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dezembro 15, 2005
A POSTA NA SURPRESA AGRADÁVEL

As pessoas, nós todos, são capazes das coisas mais surpreendentes (aliás, a vida é cheia de surpresas). Não há dados adquiridos no que respeita ao comportamento humano, no melhor como no pior, sendo cada vez menos pertinente a expressão contrasenso.
De maus exemplos está o mundo cheio e basta reparar nos telejornais para deles tomar consciência, caso não sejamos nós os protagonistas - considerando as bizarrias que despontam nas parangonas, envolvendo cidadãos aparentemente "normais".
A normalidade, digo eu, é a loucura reflectida no dia-a-dia de cada um de nós, a exteriorização dessa estranha "felicidade" que meio planeta nos inveja (e com alguma razão, embora seja evidente o desperdício ocidental nessa matéria).
Mas também surpreendemos pela positiva. E hoje, inspirado na troca de comentários entre mim e o Zé Quintas duas postas abaixo, decidi falar de duas surpresas de que dei conta e que me baralham no pessimismo que algures adoptei como regra em vez de prudente excepção.
Começo pelo comentário do meu antigo sócio na Casa de Alterne.
O fim da parceria entre mim e o homem que recrutei da caixa de comentários do Chez Maria para o "lançar às feras" na pele de blogueiro-autor aconteceu para mim de uma forma súbita, fortuita e inesperada. Um acidente, portanto. E nunca cheguei a entender o cerne da questão, embora desconfie que me caibam as culpas no cartório.
Certo é que esse processo de ruptura nos afastou de alguma forma.
Contudo, e como poderão constatar se tiverem paciência para ler o comentário mais longo que já escrevi, recebi do Quintas (o homem que fala montes de absolutamente de sexo, de crime e de outras barbaridades) uma intervenção com a qual não contava. Pelo tom, pela forma, pela surpresa de ver uma das pessoas a quem, tudo indica, desiludi (e vice-versa) esmerar-se por me contrariar a deserção anunciada.
É tão fácil deixar cair as pessoas neste meio... Basta o silêncio prolongado, a ausência de um contacto que constitui (como lá fora) a essência de qualquer ligação digna desse nome. E foi essa ligação que o José Quintas reactivou à bruta, provando-me errado numa data de conclusões a seu (a meu) respeito e, acima de tudo, revelando um conhecimento de causa que me partiu todo pois prova que o silêncio do Zé não implica o seu afastamento deste blogue (e da minha pessoa, por inerência).
Por tudo isso e porque sim, reabro as caixas de comentários (exceptuando a de alguma posta mais privada) até ao último suspiro do charco.
Tens toda a razão, rapaz.
O outro exemplo chega-me de um país distante chamado Butão. Nesta minúscula nação dos Himalaias, onde o progresso ainda não conseguiu impor-se com a mesma determinação com que nos inferniza, reina desde o início do século passado a família de Jigme Singye Wangchuck. E desde há 31 anos é ele quem ostenta o ceptro, a coroa e o poder efectivo no país.
Dificilmente um cinquentão com um nome tão esquisito e com residência no cu do mundo seria digno de menção neste blogue, mesmo sendo o líder de um povo qualquer.
Então, porque reúno o Zé Quintas e Sua Majestade El-Rei da Conchichina nesta posta?
Pelo efeito surpresa. Dom Jigme (na minha ignorância plebeia, julgo que qualquer rei tem o Dom), contemporâneo dos Saddam Husseins desta nova (des)ordem mundial que são corridos do poder a pontapé e à morteirada, anda pelo reino a fazer campanha... pela sua destituição do cargo!
É verdade. Sua Alteza, e não estou a ironizar, defende o fim da monarquia na terra onde reina sem contestação. Mais ainda, a população nem quer ouvir falar de tal coisa...
E a coisa explica-se pelo discurso do Rei a propósito do seu intento: "Nos tempos vindouros, se a população tiver sorte, o herdeiro do trono pode vir a revelar-se uma pessoa dedicada e capaz. Por outro lado, esse herdeiro pode ser um medíocre ou mesmo um incapaz". Assim, sem merdas.
