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fevereiro 12, 2006

A POSTA INÓCUA (Mais uma)

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Foto: sharkinho

O melhor pretexto de qualquer progenitor para justificar um comportamento irregular ou embaraçoso por parte de um filho são as “más companhias”.
Estes oportunos bodes expiatórios permitem encontrar uma explicação “de fora” para a questão interna, satisfazendo em simultâneo o impulso de preservação da imagem dos “nossos” e a nossa paz de espírito perante a eventual quota de responsabilidade que nos possa competir, na educação ou na hereditariedade.

A culpa dos outros, no acto em si ou no simples desencaminhar da pessoa certinha que, de repente, se assumiu destrambelhada. Um dos mais gastos caminhos de fuga para uma realidade que não conseguimos aceitar. E sempre actual.

Mas esta mania de atribuir a terceiros as razões ocultas para as nossas culpas não se fica pelo natural, embora condenável, instinto de mãe ou de pai. As meninas e os meninos aliviados da carga pejorativa dos seus pecados, atirada para cima de outra pessoa, aprendem a lição. Depois de crescidos, continuamos a sentir a tentação de escapar pela porta mais à mão.
Falo por mim também, claro, que não raro dou comigo a interiorizar essa facilidade ao dispor. Porto-me de forma contrária aos meus princípios e aos meus valores mas a culpa é de fulana ou de sicrano que me desviam do caminho e me obrigam a agir de forma errada. A forma errada é enveredar por um pretexto que nos transforma, pela lógica implícita, em imbecis sem vontade própria.

Os outros não servem, nunca servirão de atenuante para as nossas más escolhas. São apenas figurantes no teatro de marionetas onde nos compete manipular os fios. Donos do nosso destino, senhores da nossa capacidade de decisão. Tudo o resto não passam de baldes de areia onde enfiamos a mona como avestruzes quando a coisa se descompõe.
Claro que todos padecemos de alguma vulnerabilidade às influências que nos chegam do exterior, mais vulneráveis quanto mais ligados a essas pessoas que nos influenciam.
Contudo, a última palavra, a última atitude fica sempre a cargo de cada um de nós, da nossa consciência que distingue certo e errado, bom e mau, melhor ou pior.

Se agimos contra a nossa natureza, levados pela corrente por outros criada, não adianta descartar a responsabilidade para cúmplices de circunstância. Bastaria dizer não. E rumar na direcção oposta, se era a que nos parecia a mais acertada, arcando com quaisquer consequências, as nossas consequências, pelo desacerto de qualquer opção infeliz.

Não há santas imaculadas nem pecadores sem remissão. Somos criaturas em busca de um rumo decente para uma existência em condições, desorientadas pela ignorância que se revela em cada descoberta que se produz. Somos uns parvos que, na esmagadora maioria, desaproveitamos a vida na ingrata missão de infernizar as vidas alheias como diabolizam a nossa. Purgamos o mal em exorcismos de merda, quantas vezes à custa de outras pessoas, as tais que nos servem de justificação para as atitudes indignas e os pensamentos impuros. E renegamos o bem a cada esquina de uma vida cheia de ameaças e de ambições, de falsas promessas e de tentações demoníacas que são as inerentes à nossa frágil condição de aberrações num mundo harmonioso que estamos a arrasar.

Não há desculpa, excepto o arrependimento que se prova nas acções. Ou mesmo nas palavras, quando sinceras, daquelas que nos assumem as culpas no cartório e que constituem o motor natural para um procedimento melhor, logo a seguir.
Porque o somatório dessas intervenções, mais algo de brilhante que poucos de nós somos capazes de produzir ao longo da passagem, é o que fica da nossa presença fugaz e, regra geral, obliterada no prazo de uma geração ou duas.

Claro que isto é uma conversa inócua, considerando o lugar que todos os que nos preocupamos com estas coisas ocuparemos dentro de algumas décadas (no melhor dos cenários).

Mas um gajo tem que entreter-se com alguma coisa enquanto o tempo não esgota, não é?

