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outubro 11, 2005

MURALHA DE AÇO

glimpse of paradise.JPG
Foto: sharkinho

São problemas que nos passam ao lado, no santo dia-a-dia de um país onde até os furacões despassarados decidem imolar-se para não perturbar a paz dos senhores.
Até parece mal falar destas coisas, tão confortáveis que nos sentimos enquanto protestamos contra o aumento do custo de vida que nos priva de substituir o "velho" dvd por um modelo mais recente.
Porém, cerca de 500 seres humanos partiram de diversos pontos de um continente algures na mesma galáxia que habitamos. Tinham por objectivo escapar à fome. Apenas sessenta e cinco conseguiram chegar a Marrocos, a última barreira entre a morte pela fome e uma existência clandestina mas com a barriga cheia. Desses, apenas um (!) logrou alcançar o objectivo sonhado.
Seis terão sido liminarmente abatidos, alegadamente pela polícia marroquina.
Os sobreviventes, de acordo com Pepe Alonso, um advogado de Melilla que não tem mais nada que fazer do que pugnar pelos Direitos Humanos, serão abandonados à fome e à sede no deserto, junto à fronteira com a Argélia.

O hemisfério sul começa a incomodar-nos as consciências. Talvez esteja na hora de fecharmos de vez as portas a essa seita faminta que nos pode riscar a pintura do carro novo na sua ânsia de escapar à perseguição que lhes é movida neste nosso paraíso. Ainda por cima é de lá que vêm os maus, os terroristas. E são pretos, o que pode adulterar a longo prazo a nossa alva pureza étnica.

É uma chatice, isto de eles se imolarem nas nossas vedações. O problema tem que acabar, pois as imagens televisivas podem chocar as nossas crianças-anjo incapazes de entenderem porque morrem tantas pessoas nesta migração, em barcos que afundam, em desertos que os desidratam ou sob o fogo dos heróis que nos protegem da ralé.
Talvez instalando uma barreira electrificada um pouco acima do Equador, um anel de segurança que nos poupe a estas exibições grotescas de inveja por parte dos ingratos que não reconhecem o bem que a colonização lhes fez...

Publicado por sharkinho às outubro 11, 2005 11:30 AM

Comentários

Gosto destes teus posts agitadores de consciências. Chocou-me muito ver a notícia e o destaque (fraco, tendo em conta a época eleitoral que se vivia...) dado pelos meios de comunicação social àqueles seres humanos a pé, no meio do deserto, a caminhar para longe da morte e em direcção ao sonho. Direitos Humanos? Onde?

Publicado por: Mar às outubro 11, 2005 12:43 PM

Pois... É nestas alturas que me dou conta de quão privilegiada sou (e isso serve-me de antídoto para as tais situações extremas da posta anterior). E sei, cada vez mais, que tenho de fazer alguma coisa - não sei é o quê, ainda.

Publicado por: Zu às outubro 11, 2005 12:50 PM

Às vezes sinto-me na obrigação de utilizar este espaço para algo de mais relevante do que a dissecação do meu umbigo e questões a ele associadas, sócia.
E preocupa-me a evolução do nosso mundo no seu todo, até pelas repercussões que se farão sentir no futuro dos nossos filhos.
Direitos Humanos onde? Em Marte, num amanhã cada vez mais próximo...

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 12:51 PM

Fazer o quê, Zu? Isto mesmo. Somos blogueiros e temos uma via de comunicação com outras pessoas. Se insistirmos em dar uma oportunidade a estes temas "impopulares" ajudamos a que outros tomem consciência do problema.
Daí à pressão da opinião pública sobre os mandantes que nos representam (mal) nestes assuntos vai um passo menor.
E quantos mais, melhor.

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 12:54 PM

No meu caso, é mesmo fazer mais alguma coisa (mas isso era eu a pensar com as teclas). Claro que, pelo menos, denunciar já é algo - mas daqui por uns tempos o mundo esquece, como esqueceu tantas outras tragédias humanas, com maior ou menor visibilidade.

Publicado por: Zu às outubro 11, 2005 01:03 PM

Perante o cenário actual, julgo que algo de efectivo só pode ser feito no âmbito das Associações já existentes ou noutras a que se possa dar corpo.
O Estado há muito deixou de ser opção e as iniciativas individuais estão condenadas ao mesmo problema da amnésia, Zu...
Donativos para instituições como a AMI e outras são um ponto de partida. Para ir mais longe, só doando uma parte do nosso tempo e da nossa energia a essa causa perdida. Pela indiferença.

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 01:14 PM

Claro, Shark. Era mesmo ao que dizes no último parágrafo que me estava a referir.

Publicado por: Zu às outubro 11, 2005 01:17 PM

Ainda hoje ao almoço o meu irmão termina o seu discurso dizendo que o Homem é o maior vírus deste mundo - destroi-o e destroi-se a si mesmo.
É cruel o que se vive, em que uns tudo têm e aos outros tudo se lhes nega. E há tão poucos a querer ajudar.
Tocar nas coisas para sensibilizar acho que é já um grande passo. Assim haja quem oiça e quem sinta.
Esperemos por um mundo melhor, para que não seja necessário banir os televisores de casas onde habitam crianças...
beijocas

Publicado por: sofia às outubro 11, 2005 02:44 PM

Aqui tenho algumas ambivalências. Claro que não no que respeita à ajuda e apoio que todo o ser humano merece. Mas na nossa mania paternalista de nos responsabilizarmos automaticamente por quem está em desvantagem. Dar donativos e acolhimento não chega, porque nos seus países continuam a nascer pessoas que irão, a médio prazo, morrer também à fome, ou em alternativa ficar do lado dos tiranos que deixam os outros morrer à fome. E o hemisfério norte não pode continuar a acolher refugiados, ad eternum, porque estes não conseguem sobreviver nos seus países. Só alterando as mentalidades in loco, promovendo em simultâneo acções de boicote aos seus lideres políticos - e religiosos! -, é que se conseguirá inverter a tendência. Enquanto continuarmos a ser a solução, também não vejo bem como isso poderá acontecer.

