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outubro 05, 2005
A POSTA GREENPEACE

Nunca nutri qualquer espécie de animosidade contra os Estados Unidos da América. Reconheço até as similaridades "ocidentais" que nos aproximam de alguma forma e chocam-me as tragédias sofridas por aquele país como as ocorridas em qualquer outro ponto do planeta.
Todavia, quando o furacão Katrina despejou a ira da natureza em território norte-americano não consegui afastar um raciocínio muito simples: se este tipo de fenómenos tem na origem a negligência humana, então que prejudiquem os que mais contribuem para o destrambelhamento da coisa e que ainda por cima boicotaram Quioto. Ou seja, na óptica do utilizador-pagador...
Isto não é ironia e eu nunca brincaria com coisas sérias. São as vidas de pessoas comuns no prato desta tenebrosa balança. De um lado os todo-poderosos interesses económicos (e sociais, convenhamos) e do outro o irreversível caminho para o fim da civilização tal como a conhecemos. Na raia do absurdo, ao boicotarem as medidas de que o Mundo necessita para evitar o apocalipse os americanos privilegiam, por exemplo, a utilização desregrada dos seus magníficos automóveis. Para os verem arrastados pelos ares ou por caudais incontroláveis na sequência das catástrofes naturais que exponenciam com a sua incúria.
No final, contas feitas aos rastos crescentes de devastação e suas repercussões na indústria seguradora, no turismo e em basicamente quase todas as actividades económicas, é a galinha dos ovos de ouro a devorar-se aos bocadinhos.
E todo o planeta a suportar, directa ou indirectamente, a mais pesada das facturas.
Foto: sharkinho
Só para terem uma ideia das proporções que isto já assumiu em 2005, avanço com uns factos associados às mais recentes catástrofes mediáticas. Da passagem do Katrina e do Rita, resultou aquilo de que todos temos apenas uma noção aproximada. Resultou o caos. Entre estas duas tempestades violentas, o Atlântico produziu outras cinco de igual teor. Não fizeram notícia porque não chegaram à costa.
Todos os anos, o National Hurricane Center prepara uma lista de 21 nomes para baptizar as "anomalias" que o clima produz. Para acautelar um ano menos bom, a partir do vigésimo-segundo o nome consiste numa letra do alfabeto grego. No momento em que escrevo esta posta, em plena época alta dos furacões, já só restam quatro nomes na lista e isso faz prever que não tardará a entrar em cena o furacão Alfa. O que não se verifica há 52 anos...
Os dados acima são públicos e vêm escarrapachados na Time desta semana. Depois de passado o efeito do choque provocado pelas imagens dantescas do que se passou em Nova Orleães, começam a surgir as vozes dos que associam estas borrascas de grau 5 em catadupa ao desrespeito pelos sábios conselhos dos ambientalistas.
Cientistas de renome arriscam, em nome do bom senso, apontar o dedo à relação causa-efeito entre esta fúria crescente dos elementos e a insensatez que nos ameaça com o aquecimento global (e posterior era do gelo) real e irreversível.
E não arriscam pouco, se tivermos em conta o pânico dos mandantes na nação mais abastada do planeta e a sua relação próxima com o tecido empresarial de primeira linha que, nos EUA, financia boa parte da investigação científica. Um dilema cruel para quem tenha escrúpulos e conhecimentos científicos ou dados quanto baste para corroborar as piores previsões.
Foto: sharkinho
Em 1970 o número médio de tempestades de grau 4 ou 5 era de dez por ano. Desde 1990 esse número quase duplica (18). E é aqui que reside a fonte de preocupação: não se trata de uma questão de frequência mas de intensidade dos furacões. Os que acontecem são cada vez mais devastadores e surgem na mente de muitos como o sinal óbvio do descontrolo da mãe-natureza, meio grau centígrado mais quente no ar e nos oceanos (onde estas broncas em rodopio se formam).
