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fevereiro 28, 2006

NOITADA

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Foto: sharkinho

Fugi, como um vampiro, da dor lancinante.
Escapei à tangente dos primeiros raios de sol.

Publicado por sharkinho às 07:14 PM | Comentários (19)

SOB AS ESTRELAS

Vejo-te a toda a hora, em qualquer lugar. Em cada momento um sinal para me lembrar da falta que me fazes aqui. Em cada instante a saudade, a ternura que me inspira cada imagem recordada dos dias felizes a dois.

Sou feliz por te possuir, também, nas minhas recordações. Lembro-me do sorriso que me ofereces de manhã, ao acordar, e dos beijos que me vestes na pele impregnada com o teu cheiro que não consigo (nem quero) deixar de sentir.

Lembro-me ainda das conversas serenas sob as estrelas, no balcão da sala de espectáculos que o mundo nos ofereceu.

Nunca esquecerei cada um dos dias em que me fizeste sentir o mais amado dos homens.

Publicado por sharkinho às 06:35 PM

fevereiro 27, 2006

(MÁS)CARAS

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aqui


Interrogo-me aonde quererá chegar toda esta gente.
Quantos silêncios existem atrás de cada rosto?
Do lado de fora sorriem, movem os lábios. Andam como um grande rebanho abandonado no cimo da colina, que já náo sabe o que fazer (...)
Todos são peças dentro desse conjunto a que chamam "massa": a família, a povoação, a colectividade.

É preciso assumir demasiadas máscaras para se integrar no conjunto e, quando alguma coisa falha, dá-se o caos.

Karla Suarez, in Os Rostos do Silêncio


Lembraste-me, com as tuas últimas postas, este excerto, que fixei particularmente, de um livro cru e objectivo, a partir da visão de uma mulher analítica. Desassombrada, sem paninhos quentes no que toca a retirar conclusões sobre a vida.
Por vezes, na grande maioria das vezes, é assim que sinto as pessoas e o mundo.
Praticamos variações de nós próprios, consoante o rebanho ou matilha em que nos integramos para prosseguir determinado objectivo.
O rosto profissional umas vezes, noutras o rosto de vizinho, de amigo, de pai ou mãe, de passageiro do banco ao lado, ou então o rosto de líder, de subordinado, de amante, de amado.
É o preço da sociedade, que nos torna actores.
Os melhores vivem várias vidas numa só e, às vezes, até se safam.
Os outros, que gostariam de não ter que afivelar, tantas vezes com cola de fraco poder, tanta máscara distinta e que optam por não o fazer, são olhados de lado, peças fora da engrenagem, alvos de suspeição e temor. São originais de ser humano, esses. Reversos do verso aceitável. Côncavos do convexo impresso no molde. Felizes, simplesmente.

Mar

Publicado por sharkinho às 03:17 PM | Comentários (8)

A POSTA CARNAVALÓGICA

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Foto: sharkinho

A tolerância e a compreensão constituem requisitos fundamentais para consolidar qualquer tipo de relação. Não é novidade para ninguém. Contudo, multiplicam-se os exemplos de ligações que terminam por via da incapacidade da maioria das pessoas de flexibilizarem os seus critérios em função das circunstâncias, do contexto em que as reacções dos outros se manifestam.

Fazemos tábua rasa dos problemas alheios, quando temos que avaliar as atitudes menos correctas com que nos confrontam. Ignoramos os estados de fraqueza, a vulnerabilidade que possa estar associada ao gesto que nos cai mal, reagimos sem contemplações.
E tal ímpeto pode constituir uma tremenda injustiça para com pessoas cuja conjuntura pode justificar a conduta que nos desagradou, pelo desprezo que evidenciamos relativamente aos factores de que, quantas vezes, até temos conhecimento.

É nesses momentos que deveriam falar mais alto a amizade e/ou o amor. Porque é fácil estar na boa com alguém que nunca desatina, que mantém uma compostura a todo o tempo exemplar. O que vale uma relação, qualquer relação, mede-se precisamente nos instantes em que testamos a paciência dos outros ou estes nos colocam à prova nessa matéria. É aí que temos a oportunidade de nos distinguirmos da multidão, quer pela forma como nos tratam quer pelo modo como nós mesmos enfrentamos um problema que possa surgir.
Nenhuma relação vale um chavo se nos momentos difíceis não faz qualquer diferença se o “outro” está a enfrentar as sequelas de uma revelação foleira, de uma preocupação justificada ou apenas de um momento mau da sua vida pessoal ou profissional ou ambas.

É na capacidade de termos em conta esses factores, de reprimirmos a “punição” pelos desmandos de quem constitui o nosso núcleo duro de relacionamentos que nos provamos merecedores da estima de alguém. Por fazermos prova da nossa por essa pessoa.
Isto é óbvio e nem deveria ser necessário repetir.
Porém, todos os dias se concretiza mais um divórcio, mais uma ruptura, mais uma separação algures no nosso universo particular. Às vezes toca-nos essa fatia amarga do bolo social, onde na maioria dos casos só existem migalhas de consideração para cada um debicar como pode.
Só mantemos ligações duradouras se nos mostrarmos dispostos a pactuar com todo o tipo de enxovalhos. E desses enxovalhos faz parte a tomada de consciência da nossa real valia para quem nos é próximo.

Relações de merda, afinal, construídas por detrás de fachadas que podem ruir à primeira contrariedade, que sucumbem pela falta de sustentação. Os alicerces frágeis, assentes em terreno desequilibrado, afundam-se na areia movediça do faz de conta. Faz de conta que gostamos imenso, se tudo correr pelo melhor.
Mas quebra-se o encanto, mal alguém ousa violar o pressuposto da relação sem ondas, fácil, boçal. Mesmo que lhe assista alguma razão para fundamentar uma reacção estapafúrdia.

É assim que se vive nos nossos dias. Paredes presas por arames, sustentadas pela camada de verniz que, por qualquer merdinha, estala e faz desabar o desgosto sobre as carolas de quem investe demasiada esperança na boa vontade alheia.
Somos uma maçada uns para os outros, incapazes de ocultarmos as fragilidades que nos inferiorizam e nos remetem para o lote dos dispensáveis ou supérfluos na agenda do cidadão comum.

Nesse contexto, o Carnaval é uma época perfeita para a sociedade que construímos.
Podemos acrescentar outras máscaras às muitas que o convívio com os outros nos obriga a carregar.

Podemos parodiar a nossa verdadeira condição de aprendizes de camaleão que o quotidiano modela à bruta.

Publicado por sharkinho às 09:40 AM | Comentários (10)

fevereiro 26, 2006

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Finalmente aceitei.

Publicado por sharkinho às 08:51 PM

A POSTA NO TEJO

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 06:26 PM | Comentários (2)

SEGUNDA ESCOLHA

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Aquele indivíduo metia dó. Via-se encurralado no caminho emocional das outras pessoas e sempre se descobria como uma segunda escolha, uma alternativa aos ideais românticos de quem o abraçava. Uma panaceia.
Aos poucos definhava nessa certeza que a vida lhe dava, de surpresa, nas mais variadas formas. E eu assistia à sua morte em vida, impotente, percebia a dimensão do seu desgosto e a progressiva perda da sua fé, mais em si do que nas outras pessoas.

Ele era um homem que passava a vida a perdoar, deixava-se enganar de propósito para merecer a caridade do amor de alguém. Alimentava ilusões que depois se desfaziam como flores secas e murchas na palma da sua mão. E ainda arranjava maneira de ficar mal visto com essa constatação. Nem lhe perdoavam as conclusões óbvias perante factos impossíveis de desmentir. Preferiam ferir a sua sensibilidade, insultando-lhe a inteligência.

E ele tinha consciência do seu papel de actor secundário na vida das protagonistas de cada filme em que contracenava como palhaço pobre, pobre coitado que apenas colmatava as lacunas como uma simples peça de substituição. Perdia a razão, ou tiravam-lha, sempre que se deixava convencer pelas evidências. Não lhe perdoavam um beliscão na realidade alternativa de cinema mudo que lhe cabia interpretar. Apenas lhe restava sonhar, enquanto aguardava que outros lhe assumissem a função. Metia dó.

Tentei deitar-lhe a mão, enchi-o de esperança. Mas de nada valeu. No seu horizonte adensava o breu e acumulavam-se os episódios que o humilhavam, as conclusões que lhe rejeitavam com base em desculpas sem nexo, esfarrapadas. Eram tantas as evidências que ele nem podia alimentar um sonho em condições, mesmo uma pequena ilusão, de se ver titular na equipa ganhadora em vez de mero suplente num jogo para empatar a solidão.
Nem conseguiam enganá-lo, ocultar-lhe os sinais.

