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janeiro 20, 2006
UM GAJO QUE MORREU
Fez de conta que não viu.
Virou a cara a tudo quanto assistiu, a tudo quanto lhe contrariava a vontade de acreditar que a vida correria pelo melhor.
Prezava a esperança e procurava a bonança para escapar ao temporal. Na fuga enfrentava os papões, costas voltadas à ameaça pendente sobre o futuro que sonhava para si. Cobarde, afinal. Resignado. Cada vez menos incomodado por aquilo que lhe perturbava o sossego em que desejava mergulhar. Factores alheios à sua vontade, eliminados sem demora. Buscava a paz para poder por fim amar, sem receios, a vida que ambicionava e as pessoas que desejava.
Porque um homem não chora, ainda que para isso seja necessário fingir. O que não queria admitir, mas sabia. Apenas fingia para se poupar à desilusão. Que tudo estava bem, com ele e com os outros também, no seu mundo privado de maravilhas, forjado a custo numa realidade que desmentia o sonho que arriscara nutrir.
Por isso sorria e tentava evitar as agruras da vida com um desvio do olhar. Para o outro lado da questão, outra cor, o rosa do amor e das coisas belas que acarinhava como peças raras de cristal.
A esperança fazia-lhe mal, mas ele preferia assim. Afastava o medo do fim com a coragem de lutar pelas causas perdidas, batalhas esquecidas numa guerra que há muito perdera contra um inimigo no seu interior. A falta de pontaria e a sorte que não desvia a bala destinada a acabar com o desertor. Fugia da dor, mas não conseguia salvar a consciência da sua penitente existência que esbanjava sem nexo no exercício da comiseração.
A pena de si próprio que no final o derrotou.
Quando a vida o desarmou de todas as defesas e o coração suportou as maiores tristezas, fragilizado pela força gasta a defender um território que nunca lhe pertenceu.
No dia em que morreu chamaram-lhe coitadinho, o dom Quixote fajuto que combatia impoluto os moinhos que vento algum soprara. Constava que desertara para evitar o transtorno de se saber corno, limpara com a alegada ignorância a sujidade da demência cujo resíduo constituiria a derradeira traição. No dia em que pela sua mão premiu o gatilho da pistola encostada na sua tola incapaz de aceitar a perda inevitável do que nunca possuiu.
Então desistiu, desesperado, do conforto encenado para consumo interno. Cansou-se das vergonhas abafadas e das sucessivas estaladas que lhe chegavam do inferno ao qual na fuga se entregou.
Um gesto contraditório, dissecado no velório a que pude assistir.
Fui aí que percebi, nas conversas e nas expressões dos amigos e familiares, os castigos subliminares que o conduziram à loucura. Hipocrisia bastarda no discurso e na postura, sinais inequívocos daquilo que o encurralou.
Não foi comigo que falou, mas afirmaram-me a pés juntos que admirava nos defuntos a invulnerabilidade às merdas terrenas que magoam uma pessoa.
Naquele filho de Lisboa que transportámos num caixão vi um homem sentenciado pelo tribunal da solidão.
Se mais vale só do que mal acompanhado, este exemplo flagrante deixa-me algo… perturbado.
Publicado por sharkinho às janeiro 20, 2006 04:21 PM
Comentários
"(...)vi um homem sentenciado pelo tribunal da solidão."
Não tenho palavras a acrescentar. Dizes tudo em poucas palavras.
Publicado por: claudia às janeiro 20, 2006 07:34 PM
Muito triste a solidao mais vale mal acompanhado, tem mais animaçao nao é?
A@+
Publicado por: Manu às janeiro 20, 2006 07:58 PM
Ah pois, Manu. Eu sou daqueles tipos com uma fobia relativamente a ficar só.
Acho que definhava...
Publicado por: sharkinho às janeiro 20, 2006 08:56 PM
É, Cláudia. Há momentos da vida e estados da alma que não devem ser vividos sem o apoio de alguém próximo.
A pena pode ser máxima.
Publicado por: sharkinho às janeiro 20, 2006 09:00 PM
Faço os possíveis para lutar contra isso. Desde miúda que tenho tendência para um certo isolamento autista. Aprendi que tinha que vencer esse lado menos feliz para não embrenhar em caminhos sem retorno.
Publicado por: claudia às janeiro 20, 2006 10:29 PM
Faz os impossíveis, Cláudia. Uma depressão aguda esteve na origem do desfecho que descrevi.
O isolamento transforma-nos no nosso pior inimigo nessas circunstâncias.
Publicado por: sharkinho às janeiro 20, 2006 11:01 PM
Sharkinho, há duas coisas na vida que me fazem confusão uma é ficar cego e a outra é a solidão. São as duas extremidades que nos deixam de rastos pelo chão. Que fazer se não lutar pelo menos que a última não passe de um período menos são!?...
Publicado por: soslayo às janeiro 20, 2006 11:11 PM
Nem mais, Soslayo. A solidão cega-nos para o melhor que a vida tem.
Publicado por: sharkinho às janeiro 20, 2006 11:25 PM
Não sei se devo dizer... mas na minha família há uma propensão para este tipo de comportamentos. Eu li, mas quis ler como alguém que não sabe o que isso é, mas é pura ficção. A comunicação é essencial. Quando, aos 20 anos, me deparei com a pior depressão da minha vida, lembro-me de ter dito ao médico: "Não falei durante 20 anos". Falava do sol, da chuva, do vento, das minhas amigas, das aulas, dos professores, mas nunca me tinha ouvido expressar um sentimento, fosse ele de raiva, de tristeza, de alegria.
Hoje consigo comunicar, mas, por vezes, esqueço-me dos meus sentimentos. Contudo, eles voltam, vêm ter comigo, para reivindicarem o lugar que lhes fora usurpado. São os sentimentos que me salvam. Sem eles, enlouqueceria.
Publicado por: claudia às janeiro 21, 2006 11:57 AM
“Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos.”
Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago.
Publicado por: claudia às janeiro 21, 2006 12:26 PM
Parece-me um nadinha exagerado, o Zé Nobel. Mas são mesmo os sentimentos que nos salvam, enquanto únicos verdadeiros sintomas de que nos bate o coração como deve ser.
Não gosto de ver o coração como uma simples bomba hidráulica, aprecio vê-lo como um órgão do prazer que são as emoções.
As emoções justificam a existência. Mesmo as más. Vivemos, sentimos.
E assim vale sempre a pena.
Publicado por: sharkinho às janeiro 21, 2006 12:32 PM