O efeito estufa há muito deixou de ser um papão apocalíptico sem bases científicas. E mesmo que essas faltassem, os indicadores não cessam de dar à costa em turbilhão.
O pesadelo que os americanos viveram e que as condições climatéricas no Golfo do México (a temperatura da água, três graus acima do normal) parecem favorecer na repetição é apenas a ponta de um qualquer iceberg à deriva em resultado do degelo nas calotas polares. Isto não é ficção científica. É o caos a desenhar-se em directo enquanto nos refastelamos no sofá e aguardamos pela nossa pancada, sem levar a sério as mais elementares medidas de contenção do problema.
É mentira? Quantos de vós, conhecendo de perto o impacto da seca no nosso país, já afinaram os autoclismos ou reduziram o volume das respectivas descargas? E estou a referir uma catástrofe conterrânea que, embora menos espalhafatosa na acção, deixará marcas bem visíveis no país e ainda nem sabemos exactamente até onde farão sentir-se as suas consequências.
É este tipo de negligência global que dá força a idiotas como George Bush para travarem com o seu veto encapotado todas as iniciativas que possam por cobro a esta espiral de loucura.
Foto: sharkinho
Estamos numa boa e nem com o pandemónio a instalar-se de armas e bagagens à nossa volta (esperem só até a seca vos atingir as torneiras) nos sentimos compelidos a levar estas cenas a sério.
Perante isto, um gajo quase torce para que dobre o preço do petróleo e assim encostem às boxes os excessos que nos andam a tramar.
Há dinheiro ou (ilusão de) conforto que justifique esta hipoteca do futuro das gerações posteriores à nossa?
A resposta sincera a esta pergunta deveria bastar para encher de juízo as nossas cabeças e moldar-nos o comportamento.
Será?
Publicado por sharkinho às outubro 5, 2005 12:27 AM
Comentários
Nous avons plutôt la chance d’être dans une situation géographique en dehors de ces perturbations climatiques, nos risques seraient plutôt sismiques.
Pour l’effet de serre, ne pas oublier les incendies criminels de l’été, aux conséquences très graves.
Un proverbe arabe dit : « tu vois une poussière dans l’œil de ton voisin mais pas la poutre qui est dans le tien ».
Félicitations pour l’ensemble de vos publications.
Manu
Publicado por: Manu às outubro 5, 2005 08:41 AM
Sharkinho, subscrevo na íntegra esta tua maneira de ver o real. Não é por obra do divino espírito santo que estas tempestades existem. Estão de facto a acontecer pela incúria do homem que destrói o nosso planeta todos os dias. Começamos pelos chefões das grandes nações que não têm ou não querem ter sensibilidade e noção dos actos políticos que praticam. Infelizmente, porque leva as pessoas a pensarem que está tudo bem e que aquilo são coisas da natureza e não provocadas pelo homem...
Publicado por: soslayo às outubro 5, 2005 09:40 AM
Manu: não julgues que perco de vista as nossas culpas. Só apontei o dedo para o vizinho porque a minha posta incide no que lá se passou e, não há volta a dar, o vizinho em causa acumula o estatuto de maior poluidor e de o do que tem os meios mais eficazes ao seu alcance para fazer a diferença para melhor. E não os utiliza...
Um abraço e merci beaucoup.
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 12:18 PM
O que leva as pessoas a pensarem isso, Soslayo, é a serradura que os lobbies da indústria petrolífera (e outras) mandam para os nossos olhos com a conivência dos políticos sem coragem para os enfrentar.
Enquanto não se quebrar esse ciclo, a ignorância perdurará e os estragos provocados só nos despertarão quando for tarde demais...
Bom feriado, pá. E vive la republique! :)
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 12:22 PM
Resta muito pouco para dizer depois de uma posta tão clara, completa e elucidativa, sócio...
Talvez apenas fazer votos para que os idiotas que chegam ao poder, um dia desapareçam e mais a sua raça. Pode ser que ainda seja a tempo de salvar o que resta do planeta que iremos deixar aos nossos descendentes.