Um dia ele desapareceu. Da minha vida como das de outras pessoas, nem sei se morreu. Por dentro, aposto que assim foi. Ouvi-lhe a amargura em tom de despedida, quando me confessou, cabisbaixo, a sua desistência dos caminhos do amor. O fim de uma carreira menor, por sua iniciativa, antes que ficassem preenchidos os lugares que ocupava de forma indevida. Sabia-se incapaz de competir com o estatuto e o comportamento ideal que outros, os eleitos, assumiam com a naturalidade dos verdadeiros ganhadores.

Ele acabou a perder, vexado.
E carregou para outro lado as mágoas que a vida lhe deu a provar.

Publicado por sharkinho às 12:44 PM | Comentários (5)

TENHO UMA PENA PARA TE REVELAR

Ontem estive a observar a outra face de alguém. Um alter ego, escondido numa gaveta aberta, camuflado com uma identidade alternativa em modo reverse para afastar os olhos indiscretos das verdades que não podia contar.
Mas precisava. E por isso arriscou deixar aberta a gaveta, na convicção de que ninguém poderia algum dia somar dois mais dois a partir das improváveis coincidências ali expostas.

Nessa outra face, menos politicamente correcta, essa pessoa desabafava o que lhe ia na alma e fornecia explicações para fenómenos que me deixavam surpreso, sem respostas. Como numa imagem invertida de si, um recomeço logo a seguir a um fim. Essa pessoa afastou-se de mim, devo esclarecer, e eu não entendia porquê. Entendi-o agora, nas palavras que me escondeu por detrás de uma porta entreaberta à minha mercê, ao alcance do olhar indiscreto que agora me envergonha.

Exigi demasiado dessa pessoa, reconheço agora. A vida lá fora é um poço de tentações que gera desequilíbrios entre o que queremos e o que conseguimos ser. A vida é uma permanente armadilha para o nosso coração. E a cabeça é que paga, atormentada pelas dualidades que nos minam a consciência.

Arrependo-me de ter, com o exagero da minha pressão, afastado de mim essa pessoa.
E de destruir, pela natureza das revelações que me confrontaram e pela curiosidade mórbida que me amarrou às palavras ocultas, a confiança que nos poderia reaproximar.

É uma pena que a sinceridade seja proibida na amizade.
E até no amor.

Publicado por sharkinho às 12:41 PM

fevereiro 25, 2006

LIGAÇÕES PERIGOSAS

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Foto: sharkinho

Às vezes as palavras não me parecem as amigas que eu preciso acreditar. Tenho medo da sua má influência, não em mim mas nas outras pessoas. A mim as palavras não fazem mal algum, já aprendemos a conviver com esta relação de dependência, já aceitámos a nossa incapacidade de existir nas respectivas ausências.
As palavras, as minhas, não existem de facto sem alguém que as dê à luz. Sou pai como sou mãe destas reproduções grosseiras daquilo que me faz. Mas também sou o amante que lhes ensina a arte da paixão, que com elas partilha as emoções mais profundas, as fraquezas mais secretas e tudo o que possuo de bom e de mau para exibir.

As palavras crescem em mim e depois apresentam-se a quem as encontra pelo caminho e nem sempre exprimem a minha essência e outras vezes vão longe demais na exposição do que sou. Atraiçoam-me, como górgonas, petrificando a minha imagem ao sabor das diferentes interpretações que induzem.
E por isso receio por vezes as palavras e fujo-lhes a sete pés, viro-lhes as costas, tapo os ouvidos ao seu canto de sereia com que me arrastam para o falatório e me denunciam enquanto homem vulgar.

O meu amor pelas palavras, contudo, também me obriga a acarinhá-las. Rendo-lhes homenagem em cada tentativa de as utilizar de forma adequada, de conseguir conferir-lhes um sentido e uma missão. De as embelezar pela combinação entre si. O amor requer coragem, requer sacrifício, exige entrega e abnegação. Exige a predisposição para arriscar as perdas e as derrotas, os actos falhados e as desilusões, o perigo das revelações que nos humilham.
Mas o amor, mesmo o das palavras, também dá em troca. Nos momentos de felicidade, nas ocasiões especiais em que tudo se conjuga para se aproximar da perfeição. Os textos bem conseguidos, os beijos sentidos, a sensação de euforia que nos invade quando vivemos a ilusão feliz.

Aquilo que se diz e aquilo que se faz, nem sempre em sintonia. Sentimentos confusos e palavras sem nexo que os expõem. Perturbações comuns que se guardam nos jardins secretos do silêncio das palavras que não queremos à solta, por se virarem contra nós nas cabeças de quem as decifra. Ameaças verbais para a nossa intimidade, para a nossa reputação que desejamos imaculada e se vê arruinada pelo efeito que as palavras são exímias a produzir.

Eu amo as palavras.
Mas temo o desequilíbrio imanente na nossa relação (cada vez mais) conflituosa.

Publicado por sharkinho às 07:28 PM | Comentários (2)

fevereiro 24, 2006

IMAGENS DE LIBERDADE

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 10:27 AM | Comentários (11)

fevereiro 23, 2006

NESTA ESQUINA UM AMIGO - ZECA

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E nesta casa viverá sempre, pois é dele também o mérito do combate que permitiu construí-la.
25 de Abril SEMPRE, Zeca!

José Afonso (nascido em 02/08/1929, falecido em 23/02/1987)
Trovador imortal.

Publicado por sharkinho às 12:25 AM | Comentários (19)

fevereiro 22, 2006

THIS SIDE UP

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Foto: sharkinho

Se não passas de uma ilusão, a imagem da perfeição foi replicada e encontra-se espelhada no reflexo de ti ao alcance do meu olhar. Nesse engano que assumirei, de amar uma miragem, agarro a vantagem que me é concedida. A consciência adormecida, a ignorância bendita que me embala num sonho de que não quero despertar. Na desdita dos iluminados está o descuido no pormenor que faz toda a diferença, a escassa maleabilidade necessária para distinguir um mero golpe de vista de uma observação atenta.

Defeitos invertidos, virtudes aos olhos de quem usa o coração para filtrar as impurezas. Porque todas as certezas são produto da imaginação. Não passam de opiniões, de visões subjectivas a partir de um ângulo enviesado pela nossa percepção.
É difícil de perceber, assim à primeira vista. Pois é.
Mas também as palavras podem estar inquinadas com a mesma deturpação. Como imagens distorcidas pelo efeito da ondulação num lago sereno. Invertidas também, para salvaguardar a fantasia da vingança feroz da realidade como a vemos nesta vida apressada. Gente condenada a passar ao lado daquilo que interessa.

E a única pressa com justificação é a de abraçar essa ilusão que tu sejas e que tudo aquilo que desejas seja eu, mesmo de pernas para o ar. Como uma tartaruga, indefeso perante a tua perspectiva, vulnerável à tua decepção. Prisioneiro dos mesmos anseios, marinheiro de água doce no meio de uma borrasca de interrogações, preocupações sem sentido algum. Porque a vida faz-se mesmo assim, arriscada. É uma viagem sem rumo, ponto de partida aleatório e final da corrida sem hora marcada.

Navegamos à bolina e podemos abdicar do sentido de orientação.
Descobrir em cada porto de abrigo um oásis, em cada amor sentido uma marca tangível no mapa das nossas emoções passadas, presentes e futuras, sem medo de nos perdermos pelo caminho que nem sabemos para onde nos levará.

Por isso te absorvo com sofreguidão, realidade ou ilusão, feita no céu, perfeita como gosto de te ver.

E eu vejo-te assim.
Estás cartografada em mim.

Upside down.

Publicado por sharkinho às 08:47 PM | Comentários (4)

fevereiro 21, 2006

PUZZLE

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aqui


um post em que peças soltas, encaixadas aleatoriamente, compõem uma imagem final.


Desato-me. Abro pontas e desfaço nós e desenho laços. Levanto-me. Ergo os braços e agradeço a luz. Passo o rosto por água, prendo o cabelo, pinto risos no olhar. Desejo-te. Visto saudades e estico as mãos à procura da ponta dos teus dedos. Abraço-me, no regaço que te guarda. Toco cordas de alegria. Alimento vozes de magia, palavras de encanto. Gosto-te. Escrevo rascunhos em pedaços de papel que deito fora. Leio-te. Corro as cortinas, estico os lençóis. Adormeço devagar. Sobreponho, peça a peça, os momentos que fizémos a dois. Subo a escada. Bato-te à porta. Desato-te. Desfaço o enguiço. Abro, um a um, os botões da penumbra que te cobre. Solto o cabelo. Sorrio. E beijo-te.

