« GOSTO* | Entrada | ESPECORAÇÃO »
janeiro 12, 2006
COM FICÇÃO
Vivia com a mentira agarrada à consciência, que a tinha em descanso, escapava por todos os meios ao confronto directo com quem podia, eventualmente, desmascarar o embuste que concebera. Desviava a atenção, perdia a compustura, irritava-se quando sentia a pressão do cerco que a verdade lhe impunha, fugia.
Depois mergulhava noutras preocupações, desaparecia. E assim escondia adiada a mentira agarrada como um esqueleto no armário das tralhas que preferia ignorar.
Disfarçava o desconforto quando o calendário se cumpria e as coisas que dizia não se enquadravam nos assuntos tabu. Voltava a desaparecer, inventava os motivos depois, sempre que as voltas da conversa descambavam nos subúrbios do seu maior temor. Talvez um grande amor, o dessa altura, ainda à experiência para adivinhar o que renderia outro capítulo que nasceria prenunciado no seu fim.
A mentira agarrada era apenas destinada a preservar-lhe a reputação ao seu olhar, o choque a evitar que afinal era sua a culpa da falência de cada uma das relações desperdiçadas num impulso infantil. Por isso a cultivava e assim adiava o momento de se sentir abaixo de cão. Não tinha a razão, mas invocava os pretextos que silenciavam a voz que a verdade gritaria.
Por isso ignorou, sem hesitar, o apelo final da ameaça que pressentia ao seu castelo de areia com janelas de cristal. Preferia mil vezes mentir, para assim poder fugir às consequências sobre si, as que acobardavam a sua confissão.
Ninguém lhe faria mal algum. Seria, em causa própria, juiz. E executaria a sentença, tipo dois em um.
Mas a mentira agarrada era ferida gangrenada e da boca já afloravam os sinais da infecção. Falava o coração. Consciência torturada, a verdade camuflada em paninhos quentes e falsas questões. Chacinava as ilusões para salvar o que lhe restava da dignidade que arrastava pela mentira convertida num lodaçal interior. Sacrificava até o amor, na ânsia de preservar a todo o custo uma imagem moldada em barro cru. Que desfalecia na falsidade do que dizia, cristalizada a fobia de se ver sob o holofote inquisitorial. Derretia sob o calor da sua transpiração intravenosa, oculta da vista, distante do coração. Na sua cabeça cansada pela carga dos juízos de valor que se transformavam em dor quando os apontava à sua pessoa.
Queria sentir-se especial. Não o conseguia e por isso fugia sob as mantas que cobriam as mazelas que a leviandade acarretou.
Mentia pela sua salvação, resgatava a convicção ao cadafalso da realidade exposta a nu. A carne que fraquejava e o instinto que preservava o respeito como um congelador. Para utilização futura, que o passado avariou e a verdade descongelaria. Certo dia surgiu liquefeita, toda espalhada pelo chão. À vista desarmada de quem procedeu à identificação posterior, uma história mal contada que o calor desconstruiu. De fio a pavio, o argumento desarticulado de um conto encantado onde a realeza era personagem de tablóide e acelerava a cada beijo a passada, rumo ao batráquio original.
Peças soltas encadeadas, reacções descontroladas, veio à tona a explicação. Como quem perde um irmão, sentou-se na areia dispersa pelo vento e chorou ignorando o frio. Mas aceitou o desafio.
Na noite da grande bronca, depois de uma conversa franca que tudo esclareceu, sentiu-se mais feliz. Tudo aquilo confessado, perdão para o pecado que lhe agigantava o nariz.
Despediu-se com ternura, arquivou a amargura e partiu em busca de outro beijo para quebrar a maldição.
Deu o salto do desejo para o nenúfar mais à mão.

Publicado por sharkinho às janeiro 12, 2006 12:45 AM
Comentários
tás a ver? o nariz é remédio diabólico.no princípio, era o cheiro.
Publicado por: candida às janeiro 12, 2006 11:09 AM
Não sei se percebi o alcance do teu comentário, Candida, mas olha que o personagem da história não fez grande uso do dele...
