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novembro 25, 2005
FEIOS E PORCOS E MAUS

Este não é, nem pode ser, um tema agradável. Convivi com o fenómeno até aos treze anos de idade, altura em que consegui impor pela força o fim de algo a que quis poupar uma irmã mais nova por quem me preocupava nessa altura.
A violência doméstica é um pesadelo sem sentido, é uma exibição grotesca de selvajaria com palco no que deveria ser um santuário para qualquer pessoa: a sua própria casa.
Na esmagadora maioria dos casos são mulheres as vítimas. Isto explica-se pelas abjectas questões ditas culturais (a educação que "os" perdoa), pela escassez de opções de quem sofre às mãos de um algoz "da casa" e, santa paciência, pela lei da selva onde o mais forte impõe esta regra medonha à bruta. Uma cobardia, sob qualquer prisma. E uma indignidade também, mesmo que de violência psicológica se trate.
A dor de quem se vê refém de um filme assim não se mede pelo teor das sevícias praticadas. Violência é violência e o resto são tretas.
Já falei neste espaço acerca do martírio que hoje está na ordem do dia. Aumentam os casos reportados às autoridades e mesmo que isso reflicta apenas o facto de mais gente avançar com a imprescindível denúncia, é uma estatística que nos envergonha em pleno século XXI.
Não há atenuantes para a violência doméstica. A própria expressão engloba o quão nojenta se revela esta manifestação de instintos pré-históricos por parte de alguns neandertais cujo lugar adequado é uma cela. Ou, perdoem-me a franqueza, uma cama de hospital (tá bem, pode ser no Miguel Bombarda...).
Insisto nesta tecla porque nunca é demais apontar o dedo às vergonhas e chamá-las pelos nomes, para que nenhum bandalho se consiga sentir mais macho por dominar a murro a sua companheira (e/ou o resto da família). É assim a realidade nua e crua e não existem paninhos quentes que a pintem de um tom menos hostil.
Este ano já morreram mais de trinta mulheres às mãos dos seus carrascos cruéis. Mais de trinta. As que morreram, pois as queixas são às centenas e os silêncios representam milhares.
É um problema, é uma vergonha. E tem que acabar, de uma vez por todas.
Publicado por sharkinho às novembro 25, 2005 09:29 AM
Comentários
Também faz parte dos combates do meu grupo politico e no ” não” a Europa lá estava a posição descriminada das mulheres em certos países.
Aqui em França existe essa violência que não é unicamente ligada a miséria porque praticada em todas as classes sociais.
Deixa-me elogiar aqui os nossos amigos Espanhóis que decidiram dar a conhecer que esta praga é agora combatida em Espanha.
Publicado por: Manu às novembro 25, 2005 10:26 AM
Bom dia, Manu.
Cá também não é um "privilégio" das classes sociais menos abastadas. Tenho até a noção de que cada vez mais o fenómeno se estende à classe média e média/alta...
A praga deve ser combatida em todo o mundo!
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2005 10:53 AM
Completamente solidária naquilo que disseste, Charquinho. E ainda bem que há pessoas como tu para escreverem sobre temas tão espinhosos. Acredito que o falar e o expor tragam efeitos benéficos, e talvez se venham a repercutir de forma positiva em estatísticas tão macabras.
Publicado por: claudia às novembro 25, 2005 11:16 AM
Esqueci dizer que hoje é aqui o Dia contra essa violencia
A@+
Publicado por: Manu às novembro 25, 2005 12:30 PM
Aqui também, Manu. Daí a oportunidade da posta.
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2005 12:33 PM
Só mesmo falando (denunciando) esta vergonha conseguiremos criar as condições para ela acabar, Cláudia.
Não há atenuantes.
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2005 12:36 PM
Infelizmente além das mulheres, as crianças são envolvidas tb em violência e sobre elas pouco se fala.
Publicado por: Raquel V. às novembro 25, 2005 03:41 PM
Muito oportuno, amigão, e denunciar é já um bom caminho. Mais importante ainda é que sejam as vítimas a tomar consciência e a denunciar. Todos sabemos do medo, das desculpas da cultura e até de familiares que pedem às vítimas para comer e calar. O resto do processo é mais complexo. Quando se vai julgar o criminoso? Depois de ter tido tempo de matar a vítima? Com o passo de caracol a que anda a nossa justiça, ele vai ter tempo para tudo, até para a convencer a desistir da queixa. E eu só acredito na celeridade da justiça quando muita coisa mudar.
Publicado por: pedra às novembro 25, 2005 04:48 PM
É um dos crimes mais ignóbeis, este da violência sobre vítimas mais fracas, sejam mulheres ou crianças.