Mar

Publicado por sharkinho às 07:59 PM | Comentários (5)

fevereiro 20, 2006

MAPA DE MIM

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Percorro um caminho feito de estranhas coincidências e de surpreendentes revelações. Como se esse caminho fosse sendo construído por antecipação, não necessariamente por entidades divinas ou superiores (mas também, se calhar), para definir o traçado que me compete seguir.
E eu limito-me a agir, marioneta, ao sabor do terreno que me dão a pisar. Retalhos de informação, o asfalto, que o cilindro de intenções alheias calca para conduzir os meus passos e definir os meus traços, a minha conduta e a minha disposição.

Mando pouco, afinal, no rumo que defini. Ou julgava. Porque afinal apenas andava como um cego perdido no meio de um deserto qualquer. E continuo sem ver. Tacteio com os pés o caminho que alguém se predispõe a construir, só para mim. Sorriso palerma, como uma foca agradece a recompensa pelos seus malabarismos circenses, finjo que sei pensar e nunca atinjo o verdadeiro alcance das pistas que me dão. Ou que descubro sem querer.
Tropeço nas pedras soltas deixadas ao abandono nas margens do leito seco de um rio que passou, negligências, espalho-me ao comprido e levanto-me outra vez.

O acaso mal explicado e o mistério adensado que não consigo vislumbrar na escuridão da cegueira.

O que me cega é a luz do amor.

Publicado por sharkinho às 06:20 PM | Comentários (12)

UM DIA COM O ZECA - 23/02/2006

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O Troll Urbano está na origem de mais uma manifestação desta esquerdalha que não consegue deixar cair os seus figurões. Por mais que a malta os tente achantrar, insistem nestas tretas.
E um gajo, por simpatia e delicadeza, acaba por alinhar. Nem se pode dizer que a gente aqui no charco acredite nessas coisas...

Agora a sério: no dia 23, vamos seguir este belo exemplo e homenagear o ZECA e tudo aquilo que ele representa.
O Charquinho adere e até se trata de uma estreia (nunca demos música propriamente dita).
Vamos nessa?

Publicado por sharkinho às 12:41 PM | Comentários (17)

fevereiro 19, 2006

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Publicado por sharkinho às 12:53 PM

fevereiro 18, 2006

ASPIRINA X

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Como referi duas postas atrás, estou engripado. E os sintomas estão assanhados o bastante para um médico me receitar um antibiótico.
Questionar o critério de um médico é algo que só concebo quando é evidente o engano (sempre possível) nas suas opções terapêuticas. Nem deve ser o caso, mas parece-me que prefiro confiar na capacidade das minhas defesas naturais para combater o bicho que me entope as guelras. E explico porquê.

Tenho o péssimo hábito de ler aqueles papéis com letrinhas muito pequenas que os laboratórios farmacêuticos fazem, por gentileza, acompanhar os seus produtos. Chama-se posologia, ao que sei, e contém a informação que se julga necessária para todos sabermos que raio de mistela estamos a enfiar pela goela. E sempre que leio este manancial de informação desencadeio em mim uma reacção alérgica. Tomem nota, por favor, do que o laboratório que fabrica o antibiótico que me foi receitado inclui num parágrafo a que dá o título “possíveis efeitos indesejáveis”.
A itálico destaquei as “panaceias” para dourar a pílula e a onda “ok, este faz mal. Mas os outros não são melhores”.

(…) Foram observadas, embora com uma escassa incidência, manifestações digestivas, perda de apetite (anorexia), náuseas, vómitos/diarreia (chegando a causar de forma excepcional desidratação), fezes soltas, incómodos abdominais (dores/cólicas), obstipação, flatulência, colite pseudomembranosa e, raramente, descoloração da língua.
Em alguns doentes, com doses elevadas e durante períodos de tempo muito prolongados, observaram-se alterações da audição que na sua maioria desapareceram quando se interrompeu o tratamento.
Em alguns doentes observou-se, de forma excepcional, alteração no paladar.
Em alguns doentes observaram-se casos de alterações das funções hepática (raramente graves) e renal.
Observaram-se casos de tontura/vertigem e convulsões (tal como sucede com outros antibióticos deste grupo), assim como dor de cabeça, sonolência, formigueiro, hiperactividade, reacções de agressividade, nervosismo, agitação e ansiedade.
Em ensaios clínicos foram observados, por vezes, episódios de neutropenia ligeira transitória (diminuição do número de glóbulos brancos), embora não se tenha estabelecido a sua relação causal com a Azitromicina, e de trombocitopenia (diminuição do número de plaquetas).
À semelhança de outros antibióticos, foram comunicadas reacções do tipo alérgico, em raras ocasiões de carácter grave, em doentes tratados com Azitromicina.
Foram comunicados casos de alterações cardíacas (tal como sucede com outros macrólidos), embora não se tenha estabelecido uma relação de causalidade com a Azitromicina.
Excepcionalmente apresentaram-se reacções cutâneas graves.
Foram comunicados casos de astenia (cansaço) mas não se estabeleceu a sua relação causal com a Azitromicina, assim como de infecções por fungos, dores nas articulações e vaginites.

Eu estou constipado, porra! E este mal já conheço de ginjeira.

Sinceramente, doutor: Prefiro morrer da doença.

Publicado por sharkinho às 11:20 PM | Comentários (6)

fevereiro 17, 2006

A POSTA VERDE

Como vês, rapariga, cumpro sempre as minhas promessas. Aqui fica a minha imagem da esperança no seu tom mais clássico.

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 09:21 PM | Comentários (4)

SINAIS DO CÉU

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Foto: sharkinho

Aqueles de entre vós que já sentiram na pele ou observaram alguém a lidar com uma cólica renal não precisam de mais palavras para perceberem como tem sido este meu dia desde as cinco da matina.
De resto, já ontem à tarde me vi obrigado a "meter baixa" por causa da primeira (e assanhada) gripalhada de 2006.
As forças combinadas destas maleitas, pelo cruzamento dos efeitos, deixam um gajo completamente feito num harmónio.
A puta da vida está a dar-me conta do astral. E um gajo precisa de desabafar estas coisas, pois o desabafo liberta e eu não tenho tendência para me deixar aprisionar pelas circunstâncias.

Por outro lado, em cada momento aziago abre-se uma porta para a beleza, para a força, para o privilégio dos dias melhores. Como a foto acima, que hoje tirei no meu terraço depois de regressar das urgências do CUF Descobertas, bem o demonstra.
Um sinal do (no) céu, como se o sol quisesse mostrar-me como se faz para contrariar as nuvens que insistem em nos toldar a perspectiva, em nos taparem a vista para as maravilhas que a realidade pode oferecer.

A dor não me cegou. E esta posta é o testemunho que vos dou, a minha mensagem de esperança e de força para lutarem contra as condições adversas que, cedo ou tarde, acabam por desaparecer do horizonte.

A natureza percebe muito destas coisas... :)

Bom fim-de-semana para todos vós!


Publicado por sharkinho às 03:03 PM | Comentários (12)

fevereiro 15, 2006

ANOTAÇÕES

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Conservo, de forma mais ou menos organizada, quase todas as agendas e cadernos de notas que fui usando ao longo destes últimos anos, no exercício de funções profissionais.
É claro que isto - no meio da desorganização geral como forma normal de funcionamento - significa encontrar de vez em quando e por acaso, nos sítios mais inesperados, os referidos objectos de assentamento de notas e compromissos e assuntos muito, pouco ou nada urgentes e também aqueles classificados na categoria de "o tempo há-de resolver". Ou ainda os ininteligíveis, do tipo "55, hoje, ouvir** ////". Assim mesmo.
Aconteceu há poucos dias, no decurso de uma limpeza mais metódica a algumas divisões da casa, reaver um conjunto de volumes de capa encadernada a exalar ainda um suave aroma a couro, outros de cartão semi-roído nas pontas e com folhas desirmanadas a desprender-se das argolas e ainda alguns quase intactos, com apenas uma ou duas anotações nas primeiras folhas, brancos e inocentes, à espera de registar um rol de obrigações inadiáveis que nunca chegaram a acontecer.

Gosto de ter estes registos dos meus dias passados.
Gosto de saber que, no dia 4 de março de 2001, por exemplo, tive que ir a uma consulta - dentista - violeta, com a menina dos meus olhos. Gosto de imaginar - porque não me lembro dos detalhes, porque normalmente não relembramos estes minutos e horas de vida de actividade "normal" - que a apanhei à saída do jardim de infância, cabelos a voar e dentes de leite, e partilhámos juntas a experiência registada. E depois fomos comer um gelado.
Ou que, outro exemplo, no dia 25 de Setembro de 1999, participei em mesa - abertura - sessão, de uma das milhentas comemorações de todo o tipo de efemérides nas quais tive que estar presente, por via das responsabilidades profissionais.
Gosto de relembrar ocasiões, tantos anos depois, dias felizes, outros nem tanto, através destas notas registadas por mim em folhas e folhas de diferentes cores, tamanhos e texturas, de perceber, à distância, a verdadeira dimensão do que, naquele momento, parecia ser o assunto mais importante ou inultrapassável do mundo. Dívidas e obrigações e urgências e lazeres, preservados em gradientes diversos de tintas azul ou preta ou verde ou lilás.

