural e isento de merdas. Só por isso me decidi a abordar a questão, aparentemente melindrosa.
O Charquinho não é o blogue indicado para quem prefira cultivar tabus.
Publicado por sharkinho às 12:31 PM | Comentários (107)
setembro 28, 2005
RUÍNAS FUMEGANTES DE TUBARÃO
Claro que o gajo tinha que dar ca língua nos dentes. Tou a falar do João Pedro da Costa, esse tripeiro blogueiro por quem um dia me apaixonei. Pela obra, claro, embora a pessoa tenha potencial para me apanhar distraído numa noite de nevoeiro...
O gajo anunciou na caixa de comentários do Ruínas que ele, o grande PN do Fumos e, não percebo como nem porquê, este vosso esqualo de estimação, seremos parceiros num blogue colectivo. Uma coisa simples, claro, que nós somos um trio de simplórios.
E claro que nesta orgia blogueira de homens com quem estive na cama ou por quem quase saí dela (dela cama, é uma private joke goesa) acabarão por surgir gajas. Inevitável, para compor o ramalhete desta versão bloguista do trio odemira que ou muito me engano ou vai dar merda.
Nos bastidores, aliás, o ambiente já aqueceu. É que este nosso amor, nascido meses atrás e consolidado no decorrer de uma ocasião especial (I love Mantas), não é um amor vulgar. É feito de emoções contraditórias, intensas, num modelo de paixão que pode levar uma pessoa à loucura. E vamos blogá-la não tarda nada, se entretanto não partirmos a loiça na retaguarda da nossa geraldina.
Aliás, a minha posta de há dias acerca de sexo anal acabou por funcionar como uma premonição. Misturar-me com um tripeiro chanfrado e um alfacinha bem fumado só pode resultar num bacanal palavreiro onde o potencial sodomizado é o vosso amigo Tuby Silva, aqui o je. Lá o darei ao manifesto, se entrementes o ciúme e o instinto de posse não nos afastar do conceito original.
Sei que vou dar cabo de mim nesta empreitada, mas não consigo dizer-lhes não. A nada. É assim que o amor consegue manietar-nos a razão, empurrar-nos para os braços fortes e peludos de dois manganões que sabemos descontrolados nos movimentos peristálticos das suas depauperadas cabecinhas.
E agora a sério, que eu sou pago para trabalhar e neste novo blogue acumularei funções. Cabe-me avisar o nosso vasto núcleo de indefectíveis que não tarda nada daremos início aos trabalhos de montagem (o Ruinoso é um excelente montador) e de embelezamento (o PN é um chavalo muita giro) e de avacalhamento (nada a referir) do novo espaço de criações inúteis e sem qualquer objectivo a alcançar.
Para não nos afastarmos em demasia da linha a que habituámos os nossos prezados leitores.

Publicado por sharkinho às 11:08 AM | Comentários (86)
setembro 27, 2005
A POSTA INÚTIL
Às vezes ponho-me a pensar no que distingue o homem que sou aos quarenta do que fui na casa dos vinte. Claro que me ocorre de imediato a comparação em termos de desempenho sexual, que nós homens só pensamos nessa cena.
Existe um abismo entre essas duas versões de mim. Entre o gajo que dava com ele de cu para o ar na berma de uma estrada nacional, interrompendo uma caminhada de quilómetros com uma loira imparável, e o que hoje desdenha o interior de um automóvel em detrimento de uma autocaravana com duche quente e cama de casal.
Considerando o lado excêntrico da minha personalidade, que os grisalhos não conseguiram exterminar, até me vejo capaz de jogos eróticos no adro de uma igreja de província ou coisa assim. Ou seja, dou largas à loucura quando esta se apodera de mim.
Todavia, tornei-me mais selectivo. Nos ambientes e nas companhias. Não é uma questão de menos... entusiasmo, acredite quem quiser, mas apenas a vontade de ir sempre mais além do que a simples rapidinha ao som das buzinas e à luz dos faróis das viaturas que passam. E essa parece constituir a principal diferença, a exigência da privacidade que me disponibiliza para algo mais.
Ouvia esse discurso dos cotas, na altura, e pensava com os meus botões: "Pois, pois... Tens é falta de força na verga e agora contas-me histórias de encantar". Eles afirmavam que com a idade um tipo fica mais refinado na arte do amor, mais empenhado na qualidade do que na quantidade (sem, contudo, renegar esta última - o que é bom nunca é demais).
Hoje admito que tinham razão. Por muita piada que encontre nas trapalhadas que protagonizei, caçado a toda a hora pela polícia, pelos vizinhos, pelos pais ou pela guarda florestal em pleno desfrutar de uma maluqueira a dois. Ou mais.
Prefiro o sossego de um quarto de hotel, uma noite inteira para explorar (incluindo um sono retemperador, com os pelos do peito agitados pela respiração tranquila de uma amante especial). Um cenário mais intimista, mais privado. Mas que não afasta de todo o ritmo acelerado de uma sessão a roçar o pornográfico nas poses e nos sons. Algo que me seduz mais do que o sexo abafado numa tenda, campista de ocasião que sempre fui, ou despachado numa praia, cheio de medo de hipotéticas intrusões. Quase para cumprir, quando o gozo que hoje encontro reside no prolongamento concentrado de um delicioso ritual. O clima, que tanta importância adquiriu nesta nova fase da minha vida sexual, cultivado na atenção às questões de pormenor. As da outra pessoa também, submetida às suas próprias pressões, e que me esforço por descontrair. Basta fugir às circunstâncias que podem amplificar receios e preocupações, insistir num conjunto de factores que espantam os constrangimentos de ocasião. O tal recolhimento ponderado que evita as surpresas e os embaraços que podem deitar tudo a perder.
Hoje sinto que é essa a forma de estar que mais se adequa ao perfil que me moldei. E claro que isto nada vos diz ou interessa, mas faz parte da minha natureza e eu tenho que preencher as minhas postas com algo de meu para vos dar. Mesmo informação inútil como esta vos deve soar, coisas íntimas que é costume a malta guardar para si.
Mas eu sou assim e foi assim que vos habituei. Sou apenas mais um (o gajo regressou!), mas gosto de escrever as coisas que me definem, que possam nalguns aspectos distinguir-me da multidão.
E este é o suporte ideal para debitar o resultado inócuo das minhas introspecções.
Publicado por sharkinho às 11:55 AM | Comentários (56)
setembro 26, 2005
SINAIS EXTERIORES
Como nunca mais chega o fim do mês, vou mesmo ter que recorrer aos grandes argumentos...

O meu visa gold vai andar num badanau...
Publicado por sharkinho às 12:46 PM | Comentários (14)
A POSTA OPTIMISTA

Ora aqui está uma nova semana, acabadinha de ter início.
Maravilha, vou poder acreditar outra vez que é nesta semana que vou concluir as tarefas que deixei por fazer na semana que passou...
Publicado por sharkinho às 09:55 AM | Comentários (15)
setembro 25, 2005
ESTADOS DE ESPÍRITO
Um repositório das (minhas) emoções. (fotos: sharkinho, claro.)
