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fevereiro 04, 2006

SÃO LÉSBICAS SIM. E ATÃO?

a vida das outras.JPG
Foto: sharkinho

A minha posição acerca do assunto é esta: as duas mulheres que viram recusado o seu desejo de contraírem matrimónio têm mais tomates do que a esmagadora maioria dos homens que conheci ao longo da minha existência. E esta é a que me salta à vista, quando tento imaginar o tipo de pressões a que se terão submetido desde que assumiram a sua relação proibida à face da lei, dos costumes e da mania filha da puta de toda a gente meter o bedelho na felicidade alheia para a emporcalhar com os mesmos argumentos e atitude que destruíram a sua. Eu explico melhor.

Ser feliz é um desafio diabólico, num mundo onde um ser humano normal já terá sorte se conseguir reunir em seu redor uma meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas suas necessidades e preocupações. Quando essa felicidade envolve algo que colida com a moralzinha institucional, como esta coisa nojenta de criaturas do mesmo sexo apaixonarem-se umas pelas outras, a falsa beataria denuncia de imediato o desconforto com atoardas pseudo humorísticas ou mesmo com o discurso enlatado da moralidade convencional.

A pilinha no pipi é que está bem. Na posição de missionário, para adorar a Deus por inerência e apenas para efeitos reprodutivos. É assim que a malta gosta de pensar que se faz, apesar de (como qualquer estudo confirma) fazerem menos do que gostariam ou mais do que assumem perante a plateia.
E quando surgem a lume duas gajas (ainda por cima, gajas) a reclamarem o respeito que a sociedade pós-medieval lhes deve, caem-lhes em cima as frustrações, as castrações, as invejas (ah, pois), os tiques puritanos de uma seita de contrabandistas do pecado. Que se manifestam em tom jocoso ou recorrem mesmo ao insulto vil para exibirem o seu nojo pela liberdade exigida por quem possui o mesmíssimo direito de ser feliz. À sua maneira.

Eu tenho a sorte de ser heterossexual. É uma sorte porque me coloca no grupo tolerado dos que, mesmo fazendo coisas proibidas à luz das convenções, o fazem de uma forma aceitável para a sensibilidade arcaica destes arrumadinhos e engomados infelizes que adoram empatar as fadas alheias. E é uma sorte porque não precisei de enfrentar toda a carga pejorativa (os outros) que se instala nas vidas de quem prefere viver de forma diferente da minha o sexo e o amor.
Pior para as raparigas em causa, só se fossem pretas ou qualquer outro desses estigmas de merda que pintam a diferença como uma tabuleta que distingue as pessoas alegadamente inferiores ou mesmo perigosas para quem se sente afectado por tudo quanto pise a linha traçada pela diatribe da moral cristã e outras imposições do além que só lixam a vida das pessoas.

Não tenho nada a ver com a vida das duas mulheres que conheço da televisão e nem faria menção à sua luta titânica se não assistisse às brincadeiras de mau gosto, às manifestações de repúdio sonso e ao conjunto de exibições de hostilidade mais ou menos encapotada com que me deparo na blogosfera também.
Pode ficar a ideia errada de que aquele casal só conta com a simpatia e o apoio da comunidade lésbica e gay.

A homossexualidade existe, é um facto e não há forma (nem pretexto) de o erradicar. Nem argumentos plausíveis. Então a questão é simples para mim: a legislação deve eliminar os obstáculos que impedem qualquer cidadão de ter uma vida normal, qualquer que seja a sua preferência sexual. Isto é assim tão complicado, deixar a cada um a sua opção de felicidade e consignar essa liberdade de escolha na lei?
É assim tão difícil de suportar a liberdade dos outros quando a espreitamos por detrás das grades dos nossos espartilhos culturais?

Prefiro enfatizar a coragem e a rebeldia. Prefiro dar a cara pelo amor, mesmo de quem ama de uma forma diferente da minha e isso não me torna especial: é o que todos deveríamos defender como prioridade e, em última análise, como a única possibilidade do mundo que construímos poder evoluir no sentido correcto.

E a escolha acertada é sempre a que privilegia a felicidade como valor fundamental.

Publicado por sharkinho às fevereiro 4, 2006 10:41 AM

Comentários

Esta, como a do aborto, é daquelas polémicas-vómito que revelam, em todo o seu esplendor, os hipócritas deste país.
Para mim as liberdades, garantias e direitos individuais são para ser cumpridos.
Individuais, quer dizer que digam respeito ao indivíduo, se é que ainda não percebeu quem se acha no direito de opinar contra. Casar, procriar, ter relações sexuais ou outras, são coisas individuais a decidir por dois.
Qual é a dúvida?