Guardar estes cadernos, faz-nos perceber o quão relativas são as nossas maiores preocupações do momento. As horas que gastámos e desgastámos a tentar encontrar soluções para um problema que, visto à luz de 4 ou 5 anos que já lhe passaram por cima, se afigura até, vagamente ridículo. Como a impreterível data marcada para tratar do IRS, a obrigatória presença na importante reunião de negociação de um protocolo, a inadiável deslocação a um fogo devoluto a precisar de obras e que, entretanto, ostenta hoje um telhado novo e reluzente. Faz-nos questionar as prioridades que vamos definindo, muitas vezes empurrados por uma conjuntura que não nos deixa outra saída.
Conservar estas memórias escritas, ajuda-nos a reencontrar r a pessoa que fomos e a avaliar o que mudámos entretanto. São como que fotografias de rotinas que tivémos, como os círculos marcados no interior do tronco de uma árvore, que representam eras distintas de uma vida. São pedaços de quotidiano que reavemos quando abrimos ao acaso uma agenda ou bloco de notas antigo.

São momentos de nós. Pedacinhos de um caminho.

E o que é giro é perceber que, depois, há aquelas memórias, registadas no disco rígido das emoções, que não necessitam de qualquer apontamento escrito.
Estão sempre ali. Simplesmente.

Mar

Publicado por sharkinho às 08:49 PM | Comentários (6)

JANELA FECHADA

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Foto: sharkinho


Para quê a ânsia de rasgar janelas na muralha, de abrir uma brecha à luz dos raios de sol e ao arrepio da brisa nos cabelos, para depois as manter fechadas?
É como desenhar estradas na planície, vias de comunicação para inglês ver, interditas ao tráfego de tudo quanto se possa mover. Apenas pelo valor simbólico da abertura ao exterior, pela fachada.
Fica mais bem decorada, a parede opaca, com um buraco por onde espreitar, de vez em quando, por detrás das cortinas que jogam bem com um detalhe qualquer do interior. Às escondidas do lado de fora, o agressor. À revelia do amor e de todas as emoções genuínas, o medo da luz, mais forte do que a ameaça dos fantasmas ocultos na escuridão.

A fuga apressada à primeira gota pingada, filha única da chuva que nunca chega a acontecer na realidade seca de quem veste uma gabardina por causa da incontinência de uma nuvem isolada que entretanto por ali passou. Por cima da fortaleza, o castelo (des)encantado cuja ponte levadiça emperrou. A janela que se fechou sobre si própria e assim contrariou o nobre propósito que a justificava.

Madeira carcomida, pintada de branco para simular a alegria que um simples sorriso poderia transmitir. Ou uma conversa com a vizinha do lado, braços pousados no estendal. Conversa banal, porque não? Melhor do que a solidão que dispensa janelas para lhe iluminarem as mazelas da falta de um abraço. Melhor do que o olhar baço por detrás da cortina de ferro sem fantasia onde esbarram os sonhos inviabilizados pela apatia.

Talvez pela cobardia. O perigo real de uma inesquecível constipação. Menos provável no Verão, sem descartar à partida o excelente pretexto do excesso de calor. E no Inverno o bolor, da humidade excessiva que lá fora se experimentou.

Janela fechada. Rasgada sem nexo na muralha individual.
Sempre à espera, sempre à espreita da ocasião especial.

Emperrada pela vontade adiada e pela pressa de fugir, até ao dia em que a vontade esmoreça.
E já ninguém a queira abrir.

Publicado por sharkinho às 01:41 AM | Comentários (8)

fevereiro 13, 2006

A POSTA AZUL

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Fotos: sharkinho

Tenham uma semana desta cor.

Publicado por sharkinho às 11:35 AM | Comentários (10)

fevereiro 12, 2006

A POSTA INÓCUA (Mais uma)

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Foto: sharkinho

O melhor pretexto de qualquer progenitor para justificar um comportamento irregular ou embaraçoso por parte de um filho são as “más companhias”.
Estes oportunos bodes expiatórios permitem encontrar uma explicação “de fora” para a questão interna, satisfazendo em simultâneo o impulso de preservação da imagem dos “nossos” e a nossa paz de espírito perante a eventual quota de responsabilidade que nos possa competir, na educação ou na hereditariedade.

A culpa dos outros, no acto em si ou no simples desencaminhar da pessoa certinha que, de repente, se assumiu destrambelhada. Um dos mais gastos caminhos de fuga para uma realidade que não conseguimos aceitar. E sempre actual.

Mas esta mania de atribuir a terceiros as razões ocultas para as nossas culpas não se fica pelo natural, embora condenável, instinto de mãe ou de pai. As meninas e os meninos aliviados da carga pejorativa dos seus pecados, atirada para cima de outra pessoa, aprendem a lição. Depois de crescidos, continuamos a sentir a tentação de escapar pela porta mais à mão.
Falo por mim também, claro, que não raro dou comigo a interiorizar essa facilidade ao dispor. Porto-me de forma contrária aos meus princípios e aos meus valores mas a culpa é de fulana ou de sicrano que me desviam do caminho e me obrigam a agir de forma errada. A forma errada é enveredar por um pretexto que nos transforma, pela lógica implícita, em imbecis sem vontade própria.

Os outros não servem, nunca servirão de atenuante para as nossas más escolhas. São apenas figurantes no teatro de marionetas onde nos compete manipular os fios. Donos do nosso destino, senhores da nossa capacidade de decisão. Tudo o resto não passam de baldes de areia onde enfiamos a mona como avestruzes quando a coisa se descompõe.
Claro que todos padecemos de alguma vulnerabilidade às influências que nos chegam do exterior, mais vulneráveis quanto mais ligados a essas pessoas que nos influenciam.
Contudo, a última palavra, a última atitude fica sempre a cargo de cada um de nós, da nossa consciência que distingue certo e errado, bom e mau, melhor ou pior.

Se agimos contra a nossa natureza, levados pela corrente por outros criada, não adianta descartar a responsabilidade para cúmplices de circunstância. Bastaria dizer não. E rumar na direcção oposta, se era a que nos parecia a mais acertada, arcando com quaisquer consequências, as nossas consequências, pelo desacerto de qualquer opção infeliz.

Não há santas imaculadas nem pecadores sem remissão. Somos criaturas em busca de um rumo decente para uma existência em condições, desorientadas pela ignorância que se revela em cada descoberta que se produz. Somos uns parvos que, na esmagadora maioria, desaproveitamos a vida na ingrata missão de infernizar as vidas alheias como diabolizam a nossa. Purgamos o mal em exorcismos de merda, quantas vezes à custa de outras pessoas, as tais que nos servem de justificação para as atitudes indignas e os pensamentos impuros. E renegamos o bem a cada esquina de uma vida cheia de ameaças e de ambições, de falsas promessas e de tentações demoníacas que são as inerentes à nossa frágil condição de aberrações num mundo harmonioso que estamos a arrasar.

Não há desculpa, excepto o arrependimento que se prova nas acções. Ou mesmo nas palavras, quando sinceras, daquelas que nos assumem as culpas no cartório e que constituem o motor natural para um procedimento melhor, logo a seguir.
Porque o somatório dessas intervenções, mais algo de brilhante que poucos de nós somos capazes de produzir ao longo da passagem, é o que fica da nossa presença fugaz e, regra geral, obliterada no prazo de uma geração ou duas.

Claro que isto é uma conversa inócua, considerando o lugar que todos os que nos preocupamos com estas coisas ocuparemos dentro de algumas décadas (no melhor dos cenários).

Mas um gajo tem que entreter-se com alguma coisa enquanto o tempo não esgota, não é?

Publicado por sharkinho às 04:31 PM | Comentários (12)

fevereiro 11, 2006

PARQUE DAS NAÇÕES - As Pessoas

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 11:32 PM | Comentários (0)

PARQUE DAS NAÇÕES - As coisas

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 11:03 PM | Comentários (2)

NO LADO DE CÁ

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Foto: sharkinho

O lado de lá. Ou vice-versa.

Publicado por sharkinho às 10:50 PM | Comentários (0)

(I)MORTAIS VIRTUAIS

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Confesso que nem sei por onde pegar, embora já esteja a escrever esta posta.
Descobri hoje a morte (anunciada numa caixa de comentários) de uma senhora blogueira, a Joana, do Semiramis.
E não sei por onde pegar. Se pela realidade (aparente) do óbito da alegada mãe de duas crianças e uma das mais respeitadas colegas desta nossa comunidade. Se pelo fim do Semiramis, inerente ao desaparecimento virtual e/ou físico da sua autora. Se pelo surrealismo da caixa de comentários da que terá sido a sua última entrada no blogue.
Talvez pegue pela morte propriamente dita, no contexto desta nossa vida virtual.
Parece-me que a Joana, viva ou morta, não gostaria de estar na origem de falatório póstumo.

