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novembro 08, 2005

PEÇAS SOLTAS

im in heaven.JPG
Foto: sharkinho

Aos poucos, as peças vão sendo encaixadas pela vida. Um pedaço aqui, outro pedaço além. Memórias, experiências, conclusões. Vitórias, coincidências, desilusões. Não escapa ninguém ao julgamento que a vida nos faz, podemos apenas escapar à sentença se alienarmos o realismo ou a corrida por algum motivo se interromper, de repente.
E de repente o desenho fica completo o bastante para nele revermos a realidade que a nossa passagem pela vida produziu. Maturidade, chamam-lhe alguns. Ou outra coisa qualquer.
Sintomas da lucidez que os anos nos impõem, uns atrás dos outros, a correr. Os outros a servirem-nos de bitola e os desacertos a partirem-nos a tola até um dia percebermos o porquê. Ou não, sei lá eu. Tantas peças por encaixar e a existência a escoar pelo calendário fora, folha atrás de folha no outono cada vez mais rigoroso que o envelhecimento acarreta. Na cabeça também.

A careca que se descobre no passado que se revela. Tão diferente, sob a luz titubeante do futuro que o esclareceu melhor, aquele conjunto de certezas que ontem nos davam razão. Nenhuma, afinal, ao sabor das conjunturas como barquinhos de papel, sopradas as conclusões para longe do rumo que hoje reconhecemos menos fiel. Aos princípios, os que se traem no fim, quando certamente amaldiçoamos uma infeliz decisão e os seus danos. Nas convicções. E nas más acções que praticamos sem medo de nos arrependermos depois. Se calhar tarde demais.
A felicidade esbanja-se dessa forma leviana, fazemos a cama onde nos iremos deitar.

Aos poucos, o esboço grosseiro do balanço que podemos fazer (algures pelo caminho) esborrata. Maleitas que ninguém trata, até ao dia em que a doença se revela terminal. Negligenciamos, ofendemos e vingamos, agora. Mas esquecemos o dia de amanhã, o troco merecido. Por alguém mais atrevido ou simplesmente pela imagem que as peças encaixadas nos permitem decifrar. Com maior nitidez, que as dioptrias diminuem e a miopia que nos oculta a dimensão verdadeira da asneira cometida desaparece de vez. As sombras na parede da caverna, alegoria, simples erros de percepção. Falha na tradução.
O filme era outro. Em vez de protagonistas de uma película sonhada descobrimo-nos figurantes de uma cena marada em que, invariavelmente, morrem os maus e morrem os bons. Acaba sempre por acontecer.

E a vida a correr, alheia aos nossos erros e desatenções. O azar no euromilhões e as fantasias por concretizar. Fazia assim, fazia assado. Se acertasse na merda das cruzinhas ou arrancasse as ervas daninhas que dão cabo do melhor jardim.
A vida realizada a alimentar ilusões.
Mas à vida ninguém pode impor condições. Faz parte dela o destino que nos escolhe o momento do fim. A coisa funciona assim. Os canteiros que ambicionamos, expostos às intempéries que ajudamos a criar. Tiros no próprio pé.
E enquanto o puzzle se completa e a consciência se desperta, percebemos que seria fácil até.

Ser feliz.

Publicado por sharkinho às novembro 8, 2005 11:41 PM

Comentários

L’expérience ou l’age n’apportent pas la sagesse, la vie est un état d’esprit.

Ta famille t’entoure d’amour, tes amis te soutiennent LA VIE EST BELLE !!!

Publicado por: Manu às novembro 9, 2005 07:25 AM

Sem dúvida, Manu! Mas a passagem do tempo permite-nos encarar algumas etapas com outra perspectiva e abre-nos as portas a um caminho menos marcado pela incógnita.
Mais firme na passada.

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 08:54 AM

É isso a “ sagesse” agora já a tens!

Publicado por: Manu às novembro 9, 2005 09:27 AM

Somos sempre o resultado das nossas opções. Boas e más, acertadas ou desastradas.

O tempo, que nos aumenta a idade, dá-nos apenas a vantagem de poder consultar o cartel de escolhas que já consta no arquivo de cada um dos anos e dias passados e assim ter um panorama das que deram mau resultado e que devemos evitar repetir.

E dá a vontade de aproveitar melhor a vida em cada um dos minutos que restam.

Bom dia! :-)

Publicado por: Mar às novembro 9, 2005 09:54 AM

Bom Dia Sharky,

Lindissimo este teu texto. Ou a linha de pensamento teu, que partilhas connosco... O equilibrio... dificil, procurado e evitado... a felicidade... e todas as questões, que nos colocam no centro, de todos os momentos, em que viramos sol, em todas as direcções, de todos os passados, até os que já não recordamos... e os futuros, que ainda não sabemos onde existem!

Um dia Feliz!

Publicado por: Partilhas às novembro 9, 2005 10:20 AM

Ainda não tenho, Manu, mas sinto que estou no bom caminho... :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 10:53 AM

Devemos evitar repetir é uma expressão branda, sócia. Há tantos erros por onde escolher que repeti-los é sinónimo de masoquismo...

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 10:55 AM

Ah, e muito bom dia para ti também! :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 10:56 AM

Obrigado, Partilhas. E um dia feliz para ti também. (O equilíbrio é uma conquista muito complicada de obter...)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 10:58 AM

Sem dúvida, sócio. Há erros e erros. Há aqueles que até queremos esquecer, de tanto que nos enervam. "Evitar" repetir pode ser mesmo brando, no caso desses, aí eu diria mais que devemos tentar obliterá-los,rasurá-los em definitivo do nosso inconsciente, muito mais dos nossos actos futuros como é óbvio.

Publicado por: Mar às novembro 9, 2005 04:04 PM

Bem me parecia que não era bem o que querias dizer... :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 04:05 PM

Aproveito só o título para deixar uma «peça solta». Ando sem tempo para a net, fiquei «desarmado» no escritório, dificilmente posso ler e comentar aqueles que aprecio, mas tento passar por aqui, e assim deixo um abraço. Com tempo, irei atrás, apanhar o fio à meada, se o encontrar!

É bom estar por aqui! Um abraço.

Publicado por: Andy às novembro 9, 2005 08:48 PM

Sharkinho,
As frases que usas e me servem de comentário a esta posta:«A vida realizada a alimentar ilusões.»«Mas à vida ninguém pode impor condições» e «A coisa funciona assim.». Sim, até seria fácil ser feliz: mas embarquemos nessa nave das ilusões. Se não somos capazes de inverter as situações. Um abraço.

Publicado por: soslayo às novembro 9, 2005 09:01 PM

Bem vindo de volta, Andy! Outro (abraço). :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 09:40 PM

Adoro ficção científica, Soslayo. A nave das ilusões seria um cenário interessante para uma bela história. Dois (abraços). :)

Publicado por: sharkinho às novembro 9, 2005 09:43 PM

que lindo este texto..........um beijo para ti!mereces........mesmo

Publicado por: Maria às novembro 10, 2005 04:13 AM

Obrigado, Maria. E tem um bom dia!

Publicado por: sharkinho às novembro 10, 2005 09:01 AM

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