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dezembro 31, 2005
A POSTA ROMÂNTICA (reposta)

Sou um dos raros privilegiados que, pelo menos uma vez na vida, conheceram o amor na sua vertente mais avassaladora. Os mais cépticos, coitados, desdenham da existência desta emoção única que pode nascer de um simples olhar. O amor à primeira vista não é um delírio romântico de telenovela. È possível, é real e constitui uma das impressões mais marcantes da existência de qualquer pessoa.
Eu concretizo melhor: receber no peito o impacto desse instante poderoso obriga-nos a reconhecer, entre outras maravilhas, a emergência do romance na vida das pessoas. E utilizo a expressão emergência no seu sentido mais comum: é urgente despertar para a falta que o amor faz.
No preciso momento em que, entre centenas de rostos, o meu olhar se concentrou apenas num, descobri a essência desse impulso irresistível que nos empurra para os braços de outra pessoa. O meu arquivo blogueiro fala por mim no que concerne às muitas fés e ideologias a que nunca me converti. Sou um agnóstico, por regra pessimista e pouco dado a mares de rosas com perfume de utopia. Nesse sentido, nunca acreditei e nunca acreditaria num conceito como o do amor à primeira vista se não tivesse sido abençoado com a sua aparição. De rompante, um rosto de mulher tomou de assalto a minha descrença que outros rostos de mulheres por quem me apaixonei, ou algo parecido, nunca contrariaram. Sem apelo, rendi-me ao halo de luz e nada em meu redor continuou a fazer parte da realidade tal como eu a experimentei na altura.
Era ela e mais nada ou alguém. E eu com o coração a galope, desorientado mas com a plena consciência do que me estava a acontecer.
Nada poderia atravessar-se no meu caminho quando furei a custo o mar de gente para me aproximar do ser humano que, até este dia, maior abalo me causou nas fundações. Ninguém poderia disputar a sua atenção nesses minutos de que eu dispunha para entrar na sua vida como ela já se instalara de armas e bagagens na minha. Numa tirada infeliz um amigo colocou-me a seguinte questão: e se eu descobrir um dia que ela é o amor da minha vida e quiser disputá-la? E eu respondi de imediato, falou o coração. Desistes ou morres. E não lhe restava mesmo outra alternativa, enquanto ela me quisesse como eu a queria e viria a acontecer.
O amor à primeira vista é como um relâmpago que nos atinge, alta voltagem de uma corrente de paixão. É talvez, tal como faço questão de a recordar até ao fim dos meus dias, o vislumbre mais aproximado que terei de Deus se Ele existir sob esta forma - como gosto de acreditar à revelia da minha apregoada falta de fé.
É esse o fundamento da minha perspectiva romântica das relações amorosas entre as pessoas. É por isso que afirmo sem hesitar que a cada esquina da vida, sem qualquer esforço de procura, pode encontrar-se o amor de uma vida. E quando isso acontece, podem ter como certa uma coisa: a gente percebe na hora do que se trata.
(BOM ANO!!!) :-)
Publicado por sharkinho às 02:12 PM | Comentários (13)
ANO (DE) NOVO

Não faço balanços nem invento bem-intencionadas resoluções de Ano Novo.
Sou quem sou, aquela que sempre fui e que continuará a ser depois de passada mais uma página do calendário. De 31 para 1 do ano da graça de 2005 para o de 2006. Igual a tantos 31 para 1 de tantos meses, dos 41 anos que vivi até hoje.
Não abro champanhe nem sopro cornetas de papel ou danço sob uma chuva de papelinhos brilhantes. Sou capaz de ver o fogo-de-artifício.
Não tenho ilusões de me tornar melhor do que sou, de sorrir mais vezes que aquelas que estarei de neura, de amar mais ou de maneira diferente do que tenho amado.
Será o que tiver que ser, aquilo que eu souber e quiser fazer, 365 dias que hão-de passar tal como passaram os anteriores e os outros antes desses. Pode ser que me apeteça viajar até à lua, saltitar pelas poças de chuva ou colher flores raras para oferecer a alguém. Ou não.
Serei igual a mim própria, poço de virtudes e defeitos, caminhando pela vida com um único objectivo: o de fazer felizes os que dependem de mim. E, se o conseguir, isso chega-me.
A vocês, desejo-vos tudo o que mais ambicionem.
Mar
Publicado por sharkinho às 02:00 PM | Comentários (8)
dezembro 30, 2005
PAGO A PRONTO (reposta)

Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.
Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.
Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.
Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...
Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.
Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação. Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.
Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.
Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações.
Publicado por sharkinho às 10:34 AM | Comentários (6)
dezembro 29, 2005
DO EGO E OUTROS BRÓCULOS

Uma massagem ao ego é como uma injecção de Botox: distende as rugas da auto-estima, preenche os interstícios dos tecidos que murcharam sob um qualquer efeito temporal ou outro, produz uma aparência lisa e lustrosa, uma ilusão de ar saudável com uma duração a prazo.
Há quem domine esta técnica à custa de muitas horinhas de queimar pestanas a ler publicações começadas por "Como conseguir o seu..." e terminadas em "...em 3 meses." e assim obtenha, a espaços, a efémera sensação de ter conseguido o objectivo a que se propôs. Nada mais errado...
Pois o chato nisto é que requer uma persistência que garanta a continuidade do efeito. E nem sempre é possível praticar a coisa.
E é triste constatar o alheamento de quem ocupa os seus dias a afinar as técnicas, escolher as agulhas e preparar o material entre uma massagem e outra. É que entretanto, o alvo do tratamento tem uma vida que decorre, alegrias e tristezas, passeios ao pôr do sol e banhos de espuma, jantares à luz de velas e noites de sexo, trabalho e lazer e amigos e amantes e inimigos e outros mais.
Que dele disfrutam. Enquanto o pobre "ténico" massajador apenas sonha com a próxima vez em que o há-de apanhar sobre a sua asséptica marquesa...
Mar
Publicado por sharkinho às 04:19 PM | Comentários (4)
dezembro 28, 2005
PEÇAS

Somos como peças de uma engrenagem, rodas dentadas encaixando umas nas outras com precisão milimétrica. Cada uma tem um papel a cumprir para garantir o funcionamento da máquina, sem quebras de ritmo ou deficiências de resultado final.
O que nos distingue dos outros materiais, do metal, da madeira, é a capacidade que temos de adaptar o nosso desempenho, de cada vez que detectamos uma falha no processo de sobrevivência. Moldamos a parte que destoa, a aresta que arranha, o rombo no contorno. E, assim, como se de plasticina fossemos compostos, adequamos de novo a forma ao efeito pretendido.
Tenho vezes em que gostava que fôssemos eremitas no topo da montanha. Vivendo em comunidade com o vento e a folhagem, as formigas e a água da nascente.
Apenas nós e os deuses.
Mar
Publicado por sharkinho às 12:15 PM | Comentários (4)
dezembro 27, 2005
OLIVEIRINHA DA SERRA (reposta)