A única forma de quem nos conhece na blogosfera saber que morremos é existir um contacto pessoal, real, entre quem bloga. E mesmo assim, só quando um blogueiro dá conhecimento desta actividade a alguém próximo é possível sabermos se um blogue interrompido sem anúncio já serve de epitáfio a um defunto qualquer.
É macabra, esta conclusão. Mas o teor dos comentários de despedida no Semiramis ilustram bem o quanto é realista a minha conclusão acima.

A morte virtual é frequente neste meio. De repente, desaparece um nick e ninguém mais sabe do seu paradeiro. Ocorre-nos logo que a pessoa por detrás do nick apenas se fartou desta cena ou decidiu investir numa nova identidade para poder recomeçar a partir do zero. Algo que já me ocorreu, quando me liquidaram o anonimato, e que está ao alcance de qualquer um(a) de nós.
Contudo, morrem pessoas todos os dias. E algumas blogam. Ou blogavam, mas nós, os restantes, não o sabemos. Limitamo-nos a deixar cair as visitas após um período razoável sem sinal de vida no blogue.

Mas a morte analógica é um bico de obra nesta nossa comunidade. Não só porque não temos tempo de fazer uma posta de despedida em condições, para esclarecimento da malta, para evitar a especulação que, às tantas, resulta na mais pura imbecilidade ou mesmo na indecência, mas porque um blogue individual é como um apartamento que ocupamos sozinhos. Se não nos damos com os vizinhos, só dão pela nossa falta quando a putrefacção do cadáver por actualizar se torna insuportável.
O problema é que num blogue não existe quem possa arrombar a porta para verificar a explicação para a ausência e conceder-nos um enterro virtual em condições.

Não estou, e leiam com atenção, a parodiar o tema. Muito menos com base numa verdade que, embora meio ambígua nesta altura, pode vir a confirmar-se indesmentível. A nossa existência analógica conhece sempre um fim, pois nem que seja no Ministério das Finanças, alguém dá pela nossa falta. Aqui não. Deixamos de blogar e todos presumem que deixámos de blogar. Não lembra a ninguém que uma embolia pulmonar ou outro imprevisto qualquer possa ter-nos privado de apresentar os cumprimentos de despedida que tantas vezes acabam por prenunciar apenas o nosso regresso, algum tempo depois.

Neste sentido, o isolamento pode tornar-nos imortais na blogosfera. Mesmo depois da missa do sétimo dia ainda haverá quem nos comente, quem nos insulte, quem nos desafie para a conversa. E se tivermos um blogue gratuito, podemos ficar presentes nas nossas palavras e na nossa existência virtual (teoricamente) para sempre…

O Semiramis foi um dos fenómenos mais notáveis da blogosfera portuguesa. Um dos indicadores mais claros está aqui. Os outros estão lá para quem os saiba apreciar.
Era a Joana quem o fazia e deixou de o fazer. O blogue morreu? Talvez sim, talvez não, depende de uma série de factores.
O mesmo, pelo que me é dado constatar nesta montra colectiva que nos expõe o talento e boa parte daquilo que nos faz gente, aplica-se à sua autora, uma inteligência fora do vulgar e um estilo de escrita quase irrepreensível.

Mas no mínimo aplica-se à grata memória que aquele nick (aquela pessoa) nos deixou, no seu registo digital.
A confirmarem-se (ou não) os piores rumores…


Publicado por sharkinho às 04:28 PM | Comentários (2)

fevereiro 10, 2006

PRIMEIRA LUZ

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Foto: sharkinho

Queria recebê-la como uma gueixa, ele a japonesa delicada, dedicada em exclusivo ao prazer de outra pessoa, ela a amante cuja falta sentia, o desejo que crescia na pressão sobre os botões das calças a partir do interior.
Servi-la como um escravo sexual, um gigolo deliciado pelo requinte do seu ritual de preparação de um momento de paixão servido numa bandeja de prata. O cuidado no pormenor, pequenos nadas que sabia lhe agradavam, mulher, atenta ao empenho do seu serviçal do amor.
Acendeu as velas quando a campainha soou.

E ela entrou, sorridente, olhar brilhante e expressão encantadora, acariciada pela luz da chama que a iluminava com dedos de cetim. Que eram os dele, afinal, passeando na marginal dos seus pontos G. E a boca a seguir, quando abriu caminho pela gola alta da camisola de lã.
Comprimida contra a parede junto à porta, entregava o corpo às sensações. E ele empurrava os seus contornos adiante, exibia potente a vontade alimentada pela espera, uma saudade descontrolada como a de um ex-presidiário transformado numa fera pelo apetite voraz.
Sabia-se capaz de a levar à loucura.
Desapertou-lhe as calças quando o primeiro gemido ecoou.

E ela tombou sobre o tampo da mesa, ladeada pelos castiçais, pernas nuas abertas de par em par como janelas para outro mundo, numa galáxia dos confins do universo que ele lhe oferecia. Veludo em brasa, aquela língua que a transportava em berço de ouro forrado com algodão. As mãos que ajudavam, como damas de honor, espalhavam sobre as suas pernas o toque suave das pétalas de flor.
A loucura chegou.
Enquanto ainda vibrava de excitação, sentiu-o erguer-se. Ele olhou-a. E o seu olhar transpirava confiança quando, com gestos lentos e cuidados, lhe juntou as pernas, beijou-lhe os joelhos e a rodou.

Deitada de lado, pernas unidas, recebeu-o em si com evidente satisfação que não tentaria ocultar. Apetecia-lhe gritar, a cada investida que o acrescentava mais um pouco, pedaço a pedaço, naquele espaço incandescente que o acolhia como uma esponja molhada e macia, como um abraço apertado dos que se dão por amor. O que ele lhe fazia, calmamente, mãos cravadas numa anca e nas nádegas como tenazes feitas de caxemira. Suaves como seda, firmes como betão.
Boca esmagada contra um braço para abafar o grito que soltaria pelo ar como um bando de aves canoras, manifestações sonoras de uma alegria difícil de conter, música bailada no céu.
Só então ele parou.

Ajoelhou-a numa cadeira, virada de costas para si. Beijou-lhe a nuca e sussurrou-lhe palavras ininteligíveis, desvarios de homem imparável na jornada que só daria por acabada quando a possuiu com ardor. A pose de conquistador, possante. O ritmo alucinante de uma concretização ansiada, de uma medalha dourada para o campeão do amor.
Queria ser o maior, o único à altura daquela deslumbrante criatura que sentia como sua quando finalmente mordeu os lábios para cerrar a boca, para conter o ruído da explosão que acontecia enquanto ela sorria, realizada, pela pista deixada do prazer que retribuiu. Sentiu-lhe o calor que jorrava no interior do corpo e da alma, em simultâneo. Ao mesmo tempo que as réplicas do terramoto anterior a sacudiam em espasmos de tentação.

Ele deitado no seu regaço e ela dobrada num abraço, imagem privada que ninguém poderia ver.
Porque a segunda vela apagada, esgotado o pavio, deixaria a sala às escuras.

À espera da primeira luz de um novo amanhecer.

Publicado por sharkinho às 02:48 PM | Comentários (13)

fevereiro 08, 2006

A POSTA ACORRENTADA

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Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.]

E pronto. Foi ela a primeira a convencer-me a aderir a este tipo de questionário. Nunca calhou e, de resto, também não recebi até hoje algum que me parecesse interessante do ponto de vista de quem lê.
Quem me lê já me ouviu falar do cariz algo excêntrico de uma parcela marginal da minha personalidade. Pois bem, é óbvio que o conjunto das minhas manias não legitima essa alegada inclinação.

Primeira: Mania da perseguição.
É um traço marcante da minha atitude perante a vida. Persigo objectivos irrealistas (utópico) e acredito que todo o mundo me persegue com fins suspeitos (paranóico). Sou perseguido pelas sombras sinistras do meu dentista a cada nova garfada e do meu banco a cada fim do mês.

Segunda: Mania das grandezas.
Tendo a esquecer a minha origem (e o meu final) de poeira cósmica, bem como a soma astronómica das minhas limitações. Nunca comparo o meu com o de um elefante mas com o de um colibri (estou a falar do cérebro, claro). Gostava de ser rico (milionário), belo (irresistível) e inteligente (realista).