-//-
-//-
Publicado por sharkinho às 12:11 PM | Comentários (8)
setembro 24, 2005
A POSTA NO ALEGRE

Como referi na posta anterior, sinto necessidade de falar um pouco de política. Sob a minha perspectiva, menos doutrinária e mais virada para o mérito das pessoas que a executam por mim (militante do sofá). Ou seja, não tenho paciência para debater as ideologias quando sei que essas pouco diferenciam a prática dos que as corporizam nas estruturas que a democracia disponibiliza.
Sou de esquerda e na maioria das coisas encaixo-me no que se convencionou apelidar de liberal. Por outro lado, sou nacionalista e coloco a Pátria acima de qualquer questão partidária ou ideológica. Interessa-me mesmo o melhor para o país. E o melhor para mim são as pessoas.
Existem gajos que me causam urticária só de os ver. Como o do bolo-rei à boca cheia, arrogante e autoritário. Ou o intelectual armado aos cucos só porque engatou uma gaja boa mas que é capaz de virar as costas à mão que um adversário lhe estendeu. Ou a figura mítica que se desdiz e trai um amigo por motivos que, estou certo, nada têm a ver com a defesa dos interesses da Nação.
Representam, à direita e à esquerda, um tipo de gente a quem nunca confiaria com o meu voto qualquer lugar proeminente na gestão do rumo do meu país. Gente falsa, sem palavra, gente mesquinha que apenas se serve da projecção mediática para subir nas sondagens que denunciam o muito que há por fazer nas mentalidades do eleitorado de papalvos que decide estas coisas. Papalvos sim, e basta citar os exemplos que nos chegam de Gondomar ou de Felgueiras, de Amarante ou de Oeiras.
Vamos falar sério: o dr. Mário Soares destes dias representa tanto os ideais de esquerda, socialistas, como o dr. Cavaco Silva representa os do PSD que há pouco tempo traiu (ou já ninguém se lembra da polémica do cartaz?) ou a direita representada pelo PP. São duas candidaturas tão sérias como o Benfica convocar o Eusébio para a equipa principal, o Sporting repescar o Yazalde ou o Porto contratar o Fernando Gomes (esse não, carago, o outro, o que também sabe jogar de cabeça mas não mete as mãos pelos pés).
Não estão em causa os mui dignos estatutos de avôs destas criaturas, mas sim o anacronismo destes males menores.
Eu sou de esquerda e apoio sem reservas uma candidatura do poeta Manuel Alegre. É nele que revejo a esquerda que gosto de apreciar. A força, a seriedade, o empenho, a ingenuidade de defender uma causa sem entregar a alma às sanguessugas. Não é um santo, o Manuel. Mas leio-lhe nos olhos e na voz uma forma genuína de viver estas coisas, uma sinceridade à flor da pele que lhe terá custado o ostracismo do aparelho partidário. Contudo, eu vou ajudar a eleger uma pessoa e não uma ideologia, vou votar no homem que me parece mais capaz de enfrentar com dignidade o desafio de manter na ordem uma maioria absoluta.
Sem hostilidade, apenas pela honra. Pelo lugar na história que o Manuel Alegre já mereceu e quer consolidar.
A candidatura de Mário Soares tresanda a bafio de bastidores, "apoiamos este, pois o outro não tem hipóteses de ganhar e o marocas até alinha sempre com a malta", tanto quanto a de Cavaco Silva é fruto do desespero de um centro-direita sem alternativas. Tão mau que até o advogado do Bibi sentiu a pressão da sociedade civil para avançar com a sua fantasia. O circo instalou-se de armas e bagagens na cena política nacional. Mas os palhaços somos nós, os que deixamos andar a cena sem ao menos motivarmos as pessoas de bem para recuperarem as rédeas desta carroça desgovernada.
É nesse contexto que apoio o Manuel Alegre, como não hesitaria em apoiar, contra Mário Soares e a desconfiança que me inspira, um candidato decente que a direita pudesse apresentar. É como nas autarquias: voto no partido que melhores provas deu, mesmo que tenha como certo o contrário numas legislativas. São realidades diferentes que as pessoas (e os políticos) confundem.
Sou benfiquista mas não me revejo nas cenas de taberna (apoios eleitorais descarados, trambolhões etilizados ou desacatos nas assembleias) que o clube da minha simpatia atraiu nos últimos tempos. Sou um benfiquista do tempo do Fernando Martins.
Tal como na esquerda não papo este grupo socrático que as circunstâncias favoreceram. Sou do tempo dos homens que lutaram pela Liberdade por convicção e que abraçaram a causa pública, que ainda não desistiram das suas utopias.
O Manuel Alegre é, por isso mesmo, o meu candidato presidencial. E pela parte que me toca, a única opção realista para embaraçar os que avançam pelo umbigo e não pela coerência.
Publicado por sharkinho às 06:14 PM | Comentários (18)
A FOICE EM SEARA ALHEIA

Raramente escrevo algo acerca de política no charco. Percebo pouco do assunto e sinto-nos a todos pouco motivados para o discutir.
Também não é meu costume meter a foice em seara alheia quando acontecem as tradicionais rixas entre blogues (entre as pessoas que os fazem), não só porque o assunto não me diz respeito mas porque existem sempre dados que escapam a quem está fora do convento.
Contudo, hoje vou abrir uma excepção nos dois casos. Falarei de política na óptica das pessoas mais do que das ideias (porque me interessam mais as primeiras, que as originam) e falarei mais de blogosfera e do impacto negativo destas guerrinhas absurdas na credibilidade do que fazemos do que nos aspectos que dão origem a (mais uma) troca dispensável de mimos blogueiros.
E começo por esta questão. Existe uma polémica pública entre o Rogério da Costa Pereira (o Monty) e o Daniel Arruda (o Daniel Arruda). Dessa questão por resolver têm nascido dezenas de palavras e de atitudes nas páginas e nas caixas dos dois blogues representados pelos nossos colegas que citei. E dessas atitudes tem resultado uma série de prejuízos para as imagens dos intervenientes (nada anónimos) e dos respectivos (e muito visíveis) blogues. Concentro-me nestes últimos.
Blogar a sério equivale a desviar horas de atenção diária para a criação e a manutenção de um trabalho público e ao alcance de qualquer pessoa. Acredito que não está ao alcance de muitos aguentar esta pedalada de jornal diário sem vergar na qualidade do que publica. E na estrutura emocional da pessoa que é, por detrás do monitor.
Este clima de peixeirada não me ajuda, enquanto blogueiro. Dou o meu melhor, como os outros, e isso justifica-se porque acredito neste suporte de comunicação. Até pelo calibre do que me é dado a ver. Não gosto de ver dois dos mais destacados blogues da praça protagonizarem uma discussão pública de questões menores que em nada contribuem para conferir seriedade ao seu esforço. E ao meu.
Misturar questões pessoais com reacções intempestivas ou mesquinhas a propósito da actividade blogueira é um disparate. O que sei dos intervenientes neste caso concreto até me permite concluir que possuem capacidade (provada neste meio inflexível em matéria de retorno) e inteligência (desmentida pelo teor autofágico das suas intervenções) para evitarem estas merdas.
Uma coisa são blogues e outra coisa são pessoas. Os primeiros são uma dimensão da realidade que os segundos lhe conferem. Uma visão parcial das pessoas que os constroem, por muito que se abram ao mundo nas suas postas.