O meu primeiro contacto com a pornografia, através de uma revista da especialidade obtida por um colega, aos treze anos, foi um momento de grande alegria, quase uma revelação.
Pela primeira vez eu pude constatar a viabilidade de algumas das minhas mais arrojadas fantasias, até essa altura tão líricas como a hipótese de vir a ser capitão da selecção nacional de futebol. Uma coisa é a gente ouvir dizer da boca de putos como nós, ouvirmos falar das piruetas possíveis a três ou da feliz parceria de números tão insuspeitos como o seis ou o nove. Outra coisa era ver como São Tomé e acreditar tanto que a vontade intensa de experimentar as acrobacias até nos fazia doer a alma.
A pornografia representava para mim um manancial de novas técnicas, associado à reprodução mais ou menos realista de alguns conceitos ‘missionários’ tradicionais. Nada me entusiasmavam alguns dos seus tiques clássicos de abertura ou dos rituais excessivos e insistentes no encerramento das actuações. O meu objectivo consistia em reter, do muito e diversificado material hardcore que passei a coleccionar, as práticas realistas que pudessem alargar os meus horizontes no futuro e afastar, da minha vida sexual ainda em fase de estreia, o papão horrendo da monotonia.
De entre as mais escabrosas ou surpreendentes produções que o mundo XXX me facultou retive sempre um manual que lamento ter-se perdido no decorrer de alguma rusga maternal. Datado do início da década de setenta, o livro combinava textos com ilustrações mas só estas últimas podiam considerar-se pornográficas. Era mesmo um manual de competência técnica, um verdadeiro sex for dummies.
Algum Zézé Camarinha cámone com jeito para a escrita e vocação para consultor, do qual nem o título da obra me ficou, deixou-me para sempre na ideia e na lembrança um exercício que, na minha lógica adolescente da época, fazia todo o sentido levar a sério.
De resto, o autor afirmava-se feliz por poder partilhar o seu método com o mundo e fazia-o com tal convicção que, apesar de não me converter a algumas contorções manhosas, convenceu-me a adoptar o treino das azeitonas.
O treino consistia em girar diariamente uma azeitona entre os dentes, com a língua, por cerca de meia hora, sem a descascar ao longo do exercício. Também dava para fazer com uvas, mas só numa fase mais adiantada do programa (devido à maior fragilidade da respectiva casca). E o experimentado (e, nas suas palavras, bem sucedido) atleta de alcova explicava, por a mais b, os proveitos que resultavam dessa pachorra shaolin, a subida em flecha da cotação de um amante rotinado na arte de bem rodar uma azeitona sem lhe danificar a pele.
Hoje já me resta pouca paciência para a pornografia, até porque as melhores e mais adequadas práticas aprendem-se no mundo real. Mesmo as inovações encontram na pornografia alguma resistência, pois os empresários do ramo parecem determinados em manter a receita (ainda hoje) ganhadora. Apesar de não ser um entusiasta do género nesta fase da minha progressão na aprendizagem, gostava que os putos de agora tivessem acesso a qualquer coisa que equivalesse ao meu manual de treino com azeitonas. Porque nem todos conseguem compreender que a pornografia não deve ser levada demasiado a sério e isso, manifestamente, gera desvios comportamentais pouco saudáveis e que o meu mestre ‘azeitoneiro’ jamais recomendaria.
Publicado por sharkinho às 05:29 PM | Comentários (12)
dezembro 26, 2005
CONTO DE NATAL II
A criança tinha cambaleado sem tino pela savana ressequida. As pernas como dois finos ramos de árvore, quase sem forças para aguentar com o peso da lustrosa e proeminente barriga. Não sabia o que procurava, apenas caminhava, só a força do instinto de sobrevivência prendia ainda aquele corpo mirrado, a uma réstea de vida. Teria uns seis anos, embora não aparentasse mais do que três: a subnutrição não deixara que os ossos se desenvolvessem até ao tamanho normal para a idade.
Tinha pais e irmãos e tios e primos, pessoas que a amaram enquanto ainda conseguiram sentir algo mais do que o estômago colado nas costelas, antes de a malária as ter confinado a uma cama no pequeno hospital de campanha ou a SIDA as ter levado para um lado melhor do que aquela aldeola perdida nos confins de África.
Teria sido um menino normal, com um sorriso alvo e pequenos caracóis, teria gostado de fazer as coisas que fazem todos os meninos, jogar ao pião e ao berlinde, construir carrinhos de madeira e brincar às escondidas, poderia ter sido um engenheiro ou arquitecto famoso ou o médico que iria descobrir a cura para muitas doenças. Se tivesse nascido no Hemisfério certo...
Mas não. Fora apenas uma de entre os milhões de crianças que nascem e morrem no continente africano, como estrelas breves que povoam os céus para logo desaparecerem.
E agora era já uma sombra de ser humano, tombada no pó da planície, indiferente ao calor e à sede e ao magnífico pôr-de-sol que o fotógrafo capturara, minutos antes de a encontrar. Mais ao grande pássaro, à espera.
* a partir de uma idéia original do Sharkinho.

Para que nunca nos esqueçamos que lá também é Natal.
Mar
Publicado por sharkinho às 07:15 PM | Comentários (5)
E AGORA
que a data já passou,

o trabalho nos espera,

mais as caras dos mesmos colegas de sempre,

e ainda os chatos do costume...

...será que JÁ PODEMOS VOLTAR AO NORMAL???
*(A porra do C em cima dos bonecos, a estragar tudo, tem a ver com os direitos de imagem, e as ditas cujas encontram-se aqui)
Mar
Publicado por sharkinho às 04:29 PM | Comentários (2)
dezembro 24, 2005
SÓ

para que não se pense que aqui mora uma insensível, desnaturada, rezingona, mal-humorada e que odeia o Natal.
Nada disso. Ser do contra é uma coisa, ser aquelas coisas todas é outra.
( a casa cheira a azevias e arroz doce, soam sinos e refrões de Natal e as latas de leite condensado estão a cozer. É o que isto tem de bom!)
JINGÓBEL para todos!
Mar
Publicado por sharkinho às 04:33 PM | Comentários (11)
dezembro 23, 2005
CONTO DE NATAL I