Não pude reprimir a imagem do nosso Dom Duarte de Bragança, na minha reacção instintiva de republicano filisteu. A argumentação do monarca que defende a democracia parlamentar é, a meu ver, a mais simples explicação para o fim natural desse regime arcaico e sem qualquer viabilidade teórica ou prática. E não me venham com os exemplos de sucesso, como o Reino Unido ou a nossa vizinha Espanha, pois não é desse tipo de regência paparazzi que estou a falar.
Estou a falar do poder absoluto, concentrado nas mãos de uma pessoa, qualquer pessoa, só porque nasceu com o pedigree adequado, com o cu virado para o melhor lado ou porque numa terra de cegos quem tem um olho ou é um general influente ou apenas tem veia ditatorial é "rei".
E é desse tipo de poder que um homem digno da maior admiração se propõe abdicar, contra a vontade do seu povo. Apenas porque acredita ser o melhor para o futuro da nação.
Eu votava num homem assim para líder do meu país. Em havendo essa opção, ou uma (pelo menos) vagamente parecida.
E no Jota também, se ele não fosse um anarca tão despudorado...
Publicado por sharkinho às dezembro 15, 2005 12:12 PM
Comentários
Atão e a contagem decrescente????
Publicado por: ANTÃO às dezembro 15, 2005 02:08 PM
Tem calma, Antão. Tou a ver se faço render o peixe até ao fim do ano.
Mas fica descansado que eu ainda não me esqueci. O próximo é o 2.
Mas olha que vais ter pena de me ver partir. Depois, como e onde destilarás esse teu mau feitio, rapaz?
Publicado por: sharkinho às dezembro 15, 2005 03:08 PM
Pois é!...
Não tinha pensado nisso!
Atão vou começar a sondar por aí para ver se encontro uma nova destilaria! :)
Publicado por: Antão às dezembro 15, 2005 04:16 PM
Vais ver-te grego, pá. O charco é um dos blogues mais capazes nessa matéria, estou cá eu para o acautelar.
Mas com calma e com paciência estou certo de que existirá nesta comunidade um albergue digno do Antão e da sua demolidora acutilância verbal.
Entretanto, olha, vai aproveitando enquanto dura e sente-te à vontade para me encurralares com as tuas perguntas difíceis.
Farei o melhor que posso para meter os pés pelas mãos e me espalhar ao comprido para que possas dar por concluída com sucesso esta ingrata missão que abraçaste na blogosfera.
Tudo de bom e manda sempre! :)
Publicado por: sharkinho às dezembro 15, 2005 05:55 PM
Sharkinho, muito gosto quando fazes render o peixe! :)
Não te queixes muito do Antão. Olha que sempre é melhor que ires recebendo spam-comentários dos bigorna (ex-riapa)! Esses sim, umas pragas!
Abraço
Publicado por: Carriço às dezembro 15, 2005 06:08 PM
Nada disso, Carriço! O Antão já é um habitué da casa, mas tem uma costela de agente secreto e vai mudando de nick consoante a disposição do momento. Uma pessoa com o tempo vai-se adaptando a estas características peculiares da malta que bloga... :)
Já os bigorna (ex-raio que os parta) também vão aparecendo, mas pouco. Até já ando a desenvolver um complexo de inferioridade. Sou de esquerda e tudo, não se justifica votarem-me assim ao ostracismo spamico sem seguirem o exemplo do Antão (que vai dando notícias e a malta sempre troca umas larachas e tal).
Faz tudo parte desta comunidade insana mas divertida que é um espelho da vida lá fora.
Há peixe com fartura na lota até prái ao final do ano, amigo.
Eu mando dois. (Abraços, não peixes)
Publicado por: sharkinho às dezembro 15, 2005 07:13 PM
(surpreendido fiquei eu agora. tão tão que por um triz não adoptei como nick «J.S. Wangshuk»:))
esperando ainda que reconsideres no último segundo, tenho que aceitar a tua motivação para o encerramento.
para além do que já consta do comentário mais ali abaixo, devo tb +1x agradecer-te a oportunidade oferecida há cerca de 10 meses (não sei bem porquê mas a minha companheira, à palavra «oportunidade», prefere utilizar «bactéria»:))
obrigado então pelo contágio. vou continuar atento a aguardar que a tua eventual travessia no deserto seja temporária de maneira a que possamos andar às turras de quando em quando num futuro próximo. abraço.
Publicado por: jose quintas às dezembro 15, 2005 10:29 PM