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outubro 27, 2005
TALVEZ AMANHÃ

Na minha secretária um decreto-lei. Mais uma obrigação que o Estado descartou. O Estado é aquele organismo medonho ao qual sustentamos os vícios para que, em contrapartida, a máquina faça a gestão do pecúlio comum e vá fazendo avançar o país. Um pouco como acontece com a administração do nosso condomínio, embora esta execute o seu trabalho sem direito a uma retribuição.
O problema é que a administração do condomínio não pode "deixar cair" as obrigações que lhe competem. Parquímetros a cumprirem o papel dos polícias, clínicas privadas a cumprirem o papel dos hospitais, companhias de seguros a cumprirem o papel da segurança social e toda a gente a tentar exercer a Justiça em nome dos tribunais. É esta a realidade que o decreto-lei na minha secretária traduz. O Estado que nos representa, essa realidade que se criou para cuidar de nós, é afinal o primeiro dos nossos problemas. E cada vez aceita menos responsabilidades em troca do dinheiro que lhe confiamos para gerir, resultados expressos nos orçamentos anuais que disfarçam a falência técnica de toda uma Nação.
Parece uma realidade distante, essa estrutura pesada por nós paga para nos servir. Mas os dramas que nos afligem têm cada vez mais um bode expiatório que ninguém consegue punir. A culpa é do Governo, seja ele qual for. Nunca é nossa, os que pagam nos impostos as mordomias de quem não se abnega em prol do seu país. Senhor do seu nariz, o aparelho burocrático apropria-se dos nossos bens sempre que falha o retorno na colecta ou embica para um rumo que nos atravessa o terreno de sonho em troca de uma indemnização absurda.
Autista, oferece-nos formulários para que expressemos a nossa indignação. Ou encaminha-nos para as urnas, onde a vulnerabilidade da Democracia perante os medíocres nos prepara o funeral. Mais uma desilusão, feita de promessas adiadas, medidas contestadas e uns metros acrescentados no fundo do buracão. Anos a fio, como se o assunto não nos diga respeito, perpetuam-se os mesmos nas rédeas da situação.
Na minha secretária, um conjunto de papéis que me esfregam nas ventas a urgência de uma nova revolução. Mentalidades alteradas, ideologias repescadas e o fim da apatia. Mas hoje não é o dia, refugio-me no trabalho que tenho por fazer.
E lá fora não pára de chover.
Publicado por sharkinho às outubro 27, 2005 12:53 PM
Comentários
pois é.............tens toda a razao..deixa lá......nada podemos fazer senao lamentar isto e aquilo.....nao é mesmo?
Publicado por: Maria às outubro 27, 2005 02:54 PM
Não, nem por isso. Podemos fazer mais e podemos (devemos)fazer melhor para que o Estado funcione como devia no que concerne à sua liderança. Não estou a referir-me a nenhum dos restantes aspectos que daí derivam, mas apenas ao calibre dos que protagonizam a coisa.
E era isso que eu pretendia dizer, caso tenhas interpretado o texto de outra forma, Maria.
Publicado por: sharkinho às outubro 27, 2005 03:59 PM
A frequencia com que te vejo responder aos comentarios dos teus textos, pela dimensão e profusão de textos tudo me leva a crer ques és uma personalidade que contribui muito para o bem da sociedade, deves, enfim, trabalhar imenso!
...Provavelmente na mesma proporçao com pagas impostos!
Publicado por: filo às outubro 27, 2005 05:05 PM
Filo: não tenho que te dar satisfações da minha vida, mas como, ao contrário de ti, dou a cara pelo que digo, todos sabem que no meu ofício os impostos são retidos na fonte e não existe escapatória. Não te preocupes com essa matéria.
E quanto ao resto, aí sim, não tenho patrões a quem prestar contas e não as vou apresentar a quem utiliza esta via para abusar da minha confiança.
De futuro, e se quiseres questionar a minha vida, dá-me um contacto teu para eu poder questionar a tua. E nessa troca salutar de respostas pode estar o início (reinício?) de uma grande amizade...
Se vieres aqui só para a cena do costume, só naquela do picanço, olha: é vermos se te custa mais a ti escreveres comentários do que a mim apagá-los.