O blogue reflecte-nos, no bom e no mau, mas nunca será uma reprodução fiel do que nos vai na alma ou dos contornos do nosso carácter. É que a pressão conduz-nos a erros de palmatória, a medos da exposição, a reacções estapafúrdias que nunca teríamos na nossa vida normal. Torna-nos diferentes, a blogosfera. Nalguns casos para pior.
Eu não sou isento de culpas em qualquer matéria, tenho os telhados de vidro mesmo à mão de semear. Mas não estou a pedir uma chuva de pedras. Quero apenas que a malta recorde a existência dos emails ou mesmo dos telefones para lidar com as dúvidas e os malentendidos que este suporte multiplica. Para não nos expormos ao ridículo a que o excesso de zelo pode acarretar e ao inevitável crescendo das proporções que estas coisas atingem. E nem sou dos que defendem a ideia de que "isto são só blogues". O meu blogue é um retrato muito aproximado do homem que sou, do que valho aos olhos de quem me pode avaliar por esta via e confirmar pelas que se seguirem, como já aconteceu com dezenas de colegas. Levo a sério o que de mim vos dou e preocupo-me com a imagem que transmito do Sharkinho, a alcunha que não me separa do nome que me baptizou.
A blogosfera merece melhor e os que a fazem, também. Como amigo de pessoas por detrás dos dois blogues que me motivaram esta posta, estes minutos da minha e da vossa atenção, só posso meter o bedelho e (nem que seja na pele de alguém que aprecia e respeita as vossas criações) contribuir com o meu quinhão para acabarem de vez com a exposição pública das vossas divergências. Mais vale darem-se ao desprezo, sempre que alguém tome uma iniciativa palerma. Ignorarem a questão.
Ou lidarem com a mesma longe dos olhares de quem nos procura com as motivações mais adequadas. E de quem apenas busca matéria para a cusquice que não nos enobrece ou beneficia de alguma forma.
Publicado por sharkinho às 04:52 PM | Comentários (43)
PRECISO
De dias melhores.
Publicado por sharkinho às 01:50 AM | Comentários (4)
setembro 23, 2005
CAÍ DO PEDESTAL

Publicado por sharkinho às 11:40 PM
NESSUN DORMA
Foto: sharkinho
No meu sonho eu não sou o príncipe encantado, apenas defendo os seus ideais. Cavalgo pela praia em busca dos inimigos do reino, olhos postos no mar que me ladeia. De vez em quando enfrento um dragão, dos que ameaçam uma donzela refém. Para treinar a coragem, temerário, aos olhos do adversário. E pelo amor também.
O castelo no cimo da falésia, imponente, revela nas suas ameias as testemunhas das façanhas que não preciso provar. À vista desarmada reluz a minha espada quando a empunho para lutar. Pela causa. E pelas vitórias acumuladas nas batalhas disputadas em nome de um rei que casou e procriou e assim se fez feliz. Por um triz, quando a vida lhe salvei.
No meu sonho sou o cavaleiro mais forte de quantos a rainha abençoou, ilustre guerreiro que tudo conquistou. Sem medo de morrer, leal até ao fim. O primeiro a cravar esporas quando soam as trompetas que mandam avançar o exército de um homem só. Eu, em cima de um alazão, escudo num braço e lança na mão. A galope, rosto salpicado pelas gotas com sal depositadas no areal pelas ondas que ali desmaiam a força que as criou.
Brilham ao sol as armaduras dos que tombam à minha passagem pela margem da baía. Gritos de guerra abafados, silêncios rasgados pelos gemidos de dor. Até ao ruído final. E depois sepulcral, a ausência de som.
Do meu sonho vencedor só acordo no fim.
Mas no teu pesadelo nunca adormeci.
Publicado por sharkinho às 06:20 PM | Comentários (13)
A POSTA SEM PALAVRAS
Foto: sharkinho (tá bem, tem estas palavritas...)
Publicado por sharkinho às 04:06 PM | Comentários (9)
setembro 22, 2005
CULPA MINHA
Foto: sharkinho
Acontece-me imenso. No meio da fúria que por vezes me controla digo e faço coisas de que me arrependo depois. Fujo de mim nessas alturas, incapaz de me entender e de encontrar uma plataforma lúcida para o diálogo interior. Para evitar o pior.
Não consigo. Deixo-me dominar pelo lado menos bom de uma personalidade talhada para a confusão. Expludo impropérios e impludo em terríveis conclusões. Uma amálgama de raiva desnorteada com uma tendência vincada para a loucura temporária.
Entretanto já passou. E eis-me de novo confrontado com o remorso costumeiro, a minha penitência de estimação.
Dou o braço a torcer, sempre que me reconheço fora da linha perante seja quem for. E forço muitas vezes as tentativas de reconciliação, apesar das inúmeras desilusões que esta mania me traz. Prefiro dar-me bem com as pessoas, mas não lhes tolero provocações. Perco a razão à partida, desproporcionado nas reacções. Vou longe demais. E isso não é bom, pois gajos como eu passam a vida apanhados em contrapé.
Ajo, no fundo, em conformidade com o impulso que me trai. É este o retrato dos meus momentos piores, hoje como num passado que sinto distante mas nunca passível de olvidar. Faz parte do homem que sou. E aqui estou.
À míngua da vossa simpatia.
À mercê do vosso desdém.
Publicado por sharkinho às 06:15 PM | Comentários (36)
setembro 21, 2005
A POSTA NAS TRASEIRAS

Alguém sugeriu o título desta posta na caixa de comentários da casa do tubarão. Pelo título percebe-se do que se trata e é um assunto que não me lembro de ter abordado de forma directa neste blogue. Confesso que não tinha encontrado até à data uma abordagem à altura e continuo sem a certeza de que o conseguirei. Mas ando desertinho para retomar o tema sexo no charco e achei que seria interessante enfrentar este desafio. Sem rede.
Ou seja, acabei por desistir de planos e de conjecturas e estou a escrever "em directo" aquilo que me ocorre acerca de um dos maiores tabus do sexo heterossexual: o sexo anal. Distingo a heterossexualidade em específico apenas porque nunca tive acesso a outras perspectivas que não desdenharia abordar. E não gosto de falar acerca de matérias que não domino, sobretudo quando está subjacente uma opinião acerca do que falo. Favorável, no caso em apreço.
Vamos lá então...
É inegável que o assunto causa desconforto, mesmo entre casais com anos acumulados de intimidade na cama. Por isso o apelidei de tabu mais acima, pela visível renitência da maioria das pessoas em enfrentarem as suas vontades e/ou fantasias, enfim, mais arrojadas. O sexo anal parece-me entrar neste grupo das "vergonhas" que muitos(as) ambicionam mas ninguém quer debater. Se estou errado é porque me tenho dado com gente tímida aos magotes e não há nada a fazer.
Não é fácil encontrar uma forma de colocar um desses apetites clássicos (o homem que nunca fantasiou com um cu que avance com a primeira palavra) à pessoa que temos connosco na cama, sobretudo se as condições não são as ideais em termos de intimidade, de à-vontade ou da privacidade indispensável para uma "extravagância" carregada de mitos e de cargas pejorativas.
O mito da dor é o primeiro. Pinta-se a coisa como se um pénis se transformasse de repente num gargalo de garrafa e um ânus não passasse de uma argola rígida de metal. Um absurdo, claro está, até porque se as dores de uma penetração inaugural fossem assim tão insuportáveis o número de virgens não parava de crescer. E nem consta que sejam experiências directamente comparáveis. Mas é um pretexto como outro qualquer para nos perturbar a mona e nos afastar do prazer e da realização pessoal. Não faltam dessas merdas que nos castram.
