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janeiro 21, 2006
DE LEGO A CONSTRUÇÃO (de mim)
Foto: sharkinho
Peça a peça, construímo-nos pessoas como legos. A partir de um desenho, o esboço de um plano que os outros nos impõem seguir.
No início disciplinados, cada peça encaixada na devida posição. Casinhas de brincar, palácios ou castelos, utopias para sonhar. Alinhamos sem dúvidas até ao dia em que na nossa cabeça assoma a primeira peça que não joga certo com o figurino.
As partidas do destino que nos obrigam a repensar a solidez das construções. Intempéries interiores mais as que nos chegam de fora. Substituímos as peças por outras, nem sempre da mesma cor. Mesmo a forma é alterada e num ápice refazemos a pessoa que se construiu. Questionamos o desenho quando nos assola a rebeldia, adolescentes imberbes com sede de mudança. Exigimos recorrer à imaginação. Rasgamos aos poucos o esquema original, para o bem e para o mal, em busca da construção adequada.
Chegamos a adultos quase sem rasto das peças de origem, mergulhamos na vertigem que nos impõe diferentes materiais. Novos visuais. Reforçamos a estrutura, telha baça na cobertura e quase desaparecem as janelas para o exterior.
Verdadeiras fortalezas, instaladas sobre as ruínas do modelo que se desfez. Peças metálicas, blindamos a alma no espaço hermético que protege o nosso melhor das múltiplas agressões lá de fora, fugimos do frio.
Peças novas, coloridas, encaixadas à pressa para colmatar as lacunas. Estratégias superficiais para defender o vazio, esquecido o recheio nas plantas da fachada essencial.
Às tantas esquecemo-nos da traça original da construção que nos definia. Afastamo-nos à deriva da pessoa que sonhámos vir a ser um dia.
Talvez amanhã, esperança adiada, quando as peças disponíveis escasseiam e torna-se impossível reconstruir à nossa medida. Envelhecemos. E um dia esquecemos a vontade de brincar, a emoção de amar, a luz do dia radiosa para lá do muro sem frestas, um monte de peças inúteis que só servem para nos estorvar.
Recuso para mim essa arquitectura. Enquanto ainda dura a capacidade de sonhar. É importante amar até ao último suspiro, montes de peças para acrescentar na obra inacabada que não interessa completar. Interessa sim apressar a corrida, brincadeira despida de preconceitos ou castrações. Peça que tiro, peça que pões.
Sempre a abrir naquela estrada, a da tabuleta à entrada que dizia “se quiseres não tem fim”.
Em busca de mim e das outras pessoas, as peças trocadas para aumentar as opções. Melhores as construções partilhadas, experiências somadas num lego comum.
Que é muito mais seca jogado a um.
Publicado por sharkinho às janeiro 21, 2006 10:25 PM
Comentários
Como acabou por escever uma coisita assim assado sobre as eleiçoes decidi re-enviar para aqui um texto que escrevi noutro blog, um pouco mais politicoe mais aberto à dita cuja... é uma espécie de dclaração de voto.. e juro que este é mesmo o ultimo oomentário que aqui coloco... portanto, assim me despeço:
"Eu quero que haja uma segunda volta e acho que quem pode vencer Cavaco é Soares. Porque é o que pode ir captar votos ao centro, o que não acontece com Alegre. E porque velhos são os trapos e ele provou que não perdeu a forma. E porque foi ele o politico que sempre teve uma linha de rumo acertada e ficou provado que era a unica para Portugal. Lutou contra o fascismo e a guerra colonial - esteve no lugar certo (Cavaco, nessa altura, fez a guerra); lutou contra o comunismo em 75 - voltou a estar no lugar certo; foi decisivo para a entrada de Portugal na CEE/UE - voltou a estar certo; Hoje continua a ser o politico português com mais prestigio no estrangeiro - é um facto, os outros ninguém os conhece; é culto e é uma pessoa sensacional para falar e passear - Cavaco não tem conversa, como Soares diz, e é um facto, não é culto e um presidente não precisa de o ser?; Soares é um bom vivant, e eu gosto de pessoas assim; Um taxista francês disse-me um dia: 'Soares é grande demais para um pais tão pequeno". Estou de acordo com ele...
Isto dito, a vida continua... mas gostaria de ver um embate Soares/Cavaco na segunda volta. Mas, se não acontecer, a Luta continua (por uma vida feliz, claro).
...
