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dezembro 16, 2005
FIGURANTE VIRTUAL
Foto: sharkinho
Aos poucos apagaram-se as luzes no palco e na plateia o vazio assentou. Por detrás das cortinas, o protagonista aclamado espreitava e os aplausos recordava do dia em que o espectáculo começou.
Momentos de glória com o público de pé nos balcões da memória de um tempo de fé.
E nos bastidores contavam-se os amores, ecoavam gargalhadas, escorriam lágrimas pelas histórias acabadas numa dramática encenação.
Pura ilusão, nascida dos laços fictícios de personagens irreais. Próximos demais. As luzes da ribalta ofuscavam os olhares e invertiam-se os papéis. O amor ficcionado nos mais altos decibéis para uma assistência sedenta de emoção. Traídos pelo coração, embrenhavam-se na novela e aquilo que faziam dela era uma cópia quase perfeita de um romance original. Engano fatal.
Não tardavam a perceber que o enredo se aproximava do fim, prenunciavam a última descida do pano sobre a farsa e o engano terminava assim. Com o público de pé nas cadeiras vazias, no silêncio dos dias em que uma peça diferente era inscrita no manuscrito do dramaturgo. A história de um burgo onde era uma vez um casal alemão, outro conto de ficção para encantar a audiência depois da falência da falsa esperança anterior. A verdade do amor que a realidade fantasiou.
Mas a história acabou, arquivada no relicário das emoções teatrais. Fotografias.
As actrizes principais debandavam e decerto já sonhavam os adereços para um novo papel. Mas nunca o admitiam, influenciadas pela trama onde o pano caiu sobre a euforia e a excitação da última representação na peça que saiu.
De cena, com as luzes apagadas e as cadeiras abandonadas ao pó. E o protagonista ficava só, à espreita do que o passado lhe deixou. As lembranças que conservou de um cenário que não lhe servia no imaginário que desenvolvia as histórias sem fim. Fazia de conta que era assim, no final de cada actuação.
E sorria patético, por detrás das cortinas, incapaz de processar a imagem das retinas numa mente que perseguia uma bela utopia que não constava do argumento real.
Na cena final o amor já não acontecia, era pura fantasia. Se calhar um pesadelo, que a realidade é um camartelo a postos para a demolição. Das histórias baseadas na ficção, irrealistas.
No passado a pista que o personagem espreitou sob a pele do artista que um dia acordou.
E foi nesse dia que a nova peça estreou.
Publicado por sharkinho às dezembro 16, 2005 11:12 AM
Comentários
É sempre assim, no palco da vida. Peças que estreiam a seguir a peças que tiveram o encore final.
O que não quer dizer que não sejam alvo de "reprises". ;-)
Publicado por: Mar às dezembro 17, 2005 08:50 PM
Obrigado, Mar, por quebrares o estranho silêncio que se instalou nesta posta... :)
O problema, nos dias que correm, é que a malta deixou cair as reprises e só cultiva as sequelas.
E raramente estas se exibem à altura das primeiras versões.
Claro que existem excepções, mas eu sou justificadamente céptico no que respeita à capacidade dos elencos (e das histórias) para se manterem fiéis ao original.
Mas claro que isto depende dos momentos de inspiração que a vida proporciona, dos tais rasgos de génio que imortalizam quem os criou. ;)
Publicado por: sharkinho às dezembro 17, 2005 09:21 PM
pois eu gostei muito da posta. o tal «silêncio instalado» só confirma aquela minha suspeita que já são poucos os que apreciam ficção. pelo menos em blogs. curiosamente, os filmes mais vistos da actualidade têm assentado cada vez mais em fantasias históricas ou futuristas. demasiadas vezes sequelas, como referiste
Publicado por: jose quintas às dezembro 18, 2005 12:15 AM
Podes crer, Zé. E isso desgosta-me, pois é um dos exercícios que mais me estimulam. Claro que noto de imediato o emudecer da audiência e percebo a mensagem implícita.
É assim que um gajo entrega aos outros o comando do seu blogue, acabando por dar consigo a escrever tudo menos aquilo que lhe apetecia.
Sinto que traio as expectativas da malta sempre que fujo à exposição dos meus intimismos mais sumarentos.
Sinto que o meu blogue está a acelerar a senilidade precoce que me atormenta desde os doze.
Gosto de te ver por cá, Zé. E esta é a minha parte lúcida a falar, a que ficou livre das sequelas de um parto muito complicado (arrancaram-me pelas orelhas com forcéps, uma experiência muito traumatizante para uma cria com cerca de 4,5 kg. Vês como se manifesta o tal apelo para nos revelarmos? Este comentário teria seguramente mais comentários do que a posta acima. Apostas?).
Publicado por: sharkinho às dezembro 18, 2005 12:39 AM
Nem mais.
não sei se tenho feito disto um bicho de 7 cabeças (gostei dessa da senilidade precoce desde os 12 - acho que sofro do mesmo:)) mas é um esforço constante resistir a publicar o que se está à espera, aquilo a que nos habituamos. a gota de água que me levou a fechar a caixa foi ter 4 coisas prontas para escarrapachar no blog e dar por mim a pesar qual delas é que agradaria mais etc. assustei-me e achei que era tempo de arrepiar caminho porque a ideia desde o início era ter a maior liberdade possível, dependendo o mínimo de estímulos exteriores.
continuo a achar que, a longo prazo, é essa a melhor "política" para deixar algo consistente, o mais próximo possível da identidade de cada um, mas é evidente que este é só um lado de ver a coisa. há inúmeras vantagens em ter a caixa aberta. por esta altura, creio que o ideal é tentar combinar espectativas vs. surpresas, enfim, na medida da imaginação (e coisa mais inconstante não deve haver:((
Publicado por: josé quintas às dezembro 18, 2005 04:16 PM
Até sempre, Zé.
Publicado por: sharkinho às dezembro 18, 2005 10:38 PM
caramba, Jorge. não estava à espera que fosse tão cedo. a bem dizer (não por causa dos meus esforços egoístas em demover-te / mais devido à tua dedicação à 'causa') tinha a vaga esperança que reconsiderasses.
assim sendo, resta-me desejar-te um bom Ramadão:)) e relembrar-te que os que observam esse rito, mal o sol cai...
grande abraço/até sempre
Publicado por: josé quintas às dezembro 19, 2005 01:07 AM