Até num hipermercado é fácil de obter um gel lubrificante para eliminar o efeito da fricção. E a elasticidade do ânus, posta à prova a partir do interior em determinadas superproduções intestinais, tem milénios, quilómetros de experiências bem sucedidas. E aquela história do Reinaldo e da Laura Diogo não passou de uma lenda urbana para papalvos atesoados e doentios...
Mas existem outros aspectos que condicionam as pessoas nessa delicada opção que um corpo nos dá. O nojo (sempre presente de alguma forma quando o sexo protagoniza) é outra das barreiras psicológicas de alguns, bem como o tradicional medo das consequências (há adultos que temem que o ânus não regresse ao tamanho original depois de alargado dessa forma). E mais uma carrada de falsos argumentos que diabolizam o que deveria ser uma alternativa a considerar sem reservas. Claro que falo sob a confortável perspectiva de quem vê o assunto do lado mais simples e menos assustador da coisa, mas é esse que me compete e do outro lado da história que fale quem puder e souber.
O sexo anal é uma maravilha, afirmo-o como homem que não abdica do instinto natural para possuír, para dominar a fêmea que me deseja, que me quer dentro de si. Na minha ideia, representa um passo fundamental na evolução de uma cumplicidade a dois. Porque requer muita confiança. Um bruto pode provocar enorme sofrimento dessa forma e é natural que se escolham homens capazes de mudanças de ritmo em função da pessoa e da circunstância. Neste contexto, se uma mulher me aceita como parceiro no sexo anal eu entendo o gesto como uma evidência do seu empenho e da sua sensualidade explosiva, aliados a uma confirmação clara dos sentimentos de confiança e de proximidade que lhe inspiro. É a minha forma de o sentir e não pretendo fazer escola, insisto.
A simples concretização desse passo elimina a hipótese de a vontade degenerar em desejo obsessivo, como parece acontecer a alguns. Constou-me até a negação de tal privilégio como explicação para o fim de matrimónios, embora eu admita que possa ser um exagero. Mas nem são necessários pretextos, na minha óptica. Sexo propriamente dito implica a exploração dos corpos no máximo do seu potencial para o prazer, sem fronteiras. É assim que explico a minha versão acerca deste falso melindre, desta tolice fantasma que nos inibe até de conversar sobre "essas coisas".
E claro que fica salvaguardada a divergência de sensibilidades e de opiniões. Não tenho o monopólio do conhecimento nesta área específica, como reconheço acima, e posso falar apenas da minha experiência pessoal (como sempre fiz).
É essa que me concede o direito de fazer a apologia de tudo quanto na vida me impressionou.
E em algumas questões sou um gajo muito impressionável...
Publicado por sharkinho às 12:40 AM | Comentários (116)
setembro 19, 2005
A POSTA IMORAL

Foto: sharkinho
Nunca consegui assimilar na catequese aquele conceito bizarro de "dar a outra face". Era um puto, mas lembro-me de me rir à brava quando percebi o fulcro da questão. Levar uma lambada e oferecer o outro lado da cara para encaixar a segunda...
Foram estes aspectos secundários que me levaram a questionar a moral cristã. Daí à crise de fé, incendiada pela reacção hostil que as minhas interrogações suscitavam, foi um tiro. Iniciado este processo, não tardaram as repercussões.
Acabei expulso do templo, diante da multidão de crentes-vizinhos, no que constituiu o primeiro rude golpe na imagem pública do filho dos meus pais, porque perguntei em voz alta o que estava a fazer ali e porque me obrigavam. Foi o advento da ovelha ranhosa de uma família a que em tempos pertenci.
Mas regresso à cena da estalada.
Antes mesmo da entrada (fatal comó destino) para o rebanho da paróquia local, já o meu pai me ensinava os rudimentos de defesa para qualquer puto de um bairro cheio de durões. E não tardei a perceber que a melhor defesa, na maioria das circunstâncias, era o ataque surpresa. Oferecia a outra face mas era para distrair o opositor, enquanto a mão alçada ou uma valente joelhada resolviam a situação. Violência gratuita e tal. Pois é. Mas deu-me um jeitão, quando a rua me provou que o cota tinha razão. O respeito conquistava-se dessa maneira, à viril das avenidas, e não havia lugar para a misericórdia.
É que os gajos normais até caíam em si, se um tipo lhes oferecesse a outra bochecha. Mas os mesmo maus reagiam como os cães selvagens perante uma pessoa com medo. Mordiam a doer. E um tipo aprendia a lição, à custa dos católicos que se deixavam espancar em nome de um conceito de duvidosa aplicação. Na prática, enfardavam que nem coirões e não havia santinho que lhes deitasse a mão nessas difíceis provações. Um nobre sacrifício, mas em vão. Os filisteus não se convertiam e nós agnósticos também não...
Isto para explicar que mesmo nesta fase menos agitada da minha vida ainda não encaixei a coisa, embora lhe reconheça enorme potencial em determinados contextos. Até já pratiquei, só por piada, e confirmei o pressuposto mais acima: mordem que nem cães e não apreciam a beleza de uma atitude tão louvável. E depois um gajo tem que retribuir, ou nunca mais lhe largam as pernas. A ele e a quem se prestar a esses rituais de beatificação que o mundo real, que não reza por aí além, só entenderá quando o Cristo regressar para pôr ordem na barraca em que se tornou esta complicada criação do seu Pai.
Ignorar quem me ameaça ou agride, ainda vá. De vez em quando. À primeira.
Mas quando insistem em repetir a graça, molhando a sopa no aparente bonzão, a coisa muda de figura.
Não me fico.
É que o respeitinho é muito bonito...
Publicado por sharkinho às 08:22 PM | Comentários (24)
A POSTA NA TEIMOSIA
Quem vê caras não vê corações, não é? Mas por mais que se escondam os factos para ocultar a realidade, a verdade acaba por se impor e a justiça prevalece.
Insistes em mandar sinais da tua baixeza.
Mas não há como contornar o problema, méne: aquilo foi mesmo uma
E a camuflagem não resultou...
Publicado por sharkinho às 06:45 PM
A POSTA NO SEGREDO

É como revistarem-nos as algibeiras, quando nos atiram à cara algo que descobrem no nosso blogue e disso se servem como arma de arremesso. No fundo, limitam a nossa liberdade ao fazerem sentir a sua presença na qualidade de "investigadores".
Já me aconteceu, por mais de uma vez.
Por isso mesmo, o anonimato nestas coisas é mesmo fundamental. Sobretudo perante as pessoas com quem temos de lidar cara-a-cara.
Um blogue é como um diário íntimo e o cadeado é a nossa identidade secreta.
Publicado por sharkinho às 04:36 PM | Comentários (15)
setembro 18, 2005
VOCAÇÃO MARÍTIMA
Foto: sharkinho
Os dias especiais colam-se à memória como tatuagens de vários tons.
Ontem o meu foi da cor da pele.
Publicado por sharkinho às 11:35 AM | Comentários (12)
setembro 17, 2005
A POSTA NAS ONDAS
Hoje não vou precisar do meu telemóvel especial...