Publicado por: Mar às outubro 5, 2005 01:29 PM
Era bom, era... Mas pelo rumo que as coisas tomam, com os medíocres e os corruptos cada vez melhor instalados no poder (e em maior número, por falta de comparência das pessoas de bem), não alimento esperanças que não as que dependem apenas da intervenção associativa e popular, sócia.
A revolução que falta completar...
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 01:42 PM
a culpa é do Bin Laden.
Publicado por: marco às outubro 5, 2005 02:43 PM
Achas, Marco? Tens que nos contar tudo, pá. Andamos a ser envenenados contra os nossos líderes...
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 03:18 PM
bem Tuby andas imparável...já venho para ler todos os de hoje :)
Publicado por: Luna às outubro 5, 2005 05:07 PM
Até já, amiga!
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 05:12 PM
Com todo o respeito, mereces um grande beijo na boca por este post!
E como podemos sempre fazer alguma coisa, por mais pequena que seja, façamos. Se ao fazermos essas coisas e em "intervenção associativa e popular" se mudar a mentalidade, talvez as gerações futuras consigam mudar o poder. ;)
Publicado por: maria arvore às outubro 5, 2005 08:49 PM
Shark,
também com todo o respeito, mereces um grande beijo na boca por este post. ;-)
Shame on you, Mr. Bush!!!
Publicado por: Jorge Morais às outubro 5, 2005 08:56 PM
Ena pá! Ontem tive direito a uma declaração de amor e hoje são nada menos que dois beijos na boca!
Com todo o respeito vos digo que fico feliz por ter aparentemente conseguido transmitir com clareza a minha opinião sobre esta matéria.
Quanto às manifestações efusivas do vosso apreço, Maria e Jorge, tenho a dizer que fico muito sensibilizado mas admito que existem sérios óbices à sua materialização... :)))
Publicado por: sharkinho às outubro 5, 2005 09:08 PM
ainda apanhei este...vai sim Tuby, passa pelo loucura entretanto. Beijo
Publicado por: Luna às outubro 6, 2005 12:23 AM
Também a consegui apanhar ainda, Luna :-)
Para dizer que tenho pena de não o ter conseguido fazer noutras onde já não consegui, por falta de tempo.
Embora perceba a necessidade do Shark, subscrevo a Zu- ;-)
Publicado por: Mar às outubro 6, 2005 12:48 AM
Ok. Agora chega, tá? Daqui a um dia ou dois volta tudo à normalidade...
Publicado por: sharkinho às outubro 6, 2005 12:53 AM
Excelente posta, tubarão!
E não deixas de frisar a responsabilidade de quem nbos governa mas também a de todos nós. Temos o dever de nos perguntar o que vamos deixar às gerações vindouras: um planeta ou uma lixeira? O pouco que podemos fazer - reciclar, deixar o carro de lado quando tal é possível, conter gastos de energia - pode ter uma importância tremenda. Todos juntos, com uma consciência de que este planeta nos foi emprestado e temos o dever de dele cuidar, podemos fazer algo verdadeiramente importante.
Jocas.
Publicado por: Lisa às outubro 6, 2005 09:36 AM
Aos poucos "matamos" o mundo que deveriamos amar.
Como tantos às vezes fazem com as pessoas, mesmo as de quem gostam, que se esquecem de cuidar...
Que nunca deixemos de esperar o melhor e que nos seja sempre possivel fazer a nossa parte (qualquer bocadinho ajuda)
Beijo Tubarão grande (há quase meia hora a ler-te :))
Publicado por: sofia às outubro 6, 2005 10:14 AM
Shark,
eu só disse que merecias um beijo na boca, não que seria eu o portador do dito cujo... ;-)
É que eu não gosto de barba...
Publicado por: Jorge Morais às outubro 6, 2005 12:40 PM