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novembro 07, 2005

A POSTA MINHA AMIGA

proscopos.JPG
Foto: sharkinho

Ia falar convosco acerca do amor, mas este gajo antecipou-se (vale a pena ler, asseguro). Por isso falo da amizade, que até é coisa parecida.
Aliás, nem é tema virgem no charco. Com o fim aparente das relações "para a vida", à medida dos tempos individualistas e apressados que se vivem, nasceram novas regras para esse tipo de ligação que todos mantemos com alguém.
Uma ligação frágil, na maioria dos casos, bastando uma alteração de morada (ou de email?) para extinguir em pouco tempo os vínculos conquistados em meia-dúzia de anos (ou de meses?) de perseverança.
Tememos a amizade mais do que o amor e isso traduz-se numa superficialidade que parece "proteger" os elos entre as pessoas. Como se ir mais além fosse exactamente o mesmo que ir longe demais.

É esta a percepção que desenvolvo quando me apercebo do muito de mim, bom ou mau, que não partilho com os que chamo amigos mas não nego a quem chamo meu amor. Como se mais de mim pudesse saturar a outra pessoa, que faz o favor de me seleccionar como companhia para uma noite de copos. Mas não está disponível para me aturar os desabafos ou sair da cama de madrugada porque tive dois furos seguidos nos pneus.
Não está disponível para outro lado de mim que não aquele que a qualquer conhecimento de ocasião consigo oferecer. Esbatem-se deste modo as diferenças entre quem frequenta a minha casa e quem comigo gasta umas horas à mesa de um café.

E a passagem do tempo parece não ajudar, como há uns anos eu tinha ideia que acontecia. A intimidade não se cria, nem se fomenta, e qualquer conflito mais sério arrasa uma relação, pela surpresa. "Não te conhecia essa faceta", dizemos na altura. É essa a raiz do problema. Desconhecemos uma parte importante do carácter das pessoas em quem depositamos a nossa confiança e depois reagimos de forma hostil perante as constatações menos agradáveis.
Eu alimentava a noção de uma amizade que se fortalecia com bons momentos, conversas sérias e reacção às aflições recíprocas, por exemplo. A noção está a soro, convalescente, muito diferente nos anseios e nas emoções. E eu constato nos outros o absoluto desinteresse pelas minhas preocupações e o meu pelas suas, salvo mui raras excepções.

Este é um assunto que não admite quaisquer juízos de valor, cada um sabe de si e, tal como no amor que o Eufigénio hoje descreve à sua maneira, não existem realidades universais. De resto, ambos sabemos que uma amizade sem substância é nado-morta. À espera de um desentendimento ou de uma embirração que até podem resultar meras de falhas na comunicação.
E isto leva-me à amizade entre quem bloga, feita de um grau de proximidade virtual que raramente se traduz na vertente analógica. Pés de barro à mercê dos equívocos da linguagem escrita, onde pinceladas rimam com marteladas e de repente o caldo entorna sem sabermos exactamente como e porquê. Na inimizade também funciona um pouco assim, connosco a percebermos de repente a dimensão da nossa estupidez, do desperdício que pode resultar de uma simples divergência mal conversada.

A amizade séria e empenhada, um monstro sagrado de qualquer escala de valores, parece-me apenas um nadinha despida de relevância no contexto das relações sociais. Secundária, dispensável até. E não devia, pois reduz-nos a um lote restrito de referências que ainda alimentam a ilusão um ano sem contactos depois, empurra-nos aos poucos para uma estranha forma de solidão acompanhada.
E como algures já postei neste blogue (num cartaz ou coisa que o valha), e vale para a amizade como para o amor, nunca se está tão sozinho como quando somos dois com a pessoa errada.

Publicado por sharkinho às novembro 7, 2005 10:05 PM

Comentários

Bonjours, Shark,

Enchanté que tu sois de retour ! Bon vent…

Publicado por: Manu às novembro 8, 2005 07:00 AM

Merci, Manu. Veremos se assim é...

