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janeiro 21, 2006
ALEGRE MA NON TROPPO...

Amanhã vou ter que participar nesta exibição de pujança da democracia. Vou votar, para honrar o esforço e o sacrifício dos que me abriram as portas a essa ilusão de ser dono do meu destino. Vou votar para homenagear a liberdade de o fazer.
Contudo, e tal como nos dois ou três anteriores plebiscitos, vou votar acima de tudo pelos motivos que acima citei e não pelo impulso de qualquer ideologia.
Não me revejo por inteiro em qualquer dos partidos que me oferecem como opção. E ainda menos sinto essa ligação aos candidatos que, de uma forma ou de outra, o nosso sistema político-partidário disponibiliza para mais uma escolha difícil.
Eu explico-vos melhor a razão deste discurso pouco entusiástico acerca das eleições presidenciais, mesmo não percebendo um boi de política.
Começo pelo fim, pelo fulano no qual eu jamais apostaria para o lugar. Cavaco Silva é o candidato do outro lado do meu espectro ideológico. Ainda me reconheço de esquerda, acredito nos valores que este senhor inenarrável rejeita.
E apesar de sentir que Portugal precisa de uma liderança forte e mais disciplinadora, não é ao Presidente da República que compete exercê-la. Não há milagres quando não existe o verdadeiro poder.
O Presidente é, em muitas ocasiões, a cara do país no exterior. E em termos domésticos compete-lhe apenas zelar pelo bom funcionamento de todo o cenário que a democracia criou.
O Cavaco é uma figura digna de um filme de terror, um antipático natural. E tem tiques de liderança que podem transformá-lo na pior das opções para o cargo em causa. Vai arranjar problemas só para dar nas vistas e para abrir caminho para a reviravolta nas próximas legislativas.
Não constitui para mim uma opção.
Depois tenho o outro lado desta luta de titãs jurássicos, Mário Soares. Faz-me lembrar a Amália, quando cantava já sem voz. E invoca a imagem do Eusébio num hipotético regresso à equipa principal do Benfica nestes dias.
Não está em causa a lucidez e a capacidade do político e do homem. Está em causa a noção instintiva do momento em que alguém deve parar, o momento adequado para sair pela porta grande.
Isso já tinha acontecido com Mário Soares, como o próprio chegou a admitir.
Agora, por motivos que não me soam razoáveis, regressa à arena com modos de vingador, de bastião de uma esquerda esquisita contra as forças do mal.
Bastar-me-ia a suspeita de que traiu um amigo para de imediato sair da minha equação.
Nem numa segunda volta o escolheria, pois há muito não lhe reconheço o perfil da esquerda que me atrai.
Jerónimo de Sousa é o candidato do costume, o empata do PC. Parece porreiro, é um homem do povo, um proletário, antifascista e tudo o mais. Mas é comuna, teimoso, incapaz de abdicar do tempo de antena ainda que isso possa custar uma cavacada à primeira volta. É o candidato que nunca poderia ganhar. E arrasta consigo uma máquina partidária que me arrepia pela sua mecanização.
Há quem lhe chame capacidade de mobilização, mas a militância participativa não é algo que se impõe. É algo que se estimula.
Este também não é hipótese no meu boletim.
O melga, Garcia Pereira, merece o meu respeito pela persistência. Não merecia o tratamento que a Comunicação Social lhe deu ao longo da pré-campanha. Limitar o acesso aos mais pequenos é empurrar a democracia para a bipolarização. Nunca surgirá em cena um candidato (uma candidata, que tal?) alheio aos partidos enquanto os media comandarem as eleições como um jogo de audiências.
Claro que o bom do Garcia não é de todo uma opção para mim.
E agora restam os dois que mais prendem a minha atenção.
Com todas as reservas que ainda me inspira, sinto-me próximo do Francisco Louçã. É um gajo novo, cheio de pica e bué liberal. Gostava de o ver como Ministro do Ambiente, por exemplo. É que apesar das questões ideológicas, nunca perco de vista a componente humana dos políticos que o país nos proporciona.
O Chico parece-me um gajo capaz, daqueles que fazem falta no esquema. Mas não me parece a melhor solução para o cargo. E esta é uma eleição presidencial.
Se fosse eleito, seria um Presidente cheio de capacidade de intervenção e daria água pela barba aos socráticos no poder.
Mas a “esquerda de confiança” ainda não limou muitas arestas que a impedem de a merecer. Os excessos pontuais que denunciam algum deficit de bom senso perante a realidade dos factos e aquelas birras da malta de esquerda mais radical quando se aproximam demasiado do poder. Coisas que me fazem temer uma equipa bloquista na Presidência, onde deve imperar a moderação.
E feitas as contas, o homem não tem mesmo hipótese de disputar a segunda volta e, enquanto hipotético candidato de toda a esquerda, certamente perderia.