Ou de como sou do contra. Ou ainda porque não me apetece fazer de conta que no Natal deixa de existir o lado negro do mundo só por causa das luzes e das renas e do outro vestido de vermelho, mais dos mérriscristmas e votos de paz na terra aos homens de boa vontade (e os outros??). Ou então porque sou uma ateia que há-de arder nas chamas do inferno e eu ralada com isso.
Ou só porque me apetece, e pronto.
Ainda tinha tentado reconhecer-se, numa encarquilhada fotografia do casamento. O ramo de rosas amarelo-pálido, levemente descaído sobre a seda selvagem do vestido. O reflexo do flash nos olhos, brilhantes, do choro nervoso que a consumira horas antes do momento mais importante da sua vida. Brilhantes agora de novo, do amor que a inundava enquanto sorria para o retrato, da paixão por aquele homem que lhe segurava ternamente no braço. Incendiados, os olhos, do calor que já a possuía e se espalhava por todo o seu corpo como lava vagarosa, só de antecipar a sua primeira noite enquanto marido e mulher, ele a invadi-la, as mãos nas ancas a agarrá-la com firmeza e os cabelos espalhados no seu peito.
Ainda tinha pensado que amanhã era outro dia, já sem a raiva silenciosa pelo cheiro de perfume barato nas suas camisas, que às noites sem dormir e o corpo seco, consumido de ausência e desilusão, se seguiriam noites de corpos encaixados um no outro como metades de um mesmo fruto e dias de cheiros mornos de peles saídas do banho, café e sexo acabado de fazer.
E então, recordou o dia em que lhe dissera, desfigurada de lágrimas e dor: "Olha para mim! Pinto-me para que o meu verdadeiro rosto não fique pendurado na tua memória como uma tela esquecida". Ele tinha olhado para ela em silêncio, como se visse através dela e, com gestos precisos e de uma lentidão cruelmente propositada, sem despegar os seus olhos dos dela, pegara nas malas e saíra porta fora, para dentro da noite, para fora da sua vida.
Sorriu. Antes um esgar dolorido, que lhe percorreu as feições finas e cansadas. Ergueu o copo semi-cheio e, num brinde mudo, engoliu a cápsula de cianeto com o champanhe francês que lhe restava.
Mar
Publicado por sharkinho às 11:15 PM | Comentários (6)
dezembro 22, 2005
A POSTA COM SENTIDO
Sorrio.
Dedilho sílabas com sentidos ocultos por entre as vogais.
Laboriosamente dissimulados, à espera de qual será o par de olhos que os decifra.
Esforço inglório de camuflagem, os sentidos como néons para a vista treinada pelas batalhas da sobrevivência.
Com uma rede, delicadamente, capturo as palavras que são borboletas a tentar alcançar o sol.
Antes que queimem as asas.
Mar
Publicado por sharkinho às 11:36 PM | Comentários (16)
dezembro 21, 2005
A POSTA NA ESPERANÇA
As if the first ray would be
the sign to fly,
seagulls began to fly together.
Some goes fast to lead the others
and some goes not to be lost.
Anyway, all of them seems
to be flying hopefully
with expecting a wonderful day.
Acordo um e mais outro e ainda mais um dedo. Depois, os outros dois.
Esticam-se em alongamentos de preguiça que se enxota mas que demora a ir embora.
Abro-os e fecho de novo, aguardo que despertem por completo no rescaldo de um sono profundo, hibernação forçada pelas agruras do clima.
Sinto-os perros, a necessitar de exercício, de um fortalecer de músculos esquecidos por tanto tempo que passou sem serem usados. Sinto-os estremunhados e sem vontade de sair do quente suave, daquele limbo que envolve como líquido amniótico, quando nos recolhemos no interior de nós. Sinto que esperam algo. E eu também.
Espero a brisa da manhã com o cheiro a maresia, a luz rosada a rasgar a bruma, o canto dos pássaros a acordar o mundo.
Espero o novo dia que traga promessas de uma nova pessoa, de magia em cada gesto, de contos de fadas e encantamento.
E, enquanto espero, enlaço os dedos uns nos outros, pouso-os no regaço e embalo-os no doce calor da expectativa e da esperança.
Mar
Publicado por sharkinho às 10:14 AM | Comentários (15)
dezembro 20, 2005
A POSTA SURPRESA
Foto: sharkinho
Se há coisa que raramente me acontece é ficar sem palavras. (e menos ainda acordar às 4 da matina e sentar-me na cama como que em piloto automático - leia-se zombie - para registar o que me pareceu então ser o único início possível para um post, depois de ter estado um serão inteiro, em vão, a espremer os miolos sobre o assunto...)
Ficar sem palavras é estranho. Uma pessoa engole em seco, três, quatro vezes, respira fundo a ver se as tipas sobem com a pressão do ar acumulado no estômago (virão as palavras do estômago, a propósito?), abre e fecha a boca como se fosse um peixe em apneia e nada. Nada. Nem um decibelzito de som para amostra. É perturbador. Principalmente, para alguém que fala pelos cotovelos, antebraços e até pelos dedos todos que tem nas mãos.
Deixar alguém sem palavras requer um conjunto de características que não está ao alcance de qualquer comum mortal. Uma capacidade argumentativa superior, inteligência acima da média, fluência no discurso e um raciocínio estratégico capaz de imprimir um tom suficientemente displicente na conversa para, coisa que também se deve saber à partida, conseguir despertar o demoniozinho "do contra" que habita dentro de certos seres. (o meu é verde com umas manchas amarelinhas, antenas esticadas para captar tudo, o sacana, e usa uma capa à herói - mania que se desenrasca de todos os desafios). Enfim, continuando a tergiversar porque não sei como hei-de abordar a questão principal, certo é que o gajo, o demónio do contra, arrebitou as orelhas (não disse ali mas o meu também tem, pontiagudas), pensou deixa cá ver se o tom displicente é mesmo porque ele não faz assim muita questão da coisa e aí eu digo logo que sim, se é porque ele até faz mas está a tentar embarrilar-me ou é porque ele acredita mesmo no que está a dizer e então fico toda baralhada (ah, o género é feminino, óbvio, portanto tenho que reformular e dizer que tenho então uma "demónia" do contra dentro de mim). (já me perdi, caraças)
Fiquei baralhada, resumindo. Um blogue é assim uma coisa muito "pessoal e intransmissível", algo que equivale à nossa gaveta das cuecas e passá-la a outra pessoa - mesmo que seja o nosso mais que tudo - para que lá guarde os seus peúgos, requer um grau de confiança difícil de obter, mesmo nas relações mais próximas.
Fiquei encantada, em simultâneo, por ele considerar que sou capaz - apesar de eu não achar o mesmo - de honrar os pergaminhos do Charco durante a sua ausência, por não temer nem por um bocadinho, que eu lhe destrua a reputação de blogue de qualidade, afugente todos os seus comentadores e visitantes, enfim, que lhe acabe com isto de vez, à conta das parvoíces e do mau feitio que me caracterizam e que não me privarei de vir aqui debitar, se para tal me der na mona...
Fiquei rendida, pronto. De novo.
E não podia deixar passar esta oportunidade de aceitar as chaves dum "flat" desta categoria, situado num condomínio fechado de luxo, com uma vizinhança do melhor que há, relvados a perder de vista, poças de água para chapinhar e um terraço virado para o mar, banhado pela luz do sol ou das estrelas, conforme o caso, e à mercê do Vento Suão de vez em quando.
Disse logo foi que não faço faxina, não cozinho, não faço fretes, não escrevo por obrigação, não aturo gente mal educada, não escrevo o que os outros gostariam de ler, abro e fecho a caixa de comentários quando quiser e, se me der na bolha, fico só ali estendida na chaise longue no terraço, a bronzear-me, sem fazer a ponta de um corno, pelo tempo que me apetecer.
Estamos entendidos, ó senhorio??
E podem considerar isto, olhem sei lá, uma Declaração de Princípios, ou assim.
Mar
Publicado por sharkinho às 11:10 AM | Comentários (28)
dezembro 18, 2005
UM ANO DE MIM
Chegou ao fim.
Abaixo, as despedidas.
Publicado por sharkinho às 06:30 PM
CONTAGEM DESCRESCENTE - 1
Foto: sharkinho
Se eu deixasse aqui escrito tudo o que tenho para dizer não teria mais nada a acrescentar depois desta posta.
O que sentirem que deixaram por dizer, por esta via, é aqui que devem deixá-lo se sentirem que vale a pena o esforço ou que as vossas palavras são necessárias. As outras vias, quem as tenha, ficam abertas a partir desta altura para tudo aquilo para que eu vos sirva de alguma forma. Fora daqui.
Deixo-vos os votos de um excelente Natal, melhores Entradas e um bom ano a blogar.
Acho que valeu a pena. E ninguém sabe o dia de amanhã...
Sejam felizes e façam o que mais vos apeteça, pois a vida não é imutável nem eterna.
Energia positiva para todos vós.
Detesto despedidas.
Publicado por sharkinho às 05:30 PM | Comentários (45)
CONTAGEM DECRESCENTE - 2
Está na hora.
Publicado por sharkinho às 03:43 PM | Comentários (7)
dezembro 16, 2005
A POSTA QUE DEU PORRADA DA GROSSA

O tipo, um asno fanfarrão arraçado de papagaio, nem hesitou quando lhe perguntei se conhecia a Patrícia.
- A Patrícia? Ò meu, aquilo é uma esfrega tal, uma aceleração, um calor, que no fim da cena um tipo até consegue estrelar um ovo nos tomates.
Boquiaberto pela imagem estrelada e pelo teor da resposta fiquei meio à toa, confesso. Mas recompus-me e tentei encaminhar a conversa para aquilo que me interessava.
- Deixa-te disso pá. A sério, conhece-la?
E ele, com um sorriso estampado no focinho lambão, devolveu-me um ar de quem percebe mesmo daquilo e vai a todas.
- Ando a comer a gaja, meu. Atão não havia de conhecer esse material? Umas mamas e um cu...
Tenho que fazer uma pausa na história, tal como o fiz na minha conversa com o pintas. Algures no meu processo de formação pessoal um veterano explicou-me que era de bom tom guardar segredo acerca de certas merdas. Como os melhores recantos para dar uma queca de rua sem receio dos mirones, as melhores barraquinhas de couratos no Estádio da Luz e, de um modo geral, todas as preciosidades que não queremos cobiçadas por demasiadas pessoas.
Nesse manancial da informação de manter secreta incluía-se, claro está, a identidade das mulheres com quem dormíamos. Até porque, como esse "velha guarda" salientou, cai bem às miúdas e torna-nos mais apelativos para as que precisam de fazer a coisa pela surra (sobretudo as casadas, dizia-me ele).
Pela lógica do ponto de vista e, convenhamos, também por me parecer mais digna essa forma de estar, passei a seguir as suas recomendações como uma cartilha.
Mas o Baptista não. Punha a boca no trombone e para ele eram todas uma vacas a partir do momento em que cedessem ao seu encanto natural. Ou o rejeitassem. E chamava-as pelo nome, para que todos tomassem nota de quais as que estavam "marcadas" com o ferro da sua ganadaria de que tanto se orgulhava que não hesitava publicitar.
Porém, essa sua característica acabava de me entalar na conversa. Ainda ponderei a opção de sacudir o assunto com um "por nada, por nada...", ou assim. Mas com o problema posto daquela forma, não me restava uma escapatória. Tinha que dar sequência ao assunto, não fosse o Baptista julgar que eu lhe cobiçava a "mercadoria".
E ele disparou a pergunta inevitável que qualquer um colocaria naquela ocasião.
- Mas porquê?
Tentei ler-lhe nos olhos alguma emoção, para perceber se a Patrícia (por acaso uma tipa inteligente, excelente conversadora e boa onda) tinha algum estatuto especial junto do meu interlocutor. Mas claro que ele, durão e burroso, botou aquele ar de "para mim tanto faz se é patrícia ou joana, marchou e tá a andar". E isso irritou-me um nadinha, até porque todos tínhamos a noção de um Baptista a tender para o gabarola. Daqueles gajos que as comeram todas e mais houvesse. Mas apesar disso ficava-se sempre na dúvida, perante as sumarentas descrições que ele fornecia acerca dos atributos das carradas de amantes na sua boca.
Por isso decidi avançar com a informação à bruta, até porque no dia seguinte já toda a gente saberia no liceu o que se passava e, por ironia, tocara-me contar a cena ao Baptista em frente dos cinco ou seis colegas de turma que me acompanhavam na altura e dos outros tantos da turma dele.
E a verdade doeu, no sorriso que me escapou enquanto a revelava.
- A Patrícia está grávida do teu irmão.
Publicado por sharkinho às 12:55 PM | Comentários (33)
FIGURANTE VIRTUAL
Foto: sharkinho
Aos poucos apagaram-se as luzes no palco e na plateia o vazio assentou. Por detrás das cortinas, o protagonista aclamado espreitava e os aplausos recordava do dia em que o espectáculo começou.
Momentos de glória com o público de pé nos balcões da memória de um tempo de fé.
E nos bastidores contavam-se os amores, ecoavam gargalhadas, escorriam lágrimas pelas histórias acabadas numa dramática encenação.
Pura ilusão, nascida dos laços fictícios de personagens irreais. Próximos demais. As luzes da ribalta ofuscavam os olhares e invertiam-se os papéis. O amor ficcionado nos mais altos decibéis para uma assistência sedenta de emoção. Traídos pelo coração, embrenhavam-se na novela e aquilo que faziam dela era uma cópia quase perfeita de um romance original. Engano fatal.
Não tardavam a perceber que o enredo se aproximava do fim, prenunciavam a última descida do pano sobre a farsa e o engano terminava assim. Com o público de pé nas cadeiras vazias, no silêncio dos dias em que uma peça diferente era inscrita no manuscrito do dramaturgo. A história de um burgo onde era uma vez um casal alemão, outro conto de ficção para encantar a audiência depois da falência da falsa esperança anterior. A verdade do amor que a realidade fantasiou.
Mas a história acabou, arquivada no relicário das emoções teatrais. Fotografias.
As actrizes principais debandavam e decerto já sonhavam os adereços para um novo papel. Mas nunca o admitiam, influenciadas pela trama onde o pano caiu sobre a euforia e a excitação da última representação na peça que saiu.
De cena, com as luzes apagadas e as cadeiras abandonadas ao pó. E o protagonista ficava só, à espreita do que o passado lhe deixou. As lembranças que conservou de um cenário que não lhe servia no imaginário que desenvolvia as histórias sem fim. Fazia de conta que era assim, no final de cada actuação.
E sorria patético, por detrás das cortinas, incapaz de processar a imagem das retinas numa mente que perseguia uma bela utopia que não constava do argumento real.
Na cena final o amor já não acontecia, era pura fantasia. Se calhar um pesadelo, que a realidade é um camartelo a postos para a demolição. Das histórias baseadas na ficção, irrealistas.
No passado a pista que o personagem espreitou sob a pele do artista que um dia acordou.
E foi nesse dia que a nova peça estreou.
Publicado por sharkinho às 11:12 AM | Comentários (7)
A POSTA SEM PALAVRAS II
Fotos: sharkinho
Publicado por sharkinho às 09:11 AM | Comentários (6)
dezembro 15, 2005
A POSTA NA SURPRESA AGRADÁVEL

