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janeiro 10, 2006

NÃO PARES...

quente e boa.JPG
Foto: sharkinho

Suave, gentil. Sem pressas. A deslizar num corpo como se os dedos usassem patins, numa dança elegante recortada no fundo branco de uma pista. Degelo. A acontecer aos poucos, na ressaca de beijos loucos deixados a arder num pedaço de pele.
Cada vez mais intenso o som das respirações, alimentar os corações como fornalhas de um navio a (todo o) vapor.
De oxigénio expirado depois, outro elemento no sopro dos dois, na corrente do ar elevado pelo calor.
Tempestade tropical, prestes a abater-se sobre o local onde as vontades já exigem mais fricção. Contacto emoção, apelo selvagem libertado pela força do temporal.

Chuva salgada, espalhada aos solavancos pelos amantes num colchão. O poder de uma mão, ansiosa por tocar. Energia a irradiar, como a resistência de um aquecedor. Sobretensão, nos instantes sublimes de um todo bom condutor. Da electricidade à solta percorrendo as pontas de cada pelo ouriçado no arrepio de um esticão. O choque de descobrir em cada toque uma poderosa sensação, como se fosse aquela a primeira vez naquele lugar. Num ponto qualquer da pessoa que se entrega e da que possui.

Faíscas em cada boca, convertidas no prazer acrescentado de um som. Gritos e gemidos, sussurros aos ouvidos, sede do que é bom. Absorvido pelos poros com a sofreguidão de uma raiz no deserto em redor. O mundo que parou lá fora e só acontece agora naquele regaço interior.
Apenas ali, no espaço sideral onde as estrelas explodem nos olhares perdidos como fogo de artifício privativo, num espectáculo natural de luz e de cor, sensual. O universo condensado numa pequena fracção do tempo em que se amou, arco íris fantasiado no nome que se pronunciou. Apenas ali, os corpos, muito mais além as mentes e as imaginações. Em voo planado sobre uma cama revolta pelos espasmos e pelas contracções. Pelo movimento constante do desejo sob os lençóis. Escondidos do frio, amor ao desafio, passagem do testemunho numa desgarrada que se cantou a correr para a meta comum.

Quando dois se fazem um.
Quando as nuvens se afastam no horizonte e o rio por debaixo da ponte corre sereno, sem pressa outra vez, enroscado no abraço das margens que retribuem a carícia que a água, doce, lhes ofereceu.
O sexo molhado pelo desejo transpirado repousa então, alerta porém. Mudança de vento, as sobras de tempo precioso para gastar. Coisas boas para lembrar. Para repetir, também.
Na memória recente dos amantes abraçados ecoa o ribombar dos trovões da borrasca que passou. Nos olhos, o fogo brando que ateou ilumina um dedo acordado que desliza subtil, uma fonte de promessas.

Suave, gentil.
Sem pressas...

Publicado por sharkinho às janeiro 10, 2006 12:18 AM

Comentários

Uff...isto é o que se chama de um regresso fulgurante...;-)

(sabe bem ler-te de novo)

Publicado por: Mar às janeiro 10, 2006 09:37 AM

(Obrigado, sócia. Foi só pra esticar os deditos...)

Publicado por: sharkinho às janeiro 10, 2006 09:47 AM

Logo de manhã...
Bom Dia!
Que bom...

Publicado por: Partilhas às janeiro 10, 2006 11:23 AM

Bonito regresso, sharkinho!

Publicado por: gibel às janeiro 10, 2006 01:58 PM

Charquinho, parabéns pelo que escreveste. Já não é novidade dizer-te que escreves bem , portanto...

Publicado por: claudia às janeiro 10, 2006 08:04 PM

Obrigado, Cláudia. Mesmo não sendo novidade é um prazer que se renova. :)

Publicado por: sharkinho às janeiro 10, 2006 08:46 PM

Devagar(es) se vai ao longe, Gibel...
Mais vale tar quietinho e recomeçar nas calmas, com uma prosa à maneira a ver se isto encarreira.
Ah pois!