Publicado por: sharkinho às outubro 27, 2005 07:10 PM
(talvez amanhã possas dar um pulo à Voz e responder ao novo desafio...)
Publicado por: Hipatia às outubro 27, 2005 07:20 PM
Não sei se é exactamente o mesmo, mas há uns dias deixei lá no Pópulo um FW que em tempos me tinham mandado : http://populo.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/declaracao.html
E isso no fundo é o que eu penso. OK para os impostos. Não me ralava nada de os pagar, desde que o Estado cumprisse o que eu penso ser a sua função. E também seria natural que, dentro dos servidores do estado, fossem todos filhos e não alguns enteados. Quando falo com amigos meus que vivem em países nórdicos, vejo o abismo que nos separa.
E, sim Charquinho, penso que todos nós temos alguma culpa ou responsabilidade ou como lhe queiramos chamar, em ter deixado isto chegar a este estado. Parece que somos visceralmente "resignados". Bolas para a resignação!!!
( quanto ao teu comentador "filo", que não o parece ser, fez-me sorrir, porque já pensei o mesmo de mim própria - se calhar há quem imagine que não trabalho, por escrever muito... Mas comigo têm sido mais simpáticos e perguntam-me se não durmo! :) Por acaso trabalho muito e durmo o normal, sou é muito organizada, ehehehe )
Publicado por: ML às outubro 27, 2005 08:11 PM
Eu adoro impostos, ML. Quem me dera pagar 500 mil euros de impostos todos os anos. :)
Mas no plano mais sério: concordo contigo. O Estado não pode descartar o seu papel social, tendo como pretexto os efeitos danosos da sua má gestão. E nesse particular podemos intervir de forma directa, mas deixamos correr...
O(a) filo (aka hehe e outras palermices) tem tendência para entradas foleiras e já hoje lhe apaguei uma, de muito mau gosto, na posta anterior. Se não moderar o discurso, leva com o lápis azul que corta na má onda e na falta de maneiras.
Publicado por: sharkinho às outubro 27, 2005 08:26 PM
(ok Hipatia. Lá passarei a ver se sou homem prá tarefa.)
Publicado por: sharkinho às outubro 27, 2005 08:27 PM
Temos capacidade de intervenção, enquanto cidadãos, que tantas vezes desperdiçamos.
E, como diz a ML, se há exemplos de outros países em que amáquina funciona, isso prova que aqui poderia ser da mesma forma.
O pior é quem dá "corpo" ao Estado... os Governantes que temos tido nestes anos de democracia e que são os responsáveis directos pelo caos em que este cantinho à beira-mar se vai afundando cada vez mais.
Publicado por: Mar às outubro 27, 2005 09:26 PM
Julgo que não devemos perder a nossa capacidade de nos indignarmos e de protestarmos sempre contra o que discordamos.
Mesmo que seja apenas preenchendo uma reclamação.
Se pagamos impostos, somos clientes do Estado e devemos exigir ser bem servidos.
Publicado por: maria arvore às outubro 27, 2005 11:47 PM
Nem mais, Mar. Se há algo de errado no funcionamento do Estado é fruto dos maus exemplos que vêm de quem mais o simboliza junto de nós. Ninguém trabalha com gosto assim e entende-se a expansão galopante da economia paralela e da evasão fiscal.
Fugimos do Estado a sete-pés, tememos. Quando devíamos ser inflexíveis no seu controlo e na responsabilização dos que o abardinam...
Publicado por: sharkinho às outubro 28, 2005 01:23 AM
Se calhar faz falta um blogue chamado Livro de Reclamações, Maria Árvore... :)
Assim um que preparasse a cena e a malta só precisasse de imprimir, assinar, preencher e lamber o envelope ou, ainda melhor, clicar para sair direitinho para o email mais adequado.
É que a papelada tradicional e o seu circuito interminável, enfim...
Publicado por: sharkinho às outubro 28, 2005 01:31 AM
Grande ideia, Sharkinho!
Isto não há como a motivação on-line e já que estamos com a pedalada... que tal uma equipa?... (porque pesquisar tudo o que é possível de reclamar é uma trabalheira)
Publicado por: maria arvore às outubro 28, 2005 08:52 PM