As pessoas, nós todos, são capazes das coisas mais surpreendentes (aliás, a vida é cheia de surpresas). Não há dados adquiridos no que respeita ao comportamento humano, no melhor como no pior, sendo cada vez menos pertinente a expressão contrasenso.
De maus exemplos está o mundo cheio e basta reparar nos telejornais para deles tomar consciência, caso não sejamos nós os protagonistas - considerando as bizarrias que despontam nas parangonas, envolvendo cidadãos aparentemente "normais".
A normalidade, digo eu, é a loucura reflectida no dia-a-dia de cada um de nós, a exteriorização dessa estranha "felicidade" que meio planeta nos inveja (e com alguma razão, embora seja evidente o desperdício ocidental nessa matéria).
Mas também surpreendemos pela positiva. E hoje, inspirado na troca de comentários entre mim e o Zé Quintas duas postas abaixo, decidi falar de duas surpresas de que dei conta e que me baralham no pessimismo que algures adoptei como regra em vez de prudente excepção.
Começo pelo comentário do meu antigo sócio na Casa de Alterne.
O fim da parceria entre mim e o homem que recrutei da caixa de comentários do Chez Maria para o "lançar às feras" na pele de blogueiro-autor aconteceu para mim de uma forma súbita, fortuita e inesperada. Um acidente, portanto. E nunca cheguei a entender o cerne da questão, embora desconfie que me caibam as culpas no cartório.
Certo é que esse processo de ruptura nos afastou de alguma forma.
Contudo, e como poderão constatar se tiverem paciência para ler o comentário mais longo que já escrevi, recebi do Quintas (o homem que fala montes de absolutamente de sexo, de crime e de outras barbaridades) uma intervenção com a qual não contava. Pelo tom, pela forma, pela surpresa de ver uma das pessoas a quem, tudo indica, desiludi (e vice-versa) esmerar-se por me contrariar a deserção anunciada.
É tão fácil deixar cair as pessoas neste meio... Basta o silêncio prolongado, a ausência de um contacto que constitui (como lá fora) a essência de qualquer ligação digna desse nome. E foi essa ligação que o José Quintas reactivou à bruta, provando-me errado numa data de conclusões a seu (a meu) respeito e, acima de tudo, revelando um conhecimento de causa que me partiu todo pois prova que o silêncio do Zé não implica o seu afastamento deste blogue (e da minha pessoa, por inerência).
Por tudo isso e porque sim, reabro as caixas de comentários (exceptuando a de alguma posta mais privada) até ao último suspiro do charco.
Tens toda a razão, rapaz.
O outro exemplo chega-me de um país distante chamado Butão. Nesta minúscula nação dos Himalaias, onde o progresso ainda não conseguiu impor-se com a mesma determinação com que nos inferniza, reina desde o início do século passado a família de Jigme Singye Wangchuck. E desde há 31 anos é ele quem ostenta o ceptro, a coroa e o poder efectivo no país.
Dificilmente um cinquentão com um nome tão esquisito e com residência no cu do mundo seria digno de menção neste blogue, mesmo sendo o líder de um povo qualquer.
Então, porque reúno o Zé Quintas e Sua Majestade El-Rei da Conchichina nesta posta?
Pelo efeito surpresa. Dom Jigme (na minha ignorância plebeia, julgo que qualquer rei tem o Dom), contemporâneo dos Saddam Husseins desta nova (des)ordem mundial que são corridos do poder a pontapé e à morteirada, anda pelo reino a fazer campanha... pela sua destituição do cargo!
É verdade. Sua Alteza, e não estou a ironizar, defende o fim da monarquia na terra onde reina sem contestação. Mais ainda, a população nem quer ouvir falar de tal coisa...
E a coisa explica-se pelo discurso do Rei a propósito do seu intento: "Nos tempos vindouros, se a população tiver sorte, o herdeiro do trono pode vir a revelar-se uma pessoa dedicada e capaz. Por outro lado, esse herdeiro pode ser um medíocre ou mesmo um incapaz". Assim, sem merdas.
Não pude reprimir a imagem do nosso Dom Duarte de Bragança, na minha reacção instintiva de republicano filisteu. A argumentação do monarca que defende a democracia parlamentar é, a meu ver, a mais simples explicação para o fim natural desse regime arcaico e sem qualquer viabilidade teórica ou prática. E não me venham com os exemplos de sucesso, como o Reino Unido ou a nossa vizinha Espanha, pois não é desse tipo de regência paparazzi que estou a falar.
Estou a falar do poder absoluto, concentrado nas mãos de uma pessoa, qualquer pessoa, só porque nasceu com o pedigree adequado, com o cu virado para o melhor lado ou porque numa terra de cegos quem tem um olho ou é um general influente ou apenas tem veia ditatorial é "rei".
E é desse tipo de poder que um homem digno da maior admiração se propõe abdicar, contra a vontade do seu povo. Apenas porque acredita ser o melhor para o futuro da nação.
Eu votava num homem assim para líder do meu país. Em havendo essa opção, ou uma (pelo menos) vagamente parecida.
E no Jota também, se ele não fosse um anarca tão despudorado...
Publicado por sharkinho às 12:12 PM | Comentários (7)
dezembro 14, 2005
NA TERRA PROMETIDA
Quando a morte me procurar e eu fingir que não a vejo, é para ti que vou olhar implorando um último beijo.
E se comigo não estiveres quando esse momento chegar, saberás que partirei com a certeza de te encontrar.
Na Terra Prometida de um paraíso sem saudade, existe um espaço reservado para a nossa eternidade.
E se tudo isto não passar de uma efémera ilusão a dois, devemos desbundar-nos hoje como se não existisse um depois.
Gostaria de ser um poeta e dedicar-te belos sonetos mas sou um mero prosador de discutíveis talentos.
Arrisco retribuir-te a forma como me estimas nesta prosa apimbalhada pela pobreza das minhas rimas.
O desejo que me consome será fruto do instinto, mas não renego nas minhas palavras tudo aquilo que sinto.
Uma alma incendiada move montanhas até. E cada paixão idolatrada é um grito de alegria e de fé.
Deixo aqui estas palavras na esperança de que estejas à escuta deste sussurro beijado no calor da tua nuca.
O amor é imortal e as suas marcas são poderosas, gravo a fogo na memória as tuas dádivas generosas.
Por isso acredito na força que nos uniu e a tudo e a todos resisto. A verdade que defendo é aquela na qual insisto:
Na Terra Prometida de um paraíso sem saudade, existe um espaço reservado só para a nossa eternidade!
Publicado por sharkinho às 12:32 PM
dezembro 13, 2005
A POSTA QUE TÁS MESMO A PEDI-LAS
Ao longo da minha presença na blogosfera tentei entendê-la. Não consegui, como os factos comprovam, mas aprendi a lidar com alguns dos seus fenómenos mais comuns.
Como o do tradicional insulto, mais ou menos polido, que sempre alguém gosta de deixar na caixa de comentários de algum(a) blogueiro(a) com quem embirrou.
Deve ser tentadora, esta bebedeira de liberdade que nos permite insultar sem castigo, vilipendiar sem sentido ou simplesmente dizer nas trombas de um bacano que não se gosta do gajo e tá a andar.
É óbvio que não podemos fazer jogo duplo nestas coisas. Se abrimos a caixa, temos legitimidade para apagar o que não corresponda aos nossos anseios mas aí traímos o espírito da coisa.
Esta questão ética, numa altura em que me apresto a encerrar o meu ciclo blogueiro, tem mexido com a minha consciência.
Eu tenho um blogue. Sou o dono, ponho e disponho porque pago para o ter. Posso por isso apagar os comentários que quiser, clique e já está, bloquear IPs aos mais insistentes e por aí fora.
Mas isso é uma forma de cercear a liberdade de expressão e assim fomentar a hipocrisia nas relações virtuais. Uma coisa que colide contra os meus princípios nesta hora dos fins.
Por isso sou livre de abrir uma excepção e permitir que toda a gente que por aqui passa e não gosta do blogue, do autor, da cor das suas cuecas, seja o que for, possa exprimir livremente a sua opinião, sem receio de cortes ou de censura. Uma espécie de catarse colectiva, onde podemos livremente exprimir o nosso desagrado e até obtermos uma reacção.
Claro que preferia que evitassem os palavrões, por exemplo, isto para evitar o avacalhamento da iniciativa e para lhe conferir a credibilidade de que necessita para ser um exercício satisfatório para todas as partes envolvidas. Até porque dói muito mais uma crítica fundamentada do que uma boca sem justificação e já reconheci que não sou nenhum doutor e dou o "corpo" ao manifesto nas minhas limitações identificadas.
Não estou a brincar. Se tiverem algo para dizer de desagradável, aquilo que sempre quiseram deixar no charco para memória futura, esta é uma oportunidade única para o fazerem de uma forma definitiva e com a devida projecção.
A melhor tirada será transformada numa posta, com crédito ao autor pelo peso que representam as críticas no conjunto dos comentários e no funcionamento global da blogosfera.
Naturalmente, não deixarei de oferecer uma oportunidade a quem pretenda fazer o contrário. Democracia é assim e o meu ego tem as mesmas carências dos das outras pessoas que blogam. Mas estou certo de que num caso como no outro poderei contar com a generosidade habitual de quem me ajudou a construir o charco e/ou a dar-me cabo da paciência e das condições para o manter.
Vamos lá, não se acanhem. Caixa aberta e despejem lá o saco de uma forma original e que vos satisfaça a sede de cascar no coirato do tubarão. Prometo responder de forma isenta e frontal a todos os comentários (até porque não tenho nada a perder, nesta pele de defunto anunciado) e assim merecer o vosso empenho.
Podem ser anónimos ou não, tanto faz. Pontos nos is é agora ou nunca. E escusamos de ficar com cenas atravessadas e ainda damos um excelente exemplo de sinceridade e de poder de encaixe que poderá fazer escola, na base da terapia de grupo mensal ou coisa que o valha.
Caixa aberta, desafio lançado.
Estou à vossa inteira disposição.
Publicado por sharkinho às 08:40 PM | Comentários (42)
A POSTA NA BRINCADEIRA
Adoro bonecas com um bom sentido de humor.
Publicado por sharkinho às 08:00 PM
O POSTAL ILUSTRADO II
Ainda o espírito do Natal, sempre bonito, na óptica politicamente correcta da segurança rodoviária.