Publicado por: susana às outubro 11, 2005 03:03 PM

É um tema, dificil...

Somos contabilizados como números, mas sempre fomos...

Somos tratados estatisticamente... desde que alguém ganhe alguma coisa com isso!

Olhamos para o nosso umbigo em primeiro lugar... ou no outro extremo... só para os dos outros... Não nos podemos calar... não nos devemos calar... Mas, nem sempre é fácil "mexermo-nos" para o local certo, do modo mais correcto...

As queixas extremadas tendem a perder a razão... por não verem as razões dos outros... umbiguistas portanto...

Jocas

Publicado por: Partilhas às outubro 11, 2005 03:53 PM

É (também) por isso, Sofia, que só posso assumir a esquerda como única opção. Embora, na minha resposta abaixo (ao comentário da Susana), reconheça que o excesso de paternalismo possa ser um tiro no próprio pé e nos dos que sofrem nesta altura.

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 04:27 PM

Afilhada: eu costumo resumir essa questão naquela expressão que diz que não se deve oferecer o peixe mas sim a cana de pesca e lições de como a utilizar.
Concordo em absoluto que a política do subsídio só cria situações como a que se vive em Angola, por exemplo, onde o presidente se tornou um dos homens mais ricos do mundo enquanto o seu povo morria à fome sem ver a cor do auxílio internacional.
Ainda assim, porra: o que se está a passar nas fronteiras não pode continuar. Envergonha-nos e gera as condições propícias para a revolta que nos poderá destruir também.

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 04:31 PM

O meu (nosso) problema, Partilhas, é que por detrás das centenas de umbigos que esbarram contra o nosso arame farpado existem milhares de outros, de crianças, que desaparecem da face da terra a cada minuto que passa por falta daquilo que as nossas têm por garantido.
O assunto é difícil, mas não podemos virar a cara para o outro lado, né?

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 04:35 PM

Aqui acabo por me rever na análise da susana (again;-).
É a tal história de "dar o peixe ou ensinar..", sem dúvida que não conseguiremos (o Ocidente)resolver os problemas do mundo, transformando-nos em Madres Terezas. Podemos minimizá-los mas o que de facto inverte uma situação de subdesenvolvimento é uma atitude internacional concertada de apoio ao investimento e estímulo ao desenvolvimento desses países (que, muitas das vezes têm até recursos e riquezas nacionais suficientes para a sua própria subsistência, não fôssemos nós, os paises ricos a explorá-las- e explorá-los). O busílis está é nos Bush's deste mundo que não abdicam das suas posições de supremacia. Enquanto assim fôr haverá sempre gente a tentar saltar o muro.

Publicado por: Mar às outubro 11, 2005 04:37 PM

(eu juro que não te li, estava a escrever o meu comentário enquanto tu falaste no peixe, sócio, eu juro...) ;-)

Publicado por: Mar às outubro 11, 2005 04:39 PM

Pois, tá bem...
Isto é plágio descarado! Almas gémeas tá bem, mas assim é demais ò meu elemento natural! :)))

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 04:47 PM

(glup...poizé pá, xiça que já começo a achar que estamos mesmo em sintonia astral...) LOL!

Publicado por: Mar às outubro 11, 2005 05:24 PM

Ora digam cá os vossos signos que a madame aqui já testa esses cruzamentos...

Publicado por: susana às outubro 11, 2005 06:37 PM

Touro & Touro, Lda :)

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 07:31 PM

(É que é a toda a hora: são comentários, sms's, ligações telefónicas, pensamentos e mais umas quantas coisas em simultâneo...)

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 07:34 PM

Claro. É pena eu não saber nada de astrologia. mas touro e touro deve dar pra marrar um bocado. :)

Publicado por: susana às outubro 11, 2005 07:59 PM

Era longe Sharkinho. Tentaram encurtar a distância até nós, ignorantes, coitados, como se alguma vez isso fosse possível, como se alguma vez nos quisessemos apoquentar com estas merdas de mais perto do que o que a televisão nos mostra. Somos cada vez mais uma praga de consciências voyeuristas, cuja culpa se amortiza em comentários indignados como este meu, neste teu post, num blogue da internet. Somos nada assim. Ou talvez alguma coisa, já não a ferida, que essa sente, mas talvez os pensos rápidos com que as tapamos. A nossa consciência é uma farmácia com antídotos onde curamos o incredível com blá-blá-blás de 24 horas, se bem aplicados, até de maior duração ... e bardamerda para este comentário, e para mim.

Publicado por: Eufigénio às outubro 11, 2005 09:09 PM

Bardamerda o tanas. Vai ser posta e não tarda, Eufigénio.
Tu és um gajo que me impressiona. Conheci poucos que o conseguissem, em 40 anos de vida.

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 09:30 PM

E marramos, Susana. Em simultâneo, claro... :)

Publicado por: sharkinho às outubro 11, 2005 10:17 PM

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