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outubro 08, 2005

MANIPULAÇÃO GENÉTICA

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Foto: sharkinho

De vez em quando vejo-me confrontado com decisões ligadas a um dos problemas que há mais tempo infernizam a minha existência. Decisões difíceis, que me encurralam entre um estúpido compromisso moral com alguém que nunca o soube merecer e o meu instinto natural para preservar a auto-estima.
Em causa estão pessoas a quem me vinculam laços que há muito deixaram de fazer sentido, considerando a prática e suas evidentes exibições de um fim há muito anunciado. Deixei, à custa de imensas desconsiderações, de gostar daquelas pessoas. De as sentir de alguma forma ligadas a mim, tal como hoje sou, muito diferente de uma outra pessoa que lhes tolerava tudo em função do tal cumprimento de um dever que elas não assumiram a partir do momento em que optei pelo homem que sou. Quase uma antítese do que esperavam de mim, do vegetal que apreciariam na sua salada de parasitas com molho de dependência financeira.

Essas pessoas já me tiveram na mão. Fugi. Reneguei a sua influência na minha vida e nas minhas decisões. E quando deles precisei, na maioria das raras ocasiões em que sucumbi, cuspiram-me no rosto a recusa traiçoeira, a falsa promessa, ou o estatuto de mendicidade psicológica que lhes apraz cultivar.
Em troca de uma proximidade artificial deixam tombar esmolas no chão. Ou apresentam-nas como um facto consumado, como uma manobra diplomática e cheia de preços a pagar. E eu, saturado da sua soberba e do seu oportunismo hipócrita, do seu faro para os momentos menos bons que lhes favorecem a limpeza da sua imagem real, asquerosa, hesito enfiar-lhes a caridade pelo cu por via do respeito que não justificam mas sinto como uma obrigação.

Cresci à margem dessas pessoas, estranhos à minha forma de sentir. Escapei ao seu controlo, à sua vocação para a chantagem emocional e a factura traduziu-se num abandono total. Disfarçado aqui e além com um ritual forçado de sublimação do estatuto que há muito deixaram de possuir na minha ideia e na dos muitos que lhes viraram as costas perante a sua atitude merdosa e que sempre me embaraçou. Isso mais uma data de escarradelas na minha dignidade que os apoquenta.
Preferiam-me mais dócil, mais frágil, mais dependente da sua generosidade moldada à subserviência dos que dela possam depender. Constituo nessa matéria a mais profunda das suas desilusões, uma batalha perdida na sua guerra de conquista das pessoas com a arma mais digna da sua falta de formação: o dinheiro com o qual jamais alguém me comprou.

Um erro primário de avaliação que me cobriu o dorso com a pele da ovelha ranhosa, do rebelde que urgia deserdar aos poucos, pecúlio esbanjado nos mimos e nos caprichos de quem se agachou numa vénia, quem se deixou dominar.
Lutei sozinho contra as partidas que a vida me pregou, sempre sob o camartelo de um agoiro que as suas profecias não deixaram de me lembrar. Vais falhar, diziam. E quase conseguiram acertar, uma vitória que lhes seria saborosa, quebrada pela espinha a minha vontade de os contrariar pela positiva. De fazer do meu orgulho o suporte da contestação à sua forma despudorada de enfrentar uma realidade que a sua espécie de gente conspurca.
Ainda não abdiquei dessa convicção.

E por isso a minha decisão difícil afinal está tomada.
Antes mesmo de se colocar à minha apreciação.

Publicado por sharkinho às outubro 8, 2005 03:57 PM

Comentários

Não percebo bem o que justificava o vínculo. Laços afectivos? Admiração? Dependência financeira?
Mas não me pareces gajo para ser ser comprado, isso não.

Publicado por: susana às outubro 8, 2005 04:31 PM

Consanguinidade, afilhada.
E se tivesse aceitado as ofertas pecuniárias, de poder fácil e de contrapartidas para o silêncio face à corrupção que ao longo da vida (não) me tentaram, seria sem dúvida um case study de sucesso financeiro cancerígeno. Com metástases de vergonha.

Publicado por: sharkinho às outubro 8, 2005 04:39 PM

Isso da consaguinidade mais a chantagem emocional, faz um cocktail difícil de se fugir completamente.
Entendo-te muito bem.

Publicado por: ML às outubro 8, 2005 04:50 PM

Mas não há cárcere capaz de evitar as tentativas, ML. E um dia, ao nascer do sol, dão pela falta do prisioneiro e no céu já plana a liberdade sob a forma de uma ave adulta e capaz de voar por si.
E no amor desinteressado não existem grilhões.

Publicado por: sharkinho às outubro 8, 2005 04:58 PM

De espécie alguma, sócio. Nem por via do sangue, nem do poder ou do dinheiro ou de alguma forma de recompensa. A única possível é sentirmos que nos amam pelo que somos. E disso não te podes tu queixar. :-)

Publicado por: Mar às outubro 8, 2005 07:14 PM

Sermos nós próprios, mantermos a auto estima e ter o sensso necessário para distinguir as pessoas... é um viver que nos dá prazer!
Aos outros poderá não dar, mas a vida é nossa, só nossa!

Publicado por: mfc às outubro 8, 2005 07:43 PM

Podes crer, ò meu elemento natural. Apesar de tudo, a vida tem sabido oferecer-me as melhores compensações possíveis nessa matéria. ;)

Publicado por: sharkinho às outubro 8, 2005 07:51 PM

É sempre essa a melhor escolha, Mfc. Aquela que nos permite, mesmo feios, olhar para o espelho sem medos...

Publicado por: sharkinho às outubro 8, 2005 07:52 PM

"E no amor desinteressado não existem grilhões"
É por afirmações destas, e na convicção da sua verdade, que gosto da pessoa que és.
A consanguinidade não é razão suficiente para nos fazer dobrar.
Beijinho

Publicado por: sofia às outubro 10, 2005 11:15 AM

Vive la liberté, Sofia!
E não, não é razão suficiente.
Beijinho aussi.

Publicado por: sharkinho às outubro 10, 2005 04:09 PM

Parece-me que estás a falar de familia, ou engano-me ?

Publicado por: Mário às outubro 11, 2005 12:32 AM

Não, não te enganas Mário. Família próxima. Demasiado...

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 12:36 AM

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