Publicado por sharkinho às fevereiro 12, 2006 04:31 PM

Comentários

É interessante a natureza humana. Dois dos teus melhores posts e quase não tens um comentário - apareci eu a destoar. Escreve qualquer coise que suscite paixões (de preferência sanguinárias) e terás mais de uma centena - aquilo que costumamos designar em direito por argumentum baculinum. Mas também como costumamos dizer dare nemo potest quod non habet, neque plus quam habet que se traduz em mau português por ninguém dá o que não tem... abraço e mais uma vez parabéns por este excelente post

Publicado por: Almeida Garrett às fevereiro 12, 2006 06:02 PM

a propósito. Não é meu hábito usar mail, mas eventualmente poderás contactar-me no msn com Garret1799@hotmail.com

Publicado por: Almeida Garrett às fevereiro 12, 2006 06:05 PM

Bom é domingo e venho de chegar, injusto de condenar os ausentes.
Tenho" des grands enfants" e tudo vai bem, mas infelizmente nao sei dar a boa receita tive sorte o ambiente foi mais fraco que a familia, neste dominio é sempre melhor falar no fim quando temos netos.
Abraços.

Publicado por: Manu às fevereiro 12, 2006 07:26 PM

Isto da blogosfera funciona assim, Garrett, de uma forma incompreensível e sem lógica alguma. Uma posta absurda pode render imensos comentários enquanto um texto esgalhado com afinco pode ficar às moscas, como vês.
Já desisti de entender a blogosfera (que por alguma razão não se chama blogosférico)...
Mas ainda bem que tu, que és insuspeito - considerando o início nada auspicioso do nosso contacto e a frontalidade das opiniões que tens emitido - gostaste desta posta domingueira.
Visitar-te-ei nessa morada que me deixas.
Abraço também.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 12, 2006 07:26 PM

Condenar, Manu? A ausência, seja qual for o pretexto, nunca pode ser condenada. Até porque todos temos o direito ao silêncio e, sobretudo, a uma vida para lá desta comunidade tagarela.
Tempo passado com les enfants é sempre tempo de qualidade que não se pode desperdiçar.
Netos, hã? :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 12, 2006 07:30 PM

"Netos, hã? :)" Nunca se sabe quem esta verdadeirament do autro lado, por vezes pessoas com uma experiençia da vida.
Nem sempre é a qualidade da posta que provoca os comentarios mas os comentarios eles mêsmos.
Penso que é muito importante o sujeito desta posta, tudo depende em que momento da viida estam os teus leitores.
A@+

Publicado por: Manu às fevereiro 13, 2006 05:24 AM

O não comentar não significa q não tenha sido lido por muitossssss leitores e, mais importante q comentar, q até os tenha feito meditar sobre o assunto.....;)

Publicado por: sofia às fevereiro 13, 2006 10:46 AM

Assim o espero, Sofia. Mas sabes que existe sempre a tendência de avaliar o impacto das nossas palavras pela quantidade e qualidade das reacções que suscitam, ainda que seja razoável confiar no escrutínio dos contadores de visitas que confirmam em parte o teu pressuposto.
Mas esses indicadores não interferem com o principal: a minha vontade de arrumar umas palavritas e umas imagens para justificar a visita e o tempo de quem aqui passar.
Desejo-te uma semana porreira.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 13, 2006 11:14 AM

Manu, a resposta que dei à Sofia também te serve em parte.
E quanto à questão da experiência de vida, nota-se na sobriedade do teu tom.
Uma boa semana pra ti também, rapaz (pra mim vais ser sempre um puto novo, com netos ou não :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 13, 2006 11:21 AM

Bonjour, pour nous aujourd’hui, c’est la St Valentin, fête des amoureux, finalement nos calendriers ne sont pas identiques.
A@+

Publicado por: Manu às fevereiro 14, 2006 08:53 AM

São, são. Mas eu tive sempre namoradas que não ligavam pevas a esses dias convencionados. E percebe-se porquê. É que comigo é fête des amoureux tous les jours, meu amigo. Mainada! :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 04:41 PM

Já me esquecia, Manu: obrigado pela "lembrança" que me enviaste a anunciar o printemps... :))))
Fiquei muito sensibilizado com o gesto.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 04:44 PM

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