Publicado por sharkinho às 01:15 AM | Comentários (10)
setembro 16, 2005
A POSTA ANTI CLÍMAX
Foto: sharkinho
Estava um dia lindo e cheio de sol, promessa de um fim-de-semana bestial.
E de repente, a vida é tramada, a coisa ficou assim.
É um tema banal, bem sei, este do tempo que faz. Do que o tempo faz na nossa disposição e nos hábitos que cultivamos. O tempo e outros factores, aliás.
Mas o médico proibiu-me de entrar em temas mais profundos.
Por causa das úlceras...
Publicado por sharkinho às 07:57 PM | Comentários (10)
A POSTA NO ARAME
Foto: sharkinho
Tenho palavras encarceradas em mim. E não as posso libertar assim.
São reféns das minhas limitações. Condenadas ao silêncio das palavras marginais que podem incomodar.
Sinto-me prisioneiro e afinal sou o carcereiro das utopias e ilusões que pretendo conquistar.
Ambiciono palavras soltas, mas faço orelhas moucas à verdade que se perdeu.
Amordaçado pelas condições, sonho novas revoluções nas arestas da que Abril me deu.
No calor da madrugada, busco a escrita transpirada e a vontade de gritar não!
Mas sinto-me gelado pelo ar condicionado da minha liberdade de expressão.
Publicado por sharkinho às 04:10 AM | Comentários (21)
setembro 14, 2005
A POSTA NA NOVELA

A posta anterior é um exemplo de um estilo corriqueiro nestes blogues intimistas ou pessoais, como o charco. É um recado enviado a alguém que bloga (como blogueiro/a, comentador/a ou apenas visita regular), camuflado entre uma ilustração ambígua, um texto sem nexo e um título que diz apenas metade do que se pretende dizer. É uma espécie de posta com mascarilha.
A ideia é apenas o/a destinatário/a e mais meia dúzia de "mais próximos" entenderem a cena. E isso até pode acontecer, quando o/a visado/a frequenta todos os dias o blogue emissor. Mas na blogosfera existe um problema com que podemos defrontar-nos: os estilhaços da coisa, a água que transborda na sequência do mergulho de chapão.
Quer isto dizer que às vezes a cena é mal interpretada e qualquer transeunte da blogosfera com um umbigo sobredimensionado enfia a carapuça com base no seu imaculado poder de especulação. "É pá, o gajo tá-se a meter comigo. Ganda cabrão...". E muitas vezes não. Era mesmo para o url do lado e o carteiro electrónico despistou-se um bocado e a mensagem foi cair nas piores mãos. Uma bronca, logo a seguir. A resposta ao recado não demora a sair. E tem início outra escaramuça virtual que pode arrastar blogues aliados, com estratégias como nas guerras a sério e tudo.
Outras vezes não. A "bomba" rebenta no alvo e o impacto é menor, confina-se aos adversários em disputa. Regra geral há um que faz de aldrabão, o contador de histórias. O outro, por norma bem informado, atira-se como gato ao bofe e tenta desmascarar o primeiro sem contudo se exceder na mira quando aponta o dedo. O "mau" é anónimo e não tem piada que possa identificar-se na boa como o alvo a abater. Faz parte das regras deste jogo blogueiro sempre cheio de animação.
O que chateia é que a cena, rebuscada e macabúzia, nem sempre resulta no trocadilho. E se ninguém a percebe, fica o que a envia no papel do maluquinho. Outras vezes é na outra ponta do fio que se instala a confusão, confunde-se bagaço com cagaço e até polícia a coisa pode meter...
Dantes a malta reinava bué com estas cenas fixes, um ganda exercício mental e de coordenação motora (quando um gajo tem o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, uma caneta numa mão e a outra a pressionar as teclazinhas como quem cata milho no chão). E dava pica, ver a malta a esgalhar uma ganda prosa com insultos cheios de rendinhas, depois os amigos da casa a comentarem (mesmo sem fazerem a mínima ideia do que está em causa). E depois a resposta, ainda mais entaramelada no discurso, e os comentadores desse espaço a fazerem bruá. Pingue. E a seguir pongue. Paciência de chinês...
Dou-vos um exemplo concreto, sem merdas. O simples facto de eu falar neste assunto vai merecer uma associação de ideias. E tento explicar o conceito:
"Ah, já tou a ver... O gajo teve um desatino com o tal, até deu merda com fulano por causa do que disse à sicrana. Se ele fala de caridade vê-se logo que é uma metáfora, tás a ver? Ele quer dizer tenra idade, porque o outro é mais novo. Ou coisa que o valha." Ou qualquer outro raciocínio abstrôncio que conduza à ligação mais sumarenta possível e alimente a cusquice que nós blogueiros já provámos apreciar. Generalizei. Não devia, bem sei. Mas é uma das características que me incomodam na blogosfera, esta tendência para a adivinhação no plano das intenções. Assim como andarmos às apalpadelas em busca da lâmpada fundida, cegos pela luz do conhecimento que se apagou no meio de tanta trica e discussão. E a criatividade também se viu afectada, sem tempo nem clima para se espairecer pelo céu destas nossas criações, encoberto pelo manto da interactividade de uma novela mexicana. Que espanta os fregueses "de fora".
A blogosfera amornou. E eu acho que a culpa é do mordomo. Mas claro que isto não passa de sentido figurado.
O recado lá chegou...
Publicado por sharkinho às 01:16 AM | Comentários (28)
setembro 13, 2005
OBRA DE CARIDADE
Ele caiu em si.
Mas ainda não bateu no fundo...
Publicado por sharkinho às 09:39 PM
setembro 11, 2005
ALMOÇO EM FAMÍLIA
Olha, o Sharquinho ou Charkinho ou lá o que é já estendeu mais um lençol...
Tenho vindo a ensaiar uma atitude menos emotiva perante quem se esforça por me encolerizar. Não é fácil, acreditem, passar do oitenta ao oito de um dia para o outro. Explode-nos o peito com a pressão. Engolimos em seco, pigarreamos, disfarçamos a ira imediata com uma simples passagem da mão pelos cabelos mais uma contagem mental até dez.
É um exercício excelente na óptica do autoflagelo, ensina-nos a sermos pessoas melhores através da técnica da chaleira entupida. A gente ferve mas o apito não soa, ecoa dentro de nós como uma locomotiva a vapor. É um processo que quase nos leva à loucura, mas só na altura, ficamos felizes à brava depois da coisa passar. Ou esforçamo-nos por acreditar...
...Que vale a pena o sacrifício de não responder em consonância com a estupidez que nos atordoa quando nos inibimos de reagir. É que a cena funciona e evita muitos males maiores, os que nos afloram a mente a um ritmo constante quando nas trombas recebemos uma dose de hipocrisia, uma pessoa com a mania, um discurso infeliz por parte de um parvo qualquer. Às vezes sou eu que visto a pele deste último e safo-me apenas pela paciência de quem me atura, a estoicidade da amizade ou do amor. Tenho mesmo que retorquir na mesma moeda, aprender como se faz, e treino com batráquios que engulo. Sem os mastigar.