Publicado por: Mar às fevereiro 4, 2006 01:19 PM

Bom, eu fiquei esclarecido... :)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 4, 2006 04:33 PM

É desconfortável mesmo. Não sei q pense.

Concordo com o teu 2º parágrafo, sobretudo com a 1ª frase.

Um(s) beijo(s), ando a ver se os blogs ainda estão no mesmo sítio, numa ronda rápida:)

Publicado por: vague às fevereiro 4, 2006 05:39 PM

É desconfortável imaginar, não sou tão liberal assim e nem acho tudo 'normal'. No entanto temos de respeitar as decisões pessoais, sendo q algumas nem opções são, são imposições interiores.
E essa coisa do desejo tem muito q se lhe diga.
Este texto tem muitas pontas soltas por onde pegar - isso é bom.

Qto aos missionários, olha q são homens e mulheres q (abstrai-te da evangelização) tentam combater a miséria e o analfabetismo.
:) Falo a sério a brincar,
agora é q é, fui **

Publicado por: vague às fevereiro 4, 2006 05:44 PM

Não vou discutir contigo as nossas posições sobre o assunto em si. No entanto, venho lembrar-te que o que elas fazem enferma de grave ilegalidade - afrontam o código civil português, que não prev~e o casamento de duas pessoas do mesmo sexo.
Portanto, e dando de barato tudo o resto, primeiro lutam pela mudança do código, depois, sim, usam o seu direito adquirido.
Já pensaste o grave precedente que se abrirá, caso aceitem o seu casamento? Estou a pensar em meia dúzia deles, graves, e decerto tu poderás pensar nalguns, também.
Do restante é uma questão de opinião, tua, minha e de todos os outros, e como tal sujeita ao que pensamos e como fomos educados. Abraço, fica bem que a minha Académica lá ganhou hoje.

Publicado por: Almeida Garrett às fevereiro 4, 2006 06:04 PM

Muito apoiado, Tuby! É curioso como se é sempre preso por ter cão ou preso por o não ter, quando se quer implicar. Tenho lido por aí muitas opiniões onde se censura, o relativo "aparato" que este caso teve. Mas não é normal? A nossa comunicação social que adora um assunto-sensação agarrou-se logo a este. E a culpa é das raparigas? Aliás foi mesmo importante saber-se para o assunto poder ser discutido. Como dizes, o ter dado a cara foi muito corajoso.
Não entendo nada o comentário de Almeida Garrett. Falo a sério, ele refere-se a quê ? como parece haver uns subentendidos posssivelmente tu entendeste melhor. Qual é a «grave ilegalidade» ou «o grave precedente que se abrirá» caso este casamento fosse aceite? O Código Civil passar a estar de acordo com a Constituição?! Não será já altura de o rever? Que eu saiba ele é revisto de tempos a tempos. Mas possivelmente o Charquinho entendeu melhor do que eu, o que o amigo quis dizer.

Publicado por: Emiéle às fevereiro 4, 2006 07:02 PM

Sharkinho, para ser breve, por que o texto foi longo e esclarecedor e, como estamos em tempo de economias, faço minhas as tuas palavras, apenas com esta frase:«E a escolha acertada é sempre a que privilegia a felicidade como valor fundamental.» Um abraço.

Publicado por: soslayo às fevereiro 4, 2006 08:21 PM

O Código prevê o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Não. Então, primeiro revê-se o código e só depois é que se fazem os casamentos, não será assim?

Publicado por: Almeida Garrett às fevereiro 4, 2006 10:08 PM

Nesse aspecto estritamente formal tens toda a razão, Garrett. Mas não é fácil a qualquer minoria, pelo menos a face visível assim o indica, utilizar os mecanismos ao dispor para "forçar" qualquer tipo de alteração legislativa.
É um processo moroso e nunca obtém o impacto "político" desta acção das duas jovens em causa.
E nota que eu não faço juízos de valor, excepção feita à coragem delas (inegável) e à forma displicente e/ou brejeira como vi referir todo este episódio.
A Académica é um clube com o qual simpatizo desde sempre, até por Coimbra ser uma cidade muito especial e onde passei sempre momentos magníficos. Fico contente com o comportamento da Briosa e desejo-te um campeonato muito tranquilo.
E um resto de fim-de-semana compensador.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 4, 2006 11:02 PM