Publicado por: sharkinho às janeiro 10, 2006 08:48 PM

E um destes dias volto outra vez, Partilhas. :)
Não consigo andar muito tempo com uma posta atravessada...

Publicado por: sharkinho às janeiro 10, 2006 08:50 PM

Bom dia amigo,estou muito ocupado com o frio mas venho sempre ler, esta optimo gosto da nova forma.
A@+ aos dois

Publicado por: Manu às janeiro 11, 2006 06:15 PM

Manu, desde quando é que se anda ocupado com o tempo?

Publicado por: Claudia às janeiro 11, 2006 06:34 PM

O Manu é limpa-neves nas horas vagas, Claudia. :)
Ainda bem, Manu que continuas a sentir-te bem servido neste espaço que fazemos para quem o frequenta.
Abraço, rapaz!

Publicado por: sharkinho às janeiro 11, 2006 08:37 PM

Parece que a chave está no "dedo acordado que desliza subtil, uma fonte de promessas.Suave, gentil.Sem pressas..."...:) a prometer em todas as ocasiões, em todos os lados e aqui desgarradas de palavras. :))

(Só uma curiosidade: em que localidade está a linda placa toponímica da fotografia?)

Publicado por: maria arvore às janeiro 11, 2006 08:56 PM

(Ah! Já tardavas...)

;-)

Publicado por: Hipatia às janeiro 11, 2006 10:05 PM

(Em Serpa, se a memória não me falha)
E a chave está, como sempre, onde mais fizer falta nesta vida de serralheiro civil, Maria...
Palavras que sim. :)

Publicado por: sharkinho às janeiro 11, 2006 10:07 PM

Andei a combater a falta de inspiração, Hipatia, e encontrei por aí umas dicas úteis que muito contribuiram para abrir caminho a uma posta só pra matar o vício.
Agora só volto quando conseguir sacar mais uns perlimpimpins para me inspirarem...

Publicado por: sharkinho às janeiro 11, 2006 10:11 PM

saudades de te ler sem pressas...beijos Tuby

Publicado por: Luna às janeiro 12, 2006 11:20 AM

Beijos para ti também, amiga.

Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 11:35 AM

Quase que advinhas-te amigo. Queria responder a Claudia mas nao encontrei onde, desculpa se o faço aqui.
Claudia moro num bairro privado e a rua é nossa, faz que os 6 propriatarios têmos que tirar a neve e aqui cai dez a vinte cent.
por dia. E depois as fotos de inverno a fazer ao bom momento e sem esquecer o trabalho.
Quando se acaba de tirar a neve poem-se sal e no fim bebe-mos un copo para aquecer com os amigos. Desculpem os erros.
A@+

Publicado por: Manu às janeiro 12, 2006 12:21 PM

:-) Já entendi. Bem, em vez de fazeres "jogging" logo de manhã, já tens essa tarefa de aquecer qualquer morto, não é por nada. Por acaso, tenho saudades daí. Eu era tola. Saía às 6h da manhã para dar uma corridas e com neve lá fora. Tudo branquinho sem ainda marcas de pegadas. Seis horas da manhã... Se calhar, é por isso que gostava de sair tão cedo: para ter a sensação de que tudo aquilo me pertencia enquanto todos os outros estavam a dormir.
Allez, grosses bises, Manu.

Publicado por: claudia às janeiro 12, 2006 02:13 PM

:)

Publicado por: sharkinho às janeiro 12, 2006 04:41 PM

Imagina ouvir isso de uma mulher apreciando um bom vinho...

Eu enlouqueceria!

Publicado por: Thiago às janeiro 26, 2006 06:31 PM

Não percebi pelo teu comentário, Thiago, se és apreciador do belo sexo ou do precioso néctar.
Mas seja como for, ouvir isso de uma mulher é sempre uma maravilha.
Obrigado pelas tuas palavras, amigo virtual.
Volta sempre.

Publicado por: sharkinho às janeiro 26, 2006 06:35 PM