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fevereiro 15, 2006

JANELA FECHADA

agua furtada.JPG
Foto: sharkinho


Para quê a ânsia de rasgar janelas na muralha, de abrir uma brecha à luz dos raios de sol e ao arrepio da brisa nos cabelos, para depois as manter fechadas?
É como desenhar estradas na planície, vias de comunicação para inglês ver, interditas ao tráfego de tudo quanto se possa mover. Apenas pelo valor simbólico da abertura ao exterior, pela fachada.
Fica mais bem decorada, a parede opaca, com um buraco por onde espreitar, de vez em quando, por detrás das cortinas que jogam bem com um detalhe qualquer do interior. Às escondidas do lado de fora, o agressor. À revelia do amor e de todas as emoções genuínas, o medo da luz, mais forte do que a ameaça dos fantasmas ocultos na escuridão.

A fuga apressada à primeira gota pingada, filha única da chuva que nunca chega a acontecer na realidade seca de quem veste uma gabardina por causa da incontinência de uma nuvem isolada que entretanto por ali passou. Por cima da fortaleza, o castelo (des)encantado cuja ponte levadiça emperrou. A janela que se fechou sobre si própria e assim contrariou o nobre propósito que a justificava.

Madeira carcomida, pintada de branco para simular a alegria que um simples sorriso poderia transmitir. Ou uma conversa com a vizinha do lado, braços pousados no estendal. Conversa banal, porque não? Melhor do que a solidão que dispensa janelas para lhe iluminarem as mazelas da falta de um abraço. Melhor do que o olhar baço por detrás da cortina de ferro sem fantasia onde esbarram os sonhos inviabilizados pela apatia.

Talvez pela cobardia. O perigo real de uma inesquecível constipação. Menos provável no Verão, sem descartar à partida o excelente pretexto do excesso de calor. E no Inverno o bolor, da humidade excessiva que lá fora se experimentou.

Janela fechada. Rasgada sem nexo na muralha individual.
Sempre à espera, sempre à espreita da ocasião especial.

Emperrada pela vontade adiada e pela pressa de fugir, até ao dia em que a vontade esmoreça.
E já ninguém a queira abrir.

Publicado por sharkinho às fevereiro 15, 2006 01:41 AM

Comentários

Bonito.
E há sempre a hipótese de abrir a qualquer momento, arejar o pó e o bolor, memso depois de um longo período fechada. É sempre melhor haver janelas, acho eu. :-)

Publicado por: Mar às fevereiro 15, 2006 01:31 PM

Sem dúvida, Mar. Mas concordarás que é um desperdício, não desbundar a aragem e o soleil com a fresta mesmo ali à mão... ;)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 02:39 PM

Gosto da fotografia.. aliás, todas elas são lindíssimas, aqui no teu blog.
Uma janela fechada é sempre uma janela que se pode abrir.

Publicado por: Cátia aka Isobel às fevereiro 15, 2006 02:40 PM

Nem mais, Cátia (ou preferes Isobel?).
Eu também prefiro, como disse à Mar, que todos tenhamos a coragem de "rasgar" janelas. Mas dá pena, depois da parte mais difícil (que é a da "construção civil"), ver o casulo quase tão hermético como se nem existisse a abertura providencial...
Quanto aos "bonecos", eu gosto mesmo é de escrever mas percebi entretanto que a foto é apenas outra forma de descrever o que se observa e de transmitir as emoções associadas. Mas continuo a achar que uma palavra pode valer por mil imagens.
Julgo que é a tua primeira intervenção no charco e por isso estendo-te o tapete de entrada (o que diz "benvinda").

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 02:56 PM

Pode ser Cátia :)
As palavras transmitem sensações que as imagens não coseguem e vice-versa. Têm funções diferentes, são linguagem diferentes..
Às vezes, temos receio do frio que vem lá de fora, outras do calor extremo que entra quando a janela abre. É um passo pequeno entre decidir abrir e não abrir, ficando no casulo, a olhar lá para fora (e, muitas vezes, nem isso).
É, realmente, a primeira vez que escrevo no blog mas já há uns tempos que o lia, andava a apreciar :D
Agradeço as boas-vindas :)

Publicado por: Cátia aka Isobel às fevereiro 15, 2006 03:50 PM

E tu, a avaliar pelos Kajagoogoo daquele teste, também não dispensas a cortina da praxe... :)
Tenho motivos de sobra, como muito do que este blogue pode documentar, para ser pouco apologista de janelas abertas. Porém, é irresistível o meu impulso de as abrir de par em par para sentir o que de bom e de mau me trazem os ventos lá de fora. É uma variante maso como outra qualquer...
Folgo em saber que já andas há uns tempos em "escavações" por estas bandas (do lado de cá do nosso Tejo) e espero que sintas sempre justificado o tempo que aqui empregas.
Não tens nada que agradecer. E aparece na caixa de conversa sempre que queiras.
A chave, aqui, está sempre debaixo do tal tapete de entrada.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 04:32 PM

Gosto da tua maneira de escrever quando abordas como aqui algo que da oportunidade a um dialogue humano e descontraído sem agressividade.
As tuas fotos estão boas e permitem uma interpretação pessoal. As palavras são mais difíceis e como tu es um artista para as manipular e dar um sentido que nem sempre é devidamente interpretado por aquele que perdeu o fio aonde o querias levar mas neste texto penso ter ido a interpretação exacta.
O que percebi no Português que aprendo contigo é a dificuldade que tenho para transmitir o que quero dizer, tenho a certeza que muitas vezes nao percebes o sentido do que digo.
A@+

Publicado por: Manu às fevereiro 15, 2006 05:26 PM

Não são muitas as vezes, Manu, e acabo por chegar lá com um pouco mais de atenção e tendo em conta o que já conheço de ti. E quando não percebo de todo, pergunto. É assim que temos esclarecido as confusões, não é?
O texto fala do individualismo exagerado. A foto foi a fonte de inspiração, pois eu só queria legendá-la. A partir da primeira frase (que seria a única do post), acabei por me entreter na "conversa" com os meus botões... :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 15, 2006 06:21 PM