Ninguém convenceria o Jerónimo e a sua rapaziada a engolirem um sapo assim…
Manuel Alegre é o meu candidato preferencial (o que não quer dizer exactamente o mesmo que ideal). Justifico esta posição pelo facto de ser um homem de esquerda moderada, um homem da cultura e, por força das circunstâncias, o único candidato exterior aos aparelhos partidários (um argumento de peso, pelo arrepio que essas organizações me provocam).
Por outro lado, a sua rebeldia perante o Partido Socialista (que muito o tem maltratado nos últimos meses, de forma ingrata e desleal) inspira-me a confiança necessária para o adivinhar incómodo para a maioria absoluta que me preocupa (qualquer que seja o partido, aliás) pela impunidade que esse grau de poder assegura.
Porém, vejo-o como um político capaz de entender o sentido de Estado e de subordinar a sua actuação aos interesses do país. Mesmo que isso implique engolir um ou outro veto que por impulso nunca deixaria de aplicar.
Tem coragem política, tem um olhar que inspira confiança e tem um passado que nunca o descredibilizou.
Temo apenas que uma vez eleito possa transformar-se no Lula português. E não estou a falar das parecenças físicas…
Em resumo, vou voltar a escolher o menor dos males. Não vejo nos candidatos nem nas ideologias a alternativa que mudará seja o que for de tudo aquilo que destrói o nosso país como erva daninha. Aquela doença mesquinha que torna a política num lodaçal e o Estado no nosso maior papão, qualquer que seja a cor dos que o controlam.
Não acredito que estas eleições tragam algo de novo em matéria da esperança do povo nas estruturas e nas actuações de quem luta pelo poder nos jornais e nos canais de televisão.
Política de fachada, perpetuação de uma equipa onde mudam as caras mas é sempre a mesma a estratégia do jogo cada vez mais disputado na secretaria, no balneário, nos bastidores.
O maior perigo para a democracia são as fragilidades que os medíocres exploram para se alcandorarem a postos que de outra forma nunca seriam seus. E somos nós que sustentamos, pelos impostos e pelo voto, esta anomalia que nos arrasta aos poucos para a república das bananas em que transformamos Portugal.
O problema não é de esquerda nem de direita, nem é do candidato A ou B. É uma malformação congénita que começa no facto de as opções ideológicas serem derivações do raciocínio de bacanos que fazem tijolo há séculos e termina na impotência das populações para evitarem os abusos oportunistas que a democracia e a liberdade sonsinhas facilitam com a sua propensão para a fé desmedida nas estruturas que as legitimam.
O problema é a falta de dignidade assumida a nível global como um mal necessário, uma consequência inevitável da promiscuidade entre o poder do dinheiro e os fantoches políticos que amocham por medo, por ganância ou por mera indiferença à causa pública que lhes compete proteger destes e de outros males ou ameaças.
O problema é assistirmos impávidos a estas sucessivas vendas por catálogo de figurões decorativos que acabam invariavelmente por nos desiludir, depois de abancarem à nossa conta nas suas confortáveis cadeirinhas.
Publicado por sharkinho às janeiro 21, 2006 01:48 PM
Comentários
Tantos complexos de esquerda... olha, começando ao contrário. O Garcia Pereira conheço-o muito bem. É um advogado, que já vi litigar muitas vezes, e que usa todos os meios para ganhar. O Soares, que dizes que traiu um amigo, já traiu muitos amigos sempre em prol do mesmo. O louçã é o típico esquerdalho em Portugal; vive bem, tem muitas ideias para fazer o mundo, Portugal e o Universo melhor - porque sabe que nunca terá que as aplicar. O Jerónimo é a cassette do costume. O Manel Alegre nem como poeta, quanto mais como presidente. Não sabe nada de nada, mas acha que é aquele que aglutina os outros. Queres uma previsão? Se o Cavaco ganhar À primeira, o Alegre é corrido sumariamente do PS e aí terás mais uma grande vitória da democracia. Agora digo-te eu: mal por mal, antes o Cavaco: ao menos é honesto - saiu do poder com o que tinha quando entrou, e representa o português humilde que sobe À sua custa sem golpismos - precisamente o contrário dos outros. Ah, e a propósito, o período de governação dele foi, apesar de tudo, aquele onde Portugal mais progrediu e foi mais estável.
Publicado por: Almeida Garrett às janeiro 21, 2006 02:39 PM
Também vou votar e sem grande convicção. De eleições, só percebo as do coração.
Publicado por: claudia às janeiro 21, 2006 03:10 PM
Tantos complexos de direita... Olha, nem chego a começar.
Até porque considero que esse progresso e estabilidade que referes deveram-se apenas ao facto de haver papel a entrar à pazada. Como de resto se veio a confirmar na governação PSD que se seguiu.