Publicado por sharkinho às 07:48 PM
A POSTA NO CALOTE

Para quem só agora sintonizou esta frequência da blogosfera, devo avisar que o(s) tema(s) de hoje é(são) uma seca.
O tema principal é o futebol, excelente para cativar as audiências como o provam os telejornais e a liderança indisputável da TVI.
Mas o tema não é a Comunicação Social e as suas escolhas inenarráveis em matéria noticiosa. O tema é futebol, mas para lhe conferir alguma credibilidade juntar-lhe-ei uns pós de política e de economia. Aliás, não é novidade a ligação entre os temas que já citei. E assim sendo, nada de novo acrescentarei com a minha reflexão que dá substrato a esta posta.
Se a reflexão é minha, isso deveria bastar para que a maioria de vós mudasse de posto de imediato e procurasse blogues em condições para tratar estes assuntos sérios que os blogueiros de segunda categoria utilizam para se armarem ao pingarelho.
Já em bicos de pés, pigarreio para a assistência, alinho algumas folhas em branco para dar o ar perante as câmaras (os vossos olhares) e passo à reflexão.
Eu, que me afirmo de esquerda e canhoto ao ponto de até a minha pila reflectir essa tendência, essa inclinação para a esquerdalha, tenho tentado explicar a mim próprio onde está a revelar-se essa mesma tendência na governação actual do país. É que a coisa foi entregue à balda (com maioria absoluta) a um partido de esquerda e eu só ouço falar em comboios e em aviões, em mega obras públicas de construção civil que, perdoem-me a xenofobia de pacotilha, é como o dr. João Salgueiro afirmava há dias na SIC Notícias: só diminui o desemprego entre a comunidade ucraniana, moldava e similares.
E isto faz-me lembrar o tempo dos governos de centro-direita que (diz-se) enterravam os milhões em alcatrão para estimularem a economia.
A vitória de ontem do Setúbal sobre o Belenenses começou por me trazer à ideia o facto de ser tão estranho uma equipa com salários em atraso (o Setúbal) obter tão bons resultados como é espantoso um clube sem cheta (o meu Glorioso) eliminar um colosso europeu como o Manchester. É uma receita ganhadora, como o comprovam a classificação da equipa sadina na presente época e a surpreendente presença do Benfica nos oitavos de final da Liga dos Campeões à custa dos milionários britânicos.
E é aqui que entra a política de braços dados com a economia que a sustenta.
O governo socialista, recorrendo a uma estratégia que o Estado tem vindo a aplicar sob o domínio de qualquer corrente ideológica, está a dinamizar a economia com o sistema adoptado pela direcção do Vitória de Setúbal. O segredo está no adiamento dos pagamentos aos fornecedores ou mesmo no calote puro e simples. O tecido empresarial que se envolve com o Estado possui de antemão uma filtragem que o torna mais sólido do que a concorrência: só sobrevivem os mais fortes.
Por outro lado, o estrangulamento do sector privado disfarça os deslizes financeiros de algumas empresas públicas e até as pode tornar mais competitivas. É o caso da Caixa Geral de Depósitos, onde muitos dos empresários entalados pelo buraco orçamental depositam as suas esperanças e levantam mais tarde o penhor da gratidão estatal. Sim, são penhoradas e ganha a Nação (o principal credor). Ou então começam a cortar nos salários e a malta aumenta logo a produtividade (como no exemplo do Vitória de Setúbal).
É genial, a visão estratégica do Estado Português. Aliás, o distrito de Setúbal conhece bem o resultado da simbiose entre os sucessivos governos e a iniciativa privada, com a Auto Europa a prosperar à conta de pequenos apertões nos testículos da economia nacional que lhe rendem milhões em benefícios fiscais e domesticam a contestação laboral com papões de encerramento e consequente desemprego de milhares de pessoas. Um must da gestão de influências, manda quem pode e o resto amocha.
Mas já estou a afastar-me do tema principal.
O comportamento inexcedível dos futebolistas sadinos só pode ser atribuído ao facto de os rapazes jogarem à bola por prazer. Não pelos salários milionários (que veêm por um canudo), mas pelo gozo simples do futebol de rua. Não é à toa que as(os) vitórias surgem na Primeira Liga. E se nalguns casos a malta especula com os apitos dourados e outras suspeitas infundadas, no caso do Setúbal é evidente que o sucesso não passa pelas luvas. Ou então, também a arbitragem funciona melhor quando está em causa apenas a verdade desportiva e temos reunidas as condições para uma evolução sem precedentes do futebol lusitano.
Em poucos anos, nem o Real Madrid fará frente a este Vitória. Bem podem ir reservando os bilhetes de volta no TGV (se já houver na altura), caso lhes calhe defrontarem os nossos rapazes de um dos distritos mais pobres de Portugal.
Sem pilim, os portugas funcionam melhor (como era evidente no regime salazarista). Ninguém paga a ninguém e a coisa funciona com base na motivação pessoal, no traquejo que se adquire a esticar o pouco que vai pingando. E é esse afinal o segredo que vamos ensinar à Europa do futebol.
E não só.
Digo eu... (que de política não percebo mesmo nada).
Publicado por sharkinho às 10:40 AM
dezembro 12, 2005
A POSTA QUE POR ACASO PREDESTINEI
Foto: sharkinho
Há quem diga que nada acontece por acaso. Existe até quem afirme que o acaso não é real. Ou seja, aquelas tristes coincidências que nos fazem a vida num inferno não passam de predestinações congeminadas por uma força superior. Alguns chamam-lhe Deus. E aceitam a cena como um castigo, uma punição pelos pecados que cometeram por mero acaso num momento de crise de fé.
Custa-me a acreditar que o acaso não exista. De resto, sempre que paro à saida de casa para abotoar os atacadores penso se essa decisão não poderá custar-me a vida. Se calhar, esses segundos preciosos vão cruzar o meu caminho com o piano de cauda que por acaso decidiu cair naquele instante fatídico em que transpus a porta da rua. Ou antes pelo contrário. A decisão terá sido minha, abotoar ou não abotoar, mas nada me diz que terei evitado o piano em queda por adiantar a passagem pela sua rota de colisão com o meu toutiço para depois tropeçar nos atacadores desapertados na corrida para o autocarro e enfiar a moleirinha num poste de iluminação.
Estava escrito, dizemos, quando acontecem coisas assim. Assumimos o azar como uma maldição e a sorte como um mérito que nos assistiu. Estava escrito pelo destino nos astros ou por Deus noutro suporte qualquer e não há nada a fazer. O livre arbítrio resume-se nesse caso a pequenas reviengas com as quais podemos eventualmente fintar a sina que nos tocou. Para melhor ou talvez não, pois aquela decisão de entrar na curva a cento e quarenta, esse desafio tão estimulante, pode ser o caminho acertado para a eternidade como pode evitar-nos um manjerico em contramão.
Confusa, esta perspectiva das coisas. Até porque eu sou daqueles líricos que gostam de acreditar na capacidade de gerir o seu destino e de influenciar (determinar) o que os anglófonos designam por outcome da cena. E nesse caso, acredito no acaso e considero as estatísticas evitando o escalamento de edifícios ou a sesta numa jaula de leões para ocupar o tempo livre que o destino me oferecer.
Em vão, se existir a tal predestinação, tento afastar do caminho as ameaças potenciais, evitar os sarilhos e rejeitar as tentações. Será o que tiver que ser e restará esmifrar a vidinha até ao tutano como se não existisse o dia de amanhã. Uma opção inteligente, aliás, que até se coaduna com a minha forma de estar. E aí só posso concordar com a posição dos que se submetem à inevitabilidade dos desenlaces e mergulham de carola em qualquer turbilhão.
Talvez por acaso, a minha opção agnóstica constitui uma receita ganhadora para abrir o peito a qualquer tipo de fé. Ou mesmo à combinação de uma data delas, pois acaba por ser irrelevante a questão quando nos confrontamos com a desdita ou nos regalamos com uma fezada qualquer.
A cavalo dado não se olha o dente, venha a sorte que vier. E guardado está o bocado, faça a gente o que fizer. Seja um acaso ou não, pois o problema só se coloca se tivermos o dom da adivinhação (algo que nos aproxima demasiado do conceito de Deus ou da tal força superior que nos destina as alegrias e as ralações).
Não temos esse condão e por isso mais vale ignorar quaisquer crendices ou superstições, avançar pela vida com determinação condimentada com uma pitada de prudência e pouco mais. Vai ao lume no inferno se existir um underground dantesco na eternidade dos pecadores. Ou fica em banho-maria no purgatório dos assim-assim. E pode até ser servida fria, essa vingança dos deuses que será a oferta do paraíso aos que souberam gozar a vida a valer, sem medos ou castrações artificiais.
Na gastronomia do Além, a ementa é sempre uma incógnita e ninguém sabe o preço a pagar pelas doses individuais de prazer e de satisfação terrena.
Mais vale oferecermos ao corpo o que a alma não nos pode garantir, mesmo que já esteja predestinado o nosso futuro como tocadores de harpa numa nuvem qualquer. Não o sabemos e por isso não devemos desaproveitar as melhores oportunidades que cada dia nos proporciona para entendermos o que é ser feliz.
É essa a decisão que não pode ser entregue ao acaso, sob pena de a vida nos passar ao largo enquanto aguardamos o momento de nos eclipsarmos numa cova qualquer. É outra das hipóteses que a lógica agnóstica nos obriga a considerar. E a lógica pura também.
Não vá o diabo tecê-las, por acaso, numa segunda-feira mal humorada...
Publicado por sharkinho às 10:33 AM
dezembro 11, 2005
NAS FOLHAS
Escrevem-se as histórias que a brisa de Outono nos queira contar.
Foto: sharkinho
Publicado por sharkinho às 11:26 PM
A POSTA NOSSA AMIGA

