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fevereiro 06, 2006

A POSTA NO DIVÃ

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O improvável não é impossível. A frase não é minha, é do Edgar Morin. Mas serve na perfeição para descrever uma boa parte da minha atitude na vida.
Este tapete vermelho para as utopias funciona como um lema que sigo com uma fidelidade canina. Justifica-me a excentricidade nas ambições e a tangibilidade nas paranóias.

É improvável não se conseguir o que verdadeiramente se quer. A força da vontade é esmagadora quando aplicada com determinação, coragem, prudência e convicção. O impossível tem sempre uma fraqueza, uma debilidade conceptual a que nem a morte dá resposta. É possível sobreviver à própria morte, afirmam muitos, embora sempre defendidos pelo manto especulativo do sobrenatural que caracteriza essa sobrevivência num plano alegadamente superior. De confirmação teoricamente impossível, ao que sabemos, até ver.
Não é impossível no domínio da fé. E esta última, aplicada aos meus desejos e às minhas decisões é a inimiga lógica natural de qualquer impossibilidade anunciada.

Nada é impossível, mesmo quando as probabilidades escasseiam. O tiro na mouche, o reencontro inesperado, a chave do Euromilhões. Basta uma incrível coincidência, um milagre na sua concepção menos divina. O milagre da sorte e do azar.
Acontecem, as porras, de onde menos as esperamos. O pouco provável é uma porta entreaberta para o descuido, a defesa desguarnecida. E serve de base a qualquer teoria da conspiração, legitima-a com essa dúvida metódica, cautelosa, que se transforma facilmente numa suspeita que se transfigura numa acusação.
É assim que a coisa se processa num símio com calo no cu ou num felino vítima de um escaldão. A tarimba mais foleira que a vida oferece a alguém.

Improvável é a impossibilidade seja do que for. Bom ou mau. Land of oportunity e tormento infernal, num mesmo espaço, num mesmo tempo, à distância tão curta de uma questão de pormenor. De um erro de interpretação. De um tropeção ocasional que pode fazer toda a diferença no desfecho que se obtém.
As coisas impossíveis não cessam de acontecer. Já pouco me surpreendem, aliás.
A realidade que nos encorna na ficção. Os planos maquiavélicos do acaso para nos acabar com as certezas absolutas, traçados pela mente com base na especulação ou nas conclusões precipitadas acerca de algo que se observou.

A insegurança é como um agente infiltrado que a desconfiança produz para nos obrigar a reforçar as defesas, ou mesmo a atacar os fantasmas de papel. Pensamo-nos alvos únicos para um batalhão de atiradores especiais. Sempre alerta aos sinais, à nesga que a porta frágil da situação improvável nos expõe.

Por outro lado, existe a tal saída que nos permite escapar de vez em quando à guarita. E esse túnel interno, escavado a custo no solo firme da nossa protecção, chamo-lhe fé como podia chamar-lhe outra coisa qualquer.
É por aí que me piro dos males com que a vida me acena nas memórias dos maus bocados que aqui e ali enfrentei, pendurado numa corda feita de sonhos e de esperança em vitórias que a improbabilidade não consegue, de todo, dissuadir.
Apostas a fingir, túnel escorado no lado menos encantador das ilusões. A possibilidade de o improvável surgir pela negativa…

Eu acredito nas surpresas, nas reviravoltas que o destino nos oferece como resultado das maquinações de uma força superior. Nas boas e nas más. Acredito no ódio como acredito no amor. E na confiança como na traição. Os extremos opostos reunidos numa mesma situação, em potência, a sorte ou recompensa e o azar ou consequência de uma má opção.
Na minha existência convivi com as manifestações desta verdade que nos atordoa, quando nos eleva à euforia e depois nos arrasta à depressão. Ou vice-versa. Os eventos improváveis que são passíveis de acontecer. As impossibilidades de tanga que nos apanham com as calças na mão.

Um passo em frente pela oportunidade e a sua contrapartida pela fragilidade da nossa condição humana perante os reveses inesperados, pelo quanto uma desilusão acarreta de devastador.
O medo de perder o que temos de bom, por desleixo ou distracção. E do mal oportunista, atento às brechas que abrimos de cada vez que não acautelamos o desenlace opcional.
E a coragem de aproveitar o benefício que a improbabilidade permite espreitar. Ou a tal fé que pode mover as montanhas (da inércia) à velocidade de um foguetão.

Aquilo que nos catapulta para um sucesso impossível pode constituir o melhor pretexto para a nossa desdita maior. É esse o maior risco de quem arrisca por impulso mas não dispensa o aconchego da protecção.
É esse o preço a pagar nos antípodas das meias tintas, na ausência de cor ou no espalhafato de um borrão.
Vencedores e vencidos com as mesmas cartas na mão, dependendo da conjuntura.

Há muito de improvável, sem dúvida.
Mas tudo pode acontecer…

Publicado por sharkinho às fevereiro 6, 2006 01:03 AM

Comentários

E há também aquela outra frase feita de que "não há impossíveis", não é?
Tudo depende da força que se tenha para contrariar a improbabilidade de certas causas, acho.

Publicado por: Mar às fevereiro 6, 2006 09:33 PM

Opss...era "causas", de Causa=algo porque lutar, entenda-se. ;-)

Publicado por: Mar às fevereiro 6, 2006 09:35 PM

May the force be with you, ò meu elemento natural.
As causas têm (devem ter) como consequência uma força em proporção, não é? A malta quando quer agiganta-se... ;)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 6, 2006 10:26 PM

Perdoa-me se esta minha intenção for de alguma forma inconveniente. Se tu e a Mar estão apaixonados e, à falta de melhor definição, namoram, não deverias - deveriam - guardar estas intervenções em mail privado? Confesso que tenho dificuldade e me custa, embora gostasse, comentar o teu texto, porque me sinto no meio de algo. Abraços - a equipa da minha terra fez a vida negra ao Porto, hoje.

Publicado por: Almeida Garrett às fevereiro 7, 2006 12:20 AM

Nada disso, Garrett. Compreendo e agradeço o teu cuidado, mas as intervenções acima (tal como o texto) nada têm que ver com a ligação entre mim e a Mar.
É um exercício de introspecção, se o quiseres chamar assim, um dos meus mea culpa regulares para expurgar fraquezas e defeitos. Acredito que assumir essas coisas é o primeiro passo para as eliminar.
Donde, podes comentar à vontade.
(a equipa da tua terra esteve muito bem. Andas em alta nas referências clubísticas.)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 7, 2006 09:07 AM

Lamento se desiludo alguém mas a Mar, independentemente das ligações de qualquer género que possa manter com alguém, continua a ser uma pessoa com uma personalidade, inteligência e opiniões próprias, que expressa quando entende que o deve fazer.
E é nessa qualidade que aqui comenta. À semelhança do que fará em qualquer outro blogue.

Publicado por: Mar às fevereiro 7, 2006 02:24 PM

Entendido.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 7, 2006 02:45 PM

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