E a fé na justiça, infelizmente, é quase nula. Veja-se o desenlace recente do processo Casa Pia...
Crie o Estado os mecanismos de apoio à vítima, faça-lhes a devida publicidade, prove que são eficazes e os números das denúncias dispararão com toda a certeza.
Mas será que o nosso Estado considera importante este tipo de medidas sociais??? (a falta de fé na justiça é extensível ao Estado, como se vê...)
Publicado por: Mar às novembro 25, 2005 07:47 PM
Fala-se aqui da violência doméstica tendo como vítima a mulher mas esquecem-se os homens que são sovados entre paredes e que por vergonha não denunciam os horrores que sofrem.
A minha mulher já me sovou várias vezes em 14 anos de casamento. Alguém me tentou defender? Os que souberam riram-se de mim. Chamaram-me "maricas". Levassem eles com 1,80m e 120 Kg de peso em cima e eu gostava de saber quem era o "maricas".
Publicado por: Carlos Augusto às novembro 25, 2005 07:56 PM
Sempre atento, Shark! Infelizmente a força ainda é, em muitos casos, a forma de resolução de conflitos. Pior ainda quando nem sequer conflitos existem...
Impressão minha ou a contagem decrescente terminou?!...
Publicado por: lurdes às novembro 25, 2005 08:18 PM
Shark, que dizer destas duas situações: a violência do homem contra a mulher e a violência da mulher contra o homem, como este caso acima descrito!? Sabes Shark, eu penso que isto resume-se tudo a uma questão de má índole pessoal; educação; direitos e deveres; conceitos de liberdade. Uma tristeza enfim. Isto só vem dar armas aquelas feministas incontroláveis e aos inveterados machistas. Betty Friedman a americana líder do movimento feminista, hoje em dia diz o seguinte: "a mulher deve caminhar junto com homem e não contra ele" mas digo que isto fundamentalmente deve funcionar em sentido contrário também. Só quando a nossa sociedade pensar assim é que deixará de haver estes casos tristes. Um abraço
Publicado por: soslayo às novembro 25, 2005 10:27 PM
Boas Shark, estava a pensar deixar um comentário machista do género "uma chapadita de vez em quando até é bom, estimula a circulação" mas isto é um assunto demasiado sério para tentar ter piada... Realmente, o ser humano consegue ser uma autêntica besta.
Publicado por: Contrabandista X às novembro 26, 2005 08:42 AM
Tens toda a razão, Raquel V.. E eu não me esqueço, mas existe um espaço na blogosfera mais adequado para as referir em concreto.
Chama-se Proximizade e tem linque na barra lateral do charco, como já deves ter reparado.
Podias falar tu sobre esse assunto (num post) e enviares pró email deles. Seria bem vindo, garanto-to.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 01:03 PM
Pedra, essa questão do mau funcionamento da Justiça favorecer descaradamente os prevaricadores é o fósforo aceso à espera do combustível para atear o ressurgimento de fenómenos como as milícias populares.
E se não subscrevo esta solução das turbas com paus, confesso por outro lado a minha revolta pelo desamparo em que se deixam as vítimas neste país.
Concordo contigo. Providencie o Estado as soluções logísticas e legais e logo se verá se as coisas não mudam de figura.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 01:08 PM
E agora reparo que o meu comentário parece o teu, ò meu elemento natural. :)
As casas-abrigo são escassas, como todos os restantes meios ao alcance de quem precise de optar pela fuga a um brutamontes.
E o Estado já mete nojo, pela desfaçatez da sua desresponsabilização.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 01:14 PM
Carlos Augusto, a estatística é tramada e leva-nos a ignorar as minorias em prol da chamada de atenção nas "parangonas".
O exemplo que referes como teu representa cerca de 2% do universo de situações registadas.
E apesar de tudo, num país evidentemente machista e onde a estupidez pode dar azo a esse clima de paródia perante uma vítima do sexo masculino, ainda assim a sociedade facilita muito mais o caminho de um homem que entenda escapar a esse tipo de situações.
Se estiver em causa arranjar um emprego com urgência, por exemplo.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 02:09 PM
Bom post, meu amigo. Há realmente assuntos tão sérios que nunca é demais falar neles. Alguém aqui falou que para além da agressão física, há também a agressão verbal, e era importante não esquecer isso. A palavra pode doer tanto como uma pancada. ( claro que muitas vezes vem tudo junto o que só piora ainda mais!)
Publicado por: ML às novembro 26, 2005 03:10 PM
É, Lurdes. Prefiro uma acção questionável mas eficaz a uma inacção "civilizada" mas imperdoável.