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 11:36 AM
Compreendo o texto, que é bom, sem dúvida. Apenas me espanta o final mas, se calhar, ele não poderia ser outro tendo em conta a história, penso que real, que conta. O salto dela para o nenúfar mais à mão é uma solução? No caso dela talvez, dada a sua impossibilidade (demasiado integrada nela mesma)de enfrentar a verdade do amor e de uma relação. A fuga é a "carta" dominante do baralho que é sua vida! Segundo me parece, afinal, você deixa entender que ela permanece batráquio, o que era de prever. Talvez um batráquio mais feliz e mais leve por algumas noites (e dias), como acontece com os católicos depois de confessarem os enormes pecados ao padre. Continua sem salvação (no sentido estrito). Triste. Mas, repito, este texto é bom. E fez-me bem lê-lo. Hoje, vou almoçar ligeirinho. Mas perto do mar, bem sentado em solo seguro. Ultimamente não consigo andar de nenúfar em nenúfar. A sabedoria tocou-me, finalmente? Vou olhar para o mar, procurando ver, talvez consiga.
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 11:47 AM
Não sei, amigo Medeiros, onde descobriu uma "ela" no texto que leu. São os príncipes que se transformam em sapos, ou não sabia?
E não duvido, suspeitando de quem se trata, que o meu amigo passa os dias a olhar para o mar. Pode é não conseguir ver aquilo que procura, se não ler os sinais com mais atenção...
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 12:23 PM
Se não fôr ela, é ele. Que importância? O texto agradou-me e, repito, lê-lo fez-me bem, por isso escrevi. Suspeita quem sou? Duvido muito, compreendo o seu desafio, mas eu não quero dizer quem sou, e tenho esse direito, aqui, não é verdade? De qualquer maneira, procuro ver, desde que sou adulto. Difícil é conseguir ver realmente, de tal forma baralhamos e (nos) baralham o mundo. Nem todos conseguem...como eu, muitas vezes, e como outros, como o ela/ele da sua história, se calhar, nunca.
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 12:38 PM
... quando se cresce perde-se a capacidade de ver, e por vezes é complicado voltar a aprender. Cumprimentos
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 12:41 PM
Cumprimentos. E ande sempre bem agasalhado quando for dar as suas voltas na zona costeira, faz frio nesta altura...
E claro que pode conservar o anonimato sem restrições. Se pudesse, também eu o faria.
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 12:57 PM
Obrigado. Afinal vou para junto do rio. Agasalhado, claro. Comer ligeirinho, sozinho, e olhar. Apenas isso. Até um dia destes, quando os seus textos me voltarem a fazer reagir. Terapias...
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 01:18 PM
Hoje estou para aqui virado. Para este poema de Nuno Júdice, por exemplo, que me vai acompanhar à mesa:
"Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios".
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 01:52 PM
Bom apetite. E obrigado pelo seu generoso e inspirado contributo para a movimentação desta caixa que tanto aprecio.
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 02:08 PM
O diálogo entre o Sharquinho e o misterioso dacar interessou-me mais do que o texto. É que sou uma graaaande cusca, Sharquinho ;-)
Publicado por: claudia às janeiro 12, 2006 02:17 PM
Ce sont des moments que l’on n’ose pas perturber…Je tiens à vous faire savoir tout de même ô combien j'apprécie ces belles paroles pleines d’émotion.
A@+
Publicado por: Manu às janeiro 12, 2006 02:29 PM
O almoço, afinal, vai ser almoço-lanche por causa do Sharkinho. Não estou arrependido. Nada disso. A comida não me alimenta a alma, infelizmente. E eu tenho uma grande dôr, nela, na alma. Se calhar vem de antes, muito de antes, de me ter visto (inteiro?, duvido) ao espelho pela primeira vez. Obrigado eu, Sarkinho, por me ter feito reagir. Estava muito mais deprimido antes de o ler e de ter conversado consigo.
Para a claudia: somos todos cuscos, que é um pequeno defeito da humanidade, enfim, nada de mal nisso, sobretudo aqui. Se apenas tivessemos esse defeito! Mas informo-a que apesar de assinar dacar, não gosto nada desse rali, que é um passeio-exibição do mundo do dinheiro pelas terras africanas da miséria. Simplista? sou assim... Se gosta dos ralis no problem
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 02:38 PM
Para o dacar: :-) Não tenho nada contra o Dakar, logo que não esteja metida em um daqueles carros, tudo bem.
Publicado por: claudia às janeiro 12, 2006 03:48 PM
Tás no sítio certo para dar largas a essa tua vocação, Cláudia.
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 04:23 PM
Referia-me à vertente cusca da blogosfera, claro está...
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 04:25 PM
Amigo Dakar, esta casa é reconhecida por essa característica de fazer reagir as pessoas. Ainda bem que pude servir-lhe de pretexto para prolongar uma refeição que espero esteja a ser do seu agrado. E se para a sobremesa ainda justifico a origem das suas reflexões (ao espelho ou na privacidade da sua introspecção), vale a pena manter um blogue só para constatar estas pequenas vitórias.