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 08:52 AM

Opá, temos de nos sincronizar melhor. da próxima vez ficas então tu com o "amor" e eu com a "amizade" ok? ;)

Mas mais a sério Shark: tal como o amor, e porque também ela (a amizade) se serve das mesmas bases, também ela tem de ser rabiscada para além da palavra escrita, e só se lavra depois desta, na minha opinião.

Publicado por: Eufigénio às novembro 8, 2005 10:00 AM

Era precisamente aí que queria chegar, Eufigénio. E existe alguma variante da gripe da amizade? :)

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 10:07 AM

Olá Bom Dia,

A Amizade e o Amor, são bens raros. Frágeis. E muitissimo valiosos.
Nem todos têm o privilégio de os experiênciar... poucos são, os que os sabem manter...

E nem um, nem outro, são fáceis!

Jocas

Publicado por: Partilhas às novembro 8, 2005 10:44 AM

Sharkinho, foi a "este gajo" e li tudo o que lá vem na posta a que te referes. Engraçado que concordo com o que ele lá diz. E penso, não posso fazer juízes de valor mas, o que ele deplora é o amor que por vezes é escrito até a exaustão, hipérbolizadas e com ênfases exageradas, que na opinião dele: o amor existe e há que praticá-lo, cada um à sua maneira e estilo. Não sei posso estar a ter uma interpretação errada?! Mas, como ele lá diz: "amor sem sexo é amizade, da Rita Lee" mas existe amor na amizade sem sexo, e não seria de esperar outra coisa. O verdadeiro amor e a verdadeira amizade é complicado! E este comentário baseando-se no dele não descura o teu ponto de vista, antes pelo contrário. Um abraço.

Publicado por: soslayo às novembro 8, 2005 11:11 AM

São questões muito delicadas e do foro íntimo de cada um, Soslayo. Daí o meu cuidado em não vincar as minhas certezas nesse domínio, subjectivas e baseadas na minha desastrada experiência pessoal. Que sei eu? :)
De qualquer forma, preocupa-me a ligeireza dos laços que se estabelecem entre as pessoas.

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 11:26 AM

Se fosse fácil todos tínhamos, não é, Partilhas? Mas acho que quando temos essa sorte não fica mal cultivarmos a coisa, na medida em que só temos uma vida para viver.
Nós e os outros.

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 11:29 AM

Os laços entre as pessoas são cada vez menos sólidos. E isso enquadra-se, quanto amim, na perspectiva do mundo alucinado em que vivemos. E é nos grandes centros que o problema mais se faz sentir, onde o individualismo é uma forma de defesa em relação à dificuldade de se saber quem vem por bem. E à falta de tempo que existe para o aferir.
"Cultivar" os tais laços e fazer essas confirmações requer tempo e, sobretudo, vontade, disponibilidade para partilhar a vida do outro, do amigo, como se fosse a nossa. Se isso é fácil, até natural, num meio pequeno (e cada vez é menos, atente-se...), numa grande cidade é quase impossível.
As relações tendem assim, cada vez mais, para a superficialidade. É mais seguro beber uns copos com alguém de quem pouco sabemos e repetir ou não dali a 3 meses, do que assumir um compromisso de amizade empenhada como lhe chamas que pode implicar o tal esforço de levantar a meio da noite para socorrer uma aflição. E se calhar nem temos condições de o fazer e depois falhamos e desiludimos essa pessoa e a tal amizade vai-se num ápice...
Sei lá, escreves sobre estes temas e depois a gente estende-se. ;-)

Publicado por: Mar às novembro 8, 2005 11:47 AM

Shark, o que tu queres é que eu, para além de ajudar a trocar os pneus, ainda te mude o óleo e te faça uma revisão exaustiva, não é, seu doido?

Publicado por: PN às novembro 8, 2005 12:47 PM

Ia perguntar se querias ajuda para trocar os pneus, mas vejo que já não precisas. ;)

Publicado por: cap às novembro 8, 2005 03:56 PM

Ena, sócia, ganda lençol! Vejo que o tema te fascina, o que aliás se tem reflectido em alguns dos nossos diálogos.
Não me parece que os meios pequenos consigam escapar desta proliferação do efémero e do superficial em matéria de relações entre as pessoas.
E mesmo as ligações entre quem bloga estão cada vez mais complicadas de gerir, numa altura em que se sente alguma saturação da parte das pessoas.
Ou se calhar é impressão minha...

