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fevereiro 27, 2006

A POSTA CARNAVALÓGICA

faz de conta.JPG
Foto: sharkinho

A tolerância e a compreensão constituem requisitos fundamentais para consolidar qualquer tipo de relação. Não é novidade para ninguém. Contudo, multiplicam-se os exemplos de ligações que terminam por via da incapacidade da maioria das pessoas de flexibilizarem os seus critérios em função das circunstâncias, do contexto em que as reacções dos outros se manifestam.

Fazemos tábua rasa dos problemas alheios, quando temos que avaliar as atitudes menos correctas com que nos confrontam. Ignoramos os estados de fraqueza, a vulnerabilidade que possa estar associada ao gesto que nos cai mal, reagimos sem contemplações.
E tal ímpeto pode constituir uma tremenda injustiça para com pessoas cuja conjuntura pode justificar a conduta que nos desagradou, pelo desprezo que evidenciamos relativamente aos factores de que, quantas vezes, até temos conhecimento.

É nesses momentos que deveriam falar mais alto a amizade e/ou o amor. Porque é fácil estar na boa com alguém que nunca desatina, que mantém uma compostura a todo o tempo exemplar. O que vale uma relação, qualquer relação, mede-se precisamente nos instantes em que testamos a paciência dos outros ou estes nos colocam à prova nessa matéria. É aí que temos a oportunidade de nos distinguirmos da multidão, quer pela forma como nos tratam quer pelo modo como nós mesmos enfrentamos um problema que possa surgir.
Nenhuma relação vale um chavo se nos momentos difíceis não faz qualquer diferença se o “outro” está a enfrentar as sequelas de uma revelação foleira, de uma preocupação justificada ou apenas de um momento mau da sua vida pessoal ou profissional ou ambas.

É na capacidade de termos em conta esses factores, de reprimirmos a “punição” pelos desmandos de quem constitui o nosso núcleo duro de relacionamentos que nos provamos merecedores da estima de alguém. Por fazermos prova da nossa por essa pessoa.
Isto é óbvio e nem deveria ser necessário repetir.
Porém, todos os dias se concretiza mais um divórcio, mais uma ruptura, mais uma separação algures no nosso universo particular. Às vezes toca-nos essa fatia amarga do bolo social, onde na maioria dos casos só existem migalhas de consideração para cada um debicar como pode.
Só mantemos ligações duradouras se nos mostrarmos dispostos a pactuar com todo o tipo de enxovalhos. E desses enxovalhos faz parte a tomada de consciência da nossa real valia para quem nos é próximo.

Relações de merda, afinal, construídas por detrás de fachadas que podem ruir à primeira contrariedade, que sucumbem pela falta de sustentação. Os alicerces frágeis, assentes em terreno desequilibrado, afundam-se na areia movediça do faz de conta. Faz de conta que gostamos imenso, se tudo correr pelo melhor.
Mas quebra-se o encanto, mal alguém ousa violar o pressuposto da relação sem ondas, fácil, boçal. Mesmo que lhe assista alguma razão para fundamentar uma reacção estapafúrdia.

É assim que se vive nos nossos dias. Paredes presas por arames, sustentadas pela camada de verniz que, por qualquer merdinha, estala e faz desabar o desgosto sobre as carolas de quem investe demasiada esperança na boa vontade alheia.
Somos uma maçada uns para os outros, incapazes de ocultarmos as fragilidades que nos inferiorizam e nos remetem para o lote dos dispensáveis ou supérfluos na agenda do cidadão comum.

Nesse contexto, o Carnaval é uma época perfeita para a sociedade que construímos.
Podemos acrescentar outras máscaras às muitas que o convívio com os outros nos obriga a carregar.

Podemos parodiar a nossa verdadeira condição de aprendizes de camaleão que o quotidiano modela à bruta.

Publicado por sharkinho às fevereiro 27, 2006 09:40 AM

Comentários

Uma reflexão, uma posta dedicada ao carnaval e aos relacionamentos de amizade e amor, o casamento. mas não partilho da tua visão que somos uma mascara para os outros. Talvez essa mascara nem exista, nos é que porvalvelmente não nos revelemos ao completamente ao parceiro(a), e se calhar é melhor assim, porque quem sabe tudo...o segredo é talvez o melhor nogocio no casamento.Os divorcios é aquilo que eu chamo a ultima fronteira para o bem ou para mal, de cada um.
Com um abraço
paulo

Publicado por: paulo às fevereiro 27, 2006 10:08 AM

Não tive, Paulo, o casamento no centro da minha atenção nesta posta, mas as relações entre as pessoas de forma genérica.
Mas já que vais por aí, digo-te que nunca optaria pelo segredo como alma desse negócio em particular. Se vale a pena, sobrevive a qualquer revelação. E se passamos a vida às escondidas de quem dorme connosco na cama, não vale a pena. De todo...
Um abraço, rapaz. E benvindo, pois julgo ser a tua estreia a comentar por estas águas. :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 27, 2006 10:54 AM

Parece-me que encaras a questão, também tu de uma maneira um tanto ou quanto inflexível. Todas as relações se defrontam com situações de incompreensão e consequentes sentimentos de revolta.
É da troca de idéias sobre elas que as mesmas são ultrapassadas. Quem não sabe o que é fazer as pazes depois de uma discussão daquelas, que dê o primeiro passo...;-))
Beijoca.

Publicado por: Mar às fevereiro 27, 2006 11:56 AM

Sabes como eu sou, Mar, radical. Não consigo evitar os extremos, mergulho neles.
E o meu texto refere-se apenas ao tipo de situação que se converte num beco sem saída, quando ninguém se mostra capaz de encontrar uma solução.
Quando alguém deixa cair.
Beijo.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 27, 2006 01:07 PM

O Carnaval é a representação da representação. Nunca gostei desta época do ano, talvez por desde muito cedo ter aprendido a usar uma máscara. Era necessária na família. Por conseguinte, o Carnaval, lá fora, não tinha qualquer tipo de sentido. E depois chega a altura em que atiramos todas as máscaras ao mar, as pessoais e as do Carnaval. É a isto que chamo loucura :-)
Beijinho, Sharkinho!

Publicado por: claudia às fevereiro 27, 2006 02:07 PM

Eu já gostei, em tempos, Cláudia. Mas foi sol de pouca dura, pois é moderada a minha costela de folião e, tal como dizes, passei a vida a lidar com mascarados(as) e eu próprio acabei por ceder à "camuflagem", em circunstâncias específicas.
Beijinho pra ti também (e folgo em ver que assumiste mesmo o kapa). :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 27, 2006 04:06 PM

Será que é por isso que não gosto do carnaval?...

Publicado por: sofia às fevereiro 27, 2006 04:25 PM

lol Custou mas assumi o kapa.

Publicado por: claudia às fevereiro 27, 2006 05:37 PM

Deve ser, Sofia. Às tantas uma pessoa farta-se. Era como se dessemos prendas uns aos outros todos os dias. Retirando a perspectiva religiosa da coisa, iamos perder a pica toda pelo Natal... :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 27, 2006 06:14 PM

Fico feliz, Cláudia. Deixei o meu neurónio de rastos para arranjar um nick e ele merece que eu pugne pelos kapas omissos...

Publicado por: sharkinho às fevereiro 27, 2006 06:15 PM

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