Bem haja, então.
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 04:28 PM
Já quase me esquecia de ti, Manu, nesta agradável troca de comentários associados à gastronomia...
Estragas-me com mimos, amigo.
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 04:30 PM
Regressado do almoço-lanche (bonzinho), uma explicação para o Sharkinho:
O seu texto fez-me "saltar" porque conheço uma pessoa muito próxima que se encaixa estranhamente na descrição do personagem que fez. Simplesmente. Saltei do curso previsível que a minha vida deveria hoje ter, como diz o poeta que citei, e pronto!: encontrei a sua "Com Ficção". E pode crer que me ajudou. Definitivamente, eu não quero saltar para o nenúfar mais à mão. Mas reconheço que para muitas pessoas, como a(s) nossa(s) conhecida(s) é mais fácil optar por esse saltinho do que pelo outro grande salto para respirar o ar puro da montanha mais alta da vida. Porque o novelo da mentira, desejada ou imaginada, ocupou-lhe(s) de tal forma o cérebro que nunca mais conseguirão sair dessa autêntica maldição. São situações muito tristes como, fiquei hoje a saber, sabe tão bem como eu.
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 05:23 PM
Tanto paleio para tão pouca "fruta", tsc, tsc...
Shark, tiro-te o chapéu pela forma como dás a volta a estes cromos que de vez em quando aqui se agarram. Fazem lembrar o ranho caneco, uma pessoa sacode e não descola, só uma boa limpeza resolve o assunto de vez.
Ou então não, deixa lá, isto sempre dá para a malta se divertir a ver os esforços (inglórios, tadinho/a) da criatura em fazer passar uma mensagem do que gostaria de ser e não é. Que é como quem diz, de ter e não tem. ;-))
Boa posta, sócio. Ficção realista é um género que dominas. :-) O Charco tá bem entregue. Beijo grande.
Publicado por: Mar às janeiro 12, 2006 05:28 PM
Mas não desistirei de tentar ver, apesar da minha dôr original na alma e da constatação de que, de facto, existem pessoas que não conseguem escapar à maldição. O que acrescenta dôr à dôr...Triste, repito, mas o rio estava bonito!
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 05:29 PM
Ò Mar não sejas injusta, pá. Estás a conspurcar um momento de rara sintonia entre mim e um leitor atento, sócia...
E bem vistas as coisas, o amigo Dacar revela uma proximidade ao tema que me seduz. Sinto até que deste nosso diálogo pode fazer-se imensa luz.
Estou certo de que teremos muito que dissecar ao longo desta refeição que prolonguei com a minha prosa, até porque é praxe do charco atender com enlevo a todas as solicitações e desabafos aqui postados.
Não consigo resistir à partilha de experiências e de conclusões como fonte de conhecimento primordial.
E o tom tem sido cordial. Sinto-me até tentado a convidar o amigo dacar a continuarmos o diálogo por email, ou mesmo à mesa de um café, para melhor definirmos os contornos do paralelismo que o atraiu.
Temos que ser receptivos aos desafios que a vida nos coloca, não é?
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 06:06 PM
O comentário da Mar e a pequena réplica sísmica do Sharquinho interessaram-me mesmo... Sou muuuuita cusca mesmo.
Publicado por: claudia às janeiro 12, 2006 06:17 PM
Por que não, Sharkinho? Amanhã falamos um pouco mais.
Publicado por: dacar às janeiro 12, 2006 06:31 PM
Mi casa es su casa...
Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 06:38 PM
Mi casa es la casa de usted, hermano. A mi me gusta mucho escribir español.
Publicado por: claudia às janeiro 12, 2006 07:53 PM
Aprecio a tua atitude positiva Sharkinho,parabéns e nao digas que te estrago com mimos, nao sei o que qer dizer cromo so sei que a agressividade nao leva a nada.
A@+
Publicado por: Manu às janeiro 12, 2006 09:01 PM
e eu a julgar que havia dois sharquinhos... um e o espelho. Que ingénuo sou.
Publicado por: biquaite às janeiro 14, 2006 10:02 AM
Ingénuo e desatento, pois o nick escreve-se com kapa...
Há quantos tu quiseres, pois estamos cá para satisfazer de borla os desejos da mais exigente clientela.
Bom fim de semana.
Publicado por: sharkinho às janeiro 14, 2006 03:39 PM