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outubro 18, 2005

SANTO NÃO SOU

pedra no sapato.JPG
Foto: sharkinho

Tinha cerca de oito anos. Acabado de chegar à rua, descobri um aglomerado de malta amiga nem cem metros adiante. Reinava uma estranha agitação na miudagem e eu, claro, apressei-me a chegar junto do acontecimento que tanta algazarra provocava naquela pequena multidão de gaiatos como eu.
E a malta gritava: "Atrasado! Atrasado! Maluquinho! Maluquinho!". E eu juntei a minha às suas vozes esganiçadas, ainda mal percebera a quem se dirigiam as invectivas do pessoal.

No meio da turba, assustado, um jovem com talvez dezasseis anos na altura pedia com o olhar que o deixassem em paz enquanto avançava a custo para uma fuga impossível de concretizar. Todos os que o perseguiam corriam mais do que ele alguma vez seria capaz.
E a malta gritava, gozava, aqui e além uns empurrões. E ele cada vez mais aflito, sem escapatória, procurava em vão alguém que lhe valesse naquele cerco de neandertais.
Ninguém mexeu uma palha, adultos à janela e gente que passava ao largo sem ligar. Indiferentes àquele olhar. Como eu, que o fixava enquanto gritava e não percebia que a loucura estava do nosso lado afinal.

Formou-se uma pequena clareira em seu redor e ele, desesperado, aproveitou para deitar a mão com extrema dificuldade a uma pedra solta da calçada que descobriu no chão. Todos bateram em retirada e eu não, deixei-me ficar a uns dez metros do rapaz, atrevido, desafiador, exibindo mais uma vez a minha ousadia aos putos que precisava impressionar.
A pedra da calçada voou. E pouco tardou até o sangue jorrar em profusão do lenho que na minha cabeça abriu aquela lição.
Como se o destino me quisesse ensinar aquilo que escapara aos meus progenitores, o respeito pelos diferentes de mim.
Aprende-se depressa assim.

Transportado de urgência para uma clínica próxima do bairro, um enfermeiro desajeitado coseu-me a ferida com oito pontos a sangue frio. Mereci a dor que cada um dos furos no couro cabeludo ensanguentado, cabelo rapado, aquela agulha de sapateiro me provocou.

À moda siciliana, logo se preparou o ajuste de contas com a família do agressor. Que não se concretizou. Porque eu, ainda atordoado, troquei as voltas à situação. Avancei para o rapaz e estendi-lhe a mão, pedi-lhe desculpa pela forma bruta como o tratei. E ele, lágrimas nos olhos, retorquiu descoordenado, dedos crispados pela sua paralisia cerebral.
O assunto morreu ali.

Ainda hoje me perturba o personagem que vesti, o mais duro do gang que se reuniu para a vergonha que protagonizei. Nem no arrependimento me consolei. Mas aprendi.
Ainda hoje me revoltam os gestos de gozo dos canalhas como eu fui, as brincadeiras de mau gosto dirigidas por despeito a quem merece o respeito que a diferença ou a desdita nunca justificam renegar.

Ainda hoje não me perdôo pela atitude que tomei.
Da mesma forma não hesito em punir os que ignoram essa regra que a vida me ensinou. Dedico-lhes o ódio que a mim próprio dirigi. A revolta que senti, acumulada pelas injustiças que já testemunhei desde esse dia que me embaraçou e no corpo me marcou a lembrança do castigo, é hoje canalizada para a fúria mal controlada que não me torna um homem melhor.

Assumo que não sei perdoar quem se comporta de forma tão vil.
Assumo que não sei ignorar a chacota debochada de quem algures perdeu o rasto à decência.
Assumo, para minha vergonha, que nessas circunstâncias a violência afigura-se solução.

Para os que abusam da falta de princípios e enxovalham ou agridem (directa ou indirectamente) os que não se podem defender eu assumo: trago sempre uma pedra na mão.

Publicado por sharkinho às outubro 18, 2005 10:36 AM

Comentários

E quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.

Publicado por: karla às outubro 18, 2005 10:48 AM

Charquinho, naturalmente que todos nos revemos no teu texto. A própria karla acabou de o confirmar. Resta-nos o consolo de saber que por cada dez "neandertais" há uma pessoa que dedica a sua vida a ajudar pessoas com deficiências mentais ou físicas. Eu trabalho com algumas dessa pessoas e vejo diariamente dedicação, empenho e sobretudo amor. Por isso, nem tudo está perdido.

Publicado por: Ricardo Garcia às outubro 18, 2005 11:49 AM

Claro que não, Ricardo! A minha posta de hoje visa apenas descolar-me de alguma "santidade" que me possam associar.
De vez em quando, tenho por hábito assumir as minhas máculas. Para não perder o norte ao homem imperfeito que toda a vida serei.
A pedrada no shark... :)

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 11:53 AM

Acho que não vale a pena usarmos capacete, Karla...

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 11:54 AM

L’intelligence est la dernière des injustices, respectons ceux qui en sont dépourvus.