Publicado por sharkinho às 07:51 PM
DEMOCRISIA
Foto: sharkinho
Eles diziam-me: os militantes têm a obrigação de se aproximarem do partido e de se disponibilizarem para qualquer tarefa necessária.
E eu retorquia, mesmo tendo em conta o respeito que me merecia a dedicação daquela rapaziada ao aparelho: essa é boa. Então cada vez a militância está mais manca e nem isso faz com que seja do partido a obrigação de se aproximar das pessoas, de lhes propor projectos a que possam aderir?
E eles insistiam na sua óptica instalada de quem possui a chave da porta e não tenciona partilhá-la com os "de fora".
E eu rebatia, com alusões cruéis à ausência sistemática da esmagadora maioria dos poucos que ainda pagavam as quotas. Tentava provar-lhes que a passividade não servia os interesses da estrutura local.
Não chegámos a qualquer conclusão.
Pouco tempo mais tarde, após dez anos de militância, percebi finalmente qual era o meu lugar na estrutura e agi em conformidade.
Desfiliei-me.
Publicado por sharkinho às 07:30 PM
dezembro 10, 2005
ISTO TAMBÉM É
Fotos: sharkinho
ALENTEJO!!
Publicado por sharkinho às 06:42 PM
ISTO É
Fotos: sharkinho
ALENTEJO!
Publicado por sharkinho às 05:54 PM
A POSTA QUE ÉS CAPAZ
Foto: sharkinho
Um pequeno interlúdio para dar a barbatana a torcer (a puxar) ao meu viril amigo apreciador de dualidades (dicotomias, queria eu dizer).
Quando me puxares as ditas cujas, toma cuidado com as de baixo.
São só duas, nada de confusões...
Publicado por sharkinho às 04:37 PM
dezembro 09, 2005
A POSTA NAVEGADA
Foto: sharkinho
Lambeu dos lábios os restos de sal, olhou de relance para a enorme mancha azul que dominava o horizonte nas suas costas, coberta ao longe por um cinzento escuro que denunciava o temporal de que escapara.
Depois sorriu e sem pressa continuou a arrastar o barco para o sereno recolhimento em doca seca.
Publicado por sharkinho às 09:22 AM
dezembro 08, 2005
GEMER LIBERDADE