Terceira: Mania da diferença.
Desde puto, sempre fomentei as peculiaridades que pudessem distinguir-me do resto da multidão. Mesmo as mais absurdas. Como ser o primeiro aluno expulso na carreira da minha professora de História (que também era a presidente do conselho directivo), no liceu. Ou o primeiro aluno suspenso (três dias, ex aequo com o meu melhor amigo da altura) na escola primária que frequentei. Ou ser o primeiro líder estudantil a explorar em benefício próprio um esquema de transferências (pagas) de jogadores no campeonato de futebol organizado pela Associação de Estudantes.
Tudo isto depois de constatar que não poderia ser o primeiro ser humano a pisar a lua e antes de desistir da ideia de ser o pioneiro da legalização (institucionalização) da poligamia em Portugal.
Diferente na mania intransigente de que o sou. E até quase aos 20 anos acreditei ser o único homem do planeta com a pila inclinada para a esquerda (não sei se esta mania conta).

Quarta: Mania das ilusões
A minha existência resume-se às ilusões que sistematicamente alimentei nos outros e em mim próprio para, invariavelmente, as reduzir à poeira cósmica primordial (no princípio é que era o caos, mas comigo é no fim - podia incluir-se na mania anterior, mas tenho que esticar a cena para completar o quinteto).

Quinta: Mania dos finais felizes.
Todas as minhas estórias devem ter um epílogo satisfatório. Sobretudo em matéria de refeições (uma boa sobremesa é um must e deixo SEMPRE o melhor para o fim), de conflitos (o melhor de uma boa zaragata é uma excelente reconciliação) e de sexo (aqui incluo, por sistema, o fim também no princípio pois uma boa sessão de preliminares é um aperitivo que se degusta com a satisfação de uma refeição completa).

E pronto, como se pode constatar sou um bocejo em matéria de bizarrias e de anormalidades catitas. Nem um fetiche em condições consigo assumir para gáudio de uma assistência ávida de segredos inconfessáveis.
Ah, e agora tenho que cumprir o regulamento acima pois não quero ser o empata (break the chain). E vou designar meia dúzia, pois não tou a ver um certo moinante a cumprir o seu quinhão e só o "misturo" para anunciar o seu regresso às lides a solo...
Assim, temos:

Soslayo - In Mente
João Pedro da Costa - Ruínas Circulares (é verdade: regressou, o gajo)
LN - Conversamos
Vague - La Maree Haute
Sofia - O Tecto
Manu - Josferlam (podes responder em francês, no teu blogue, se preferires)

Publicado por sharkinho às 10:20 PM | Comentários (38)

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Auto da barca do Inverno.

Publicado por sharkinho às 09:07 AM | Comentários (13)

fevereiro 07, 2006

A GUERRA DOS MUNDOS

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O Hamshahri, o jornal mais vendido no Irão, acaba de lançar uma competição para encontrar a melhor caricatura acerca do Holocausto.
A ideia, afirmam, é seguir o mesmo critério dos periódicos que divulgaram as polémicas caricaturas de Maomé e assim testar os limites da liberdade de expressão ocidental.
Começam a extremar-se posições e temos motivos para recear as repercussões desta escalada do confronto entre dois mundos num só.

A liberdade de expressão é um valor que tenho defendido como posso e sei, sagrado como o entendo. Porém, nunca fiz a apologia de qualquer tipo de liberdade que tenda para o abuso. E parece-me ser o caso, na iniciativa do jornal dinamarquês que está na origem desta caldeirada.
A situação não é comparável à do célebre cartoon do papa com um preservativo enfiado no nariz e que suscitou a maior recolha de assinaturas que o nosso país conheceu, pois Maomé poderá ser “equiparado” a Jesus Cristo no contexto do Islão e o papa, qualquer papa, não passa de um líder religioso de carne e osso que responde como qualquer cidadão pelas consequências da sua liderança.

Foi excessivo, no meu entender, o usufruto da liberdade por parte de quem decidiu promover e publicar algo de tão insultuoso para a fé de terceiros. Sobretudo no contexto actual, em que a moderação e o bom senso constituem as únicas armas ao dispor dos que tentam acabar com este clima de confronto entre civilizações (alimentado por extremistas de ambos os lados da “barricada”).
As caricaturas em causa não são um teste à liberdade de expressão de que nos orgulhamos, são uma leviandade que já está a custar caro e pode perfeitamente assumir proporções descontroladas e desnecessárias.
Liberdade sem limites corresponde ao caos.

E é o caos que encontramos no outro lado da questão. A sede de represálias que já causou morte e destruição é a face visível desta revolta de quem alimenta um sentimento de humilhação perante questões como a do Iraque ou a da Palestina. É errado o comportamento das turbas que incendeiam consulados, como é despropositada a exigência de que a Dinamarca ou qualquer nação apresente desculpas pelos excessos e pelas palermices dos seus cidadãos ou instituições privadas.
Achas para uma fogueira que não cessa de crescer e já assumiu contornos de um incêndio que não se controla à bruta pela via militar. Como se vê nos países árabes que citei.

Vejo esta questão como uma vara de dois bicos, onde ninguém é detentor da razão e quem a tivesse já a perdeu. O jornal dinamarquês assumiu uma decisão controversa e mal justificada. A comunidade islâmica mundial reagiu de forma desproporcionada ao que sentiu como um insulto, mesmo à luz dos ensinamentos que o Corão veicula. Porque a violência física nunca constitui uma reacção aceitável e porque estas arruaças não servem em nada os interesses das populações afectadas.

Temo a reacção de Israel (o Irão ali tão perto…) como receio o recrudescimento do terrorismo na sequência de mais um episódio deplorável deste medir de forças que semeia o medo e a desconfiança e ateia focos de tensão um pouco por todo o planeta. Isto é um absurdo e eu não me sinto motivado para combater os “mouros” como os meus antepassados, séculos atrás.
Sinto apenas a vontade de ver abolidos os extremismos que nos ameaçam e que se alimentam de caricaturas de toda a espécie, de pretextos dispensáveis que quem aprecia a paz não pode de forma alguma fomentar empoleirando-se na liberdade de expressão e nas costas largas do poder financeiro e militar ocidental. E de uma superioridade moral que, perante este tipo de paródia sem piada, soa ainda mais questionável.

O humor e o sarcasmo são ferramentas políticas saudáveis, mas adquirem contornos perniciosos quando achincalham valores desta natureza. Sobretudo sem terem em consideração o momento tão descaradamente inoportuno para o fazerem. É como semear ventos para colher tempestades.
Da mesma forma, o comportamento arruaceiro e vingativo é um recurso miserável para impor pontos de vista, manifestar desagrados ou exigir pedidos de desculpa.

Nesta embrulhada não vejo que alguém possa sair vencedor.

Publicado por sharkinho às 12:00 PM | Comentários (6)

fevereiro 06, 2006

LÁGRIMAS DE MEL

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Foto: Mar

Embrulhar-te em palavras lambidas na tua pele, tatuadas com o desejo, gravadas num beijo escrito com a tinta permanente da minha paixão.
Afogar-te em frases bonitas, jorradas no teu corpo como um duche quente, sopa de letras escaldante que pudesses sorver de mim.
Aconchegar-te a alma com um texto imortal, rasgado no papel com a ânsia de fazer justiça à preponderância que assume na minha vida o simples facto de nela existires e de me assumires como teu.

Oferecer-te o meu carinho, suave, mais a energia que emana do reflexo na minha cama da luz do sol em que te tornaste para mim. Iluminas e aqueces, imaginas as minhas preces pelo dom de ser capaz de fazer feliz. Como me sinto no céu onde me recolhes em ti.
Palavras aladas nas emoções arrebatadas, esvoaçam no fundo branco e desenham em tons fortes e garridos uma imagem perfeita, a tua. Recortada contra a lua, inoportuna em pleno dia, num eclipse parcial. A silhueta de um amor recortado em forma de mulher.

Dizer-te por escrito que cada vez mais acredito na viabilidade de uma relação para a eternidade e mesmo depois. Cultivada em cada dia para colher na manhã seguinte o fruto que a semente deixou, o orvalho a secar de uma noite a transpirar a vontade de fazer o amor que se diz. A saudade logo a seguir e o desejo a repetir a sua dança no espaço sideral para onde me envias, sempre que me aceitas amante.
No rasto de uma estrela cadente, de um cometa talvez, consigo ler as palavras que te queria fornecer a um ritmo endiabrado. O discurso inflamado pelo acelerar da pulsação, sempre que pouso esta mão no teu calor. A mesma que passeia nas teclas e as acaricia para estimular a inspiração.
Para te cantar à altura.

Mulher, mãe e amiga. Pessoa repartida por um conjunto de funções, aglomerado de emoções prensadas pela força interior e pelo teor das circunstâncias.
Espremidas, derramam sobre a terra firme que sou algumas gotas e evaporam depois.
Sob a forma de palavras, gaseificadas, nuvens apaixonadas que te escrevo e agora sopro para os braços do vento que as fará chover no teu olhar.