Desculpe, apenas mais uma achega:
Como pouca gente com alguma cultura desconhece a importância de Eduardo Lourenço, especialista de Montaigne, aqui deixo um extracto de um seu recente e excelente artigo publicado em Portugal sobre Soares:
"O candidato Mário Soares que se lançou neste último combate político de improvável sucesso - e consciente disso - é o mesmo e diverso do que se empenhou jovem na luta por um futuro democrático para Portugal e incarnaria mais tarde o triunfo da democracia sonhada durante dez anos, representando-a e representando-nos aos olhos do mundo, como ninguém".
Ps: eu conheço bem Soares e sou muito mais novo que ele; gosto dele, perceberam, claro. Tambem conheço bem Alegre e gosto dele, mas acho que entrou no combate errado; conheço Louçã e Portas e tal e tal, gosto deles, mas não marcam golos neste jogo; conheço Cavaco e é um chato, mesmo chato, sem conversa nem Cultura Geral de Base. Apenas não conheço J. de Sousa nem o outro do MRPP e, pelo que vejo, não perco grande coisa...
E. Lourenço sabe do que fala e ainda bem que existe; ao lado dele, os Eduardos Prados Coelhos da nossa praça são anões. Termino, citando o taxtista francês: Soares é grande demais para um pais tão pequeno!
Publicado por: dacar às janeiro 22, 2006 08:54 AM
bom dia, sharkinho! este foi um dos textos mais bonitos que tenho lido. pelo seu profundo conteúdo, pela não desistência de amar, pela convicção na partilha. secundo as tuas palavras. e, hoje, neste dia que se adivinha cinzento (a menos que o sol rompa) e frio, soube-me especialmente bem. Obrigada!
um beijo de quem descobriu o atalho para esta clareira.
Publicado por: moriana às janeiro 22, 2006 10:13 AM
Dacar: lamento que a nossa relação virtual tenha sido inquinada, provavelmente pelos malentendidos que este suporte de comunicação suscita.
Até porque talvez pudessemos encontrar alguns pontos de convergência no meio das diferenças que já se expuseram.
Seja como for, as portas ficam abertas caso venha a reconsiderar a sua decisão de não comentar mais o charco.
Como já percebeu, e apesar das reacções extremadas aqui e além, só não tolero a falta de educação (a minha também).
E não concordo com a perspectiva que defendeu no seu comentário, mas disso darei conta dentro de meia hora, nas urnas.
Tenha um dia agradável.
Publicado por: sharkinho às janeiro 22, 2006 11:12 AM
Bom dia, Moriana. Quem acompanha este espaço desde o início já tem uma ideia daquilo em que acredito nessa matéria.
E quem acompanha este homem, também.
No meio de todas as minhas forças e fraquezas, a emoção preside e até está na origem da maior parte do que faço e do que sou.
Por isso é o meu tema preferido e quando aponto para aí as coisas saem melhor.
Tiveste sorte no timing... :)
Devolvo o beijo e agradeço a gentileza das tuas palavras. Bom domingo!
Publicado por: sharkinho às janeiro 22, 2006 11:19 AM
Na minha opinão, as construções a que vamos acresentando peças acabam por se revelar tão belas quanto as originais.
A troca de peças com quem connosco se vai cruzando, nesse caminho de reinventar arquitecturas é enriquecedora dos estilos e das formas.
Fica sempre um pequeno tijolo, uma pecinha profundamente encaixada, que nos transforma e embeleza. Mas o original nunca se perde, o estilo sobressai sempre.
Eu cá gosto do teu original :-)
Beijoca.
Publicado por: Mar às janeiro 22, 2006 01:07 PM
Ò meu elemento natural, és das pessoas neste mundo que mais peças me acrescentaram e, assim, tens alguma responsabilidade acrescida no desenho actual.
É uma alegria para mim, constatar que aprecias as que já existiam antes de participares de forma activa na construção.
Eu também gosto do teu.
Beijão.
Publicado por: sharkinho às janeiro 22, 2006 03:10 PM
kem kiser vender legos adicione joao_bernardino@hotmail.com
Publicado por: joao às janeiro 5, 2007 06:42 PM
Olá,
eu vendo e compro Lego.
tb faço parte de uma comunidade de AFOLs (Adult Fan Of Lego)
http://forum0937.miniancora.com
bj
Publicado por: tânia às fevereiro 13, 2007 01:19 PM
E fazes muito bem, Tânia, pois o Lego é uma instituição!
Eu vivi a minha infância com o Lego à cabeça dos restantes brinquedos. Depois afastei-me mas entretanto tive uma filha que me permitiu redescobrir esse prazer impar.
Já vou dar um pulinho ao teu espaço, colega.
Beijoca também!
Publicado por: shark às fevereiro 13, 2007 02:37 PM