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outubro 23, 2005

A FUGA DAS GALINHAS II

ganda galo.jpg

Acabaram as aventuras promíscuas nos arrebaldes dos galinheiros nacionais. Chorosas, as galinhas veêm-se enclausuradas e assim privadas do contacto esporádico com as aves de arribação.
Para os galos, sempre ciosos da sua exclusividade territorial, a gripe das aves constitui uma boa notícia. Mesmo que lhes custe a perda de um dos seus ofícios, o de despertadores naturais, e assim aumentem as probabilidades de acabarem no tacho. O instinto de posse que os atormentava sempre que as levianas se aproximavam envergonhadas dos patos-bravos, das andorinhas macho e, pior ainda, dos belos cisnes que as impressionavam com a elegância do seu porte, sobrepunha-se ao medo de se verem enfiados no galinheiro a aturarem os cacarejos incessantes do seu harém.

Entristecidas, as ovíparas viram-se privadas de uma das suas maiores alegrias: a de assistirem ao regresso triunfal dos seus amores de Outono, os que escapavam à mira dos caçadores estúpidos e incapazes de distinguirem uma águia de uma perdiz. Nem os carteiros (pombos-correio, claro) quebram agora a monotonia do aviário, dias a fio sem notícias da passarada vai-vem que planava graciosa no céu.
Nem comem, coitadas, entediadas pelo piar ensurdecedor dos pintaínhos e apoquentadas pelo ar machão dos galarós de crista murcha que lhes surgem como única opção. Uma rapidinha à galo e pouco mais, espreitando com tristeza pelas redes de protecção os papagaios selvagens (excelentes conversadores), o imponente pombo torcaz ou mesmo, à falta de melhor, uma codorniz mais atrevida...

Corre-lhes mal a vida e ninguém pode valer-lhes nesta época conturbada. Lá fora, os gansos recordam-lhes aventuras escaldantes que nem de perto viviam (nem mesmo com um galo capão) nos dias saudáveis e livres da gripalhada transmissível e mortal que as privou de se exibirem em feiras e exposições. Nada para lhes quebrar a rotina poedeira, um namorico à maneira, a monogamia forçada numa existência confinada. O sol aos quadradinhos, o adeus aos patinhos multicolor e a todas as aves migratórias (qualquer ave que migre periodicamente - resolução 004, de 18/09/85, do CONAMA, Brasil). Da tia, pensam os galináceos portugas que já nem nas churrasqueiras têm a saída de outros dias...

Os humanos, a braços com a peste suína, as vacas loucas e mais uma carrada de preocupações alimentares, andam alheios ao drama dos galinheiros, na busca desesperada de uma vacina que lhes salve o fricassé e a canja. Mas a solução para o problema das galinhas ninguém arranja, privadas do amor ocasional com alguma ave sensacional e cheia de histórias para contar.
E elas a definhar, num triste cacarejo, aguardam uma porta entreaberta, aproximam-se da mais esperta e espreitam a hipótese de fuga que possa surgir.

Voando baixinho em sonhos, à socapa, anseiam recuperar um dia a boa vida que agora lhes escapa.

Publicado por sharkinho às outubro 23, 2005 06:20 PM

Comentários

L’emblème de la France ce coq, le seul capable de chanter les pieds dans la merde, fait que celui de Barcelos est connu par ici, est ce qu’il va bien ?
Manu

Publicado por: Manu às outubro 23, 2005 07:27 PM

O nosso coq está bem e a cantar alto, Manu! :)

Publicado por: sharkinho às outubro 23, 2005 07:44 PM

Qualquer dia já só resta mesmo esse, o de Barcelos...ao que havíamos de chegar. (pensam as galinhas)

Publicado por: Mar às outubro 23, 2005 11:23 PM

E o do azeite (a cantar desde 1919)? :)

Publicado por: sharkinho às outubro 23, 2005 11:56 PM

E o da minha testa... :)

Publicado por: cap às outubro 24, 2005 07:00 PM

RODRIGO AFONSO E CONHEÇO MUITAS TORRES
ALGUMAS RESISTEM A TUDO
OUTRAS ATÉ A AVALANCHES
EU CONHEÇO CONTRUÇÕES QUE SÃO MUITO SEGURAS
DEIXO ESTA POR MINHA CONTA
A TORRE DOS JERONIMOS

Publicado por: RODRIGO AFONSO às fevereiro 26, 2007 03:22 AM

Tá bem. Ficamos assim.

Publicado por: shark às fevereiro 26, 2007 04:06 PM