E só tu acreditas que algum político sai do poder como entrou, pá. Histórias da carochinha, pois ambos sabemos o tipo de pressão a que são submetidos nesses cargos e o tipo de tachos que lhes são oferecidos em troca do desempenho favorável no poder.
Deixa-te de fantasias, à esquerda ou à direita venha o diabo e escolha. E o que nos distingue passa, pelos vistos, apenas pelo impacto que o cavaquismo exerceu em cada um de nós (barulho das luzes).
Essa do português humilde é que, não me lixes, dá para rir. Um professor universitário, com rendimentos declarados daquela grandeza e com os tiques de superior que todos lhe reconhecem (e adulam) e tu falas de um português humilde?
Humildes são as desgraçadas e desgraçados que não têm uma assistência médica em condições nem um sistema de ensino que lhes permita sairem da merda em que os caciques de direita, invariavelmente, as mergulham com o seu primado da iniciativa privada.
Mas isso são outras histórias, mitos urbanos da esquerdalha como eu.
Publicado por: Antero de Quental às janeiro 21, 2006 03:36 PM
Nessas, Cláudia, a minha intenção de voto tem sido sobejamente declarada e nunca opto por males menores.
Até hoje, poucas vezes me desiludiu a democracia do amor. :)
Publicado por: sharkinho às janeiro 21, 2006 03:46 PM
estou em acordo absoluto contigo.........uma chatice.....
Publicado por: Maria às janeiro 21, 2006 04:10 PM
É, não é? Satura, esta cena de querermos exercer a liberdade e ela a deixar-nos confrontados com estas escolhas (quase) impossíveis...
O problema é nunca sabermos por onde começar, quando nos dá ganas de alterar este estado de coisas, Maria.
Olha, vamos cumprindo o nosso papel enquanto aguardamos a vinda do "Messias" que nos traga uma visão do mundo mais consentânea e que preencha o vazio que nos estagna em maquilhagens ideológicas que, tá visto, não funcionam.
Publicado por: sharkinho às janeiro 21, 2006 04:21 PM
Visto do estrangeiro com outros olhos:
Shark nunca te vou perdoar esta grenouille cosida no café, com manteiga e alho amigo.
É verdade que Portugal vive uma democracia invulgar depois da revoluçao so o partido comunista estava com estruturas preparadas e se nao fosse a America e a Europa a impedir o comunismo voces estariam no mesmo estado que a Algéria quando os Russos chegaram depois dos Françeses.
Nao, nao sou colonialista, e nao nego o mal feito mas se como Eusébio e outros que sao do tempo deles Soares bem visto pela Europa e notadamente a França facilitou a ajuda ao Portugal.
Ora esta ajuda esta compremetida neste instante pela Inglaterra pois os vossos amigos Ingleses ja nao querem dar mas isto nao é surpresa e mesmo que o couple França Alemagne sai renforçado desta situaçao e espero que a ajuda ao Portugal vai continuar mesmo se eu pago uma parte a voces de a utilisar como deve ser.
Mas o que nao compreendo é esta espectativa dos Portugueses como se tudo fosse vontade divina ou pouca sorte.
Ho ja falei demais mas tive um almoço com muito Rieseling e Borbeaux tarte e Champagne com Poire William au café eu sei em Africa morrem de fome e os meus gatos comem Friskies.
Estamos num mundo de merda!
A@+
Publicado por: Manu às janeiro 22, 2006 02:59 PM
Ena, Manu! Gosto de apreciar o efeito de um bom repasto sobre a tua eloquência. :)
Vais perdoar, pois! Vais perdoar porque a tua intuição diz-te que sou digno desse perdão e porque ambos sabemos que faltam dados para tirares as melhores conclusões.
Eu também não entendo nem aceito o fatalismo lusitano e por isso opto sempre pelas soluções de ruptura com o que me soa menos bom.
Soares é tão meu amigo como os ingleses que referes, teve uma intervenção importante mas não isenta de más opções. E agora estamos perante outro desses erros de palmatória que podem custar caro ao meu país.
Eu tive no meu almoço um Marquês de Borba tinto, de 2004 (grande ano para a vinicultura nacional) e uma aguardente velha Fim de Século (que ergo no meu cálice à tua saúde e à dos teus).
Não estamos num mundo de merda enquanto houver quem se preocupe (com os animais também) e não tenha medo de falar.
Um abraço. Tás perdoado também... :)))
Publicado por: sharkinho às janeiro 22, 2006 03:23 PM
Não sei se já reparaste, Manu, mas eu faço as minhas escolhas mais pelas pessoas do que pelas ideologias.
O meu candidato inspira-me mais confiança nessa matéria...
Publicado por: sharkinho às janeiro 22, 2006 03:27 PM