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 05:34 PM

PN, é tão bom ser amado por um bom entendedor com alma de mecânico auto...

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 05:36 PM

É verdade, Cap. Mas podes sempre dar uma mãozinha na substituição dos filtros. Ou na parte de bate-chapas... :)

Publicado por: sharkinho às novembro 8, 2005 05:39 PM

Para mim, a amizade é bem mais fácil que o amor, muito mais duradoura do que ele e necessita de o acompanhar para que o amor possa existir. Deixo um amor fugir (que remédio...), mas não deixo um verdadeiro amigo desaparecer (mesmo que durante anos não contactemos - o reencontro será como se nos tivéssemos deixado na véspera, já me aconteceu mais do que uma vez). Não concebo amar alguém de quem não seja, ou não me torne, profundamente amiga. E os amigos que tenho (alguns conhecidos neste meio, devo dizer) são daqueles capazes de ficar a pé até de madrugada por mim, de rir e alegrar-se comigo, ou de fazer km só para virem em meu auxílio, sendo igualmente verdade o inverso, o que eu por eles me disponho a fazer.

Publicado por: Zu às novembro 8, 2005 05:59 PM

Por vezes, as pessoas dão-nos atenção... e nem sempre nós sabemos receber essa atenção... ou porque vemos nela segundas intenções, ou porque achamos que se estão a "meter" nas nossas vidas... e Amigo que é Amigo... nem sempre é simpático... É dificil saber, quando passamos o limite... e até onde, podemos deixar passar, a quem, sobre o quê...

O respeito pelas decisões/opiniões dos outros, nem sempre é fácil de conseguir... e por isso mesmo, o isolamento, numa primeira fase, passa por um re-organizar interior... que quando se quer exteriorizar, nem sempre set tem... com quem...

A independência e o respeito pela individualidade é uma conquista, da evolução dos tempos...

Mas... não há bela, sem senão...

Publicado por: Partilhas às novembro 8, 2005 06:00 PM

Conto então contigo Zu para uma aflição nos pneus? :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 12:21 AM

E o senão chama-se solidão, Partilhas...

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 12:23 AM

:-) A assistência em viagem será decerto mais eficaz do que eu nesse particular, Shark, que eu não sei nem tenho força para conseguir mudar pneus, e moro um bocadito longe para te poder ser útil a tempo! Mas dou um óptimo apoio moral à distância, e se estiver ao lado ajudo na medida da minha azelhice "pneumática" ;)

Publicado por: Zu às novembro 9, 2005 11:06 AM

Tens razão, Zu. Vou ler melhor as condições particulares da minha apólice de seguro automóvel. Os senhores dos seguros são nossos amigos.

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 11:12 AM

teria tido muito prazer de ter bebido nesse outro copo.......só como amiga.......

Publicado por: Maria às novembro 10, 2005 04:25 AM

Só como amiga faria sentido que o tivesses bebido na minha companhia.
Sinto-me lisonjeado pela intenção.

Publicado por: sharkinho às novembro 10, 2005 09:07 AM

Já tive o prazer de beber o outro copo na tua companhia e é para mim motivo de grande orgulho Amigo Tuby!

Publicado por: Luna às novembro 12, 2005 09:08 PM

O prazer foi todo meu.
E acredita minha amiga que não me vejo merecedor de tal distinção (a do orgulho, claro).

Publicado por: sharkinho às novembro 12, 2005 09:56 PM

A amizade é muito exigente e necessita de muita atenção, se não for cultivada um dia o outro já não está lá.
Mas numa época que premeia o individualismo mediocre e egoista ela ainda mais está à mercê dos elementos.

Publicado por: Mário às novembro 14, 2005 02:21 PM

Não podias ser mais claro na tua intervenção, Mário. Não vais arranjar muitos amigos com esse feitio... ;)

Publicado por: sharkinho às novembro 14, 2005 05:28 PM

:)

O meu mau feitio é um função muito bem documentada ;)

Publicado por: Mário às novembro 15, 2005 12:39 PM

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