Lágrimas de mel, doces e salgadas, com pitadas de alegria.
Palavras no papel com que foram embrulhadas.

Um papel de fantasia.

Publicado por sharkinho às 12:52 PM | Comentários (7)

A POSTA NO DIVÃ

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O improvável não é impossível. A frase não é minha, é do Edgar Morin. Mas serve na perfeição para descrever uma boa parte da minha atitude na vida.
Este tapete vermelho para as utopias funciona como um lema que sigo com uma fidelidade canina. Justifica-me a excentricidade nas ambições e a tangibilidade nas paranóias.

É improvável não se conseguir o que verdadeiramente se quer. A força da vontade é esmagadora quando aplicada com determinação, coragem, prudência e convicção. O impossível tem sempre uma fraqueza, uma debilidade conceptual a que nem a morte dá resposta. É possível sobreviver à própria morte, afirmam muitos, embora sempre defendidos pelo manto especulativo do sobrenatural que caracteriza essa sobrevivência num plano alegadamente superior. De confirmação teoricamente impossível, ao que sabemos, até ver.
Não é impossível no domínio da fé. E esta última, aplicada aos meus desejos e às minhas decisões é a inimiga lógica natural de qualquer impossibilidade anunciada.

Nada é impossível, mesmo quando as probabilidades escasseiam. O tiro na mouche, o reencontro inesperado, a chave do Euromilhões. Basta uma incrível coincidência, um milagre na sua concepção menos divina. O milagre da sorte e do azar.
Acontecem, as porras, de onde menos as esperamos. O pouco provável é uma porta entreaberta para o descuido, a defesa desguarnecida. E serve de base a qualquer teoria da conspiração, legitima-a com essa dúvida metódica, cautelosa, que se transforma facilmente numa suspeita que se transfigura numa acusação.
É assim que a coisa se processa num símio com calo no cu ou num felino vítima de um escaldão. A tarimba mais foleira que a vida oferece a alguém.

Improvável é a impossibilidade seja do que for. Bom ou mau. Land of oportunity e tormento infernal, num mesmo espaço, num mesmo tempo, à distância tão curta de uma questão de pormenor. De um erro de interpretação. De um tropeção ocasional que pode fazer toda a diferença no desfecho que se obtém.
As coisas impossíveis não cessam de acontecer. Já pouco me surpreendem, aliás.
A realidade que nos encorna na ficção. Os planos maquiavélicos do acaso para nos acabar com as certezas absolutas, traçados pela mente com base na especulação ou nas conclusões precipitadas acerca de algo que se observou.

A insegurança é como um agente infiltrado que a desconfiança produz para nos obrigar a reforçar as defesas, ou mesmo a atacar os fantasmas de papel. Pensamo-nos alvos únicos para um batalhão de atiradores especiais. Sempre alerta aos sinais, à nesga que a porta frágil da situação improvável nos expõe.

Por outro lado, existe a tal saída que nos permite escapar de vez em quando à guarita. E esse túnel interno, escavado a custo no solo firme da nossa protecção, chamo-lhe fé como podia chamar-lhe outra coisa qualquer.
É por aí que me piro dos males com que a vida me acena nas memórias dos maus bocados que aqui e ali enfrentei, pendurado numa corda feita de sonhos e de esperança em vitórias que a improbabilidade não consegue, de todo, dissuadir.
Apostas a fingir, túnel escorado no lado menos encantador das ilusões. A possibilidade de o improvável surgir pela negativa…

Eu acredito nas surpresas, nas reviravoltas que o destino nos oferece como resultado das maquinações de uma força superior. Nas boas e nas más. Acredito no ódio como acredito no amor. E na confiança como na traição. Os extremos opostos reunidos numa mesma situação, em potência, a sorte ou recompensa e o azar ou consequência de uma má opção.
Na minha existência convivi com as manifestações desta verdade que nos atordoa, quando nos eleva à euforia e depois nos arrasta à depressão. Ou vice-versa. Os eventos improváveis que são passíveis de acontecer. As impossibilidades de tanga que nos apanham com as calças na mão.

Um passo em frente pela oportunidade e a sua contrapartida pela fragilidade da nossa condição humana perante os reveses inesperados, pelo quanto uma desilusão acarreta de devastador.
O medo de perder o que temos de bom, por desleixo ou distracção. E do mal oportunista, atento às brechas que abrimos de cada vez que não acautelamos o desenlace opcional.
E a coragem de aproveitar o benefício que a improbabilidade permite espreitar. Ou a tal fé que pode mover as montanhas (da inércia) à velocidade de um foguetão.

Aquilo que nos catapulta para um sucesso impossível pode constituir o melhor pretexto para a nossa desdita maior. É esse o maior risco de quem arrisca por impulso mas não dispensa o aconchego da protecção.
É esse o preço a pagar nos antípodas das meias tintas, na ausência de cor ou no espalhafato de um borrão.
Vencedores e vencidos com as mesmas cartas na mão, dependendo da conjuntura.

Há muito de improvável, sem dúvida.
Mas tudo pode acontecer…

Publicado por sharkinho às 01:03 AM | Comentários (7)

fevereiro 05, 2006

A POSTA ANTES QUE MURCHE

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Foto: sharkinho

Nem só nos rostos de passagem pelos caminhos trilhados e pelos que faltam trilhar o tempo impõe e ilustra a mudança com a inexorabilidade das suas marcas.
Em nosso redor, as provas acumulam-se do crime que nos sentencia.
A pena que sentimos, tarde demais, de nos encarcerarmos numa ilusão.

A de que o tempo que esbanjamos fica à nossa espera, à espera de que acordemos para as mensagens que nos deixa à consciência. O tempo que nos resta para aprendermos a lição, para abrirmos os olhos à verdade que nos dói da certeza de um fim ou de uma transição definitiva para uma dimensão sem garantias, talvez sem a beleza dos recados que o tempo nos oferece, gentil, em cada canteiro que entretanto cuidou de florir nos poucos espaços concedidos pela leviandade grosseira da nossa permanente distracção.

Publicado por sharkinho às 04:17 PM | Comentários (2)

fevereiro 04, 2006

SÃO LÉSBICAS SIM. E ATÃO?

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Foto: sharkinho

A minha posição acerca do assunto é esta: as duas mulheres que viram recusado o seu desejo de contraírem matrimónio têm mais tomates do que a esmagadora maioria dos homens que conheci ao longo da minha existência. E esta é a que me salta à vista, quando tento imaginar o tipo de pressões a que se terão submetido desde que assumiram a sua relação proibida à face da lei, dos costumes e da mania filha da puta de toda a gente meter o bedelho na felicidade alheia para a emporcalhar com os mesmos argumentos e atitude que destruíram a sua. Eu explico melhor.

Ser feliz é um desafio diabólico, num mundo onde um ser humano normal já terá sorte se conseguir reunir em seu redor uma meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas suas necessidades e preocupações. Quando essa felicidade envolve algo que colida com a moralzinha institucional, como esta coisa nojenta de criaturas do mesmo sexo apaixonarem-se umas pelas outras, a falsa beataria denuncia de imediato o desconforto com atoardas pseudo humorísticas ou mesmo com o discurso enlatado da moralidade convencional.

A pilinha no pipi é que está bem. Na posição de missionário, para adorar a Deus por inerência e apenas para efeitos reprodutivos. É assim que a malta gosta de pensar que se faz, apesar de (como qualquer estudo confirma) fazerem menos do que gostariam ou mais do que assumem perante a plateia.
E quando surgem a lume duas gajas (ainda por cima, gajas) a reclamarem o respeito que a sociedade pós-medieval lhes deve, caem-lhes em cima as frustrações, as castrações, as invejas (ah, pois), os tiques puritanos de uma seita de contrabandistas do pecado. Que se manifestam em tom jocoso ou recorrem mesmo ao insulto vil para exibirem o seu nojo pela liberdade exigida por quem possui o mesmíssimo direito de ser feliz. À sua maneira.

Eu tenho a sorte de ser heterossexual. É uma sorte porque me coloca no grupo tolerado dos que, mesmo fazendo coisas proibidas à luz das convenções, o fazem de uma forma aceitável para a sensibilidade arcaica destes arrumadinhos e engomados infelizes que adoram empatar as fadas alheias. E é uma sorte porque não precisei de enfrentar toda a carga pejorativa (os outros) que se instala nas vidas de quem prefere viver de forma diferente da minha o sexo e o amor.
Pior para as raparigas em causa, só se fossem pretas ou qualquer outro desses estigmas de merda que pintam a diferença como uma tabuleta que distingue as pessoas alegadamente inferiores ou mesmo perigosas para quem se sente afectado por tudo quanto pise a linha traçada pela diatribe da moral cristã e outras imposições do além que só lixam a vida das pessoas.