Muzi Mei é o nick de uma colega blogueira que mereceu destaque na edição desta semana da revista TIME.
E o que distingue Muzi Mei do resto da malta que bloga?
É chinesa, é mulher e utiliza o seu blogue como um instrumento para mudar mentalidades. Mas a nossa colega toca muitos instrumentos. Nas suas próprias palavras já tocou muito mais de cem, o que, mesmo sob os padrões chineses, representa uma carrada de metros de pila.
Pila?
Sim. A Muzi Mei é uma ex-jornalista com 27 anos de idade que, num país onde se pode apanhar 10 anos de cadeia por blogar contra os interesses do regime, tanto descreve a sua apetência por orgias e pelo engate na net como a sua relutância relativamente ao casamento por causa da cena da fidelidade a um homem só.
Li Li, de seu nome, é um espírito livre da blogosfera que escolheu a liberdade de amar.
Não há tanques que valham ao governo chinês para esmagar a revolução que a vida sexual dos jovens da nova China está a sofrer.
A intrépida blogueira residente em Pequim crashou o servidor quando decidiu postar uma gravação do som das suas manifestações de regozijo na cama. Cinquenta mil pessoas tentaram fazer o download em simultâneo...
E isto numa terra onde as regras do jogo sexual foram ditadas ao longo de décadas pelo partido do poder. Onde qualquer sinal de rebeldia é tido por uma ameaça e reprimido sem contemplações.
Mas o "problema" que os governantes desta China em acelerada liberalização dos costumes enfrentam é impossível de controlar.
Mais de um terço dos chineses abaixo dos 26 anos de idade defende a legitimidade do sexo extraconjugal. É obra. E prenuncia um mundo onde a Li Li se sentirá como peixe na água, onde proliferam as boutiques de lingerie (Yesss!) e disparou a procura de "brinquedos" para complementar a paródia. Um dos mais bem sucedidos, especialmente desenhado para senhoras, tem o sugestivo nome de "borboleta erótica" e é um absoluto made in China.
Sou um adepto confesso de pessoas como a Muzi Mei. Pela sua coragem, pela sua rebeldia e pela nobreza da causa que defende. E não estou (só) a falar da atitude perante o sexo. Ela advoga a liberdade de escolha sobre a sua vida e sobre o seu corpo, sobre as suas opções, num país onde as autoridades arrepiam pela sua prepotência e inflexibilidade no controlo dos cidadãos.
É uma mulher sensual cuja popularidade reflecte o interesse dos jovens chineses numa mudança de atitude, numa consciência do direito à liberdade de iniciativa individual numa nação onde educar é sinónimo de massificar.
Por isso lhe rendo homenagem nesta posta.
Assim já entendo para que serve a merda de um blogue.
Publicado por sharkinho às 01:26 PM
dezembro 07, 2005
CONTAGEM DECRESCENTE - 3
Foto: sharkinho
Quanto mais se tapa a cabeça, mais se destapam os pés. Ou quanto mais nos agachamos, mais mostramos o cu.
São duas imagens que se aplicam na perfeição à maioria das situações que vivemos no relacionamento com outras pessoas.
É uma estranha tendência que, regra geral, todos evidenciamos. Se em teoria é fixe acreditar que devemos dar o litro, exibindo o nosso interesse e o nosso empenho na satisfação do (ego do) outro, na prática esse é o melhor caminho para desinteressar qualquer pessoa. Mostramos o cu se damos demasiada importância a alguém, pois está na natureza da maioria sentir-se atraído(a) por quem nos rejeita ou apenas demonstra pouco entusiasmo.
É um fenómeno curioso, geralmente atribuído às mulheres (mais por tradição, convenhamos). Fazem-se difíceis (é o que consta) para obterem o tal resultado mágico que põe os homens a prostrarem-se a seus pés. E vice-versa. Um jogo de sedução, no fundo, à medida das complicadas e exigentes tolas de cada um de nós.
Naturalmente, não é fácil a posição de uma pessoa que se vê no lado errado dessa reacção espontânea do outro. No fundo, é aquela sensação desconfortável de nos sentirmos uns patos que nos invade e dá-nos vontade de contrariar tal tendência à bruta.
Por outro lado, dá azo a confusões essa postura de aparente desinteresse. É que pode tratar-se de desinteresse genuíno e não apenas de fachada e aí pode proporcionar-se um cenário de demasiada insistência por parte do alvo da rejeição. Uma complicação, isto das relações entre as pessoas...
Eu, que sempre dei atenção ao assunto pessoas (está-me no sangue), tenho assistido a diversas manifestações desse comportamento bizarro e noto que as repercussões raramente são as desejadas. Porque as pessoas viciam-se nessa pose distante que assumem por instinto ou por opção estratégica e desequilibram assim as relações estabelecidas.
Ao fascínio(?) inicial sobrepõe-se a saturação, tanto do lado de quem rejeita (pela reacção "cola" do outro) como de quem é rejeitado (por se fartar de levar na tromba com os indicadores da falta de pachorra do alvo da sua devoção/dedicação).
A coisa manifesta-se das mais variadas formas e em diversos domínios da interacção humana analógica ou virtual, mas a mim ocorreu-me a propósito das caixas de comentários e de uma posta do Eufigénio (sempre na berlinda por estas águas) a esse respeito.
Eu decidi fechar as minhas.
Em boa medida pelo mesmo motivo que me levou a deixar de frequentar as das outras pessoas.
Publicado por sharkinho às 11:59 AM
dezembro 06, 2005
A POSTA DANÇADA
Só danço bem quando estou com os copos, assim a meio caminho entre o atravessado e o muito grosso.
Etilizado, porém, não distingo bem o baile que me dão.
Mas cedo ou tarde, nem que seja a baldes de água fria, desperto.
E é então que paro de dançar.
Publicado por sharkinho às 11:06 PM
CADA UM TEM... II
...Os heróis que merece.

Ernesto Guevara de La Serna
Publicado por sharkinho às 08:34 PM | Comentários (22)
A POSTA CALADA
Foto: sharkinho
Queria
dizer tanta coisa...
Tanta coisa que queria e não posso dizer.
Podia dizer outras coisas que não quero, só por dizer.
Mas não seria isso o que eu quereria.
E, por isso, não digo nada.
Publicado por sharkinho às 10:04 AM | Comentários (30)
CONTAGEM DECRESCENTE - 4
Foto: sharkinho
Captei a traição.
Capturei as palavras na minha memória.
Capitularei perante um adversário que me é superior.
Porque joga duplo.
E possui aliados de que nunca suspeitaria.
Sou incapaz de lhes resistir.
Admito que este não é o meu lugar.
Até o meu silêncio fala demais.
Publicado por sharkinho às 09:41 AM
dezembro 04, 2005
A POSTA NO FORCADO AMADOR
Foto: sharkinho
Fumo há muitos anos e tenho plena consciência do mal que isso me pode fazer. Não tinha a mesma noção quando comecei a fumar, demasiado jovem para temer as consequências que na altura não eram pintadas como papões em letras garrafais.
Mas isso não desculpabiliza a minha estupidez, claro, pois entretanto é ponto assente que o consumo do tabaco é como uma pega de caras aos cancros da garganta ou do pulmão.
E o forcado é só um...
Pode-se morrer de outra coisa qualquer, concerteza. E há quem viva nove décadas sem abdicar do vício estapafúrdio que nos leva a enfiar pela boca, cretinos, baforadas de químicos que podem dar cabo de nós.
Mas no momento em que a garganta me dói mais do que em qualquer outro dia da minha vida, mesmo que se trate de uma gripe normal, não consigo repudiar o raciocínio que me atormenta.
A gritaria anti-tabagista conseguiu vergar-me à sua eloquência.
O medo já pegou.
Agora só me falta a vergonha.
Que não chegue tarde demais.
Publicado por sharkinho às 10:13 PM | Comentários (4)
POSTAL ILUSTRADO
Para quem não entende o espírito da quadra...

Publicado por sharkinho às 06:49 PM | Comentários (3)
CONTAGEM DECRESCENTE - 5
Foto: sharkinho
As palavras são como camaleões. Mudam de cor na boca de quem as proferiu, quando a passagem do tempo as despe da pigmentação original. Adaptam-se à percepção de quem as tenta interpretar, coloridas o bastante para se camuflarem no novo pano de fundo que por detrás se instalou. O cenário que mudou.
E as palavras também mudam, afinal, desprovidas do seu sentido inicial. À solta pelo bosque dos mil olhares e das escutas, à mercê dos predadores da palavra no efeito que ela pode causar. Escondidas na vegetação, receosas, as palavras adquirem um tom que as proteja, que as dissimule por entre um mar de incertezas e de indecisões na folhagem que o outono entretanto empalideceu.
O contexto ao qual não conseguem fugir, cor-de-rosa desmaiado no futuro condicionado pela leitura transversal.
Na paleta das mais fortes emoções é cinzenta a cor das suas indefinições.
Mas as palavras subsistem e na prática assistem à sua deturpação, reagem num rubor que lhes aviva a cor ou numa palidez que as desmascara de vez. São letras de uma canção. Melodia que varia de acordo com o (des)acerto dos pares. As palavras dão música também.
As palavras são como coelhos. Acossados na toca por futuros furões para a saída que desemboca na jaula dos leões. Vulneráveis ao medo dos olhos que as leiam ou dos ouvidos que as possam escutar amanhã. Indefesas perante a falsa lã nas costas das hienas que as irão degustar, ideias passadas e mais fáceis de mastigar. Tenrinhas na sua inocência, mas venenosas nas barrigas de quem as não saiba encaixar.
Ambíguas nas suas mutações.
As palavras são ilusões, coisas efémeras que se produzem com a finalidade de alguém as esquecer. Levadas pelo vento para um destino qualquer, distantes do ponto de partida, diferentes na cor e no tom. Outros tempos as pintaram no papel de fantasia que a brisa arrastou para o vazio que se criou em seu redor. O vácuo das palavras sem som.
Criadas do nada que a sua existência não transformou, inócuas para lá do preciso instante em que se sonharam um verbo importante. Que depois esbranquiçou na lixívia, na relatividade que o tempo sabe lavar, como nódoas num futuro que se antevia melhor.
Verborreia passada a ferro pelo peso das evidências. Engomada no fundo de uma gaveta encravada no armário que o sótão escondeu no meio das restantes velharias.
As palavras que se anunciam apenas prenunciam a inevitabilidade do seu fim.
São, afinal, um espelho da vida de cada um de nós.
Serão os restos de mim.
Publicado por sharkinho às 06:11 PM | Comentários (6)
CATAVENTO
Ouço o vento ao longe, transportando os sons que o passado lhe confiou. Mais os segredos inconfessáveis, as emoções descartáveis e os enigmas indecifráveis que só o tempo revelará. As mentiras piedosas.
Não sei se conseguirá, o tempo, apanhar o vento que nunca se adivinha para onde irá nesse dia soprar. Respostas por encontrar para questões que nunca se colocarão na rota da deserção que o sopro escolheu.
Publicado por sharkinho às 01:10 PM
dezembro 03, 2005
A POSTA NO CARTAZ
Cada um é como cada qual.
Publicado por sharkinho às 04:13 PM
A POSTA NO JUMENTO

