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dezembro 23, 2005
CONTO DE NATAL I

Ou de como sou do contra. Ou ainda porque não me apetece fazer de conta que no Natal deixa de existir o lado negro do mundo só por causa das luzes e das renas e do outro vestido de vermelho, mais dos mérriscristmas e votos de paz na terra aos homens de boa vontade (e os outros??). Ou então porque sou uma ateia que há-de arder nas chamas do inferno e eu ralada com isso.
Ou só porque me apetece, e pronto.
Ainda tinha tentado reconhecer-se, numa encarquilhada fotografia do casamento. O ramo de rosas amarelo-pálido, levemente descaído sobre a seda selvagem do vestido. O reflexo do flash nos olhos, brilhantes, do choro nervoso que a consumira horas antes do momento mais importante da sua vida. Brilhantes agora de novo, do amor que a inundava enquanto sorria para o retrato, da paixão por aquele homem que lhe segurava ternamente no braço. Incendiados, os olhos, do calor que já a possuía e se espalhava por todo o seu corpo como lava vagarosa, só de antecipar a sua primeira noite enquanto marido e mulher, ele a invadi-la, as mãos nas ancas a agarrá-la com firmeza e os cabelos espalhados no seu peito.
Ainda tinha pensado que amanhã era outro dia, já sem a raiva silenciosa pelo cheiro de perfume barato nas suas camisas, que às noites sem dormir e o corpo seco, consumido de ausência e desilusão, se seguiriam noites de corpos encaixados um no outro como metades de um mesmo fruto e dias de cheiros mornos de peles saídas do banho, café e sexo acabado de fazer.
E então, recordou o dia em que lhe dissera, desfigurada de lágrimas e dor: "Olha para mim! Pinto-me para que o meu verdadeiro rosto não fique pendurado na tua memória como uma tela esquecida". Ele tinha olhado para ela em silêncio, como se visse através dela e, com gestos precisos e de uma lentidão cruelmente propositada, sem despegar os seus olhos dos dela, pegara nas malas e saíra porta fora, para dentro da noite, para fora da sua vida.
Sorriu. Antes um esgar dolorido, que lhe percorreu as feições finas e cansadas. Ergueu o copo semi-cheio e, num brinde mudo, engoliu a cápsula de cianeto com o champanhe francês que lhe restava.
Mar
Publicado por sharkinho às dezembro 23, 2005 11:15 PM
Comentários
(Mal posso aguardar pelo II...) :)))
Publicado por: sharkinho às dezembro 24, 2005 12:11 AM
Sharkinho, cianeto com champanhe não combina, numa época destas mais quero pais natais e outros tais porque assim me desgraçais. Um abraço
Amigo quem gosta, gosta!
Quem não gosta não estraga
Se o Natal não lhe diz nada...
faça o que eu faço, deixo-me levar pra desgraça
(P'ra não dizer prós copos)
Sempre é melhor que papas de linhaça.
UM BOM NATAL p'ra ti Sharkinho ;)
Publicado por: soslayo às dezembro 24, 2005 04:10 AM
Um Santo e Feliz Natal para esta casa.
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado às dezembro 24, 2005 10:01 AM
Bem podes dizê-lo sócio...nunca se sabe o que vai sair daqui. ;-)
Um beijo enorme neste dia 24 ( ejá agora nos que se seguem).
Publicado por: Mar às dezembro 24, 2005 12:48 PM
Soslayo, apaguei-te as repetições mas deixa que te diga que o Shark não tem que levar por tabela, fui eu quem escreveu o texto e nem se trata de gostar mais ou menos mas sim, como aviso logo no início, de ir "contra a corrente".
Santo Natal para ti :-)
Publicado por: Mar às dezembro 24, 2005 12:52 PM
Permito-me retribuir esses votos, Zecatelhado, na ausência do dono da casa.
Publicado por: Mar às dezembro 24, 2005 12:53 PM