Não tenho nada a ver com a vida das duas mulheres que conheço da televisão e nem faria menção à sua luta titânica se não assistisse às brincadeiras de mau gosto, às manifestações de repúdio sonso e ao conjunto de exibições de hostilidade mais ou menos encapotada com que me deparo na blogosfera também.
Pode ficar a ideia errada de que aquele casal só conta com a simpatia e o apoio da comunidade lésbica e gay.

A homossexualidade existe, é um facto e não há forma (nem pretexto) de o erradicar. Nem argumentos plausíveis. Então a questão é simples para mim: a legislação deve eliminar os obstáculos que impedem qualquer cidadão de ter uma vida normal, qualquer que seja a sua preferência sexual. Isto é assim tão complicado, deixar a cada um a sua opção de felicidade e consignar essa liberdade de escolha na lei?
É assim tão difícil de suportar a liberdade dos outros quando a espreitamos por detrás das grades dos nossos espartilhos culturais?

Prefiro enfatizar a coragem e a rebeldia. Prefiro dar a cara pelo amor, mesmo de quem ama de uma forma diferente da minha e isso não me torna especial: é o que todos deveríamos defender como prioridade e, em última análise, como a única possibilidade do mundo que construímos poder evoluir no sentido correcto.

E a escolha acertada é sempre a que privilegia a felicidade como valor fundamental.

Publicado por sharkinho às 10:41 AM | Comentários (18)

fevereiro 02, 2006

À VISTA DESARMADA

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aqui


Para além das madrugadas, a esperança. Por detrás da bruma, a claridade.
Mais do a imagem, que a síncope na respiração ao admirá-la, aquilo que floresce do chão que ela esconde é que importa.

Mar

Publicado por sharkinho às 09:18 PM | Comentários (13)

SONHO HÚMIDO

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Foto: sharkinho

Vinha frio lá de fora.

Tinha que calafetar os sentidos, abandonar os pruridos e seguir o trilho deixado por quem não ficou para trás e o ajudava pelo caminho, uma luz.
Perseguir o calor, a alternativa melhor para fugir à fúria gelada da desforra mal disfarçada do busto que gostava de fazer de conta. A política correcta da palavra mais certa, soprada entre os dentes, como a flauta encanta serpentes com a música sibilada.
E tombaram no abismo sem fim, para lá da amurada, os seguidores de Hamelin na barca naufragada.

A cena mudou.

No meio do arvoredo agitado pela brisa, excitado pela fricção das palavras que consolam (à falta de melhor), está o sonho desfeito, a utopia que se esfrangalhou.
E na expressão sonsa do galináceo, ave de rapina com penas de algodão, desvenda-se o mistério daquele tom aparentemente tão sério que pugnava pela virtude. Mas falhava amiúde à promessa, jurava confiança e oferecia desilusão.

Um cenário surrealista, agravado à força pelo frio de rachar. Começaria a nevar, nesse dia, se a nuvem que o cobria não fosse sonhada. Caiu a chuvada, limpeza a seco do céu. A roupa suja estendida no varal era apenas uma amostra do enorme vendaval de porcaria, o futuro desenhado nas nódoas que são. Um problema, a brancura do tide no lençol do fantasma transformado num papão.

A justiça também marcou presença, depois da indiferença finalmente despertou. Dona coruja falou. Salvaram-se os valores fundamentais. Criaturas anormais acossadas pelo medo, unidas em segredo para a consumação do festim. Consciências absolvidas à boca cheia, a orgia de uma panaceia colectiva para o mal personificado, o falso iluminado pelas velas do ritual de expurgação.
Penitência do prevaricador, a sua essência de pecador sentenciada sem questionar.

Plateia de inocentes, os falsos indiferentes, pequenas abelhinhas em busca do ferrão. Não estava à disposição e na colmeia não perdoaram, raivosas, e atacaram frustradas num gesto solidário a bossa do dromedário que simplesmente as ignorou.
Imóvel ficou, no meio do deserto de ideias e de acções, a contemplar com serenidade o derradeiro suspiro das vespas postiças que zumbiam zangadas, todas revoltadas e em biquinhos dos pés. Outras em silêncio.

Percorreram de lés-a-lés a floresta em ritmo de grande festa por acabar o pesadelo, dar início ao degelo que a primavera traria. Palmadinhas nas costas como prémio de compensação, tão bonitos que nós somos, os que completámos a missão. Já arde na fogueira inquisitória o abeto enregelado do cemitério ali ao lado, tapava a vista para o génio e ofuscava a bela história que se poderia contar, uma canção de embalar num ritmo pachola.
A versão muito florida de uma selva envaidecida por saber bater o pé.

Ao ritmo descompassado de quem chegou atrasado para o beijo da despedida. Proibição de participar no doce despertar da bela adormecida que assim ressuscitaria como alma penada com a água gelada que o balde despejou.

(Muda a cena outra vez)

E foi assim que ele acordou.

Publicado por sharkinho às 09:00 PM

fevereiro 01, 2006

A POSTA HOMENAGEADA

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Hoje quero dedicar uma pequena homenagem a quem bloga pela blogosfera. Ou seja, aqueles blogueiros que mantêm espaços que servem acima de tudo como referências, como mapas para a navegação por este mar imenso de palavras e de pessoas que nunca parou de crescer.
E parte significativa desse crescimento deriva destas iniciativas abnegadas por parte de quem comprou a ideia e a revende com entusiasmo, de borla, em blogues concebidos para a divulgação de obra alheia.

São vários, cada um com a sua abordagem e mais ou menos sofisticados.
Começo pelo primeiro que conheci, o Apdeites. Trata-se de uma carolice pura, sofrida (até um incêndio sofreu, o nosso colega da cedilha.com), teimosa, de alguém que investe de si nesta comunidade. E por isso merece o reconhecimento de quem recolhe os benefícios, nós todos, os utilizadores.
O Apdeites faz parte de um mundo de informação ao dispor de quem bloga. Listagens da actualização dos blogues, tutoriais para a caloirada, dicas para quase tudo feitas “à mão” por uma pessoa como nós, com uma vida, com compromissos.
O respeito é o mínimo que este trabalho pode inspirar a quem lhe sabe atribuir o devido valor.

Outro histórico, o Posto de Escuta, tem uma forma mais simples mas genial de guiar os visitantes por esta floresta (a roçar a selva, por vezes) de umbigos que blogam.
Este espaço destaca trechos brilhantes, tiradas de génio recolhidas ao acaso em postas de excelentes blogues que conheci a partir desses resumos que o Posto prepara para nos oferecer.
É simples, é directo e é agradável. Faz parte dos meus indispensáveis.

Mais recente, o Plagiadíssimo do Zeak denuncia-se pelo nome. Este nosso simpático e comunicativo colega dá-se ao trabalho de “picar” as postas (com gravura e tudo) que mais lhe agradam e escarrapacha-as no seu espaço.
Um plágio benigno, pois as metástases alastram todos os dias com uma carrada de palavras das mais diversificadas proveniências. Sem elitismos, sem critérios em função da estatística. Apenas uma montra construída por um blogueiro para nos expor, para partilhar com a malta aquilo que mais prendeu a sua atenção.
Admiro a capacidade de sacrifício deste colega, a sua forma altruísta de blogar. E só estranho a falta de adesão dos felizes contemplados pelo “olho clínico” do Zeak às suas caixas de comentários.
São poucos os que se dignam a, no mínimo, deixar uma palavra de agradecimento ou de reconhecimento daquela atençãozinha que, não me lixem, sabe muito bem a quem bloga.

E termino no Weblog.pt, o blogue. O espaço, que há pouco tempo foi pintado de fresco para ainda melhor nos servir, é funcional, é informativo e funciona como um ponto de passagem obrigatória para mim e para muitos dos que alojam o seu trabalho naquela plataforma.
Claro que se trata de um projecto de índole comercial, mas há muito de espírito blogueiro na construção do blogue em causa. Há muitas horas de trabalho naquele espaço e muito do teor desse trabalho incide em aspectos que uma realidade comercial pura jamais contemplaria.

E já que elogio o empenho destes colegas na divulgação e no apoio ao que produzimos nas nossas residências virtuais, aproveito para recordar dois espaços que me tocam particularmente e que reflectem também a generosidade e o empenho de quem aprecia a blogosfera e a tenta beneficiar na imagem, na credibilidade e na utilidade prática.
O Memória Virtual, do Leonel Vicente (uma das minhas figuras de referência nesta comunidade) e o Proximizade (que merecia, a meu ver, um maior carinho por parte da rapaziada).

Publicado por sharkinho às 10:38 AM | Comentários (10)