É mesmo isso Soslayo. Nem sequer está em causa o "certo" ou o "errado" da questão na sensibilidade de cada um de nós. A lei não pode fazer opinião e tem que reflectir a evolução da mentalidade das pessoas, dar-lhes espaço de manobra para decidirem o seu destino naquilo que não colida com os destinos dos outros.
E parece-me ser o caso.
Um abraço para ti também, rapaz.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 4, 2006 11:09 PM

O aspecto que o Garrett referiu, Emiéle, relativamente ao "desafio" à lei, à tentativa de imposição do que na prática constitui uma ilegalidade, parece-me pertinente. Sobretudo se fizer escola, pois aí teremos um embrião para o caos. Julgo que era esse o sentido que ele transmitiu, embora eu não tenha procuração para lhe explicar as palavras. :)
No resto, no que respeita ao proibicionismo que faz regra, só podemos estar de acordo.
Há opções de vida diferentes que são incontestáveis e é uma questão de bom senso enquadrá-las na legislação em vigor.
E as raparigas, disso não abdico, protagonizaram uma "carga da brigada ligeira" neste país de songamongas...
Um bom Domingo, rapariga!

Publicado por: sharkinho às fevereiro 4, 2006 11:19 PM

Ò Vague Maria, o trocadilho do missionário tinha mesmo só a ver com o "posicionamento estratégico" da rapaziada. :)
Eu só posso louvar todos aqueles que entregaram a vida a uma qualquer missão, sobretudo quando passa por ajudar (não confundas com evangelizar) os que precisam.
E no assunto em causa, abstive-me propositadamente de manifestações da minha opinião acerca do que está (mesmo) em causa.
Não me parece que tenha uma palavra a dizer sobre algo que não conheço, nem poderia, no que verdadeiramente interessa que é o amor entre pessoas do mesmo sexo. Mas se é amor, para mim é bom.
Depois, só depois, vêm as questões acessórias, que só aos "de fora" podem interessar.
E quem está fora...
Beijo, amiga. Fazes falta, comentadeira dez mil.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 4, 2006 11:29 PM

C’est un débat du « moyen nage », ailleurs les choses avançant plus vite et tant mieux.
A@+

Publicado por: Manu às fevereiro 5, 2006 08:07 AM

Concordo, Manu. Há progressos que não podemos e provavelmente não devemos tentar impedir.

Publicado por: sharkinho às fevereiro 5, 2006 04:52 PM

Econtrei ao Portugal: http://www.brendastardom.com/

A@+

Publicado por: Manu às fevereiro 6, 2006 07:20 PM

acho que devemos deix«char que duas pessoas do mesmo sexo se amem e se sintam á vontade na rua ja ta na hora de mudar a nossa maneira de penssar e aceitar a escolha de cada um.
era isto que eu gostava que acontesse-se pois to farta de ouvir bocas. so como so e ninguem tem o direito de me julgar.

Publicado por: lady às maio 20, 2007 03:21 AM

Da minha boca não ouves bocas com toda a certeza, Lady.
Ninguém tem o direito de te julgar ou mesmo de dar palpites.
E tu, como qualquer pessoa, tens o direito (e o dever) de te sentires feliz como te der na mona, sobretudo em matérias que só a ti dizem respeito.
O tempo acabará por impor a razão com a mesma naturalidade com que nasce um amor, qualquer amor, entre as pessoas.

Publicado por: shark às maio 20, 2007 11:13 AM

Parabens, somos lésbicas de sucesso, mulhers brasileira, algo pouco aceito, mas vamos ganhar esta parada, somos persistentes, e nos amamos muito nossas mulheres, jamais vamos desiste, somos felizes muito felizes, sendo mulher, é uma sencibilidade, romantismo inesplicavel.....por isso amo ser lésbica ou ser mulher

Publicado por: Ana paula às maio 27, 2008 01:46 AM

car eu fico felizz eu apoio eu sou e acho que ninguem trem nada ver com isso brigadaooo

Publicado por: francielly às outubro 31, 2008 07:55 PM

De nada amiga. E espero muito que consiga ser feliz e entendo que gostemos ambos da criatura mais perfeita do universo.
:)

Publicado por: shark às outubro 31, 2008 10:47 PM

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