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fevereiro 15, 2006

ANOTAÇÕES

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Conservo, de forma mais ou menos organizada, quase todas as agendas e cadernos de notas que fui usando ao longo destes últimos anos, no exercício de funções profissionais.
É claro que isto - no meio da desorganização geral como forma normal de funcionamento - significa encontrar de vez em quando e por acaso, nos sítios mais inesperados, os referidos objectos de assentamento de notas e compromissos e assuntos muito, pouco ou nada urgentes e também aqueles classificados na categoria de "o tempo há-de resolver". Ou ainda os ininteligíveis, do tipo "55, hoje, ouvir** ////". Assim mesmo.
Aconteceu há poucos dias, no decurso de uma limpeza mais metódica a algumas divisões da casa, reaver um conjunto de volumes de capa encadernada a exalar ainda um suave aroma a couro, outros de cartão semi-roído nas pontas e com folhas desirmanadas a desprender-se das argolas e ainda alguns quase intactos, com apenas uma ou duas anotações nas primeiras folhas, brancos e inocentes, à espera de registar um rol de obrigações inadiáveis que nunca chegaram a acontecer.

Gosto de ter estes registos dos meus dias passados.
Gosto de saber que, no dia 4 de março de 2001, por exemplo, tive que ir a uma consulta - dentista - violeta, com a menina dos meus olhos. Gosto de imaginar - porque não me lembro dos detalhes, porque normalmente não relembramos estes minutos e horas de vida de actividade "normal" - que a apanhei à saída do jardim de infância, cabelos a voar e dentes de leite, e partilhámos juntas a experiência registada. E depois fomos comer um gelado.
Ou que, outro exemplo, no dia 25 de Setembro de 1999, participei em mesa - abertura - sessão, de uma das milhentas comemorações de todo o tipo de efemérides nas quais tive que estar presente, por via das responsabilidades profissionais.
Gosto de relembrar ocasiões, tantos anos depois, dias felizes, outros nem tanto, através destas notas registadas por mim em folhas e folhas de diferentes cores, tamanhos e texturas, de perceber, à distância, a verdadeira dimensão do que, naquele momento, parecia ser o assunto mais importante ou inultrapassável do mundo. Dívidas e obrigações e urgências e lazeres, preservados em gradientes diversos de tintas azul ou preta ou verde ou lilás.

Guardar estes cadernos, faz-nos perceber o quão relativas são as nossas maiores preocupações do momento. As horas que gastámos e desgastámos a tentar encontrar soluções para um problema que, visto à luz de 4 ou 5 anos que já lhe passaram por cima, se afigura até, vagamente ridículo. Como a impreterível data marcada para tratar do IRS, a obrigatória presença na importante reunião de negociação de um protocolo, a inadiável deslocação a um fogo devoluto a precisar de obras e que, entretanto, ostenta hoje um telhado novo e reluzente. Faz-nos questionar as prioridades que vamos definindo, muitas vezes empurrados por uma conjuntura que não nos deixa outra saída.
Conservar estas memórias escritas, ajuda-nos a reencontrar r a pessoa que fomos e a avaliar o que mudámos entretanto. São como que fotografias de rotinas que tivémos, como os círculos marcados no interior do tronco de uma árvore, que representam eras distintas de uma vida. São pedaços de quotidiano que reavemos quando abrimos ao acaso uma agenda ou bloco de notas antigo.

São momentos de nós. Pedacinhos de um caminho.

E o que é giro é perceber que, depois, há aquelas memórias, registadas no disco rígido das emoções, que não necessitam de qualquer apontamento escrito.
Estão sempre ali. Simplesmente.

Mar

Publicado por sharkinho às fevereiro 15, 2006 08:49 PM

Comentários

Tenho que tomar nota desta posta, para um dia recordar o dia em que a minha parceira parou com as arrumações para publicar qualquer coisinha... :)))
Olá! Acreditas que estava há mais de uma hora a olhar para um monitor em branco e a rosnar que não me saía uma postita pró serão?
Ganda pontaria, pá. Assim é que um gajo sente as benesses de um blogue feito a miélas.
(Estava quase para dizer que guardo boas memórias tuas no meu disco rígido, mas a malta podia interpretar mal. Por isso não disse. Mas pensei.)
Gosto imenso destas tuas postas-surpresa, sabias? ;)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 10:07 PM

Quer dizer, não estava há uma hora consecutiva a olhar para o monitor (senão já tinha adormecido pela certa...). Mas estava aberta uma folha limpa do word para ver se a inspiração chegava, enquanto me dispersava na gravação de cds para ouvir no carro, a tomar um cafézinho (nunca falha, a esta hora), a verificar tpc, a trincar qualquer coisa (desabituei-me de jantar propriamente dito) e etc.
Beijo.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 10:37 PM

Gosto da Mar, mas o sharquinho é um parvalhão.

Publicado por: Atila, o (h)Uno às fevereiro 16, 2006 12:56 PM

Mesmo uma parceira desorganizada e irregular nestas coisas da escrita, como eu, dá de vez em quando umas alegrias assim, sócio...
E ainda bem que acertei no timing da tua falta de inspiração (que é coisa de pouca dura, por certo). ;-))
Beijo de volta.

Publicado por: Mar às fevereiro 16, 2006 03:05 PM

Antes de falar no post:
Uma comentadora lá no Pópulo que também costumo ver por aqui, a Méri, disse a respeito deste meu post
http://populo.weblog.com.pt/arquivo/2006/02/mania_das_grand_1.html
"porque não o mandas ao Sharkinho?" e eu achei que devia seguir o conselho. Claro que não és nenhum peixinho vermelho...
Quanto a guardar coisas e às vezes dar-me para as arrumar, até já escrevi sobre isso. É tal como dizes, vamos relembrando e descobrindo emoções de que por vezes nem nos lembrávamos, mas que é sempre interessante reviver. O tal "regresso ao passado".

Publicado por: Emiéle às fevereiro 16, 2006 03:10 PM

Eu também prefiro amar, ò huno. E por isso mando-te uma beijoca.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 16, 2006 03:28 PM

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