Foi a primeira e a última vez. E apenas porque estavam em causa os interesses de alguém (na altura) muito especial para mim.
Em boa medida o seu futuro estava condicionado (julgava eu) pelo sucesso da minha intervenção. Andara a brincar ao longo de um ano lectivo e o chumbo desenhava-se no horizonte, um ano perdido que poderia implicar a sua desmotivação e consequente abandono daquilo que me parecia ser a sua tábua de salvação anos mais tarde.
Por isso me meti ao caminho, entalado entre os valores que defendia (e que me impediam de alinhar numa cena daquelas) e a certeza de que a minha recusa em intervir implicaria um rude golpe no futuro da pessoa em causa. Na prática, eu preparava-me para usar a minha influência sobre um amigo, um professor do liceu, para salvar o coirato de uma estudante que dependia em absoluto de uma positiva naquela disciplina para não marcar passo no oitavo ano da sua mísera escolaridade.
Na prática eu via-me obrigado a meter uma cunha e a alinhar assim num dos esquemas mais ordinários de promoção da mediocridade que o nosso país aprendeu em 48 anos de sono.
Mas à minha vontade de boicotar essa via indigna para fugir ao merecido castigo de uma moinante sobrepunha-se uma estranha noção do dever que me impunha.
E por isso decidi engolir o sapo uma única vez.
O meu amigo era um homem em condições, não duvidava, e isso fazia-me adivinhar que também ele se sentiria entre a espada e a parede perante o que tinha para lhe dizer. Li o desagrado na sua expressão, contrastando com o sorriso simpático mais o abraço com que me recebera, quando lhe expliquei o que me trazia à sua presença.
Deixou bem claro que a nota correspondente ao desempenho daquela aluna era a mais baixa possível (um numa escala de zero a cinco) e mesmo sabendo que a isso corresponderia uma raposa, por via de outras duas disciplinas com negativa certa, seria esse o seu critério. Se eu não estivesse ali a esgrimir argumentos em abono da jovem preguiçosa ou burra demais para aprender, utilizando a amizade como arma de arremesso contra os princípios daquele homem. E contra os meus.
Cedeu, por fim, e foi a última vez que voltei a ouvir-lhe uma palavra. Virou-me as costas sem me estender a mão e foi à sua vida. Eu fiquei sozinho à porta da sala dos professores, envergonhado pelo meu papel e incapaz de lutar pela relação com aquele amigo que hipotequei por terceiros.
Dias depois, a pauta comprovava que a minha iniciativa produzira o efeito pretendido. A nota positiva naquela disciplina, um milagre incompreensível para os que se haviam esforçado, garantia a passagem de ano e a continuidade da jovem no seu caminho rumo a uma licenciatura que até hoje, quase vinte anos depois, ainda não completou.
Existem várias conclusões a extrair desse episódio e eu tenho tentado interiorizá-las. Fui oportunista, recorrendo à minha influência sobre alguém para falsear uma verdade e as suas consequências. Fui fraco, deixando que a pressão de outros e o meu tique de salvador da Pátria se sobrepusessem ao que eu sabia ser a atitude mais correcta a tomar. Fui corrupto, ao alinhar numa situação que possui todos os contornos do que encaro como um dos cancros mais malignos para a saúde do meu país.
E fui estúpido, ao sacrificar uma relação e uma escala de valores em prol de um objectivo sem eira nem beira. Na defesa dos interesses(?) de quem, anos mais tarde, se transformou numa das maiores ameaças que na minha vida enfrentei.
Não sei se aprendi todas as lições que este episódio me podia ensinar. Mas aprendi algumas, como o teor do meu texto denuncia e o meu comportamento desde então confirma.
Contudo, ficarei sempre na dúvida e nunca pagarei a dívida que contraí perante o amigo que atraiçoei por algo que se provou não ter valido a pena.
Por alguém cuja ingratidão e incapacidade para fazer bom uso da goela que o destino lhe deu à minha pála me servirá para sempre de exemplo, de uma prova irrefutável do erro que cometi e nunca poderei repetir.
Por alguém que em troca desse meu "favor" (e de outros que nunca reconheceu) me tentou destruir.
E pelo menos em parte conseguiu.
Publicado por sharkinho às 12:30 PM
dezembro 02, 2005
A POSTA NAS PONTES II
Gosto cada vez mais destes elos de ligação.
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Publicado por sharkinho às 04:30 PM | Comentários (7)
A POSTA NA ESSÊNCIA DA FELICIDADE
And you kill what you fear and you fear what you don't understand.
Genesis, Duke, Duke's Travels.
Ninguém entende o amor. Apesar de ao longo dos séculos muitos terem tentado explicá-lo, ou no mínimo traduzi-lo sob uma qualquer expressão criativa, não existe uma noção unanimemente reconhecida como definitiva a propósito da maior das emoções.
Para muitos, o amor é algo que se sente e pronto. Não há que tentar explicá-lo. Para outros, nem faz sentido aplicar essa designação aos seus enlevos passageiros, por muito forte que lhes bata o coração na presença ou na memória de outra pessoa.
Para a maioria, porém, o amor está presente qualquer que seja a intensidade ou a duração do seu envolvimento com outras pessoas.
Porém, a assumida (e generalizada) ignorância acerca do assunto pode (tem) um efeito pernicioso na atitude de quem ama(?). O medo do desconhecido é uma das reacções mais instintivas das pessoas. Assim sendo, o amor surge quase como uma ameaça a evitar, pela sua falta de razoabilidade, pelo seu impacto no comportamento de cada um e, acima de tudo, pelo desgosto que o seu fim pode acarretar em quem o assume.
O amor desorienta, perturba, exponencia as piores emoções. E por isso assusta quem se vê apanhado nesse turbilhão e imediatamente se sente tentado a negá-lo, para minimizar a importância dos seus afectos e poder mais facilmente abdicar de uma relação instável ou complicada de manter.
Na prática, este receio, esta aversão à carga pesada de um termo que diz "demais" acerca da ligação sentimental das pessoas está a matar o amor. Soa exagerado? Se insistirmos em renegar o conceito, aplicando-o apenas às relações ultra-apaixonadas, de longevidade promissora ou devidamente enquadradas num contrato matrimonial, estamos a afastá-lo aos poucos dos nossos hábitos e das nossas expectativas. Estamos a acobardar-nos perante a intensidade das emoções, reduzindo-as a uma expressão análoga que nos "desresponsabilize" relativamente às situações que enfrentamos nessa matéria.
E não é apenas uma questão de nomenclatura, é a agonia do romance à mercê do realismo que, afinal, apenas traduz uma visão pessimista do que se percepciona ao longo de um caminho, por norma, feito de desilusões.
Uma relação que não aceita o amor como ponto de partida para todas as explicações, para a sua própria justificação, é frágil, é fútil e não vale um caracol. Esta é a minha versão da coisa. Nem que dure dez minutos ou não mais do que uma intensa troca de olhares. Se mexe connosco ao ponto de nos baralhar as ideias, é de amor que se trata.
Não existe apenas um amor, pois este manifesta-se de imensas formas. Mais ou menos intenso, mais ou menos comprometido, esse factor desconhecido que nos une em ligações quantas vezes "impossíveis", essa atracção que nos empurra para os braços de alguém é sempre uma exibição clara do amor tal qual ele se revela. Inesperado, arrebatado, perturbador, quaisquer que sejam as suas hipóteses de continuidade ou de viabilização.
Claro que é mais fácil chamar-lhe paixão, ou outra coisa assim leve e fresca que lhe confira um cariz (alegadamente) temporário e mais "light". Contudo, essa porta aberta para uma retirada ligeira ou para uma manutenção sem amarras (porquanto liberal e moderna) possui um reverso da medalha.
Porque à fuga ao compromisso podem corresponder algumas tendências "libertárias" facilitadas pela ligeireza das designações e correspondentes graus de vinculação. Às vezes até passa apenas pelo "deixar cair" de alguns cuidados que de outra forma se justificariam como "acendalhas" de uma relação.
E existem sempre dois factores a ter em conta nestas equações...
Publicado por sharkinho às 03:12 PM
dezembro 01, 2005
INDEPENDENCE DAY
Um feriado jovem e bem português.
Happy meal...
...Chicken little...
...stormy weather...
Publicado por sharkinho às 08:14 PM | Comentários (12)