Il manque deux pierres!

Manu

Publicado por: Manu às outubro 18, 2005 12:13 PM

A consciência da imperfeição é meio caminho andado para a aperfeiçoar. (ena, pareço um monge tibetano, a debitar máximas) ;-))
E mais ainda quando essa consciência é tão rápida a fazer-se sentir, quanto o foi na história que nos contas. Se não somos perfeitos para evitar fazer o mal, ao menos que o sejamos para o tentar corrigir. Quando ainda vamos a tempo...

Publicado por: Mar às outubro 18, 2005 12:21 PM

Olá Sharky Bom Dia!

Há quem aprenda à pancada...
Outros que não precisam de apanhar...
E outros... que nunca aprendem...

A capacidade de aprender... é sempre respeitável.

Joca

Publicado por: Partilhas às outubro 18, 2005 12:22 PM

Sharkinho, a minha leitura é esta: quando te deixaste ficar enquanto os covardes fugiam, era o teu eu, a dizer-te: mas afinal não era isto que pretendia fazer (isto está intrínseco) que aquilo já violava a tua forma de pensar e agir, apesar da tua terra idade mas, pagou o justo pelo pecador. Não foi por valentia a demonstrar aos outros intervenientes que te fez ficar. Analisa! Agora pergunto depois deste episódio, quantos deles foram capazes de lhe estender a mão?

Publicado por: soslayo às outubro 18, 2005 12:47 PM

Gostava que fosse essa a versão dos factos, Soslayo, mas na verdade eu era pequeno demais para entender a crueldade da situação. Fiquei, como sempre, para me armar em valentão. E assim aprendi mais uma lição...
Depois do episódio mais ninguém ligou ao assunto, até porque fui o único a pagar pelo que fez. Mas também foi remédio santo: o rapaz nunca mais teve problemas no bairro. :)

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 02:02 PM

E é a única coisa de respeitável que retive deste triste episódio, Partilhas, aprendi à minha custa (e à custa do rapaz) a olhar a diferença de outra forma.

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 02:06 PM

Eh, sócia! Elevas-te aos mais altos planos quando mergulhas na meditação transcendental. :))
E tens razão no que afirmas. Convém acordar antes que seja tarde demais...

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 02:08 PM

Bem visto, Manu! Podemos sempre falhar o alvo à primeira pedrada... ;)

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 02:09 PM

"Até as brincadeiras têm limites!!!"
;)

Publicado por: pisconight às outubro 18, 2005 02:50 PM

Olhó nosso homem do karting...
Têm limites pois, Pisconight, mas às vezes a malta só dá por eles quando já tá fora da pista... :)

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 03:02 PM

Eu (já) sabia que tu és assim. :)

Publicado por: cap às outubro 18, 2005 04:17 PM

Impressionante como os teus textos são tão bem direccionados… Tiros certeiros!:)
Lembro-me de, em miúda, sentir uma grande dificuldade em decidir para onde pender nestas situações… Por um lado queria ser aceite pelos “melhores”, por outro sabia não ser correcto gozar e humilhar… A maior parte das vezes tomei a atitude correcta, mas outras não… Ainda hoje sinto um nó na garganta quando recordo essas injustiças… Espero, um dia, quando e se tiver filhos poder transmitir-lhes o que é correcto…e se não conseguir, que eles aprendam a lição como tu aprendeste! Conheço muitos que nunca a aprenderam…

Publicado por: Ana às outubro 18, 2005 04:17 PM

Tu é que me mordes, Cap. Não te escapa pitada, ò observador atento... :)

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 04:42 PM

Podes crer, Ana, que este foi disparado à queima...
Vale sempre a pena transmitirmos aos filhos os valores em que acreditamos. Depois, a opção será deles.
No meu caso concreto, tive que formatar o pouco que me ensinaram (quase tudo lixo) e o resto aprendi como no caso da posta ou fui concluindo por mim à medida que desenvolvia uma personalidade e um conjunto de princípios que me demarcassem da infeliz progenitura.

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 04:48 PM

Que coincidência do camandro, não é que ainda há dias também levei com uma pedrada na rua. Para ser honesto eu até estava a pedi-las.
Tanto chateei o tipo que ele não esteve com meias medidas e lá acabou por me vender a erva.

Publicado por: PN às outubro 18, 2005 10:35 PM

Sorte a tua, que eu ando sem capacete e mesmo assim, nada...

Publicado por: sharkinho às outubro 18, 2005 11:14 PM

Este texto toca-me de uma maneira muito especial, muito próxima e que...me deixa sem comentários, principalmente nesta altura.
Mas de ti, mesmo chavalo, não se esperaria outra coisa.
Longe de saber o que o futuro me prometia, já uma das minhas melhores amigas tinha paralisia cerebral.

Publicado por: Luna às outubro 19, 2005 11:20 AM

Mesmo chavalo sou eu hoje, Luna. Na altura era praticamente um bébé... :)

Publicado por: sharkinho às outubro 19, 2005 10:36 PM