Os resultados são do melhor. Não fazemos má figura e enquanto nos mentalizamos para não disparar um "vai à merda" (ou pior) já nem escutamos o que nos tentam dizer. E não nos fixamos no lado mais negro da coisa, transportamos para Marte o que conseguimos salvar da nossa consciência amolgada e de repente já nem estamos ali. Diante do agressor. Retirada estratégica para evitar o pior, um impulso daqueles que nos fazem perder num berro a razão que nos assistiria noutro tom. É disso que tento escapar, das consequências da minha natureza de refilão. Até um certo ponto, onde corto o mal pela raiz, deixo crescer a erva daninha até me roçar com a mostarda no nariz. Aí sou eu outra vez, um exaltado tubarão, e disparo um "bolinha baixa que o guarda-redes é anão" (ou uma mais curta).
O caldo entornado sem necessidade nenhuma.
E na maioria das vezes nem vale a pena, não se justifica uma reacção ao que nos agride ou perturba. Basta o desprezo para ilustrar o que a alma reprimiu. A chaleira sem assobio e um gajo com a tola na morte da bezerra, longe do episódio, concentrado num ponto de luz imaginário ao fundo do túnel em que enfiamos a nossa fúria para que se distraia. E balbuciamos uma trivialidade qualquer, "pois é, o Benfica jogou mesmo mal". Perdeu com o rival e estragou ainda mais a disposição de qualquer verdadeiro lampião, mudar de assunto depressa. Entretanto o pomo da discórdia arrefeceu e na marinha que seguiu embarcou a nossa vontade de partir a loiça. Uma vitória do bom senso e da ponderação. Um orgulho...
Nem sei por quanto tempo aguentarei. E já releio o Dalai Lama.
Para que sempre que faço a minha cama consiga pensar, pelo menos duas vezes, antes de estupidamente nela me deitar.
Publicado por sharkinho às 10:45 PM | Comentários (35)
EM PLENA ACELERAÇÃO

Nunca experimentei o amargo sabor da derrota nas questões do coração. Coincidência, dir-se-á, e eu direi talvez. Mas os factos estão à vista e declaram-me vencedor. Sempre no final da disputa, a conquista é uma luta, é para mim acenada a bandeirola de xadrez.
Corro por gosto no campeonato da paixão, acelero até quase me despistar. Nunca aconteceu, porém. E jamais desistiria a meio dessa intensa competição, cioso do meu quinhão, firme no querer. É minha à partida a chegada no primeiro lugar.
A felicidade é o meu trofeu.
A vida é uma corrida e o tempo escasseia para as vitórias no amor. Tenho pressa de sagrar-me campeão. Contudo, a única glória que procuro é a certeza de fazer alguém feliz, o combustível que alimenta o bólide em que me transformo quando existe um objectivo que valha a pena alcançar. Porque alio a vontade ao poder da minha fé.
A vaidade não me cega quando ostento assim os galões. Dados adquiridos não existem para mim e em cada dia está em causa a revalidação do que preciso merecer. Trabalho de manutenção, nos bastidores, máquina afinada com precisão. O culto dos meus amores.
Um prazer a que me entrego com inteira devoção.
Acumulo esta experiência e aviso a concorrência: o passado já morreu.
O presente é todo meu. O futuro até ao fim.
E sorrirá só para mim.
Publicado por sharkinho às 12:25 PM | Comentários (4)
setembro 10, 2005
CINCO MINUTOS OU MAIS
O turista europeu ficou sentado nos degraus de madeira diante da loja. Nenhuma das pessoas em seu redor ficou de pé. A explosão varreu a rua como um bafo incandescente do demónio, os estilhaços voaram sem destino em quase todas as direcções. O som de vidros partidos durou alguns segundos para lá da deflagração. Depois, os gritos sobrepuseram-se a todo o tipo de sensação.
Ainda sentado, o turista percorreu o chão à sua volta com o olhar e viu muitos restos das pessoas que animavam a rua com as suas existências poucos minutos atrás.
Não percebia o que acontecera e sentia-se enfraquecer. Pousou a mãos nas pernas e não as reconheceu como suas, esfaceladas. Viu um jorro vermelho que julgava ter origem no corpo inerte mais próximo do seu. Depois viu um jovem que gritava palavras de ordem ou pedidos de socorro, não tinha a certeza pois não as ouvia.
O jovem rebelde, filho daquela terra manchada de dor, berrava o ódio que sentia. Excitado pela visão infernal que o cercava, enlouquecia e esquecia que a morte ainda pairava ali. Queria saudar uma vitória, rara alegria, não pensava e sorria perante a devastação e o horror.
Caminhava, punho erguido, por entre o caos. E ignorava a cólera garantida por parte da facção hostil.
Deteve-se a poucos metros de um loiro, talvez alemão. Patético, desfeito, sentado nos degraus em frente das ruínas de um estabelecimento onde nunca mais o iriam atender.
O jovem não reprimiu uma gargalhada, nervoso. Descontrolado, deixou-se dominar pelo choque e pelo absurdo da situação e riu até quase lhe falhar a respiração.
O turista, artéria dilacerada por um estilhaço de metal, tombou sobre o lado direito sem emitir qualquer som. Ainda não havia entendido o que se passara quando a hemorragia lhe esvaiu o tempo que restava e o pesadelo chegou ao fim.
O soldado chegou entretanto ao local. A rua estendia-lhe diante dos olhos um tapete feito de gente mutilada, moribunda, gente azarada que o acaso escolheu para ceifar. Deus não seria que nenhum Deus permitiria uma carnificina assim. Perturbado, o soldado vomitou.
Quando recuperou o controlo, estranhou o som das gargalhadas e decidiu investigar. Com prudência, passou a vista de relance pelos telhados que restavam em busca de um atirador emboscado e depois avançou, dedo tenso no gatilho, por entre o tapete vermelho estendido à sua passagem em nome da libertação de alguém.
Porém, a mensagem de liberdade não o sensibilizava e eram opostas as razões que o colocavam naquele cenário cruel. O riso do rapaz, histérico e despropositado, entrou-lhe na alma com a força de um trovão. Passo a passo, o soldado tomou posição num ponto de onde não poderia falhar.
O jornalista ferido, manga da camisa enrolada na cabeça para estancar o sangue que escorria, fotografava sem interrupção para não ter que pensar as imagens captadas. Registava por dever o que a razão lhe dizia para ignorar, instinto de sobrevivência obliterado pelo espírito de missão.
Rostos de muitas raças e certamente de várias nações, máscaras inexpressivas de vítimas que desconheciam tal condição, mortes súbitas gravadas na mente e na película em instantâneos de terror.
A lente captou um momento de agitação. Um jovem moreno que ria a despropósito no meio da rua e perto dele um soldado que pouco depois disparou, gatilho premido em simultâneo com o obturador.
O jovem, atingido na nuca, parou de rir e tombou como uma marioneta sobre os corpos desfeitos de outras vítimas de ocasião.
O jornalista não viu quem o agrediu com uma coronha, mas adivinhou, ainda antes de ficar prostrado de bruços, meio desmaiado. O soldado vingador apercebeu-se do sucedido, mas não desistiu de primeiro rolar o corpo do rapaz para cima. Certificou-se que o inimigo estava morto, a única garantia de que não voltaria a emitir qualquer som. Depois, dominado pela ira, avançou alguns metros até junto do repórter que rastejava sangrando no pó.
A segunda explosão interrompeu a sequência que se previa. Chegaria do céu, desta feita, como se apenas do céu pudesse chegar um final para aquela violência. Alheio à presença de tropas amigas nas imediações do alvo determinado, o piloto de caça soltou o seu perdigueiro feroz e este farejou o sangue com a sensibilidade de um tubarão. Um míssil apenas, mas bastaria para extinguir toda a vida que restava no perímetro do atentado letal.