Não, a contagem continua. Mas ao ritmo que eu imponho e não ao que mais agradaria a alguns, (por razões que me transcendem).
Gosto de exercer o poder no controlo das minhas decisões.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 04:07 PM
Olá ML! Reparei que "amarraste" as nossas postas acerca do assunto. Obrigado e acho que fizeste muito bem.
Para que se saiba que há cada vez mais gente atenta, esclarecida e com vontade de acabar com os resquícios pré-históricos...
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 04:13 PM
Soslayo, este exemplo de pura labreguice ultrapassa o âmbito das relações homem/mulher. É que embora muitas das bestas só manifestem a sua natureza entre portas, não faltam as que reproduzem o pior animal em si no resto do seu dia-a-dia.
Mas os factos não perdoam. O poder está a mudar de mãos e agrada-me essa tendência.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 04:20 PM
Contrabandista Xis: fizeste em bem em arrepiar caminho nessa vontade de aligeirar com o humor uma cena que enoja qualquer pessoa com um mínimo de decência.
É o teu caso, como transpira das intervenções que te vão desenhando.
O ser humano é assim.
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 04:36 PM
É pá, ò Contrabandista, relendo o meu comentário acima não parece que a ideia tenha ficado clara...
Eu gosto das tuas intervenções e adivinho-te um gajo à maneira, pá.
Lê a cena à luz deste pressuposto, hã?
Abraço.
O ser humano também se distingue na propoensão para a calinada... :)
Publicado por: sharkinho às novembro 26, 2005 11:20 PM
Pois é...estamos no sec. XXI, mas infelizmente estas coisas ainda acontecem. Aconteceu-me a mim também. Um namorado possessivo, ciumento, controlador, um criativo que imaginava as mais estúpidas injúrias sobre mim...todas essas características típicas. Mas tive que passar por isso...como não me subjuguei, apanhei. E antes de apanhar foi aquela pressão psicológica...Onde foste, com quem...a revista pidesca ao telemóvel, carteira e todos os recantos de casa... Fiz queixa, perdoei-o, retirei a queixa, e em menos de 2 meses tudo voltou a acontecer. Eu sei que todos pensam "era de esperar", porque, e é verdade: ESTAS PESSOAS (se é que assim se pode dizer)NÃO MUDAM!!!
Agora estou a recomeçar a levantar-me, e sei que vou conseguir, mas queria deixar aqui uma palavra a quem esteja a passar pelo mesmo: não vale a pena...mais cedo ou mais tarde tudo volta a acontecer. E ter pena dele não adianta. Nós temos é de gostar de nós próprias! Força!
Publicado por: fatima às maio 9, 2006 09:54 PM
Também não acredito nessa "reconversão" dos brutos, Fátima.
Obrigado pela tua intervenção e espero que a vida não lance mais um desses ao teu caminho.
Publicado por: sharkinho às maio 9, 2006 10:31 PM
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Publicado por: ringtones free às agosto 15, 2006 04:21 AM
Sou frequentemente alvo de violência psicológica por parte da minha mulher.
A ameaça que se vai embora com os miúdos, ou que quando chegar o momento certa vai-se embora, são apenas alguns exemplos, mas poderia falar de outros muito mais graves.
Por isso esta história de que as mulheres são todas umas coitadinhas, para mim não vale.
Há por este mundo e em Portugal, de certeza muitos como eu e em situação pior.
E não tem nada a ver com machismo, tem mais a ver com feminismo e a ideia de que as mulheres devm ter os mesmos direitos. Agora quando toca aos deveres a coisa complica-se.
É ver as campanhas de luta dos pais por essa Europa fora para que as leis sejam alteradas e coloquem os pais e as mães em igualdade na hora da separação e não como acontece actualmente em que as mães ficam 85% das vezes com os filhos e só esse facto dá-lhes o poder de ameaçarem, manipularem, e chantagearem os homens.
Publicado por: Paulo às novembro 26, 2006 12:46 PM
Não duvido que essa chantagem emocional coloque uma pressão diabólica em cima de qualquer pai e consigo entender o que está em causa, Paulo.
Todavia, o que abordo neste texto é violência física pura.
E não há espancamento sem violência psicológica por inerência.
Teria todo o gosto, no entanto, em contar a sua história num post se quiser partilhá-lha confidencialmente e com maior detalhe (certificando-se que nada é passível de o expor) através do email no cabeçalho deste blogue.
Também esse tipo de situação é passível de ser combatida.
Publicado por: sharkinho às novembro 27, 2006 12:45 AM