Minutos depois, uma criança pequena, maltrapilha, passeou sem nojo ou emoção por entre a pasta de entulho com pessoas. Procurava outra criança que conhecia e que sabia estar ali no momento em que tudo aconteceu. Encontrou-a, o que restava, mais aquilo que procurava, bem firme entre os dedos crispados pelo espasmo final.
Com um sorriso de felicidade, desdentada, correu pela rua fora com o peluche chamuscado na mão, o trofeu que cobiçara quando com a outra criança se cruzou, nem cinco minutos atrás, e foi procurar um canto sossegado na esperança de brincar, sem medo da morte, cinco minutos que fosse. Ou mesmo um pouco mais...
Publicado por sharkinho às 05:39 PM | Comentários (7)
setembro 09, 2005
ENGUIÇO QUEBRADO
Foto: sharkinho
Dizem que é perigoso alardear a felicidade que sentimos, pois isso poderá atrair invejas e outro tipo de maldições. Não acredito. E mesmo que acreditasse teria a obrigação de reunir a coragem necessária para enfrentar esses papões.
Acabo de atravessar um dos períodos mais complicados das minhas quatro décadas de presença nesta vida que algum milagre me concedeu. E hoje, ao fim de um chorrilho de más notícias, desilusões e muitos dias de aflição, recebi um sinal positivo que me renova a fé nos dias melhores.
A esta reviravolta no meu humor também associo o facto de sair quase incólume da situação. Sem perder o que mais falta me faz, no meio do meu desgosto e das minhas reacções de animal ferido pelas contingências que o destino (ou o mau olhado que acima sugeri) me preparou.
Sinto-me capaz outra vez. Capaz de agir em conformidade com o que espero de mim e o que me merece quem me prova todos os dias a sua estima pelo tubarão.
Ao longo do ciclo de coincidências inoportunas, revelações indesejadas, ameaças veladas e azares em catadupa que agora encerrou vivi tempos que não desejo repetir. Valer-me-ei das lições que entretanto aprendi e recuperarei a força gasta pelo amor na minha protecção. Para que a desdita ou a combinação de males menores não voltem a fazer-me vacilar. Seja contra quem ou o que for.
Hoje sinto-me feliz e partilho convosco sem medos a minha alegria. Amanhã logo se vê.
Bom fim-de-semana a quantas(os) o passem à distância deste meio que nos reuniu. E os meus votos de que com as minhas palavras consiga distribuir por quem as lê a mesma esperança que este dia me renovou. E um bom dia, também!
Publicado por sharkinho às 11:18 AM | Comentários (20)
setembro 07, 2005
A POSTA DISPARADA

Disparo com o meu olhar balas de desejo. Arma apontada ao centro da minha atenção. Toda tu. Um alvo feito de perfeição.
Atingida de raspão pela vontade de te chamar a mim, tocada de passagem pelo corpo que me denuncia o festim. Na alma também. O meu sorriso a confirmar.
Rasgo com os meus dedos os caminhos de sal na tua pele humedecida. Chamo-te minha no abraço que nos cola. No meu corpo que se enrola ao teu como se o quisesse absorver. A química letal. E o olhar apaixonado, semicerrado, afrodisíaco natural.
Quando me sentes em ti.
Rebento de prazer quando germina a semente da tentação que me despertas. Depois de escutar a tua voz, adubo, explosão. A mais bela expressão de um rosto coberto de maravilhas e de emoções.
Depois recarrego a arma com beijos, as minhas balas de gratidão.
E aponto ao coração, para te matar de amor.
Publicado por sharkinho às 11:51 PM | Comentários (40)
setembro 06, 2005
PRISIONEIRO DA SOMBRA
Foto: sharkinho
Aberrante, aquele local parecia encaixado no cenário com o único propósito de realçar a pobreza franciscana da paisagem que o rodeava. O mar ajuda sempre a compor o boneco, mas a zona primava por uma esterilidade que se reduzia a um aglomerado disperso de calhaus negros e sem vida, até onde a vista alcançava solo firme. Excepto ali.
Tão disparatado como um oásis no meio do areal sem fim, o arvoredo explodiu de entre o tapete de rocha e recreou umas centenas de metros quadrados de paraíso, na única mancha verde visível a quilómetros, para além do próprio mar em dias de muito sol.
Aquela zona costeira não fazia parte do florescente litoral que atraía muitos estrangeiros para o país. Sem praias, com um clima hostil, como se a natureza aproveitasse aquele espaço para ensaiar as punições com que tentava vergar a soberba humana, pouca gente tendia a fixar-se em tais paragens.
Mas sempre houve quem buscasse no inóspito a resposta para as perguntas que o comportamento dos outros nos suscita e na solidão a paz que as multidões parecem nunca conseguir conservar. É desespero de causa, a fuga enganosa para um ermo assim.
Todavia, algures no século XVI, umas quantas famílias plantaram um conjunto de casas à beira da falésia, determinadas ninguém sabe pelo quê a criarem raízes por ali. Como as árvores surgidas do nada, inclinadas para terra como que sopradas pelo mar. Mas era o vento que as empurrava a todo o tempo, o mesmo que trouxera um punhado de gente apenas com o propósito de fugir. De quê, ninguém sabe. Nem nos registos mais antigos, quase dos dias do primeiro lote de povoadores, se encontrariam referências à verdadeira motivação do grupo de pioneiros que escolheram desbravar a aridez de uma terra por baptizar.
Baptizaram-na uns cinquenta anos depois, quando a décima habitação construída, mais uns barracões para resguardo dos artefactos de pesca, lhe justificaram um nome. Vila Aparecida. Do nada, deveriam acrescentar, agora que o tempo passado sobre a data da fundação já permite extrair a mais clara das conclusões: ninguém quer morar num sítio assim.
Continuam a ser poucos os que ficam, excepção criada apenas pelo grupo de pessoas associadas à manutenção do velho e quase inútil farol. Algum iluminado cacique impingira, no glorioso ano de 1834, a ideia de proteger a navegação dos temíveis rochedos que haviam despedaçado, no ano anterior, o casco de um importante galeão. Saíra cara à Coroa a factura daquele naufrágio, tão cara que justificaria a construção do mais imponente e absurdo farol da história da nação.
Ninguém navegava em águas tão hostis. Apenas umas quantas embarcações desnorteadas, fustigadas por um temporal, que o mar decidia empurrar naquela direcção, de nada lhes valia a luz intensa que anunciava a presença próxima da morte, dada como certa naquela armadilha de rochas afiadas e letais. Vila Aparecida era nome de maldição entre os velhos lobos-do-mar. Sobretudo os poucos da terra que sobreviviam à faina impensável que insistiam manter, gerações de homens tragados pelo oceano, fama de bravos e insanos que pouco proveito extraiam das águas revoltas com barquinhos de brincar. Servir-lhes-ia de algum consolo a luz não muito distante, ilusão de salvamento que raramente chegava a acontecer.
Na falésia, afogavam-se em lágrimas as viúvas condenadas a mirrarem sozinhas, ressequidas pela salmoura que o vento trazia das ondas e borrifava no casario.
Podia ler-se, numa crónica muito antiga de um pároco local, a história de um menino que todos os dias rumava para o amontoado de árvores, pouco antes do nascer do sol, à procura de uma caravela que o levasse dali. Vira uma, em pequeno, que acabaria desfeita em pedaços de madeira espalhados à tona. Teria sido tão grande o desgosto que o petiz chorou, afirmava o escriba insuspeito, uma semana seguida. Depois, parou de chorar. Quem por ele choraria, dez anos passados sobre a primeira tragédia, seria a mãe que o viu deitar-se ao mar em perseguição alucinada de um barco distante que só ele descortinara no breu. Era tão irreprimível assim a sua vontade de fugir. O corpo do rapaz nunca regressaria e, por indicação dos religiosos e dos políticos locais, acabaria por se erigir outro mamarracho na falésia sob a forma de uma diminuta capela. Um mausoléu, para espantar assombrações, tal e qual o velho farol agora em ruína...
Sentado na copa de uma árvore vergada, tento imaginar a figura do menino cujo trauma lhe cristalizara na alma a vontade de sair dali, olhando o mar em silêncio à procura de recortes mais escuros ainda do que o horizonte habitual. De sombras da esperança de um dia partir.
E recordo outro menino que eu fui, diariamente ao pôr-do-sol, à espera das estrelas no céu que simbolizavam a minha própria vontade de fugir, o destino alternativo à miséria de vida que me esperava ali. Naves espaciais pilotadas por mim. Ou discos voadores com pequenos marcianos que me sabiam disponível e preparado para a longa viagem. Só de ida, que o regresso não seria hipótese a considerar.
Nunca apareceram, os alienígenas ou os meus talentos inatos de explorador espacial. Mas não tive a coragem e a loucura necessárias para me catapultar da falésia rumo ao céu estrelado e ao sonho de recomeçar a existência num melhor ponto de partida. Optei pela resignação. Aprendi a arte de iluminar o vazio, sempre que surge uma verba para reparar o obsoleto mecanismo do facho que desvenda aos escassos habitantes de Vila Aparecida a realidade do seu cativeiro. Como o holofote sinistro de um campo de concentração, sem nada de bom para iluminar.
Destilo as amarguras de faroleiro frustrado na noites inúteis de vigília do vazio.
Todavia, e isto desconcerta-me, quando a máquina suspende os gemidos de angústia por lhe prolongarem a agonia, aproveito a folga forçada e a luz apagada para olhar em frente e na minha mente permitir que desfilem os contornos difusos, as sombras da minha ilusão de fugir um dia, escondidas por detrás da minha vontade rejeitada de viver num lugar triste mas ao qual sempre senti (e sei) realmente pertencer.
Publicado por sharkinho às 12:11 PM | Comentários (17)
setembro 04, 2005
A POSTA NA FESTA
Só um dos partidos portugueses conseguiria organizar um evento assim. Esforço colectivo, voluntário. Horas oferecidas pela mais ambiciosa das realizações.
Impressiona, seja qual for a perspectiva ou a ideologia. Eu não sou comunista, apenas de esquerda. Mas aprecio a capacidade de mobilização em torno de um ideal, pois é dessa mola que nascem todas as revoluções.
Deixo-vos com algumas imagens que retratam parte do que retive desta festa popular. Uma boa impressão, aliás.
O rosto mais visto na edição 2005 da Festa do Avante.
O shark estava lá...
...e o resto do oceano também.
Com uma pedalada notável...
...e uma irrepreensível organização (vi com estes dois que a terra há-de comer)
Publicado por sharkinho às 09:44 PM | Comentários (29)
setembro 02, 2005
A POSTA ENROLADA

Fiquei feliz quando pude olhá-la de novo. Sentia-lhe a falta, por vezes. Do cheiro intenso, único, que a distinguia. Da sua influência decisiva no meu humor. Do fumo que parecia envolvê-la como um manto de nevoeiro numa cidade portuária qualquer. Quando a olhei não pude deixar de sorrir.
Não tardámos enrolados, ela sobretudo. Enrolada a preceito, depois de aquecida com jeito, pontas da seda nos extremos das minhas mãos. As pontas que lambi, sem pressa, mais o caminho a percorrer entre cada uma delas.
Espalhei a substância a todo o seu comprimento, lentamente, até ao momento de a enrolar, de completar o movimento que a recheava como uma lula. Depois, cobri esse recheio com uma fina película de papel, como uma couve lombarda abraça uma salsicha. E o meu apetite por ela despertou.
Peguei no isqueiro e rocei a chama numa das pontas e envolvi com o calor dos meus lábios a extremidade oposta. Dela inspirei uma obra-prima, um clássico da ficção, uma maravilhosa nave espacial, em voo picado para os mais altos planos. Depois expirei. E inspirei outra vez, introduzi-a aos poucos em mim. No meu sangue já ela corria quando a coisa me bateu.
Muito mais do que a primeira que fumei.
Publicado por sharkinho às 03:05 PM | Comentários (16)
setembro 01, 2005
RASGAR COM PALAVRAS
Foto: sharkinho
Às vezes apetece-me rasgar com palavras este fundo branco que nos serve de papel virtual. Ou pincelar com fúria manchas de cor escritas a partir da minha vontade de agredir o branco com explosões de prosa. Cobri-lo de uma ponta à outra com algo que o envergonhe da sua inexpressividade e o faça engolir o desafio, o do vazio que se encontra quando uma nova folha nos domina o monitor.
Branca e sem nada para nos dizer. À espera do que vier. Parada.
Penso na forma adequada de enfrentar a situação, um tema à maneira ou uma história porreira. Mais uma foto catita ou uma imagem bonita para agradar a quem a possa ver. A esta folha rasgada, mal ou bem, pelas palavras tecladas por mim. Que os teus olhos acabam de ler. Nada a fazer, o fundo branco acinzentou. Salpiquei-o com o sangue preto que as palavras espalham no simulacro virtual de papel. Cortes horizontais, para que por detrás de cada linha, de cada frase, possamos imaginar um ocaso magnífico ou qualquer outro retrato que ocorra à imaginação. E disso se trata, de cada vez que enfrentamos este manuscrito electrónico na arena da criação. O branco desarmado contra o gume afiado das palavras que o rasgarão em pedaços de gente falada em português.
Podia contar-vos uma história, das muitas que as pessoas nos dão. Coisas da vida. Ou podia dissertar de forma apaixonada acerca de um tema que me seja caro. Com a convicção de quem esgrime um punhal diante da tela vazia. Podia simplesmente partilhar convosco emoções. Coisas da vida também, coloridas. Na primeira pessoa ou mesmo na condição de voyeur. Mas não o farei desta vez.
Apenas vos exprimo a minha vontade de atacar esta coisa branca que me intimida porque me afasta de cada um de vós, enquanto descubro como a preencher em condições.
E depois a dor de perceber, às vezes, que não valeu o sacrifício da folha postiça. Um remorso, por manchar de cinzento a ausência de cor, em vão, e afinal comprometer a aproximação desejada. Contigo, que lês estas palavras que espalhei pelo monitor, sejas quem fores, em busca de algo diferente que eu tenha para te oferecer em troca do tempo que me dás.
Mas hoje, nesta posta de recurso, a folha branca sou eu.
Publicado por sharkinho às 03:07 AM | Comentários (26)